Nuvens Brancas |
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Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
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Sexta-feira, Julho 31, 2009
JOSÉ SIMÃO Ueba! Ronalducho fez lipopótamo! O que ele tirou de banha dá pra fazer um reserva; dá até pra fazer outro time só de Ronalduchos! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Socuerro! Acordei com cara de ácaro! Tanta chuva! Uma amiga me disse que, quando sair o sol, vai botar a periquita no varal! E socuerro dois! O Ronalducho fez uma lipo. Uma lipopótamo! E ficou com o corpo da Adriane Galisteu?! O que ele tirou de banha dá pra fazer um reserva. Um outro Ronalducho, um reserva! O que ele tirou de banha dá pra fazer um time só de Ronalduchos. Dá pra abastecer umas dez Casas da Banha! Muito bem! Quem gosta de gordura é detergente. E uma amiga minha fez lipo no olho. Tava com Olho Gordo! Rarará! E uma outra entrou numa loja, o vestido não entrava de jeito nenhum, aí ela foi na clínica ao lado, fez uma lipo, voltou pra loja e entrou no vestido. Achou mais fácil ajustar o corpo que ajustar a roupa! Socuerro três! A volta do alemão! A volta do Schumacher! Pra desespero do Galvão Urubueno! E, depois de tantos anos, sabe a primeira coisa que o Schumacher falou pro Rubinho? "NADA AINDA?!" Rarará. Mas o Rubinho já declarou peremptoriamente: com ou sem Schumacher, não abro mão do segundo lugar! E diz que um amigo falou pro outro: "Você gosta de sexo a três?". "Claro!" "Então corre pra casa pra ver se dá tempo!" Rarará! E o Sarney, hein? O Moribundo de Fogo! Não consigo me livrar do Sarney! Pega o jornal, tá ele na capa, abre o UOL, tá ele na home! Só falta descobrir que o Sarney roubava a mesada do primo e o lanche do vizinho! E que fugiu com o circo. E nunca mais devolveu. Rarará! Sarney nega que tenha funcionária fantasma: "O FANTASMA SOU EEEEEEU!". E os funcionários fantasmas ficam rodeando a casa deles à noite: "Roseana, você tá aí? Rooooseaaaana, voooocê tá aaaaí?". Rarará. É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse o outro: "É mole, mas trisca pra ver o que acontece!". Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Morada Nova, Minas Gerais, tem dois inferninhos: "Rela Testa" e "Rela Bucho"! Parece Dias Gomes. Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula! O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Amola": objeto voador que aMassa. Rarará. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou! simao@uol.com.br Um gostoso fim de semana para você.
ELIANE CANTANHÊDE Bicada dos falcões BRASÍLIA - O deslumbramento com Barack Obama começa a murchar, provavelmente dentro e com certeza fora dos Estados Unidos. Enquanto o discurso de Obama e a ação de Hillary Clinton, chefe do Departamento de Estado, é de paz, não-ingerência e redução da militarização, não é isso que o mundo começa a ver. Ou esse discurso só valia para o Iraque e o Afeganistão? A Espanha engrossou ontem o coro da Venezuela, do Brasil e do Equador contra a ampliação da presença militar norte-americana na Colômbia, aqui nas nossas barbas. O pretexto é o combate ao narcotráfico, mas as Farc já não justificam mais nada. A Colômbia é o segundo alvo dos bilhões de dólares da ajuda militar de Washington, só atrás do conflagrado Oriente Médio. E, agora, chega a notícia, meio enviesada, de que as forças norte-americanas vão poder usar três bases militares colombianas, de Malambo, Palanquero e Apiay, dentro do "Plan Colômbia", de combate às Farc. Esse avanço na região ocorre justamente quando o Equador de Rafael Correa veta a renovação da única base formalmente militar dos EUA na América do Sul. O que, evidentemente, deixa todos, de diplomatas a oficiais brasileiros, com uma pulga atrás da orelha: os EUA saem do Equador e pulam de vez para a Colômbia? Combate ao narcotráfico ou plataforma militar? Com a Colômbia vendendo seu território ao belicismo dos EUA e a Venezuela comprando armas da Rússia e ostensivamente se aliando ao Irã de Ahmadinejad, o risco é óbvio: a lógica da militarização e a corrida armamentista estão se instalando na América do Sul. O Brasil acionou o sinal amarelo, e a preocupação sul-americana se alastra pela Europa, via Espanha. Foi o que o chanceler espanhol, Miguel Ángel Moratinos, deixou claro ontem em Brasília. O que todos se perguntam é quem está mandando, Obama ou os velhos falcões de sempre? elianec@uol.com.br Quinta-feira, Julho 30, 2009
30 de julho de 2009 N° 16047 - RETRATO DA CAPITAL Do último lambe-lambe ninguém vai esquecer O fotógrafo Varceli Freitas Filho atua da Praça XV, no Centro, e no Brique da RedençãoNestes tempos de imagens digitais vistas na tela do computador, já estamos quase esquecidos do prazer, além de visual, tátil, de ter uma foto de papel em nossa mão. Uma foto, antigamente, era um objeto e era tratada como tal.
Algumas, muito especiais, ganhavam dedicatórias, e eram presenteadas em demonstração eloquente de amor ou amizade. Se fotos em papel são cada vez mais raras, isso não significa que o papel da fotografia tem sido menos importante. Ao contrário. Cada vez mais as pessoas fazem um número maior de fotografias. Agora todos são fotógrafos, e todo mundo fotografa o tempo todo. Com telefones celulares e câmeras digitais singelas ou sofisticadas, o importante é registrar tudo. E tudo é registrado. E, mesmo que não seja impresso, é, em seguida, “anexado”, “postado”, “enviado”. Se a fotografia continua prestigiada, o papel do fotógrafo já não conta com a solenidade dos velhos tempos. Claro que, quando se exige qualidade e precisão, ainda vamos em busca de um profissional qualificado, alguém especializado, e capaz. O que não existe mais é aquele mistério do alquimista, a magia de transformar, na penumbra e às escondidas, o latente em real. Com a invenção da fotografia, os fotógrafos estrearam sua condição de protagonistas. Sua presença e movimentação sempre foram tão toleradas quanto inconvenientes, mas, afinal são criaturas a serviço da memória, e têm de fazer seu trabalho aqui e agora. Quem mais pode subir ao altar da igreja, num casamento, não sendo noivo, padrinho ou padre? A imediata identificação do equipamento justifica sua participação. O fotógrafo está ali como símbolo. Varceli Freitas Filho é um símbolo. Ele é o último lambe-lambe de Porto Alegre. Vereadores vão definir a aposentadoria Merece a aposentadoria especial concedida a cidadãos importantes para à cidade, pleiteada pelo prefeito em exercício aos vereadores nesta semana. Ele tem 55 anos e aos 12 já esfregava a mão molhada nas fotos imersas num balde d’água sob o tripé da máquina fotográfica operada pelo pai, morto em 1999, e que, por 58 anos, trabalhou, fazendo retratos diante do Chalé da Praça XV. Varceli Filho herdou de Varceli pai mais do que uma câmera, um ofício. Feliz com a possibilidade de a iniciativa resultar em um apoio concreto, ele se diz reconhecido e estimulado a continuar representando seu papel e comparecendo ao Brique da Redenção aos domingos, ou, eventualmente, ao Chalé, Feira do Livro, ou a qualquer evento que tenha a ver com a vida da cidade. O benefício equivaleria a uma espécie de tombamento, e nada mais justo do que a preservação da imagem do que ele representa. Ao vê-lo em pé, ao lado da câmera, com seu boné e sua gravatinha borboleta, somos remetidos a outros tempos, evocamos outra época e uma cidade muito diferente da atual, cujo único testemunho são alguns prédios e poucas pessoas, como Varceli, dispostas a manter as coisas como elas eram. Pode ser um simples papel, mas suficientemente importante. Ao se aposentar, o último lambe-lambe da Capital relembra os principais momentos de seus 39 anos de trabalho e explica suas técnicas ricardo.chaves@zerohora.com.br RICARDO CHAVES EDITOR DE FOTOGRAFIA DE ZHMultimídiaPersonalidade de Porto Alegre, Varceli deve receber aposentadoria especial por serviços prestados ao município desde os anos 1970Varceli aprendeu o ofício ...... de misturar diferentes produtos químicos, ...... garantir a imagem e secar o papel com o pai, ...... que trabalhou durante 58 anos na mesma Praça XV Quarta-feira, Julho 29, 2009
Cuidado com os cliques nas redes sociais DA REPORTAGEM LOCAL O cuidado com o que se clica nas redes sociais deve ser redobrado. A ascensão desses sites tornou mais fácil lançar ataques maliciosos, segundo relatório divulgado pela Cisco. Nesses ambientes, a probabilidade de as pessoas clicarem em links acreditando que eles vieram de fontes confiáveis é maior. Outro problema que se multiplica é o spam, meio usado pelos cibercriminosos para alcançar milhões de computadores. De acordo com a Cisco, são enviados todos os dias 180 bilhões de mensagens desse tipo, cerca de 90% dos e-mails de todo o mundo. É importante saber que os piratas da rede estão a par das últimas notícias. A empresa aponta que, em abril, depois da epidemia da gripe suína, foram espalhados pela rede spams que prometiam remédios preventivos com links maliciosos. (AD) Smartphones começam a ser alvo de cibercriminosos A empresa de segurança Sophos divulgou o boletim de segurança relativo a julho de 2009 e dedicou uma página às ameaças aos smartphones. Segundo o estudo, o BlackBerry ainda não sofreu ataques significativos diretos ao celular, mas um problema já chegou a afetar os computadores aos quais eles se conectavam. Ainda em julho deste ano, uma atualização da operadora Etisalat, dos Emirados Árabes, acabou sendo detectada como um programa espião, segundo os sites especializados. A fabricante Research In Motion já divulgou uma correção ao problema. No Palm Pre ainda não foi registrada nenhuma ameaça, mas existe o alerta de que o aumento nas vendas pode torná-lo atrativo aos cibercriminosos. Com o iPhone, a história não é a mesma. Foram relatados ataques, mas a Sophos ressalta que não foi nada que possa ser considerado significativo. A versão 3GS pode ser a melhor alternativa, já que trouxe melhorias e corrigiu falhas do modelo anterior. Ainda assim, os usuários devem ficar atentos porque o estudo encontrou detalhes na navegação que podem causar cliques acidentais. (AD)
29 de julho de 2009 N° 16046 - MARTHA MEDEIROS A turma do dããã Tenho observado esse pessoal faz um tempo. Eles me provocam reações diversas: sinto repulsa, sinto medo, sinto desânimo, mas acho que a sensação que prevalece é mesmo a compaixão. Porque eles são tão recalcados, que não conseguem se manifestar no mundo de outra forma. A única coisa que possuem para exibir é isso: seu espírito de porco. Não é um defeito novo, mas ganhou um espaço de divulgação inimaginável na internet. Se antes eles exerciam seu espírito de porco em pequenos grupos, em comentários ferinos para meia dúzia de ouvidos, agora eles abusam da sua tolice em rede internacional para um público tão amplo, que os deixa embriagados com o alcance atingido. Eles são os neorretardados, os pusilâmines de grande escala. Se você é uma pessoa de discernimento, que seleciona a informação que obtém, talvez ainda não tenha se deparado com eles. Sorte sua. Mas se tiver curiosidade de saber como a coisa funciona, entre em qualquer site de notícias de um provedor, como a página do Terra, por exemplo, e dê uma olhada nos comentários deixados. É de perder a esperança num mundo mais elegante. Pra exemplificar, nas últimas semanas o site colocou no ar duas notícias de segunda linha, que não chegaram a repercutir mais do que poucas horas. Uma delas era sobre uma garota de 18 anos que se jogou da Torre Eiffel, em Paris. Chegaram a dizer que seria uma brasileira, mas era uma africana. Em poucos minutos, essa notícia gerou 1.581 comentários de gente lesada das ideias, cujo único prazer é fazer piadinha sobre a dor alheia, sem conseguir articular um raciocínio lógico. Pessoas que têm na agressividade sua única forma de expressão. Foram 1.581 comentários que deixam clara a quantidade de infelizes espalhados por todos os cantos. Porque o espírito de porco nada mais é do que uma exposição despudorada de infelicidade. Como o cara não se suporta, detona com tudo o que vê pela frente. No mesmo dia desse suicídio, foi noticiada também a estreia da primeira gondoleira de Veneza. Depois de séculos de hegemonia masculina, agora há uma mulher conduzindo turistas nas gôndolas da mais deslumbrante cidade italiana. Fato que não mobiliza o mundo como a morte de Michael Jackson, mas é uma informação curiosa e simpática, que poderia gerar saudações a mais este espaço conquistado pelas mulheres, ou ser simplesmente ignorada, o que também é legítimo. Mas não. Os espíritos de porco, sem ter nada mais produtivo pra fazer, deixaram registradas suas manifestações de preconceito, numa exibição constrangedora de estreiteza mental. Porque o espírito de porco não é apenas uma pessoa com o humor mal-lapidado. Ele é um ignorante com empáfia. Se fossem poucos, nada a temer. Mas a tacanhice é uma epidemia bem mais assustadora do que qualquer gripe. Porque não é temporária e tampouco tem cura. É o retrato do isolamento e da deseducação de uma geração recém saída das fraldas que, ao ter um teclado à disposição e o anonimato garantido, expõe toda sua miséria intelectual e afetiva. É a turma do “dããã” ganhando voz e propagando a mediocridade universal. Aproveitem o dia. Uma excelente quarta-feira para você.
29 de julho de 2009 N° 16046 - JOSÉ PEDRO GOULART Twitter or not twitter? A palavra é o pensamento subornado. Digo isso apesar de ter certeza que essa frase sequer explique verdadeiramente meu pensamento – afinal, é uma frase, contém palavras. É que há certos sentimentos impossíveis de se traduzir. A palavra é uma tentativa vã de chegar no cume emotivo dessas sensações. E é suborno porque gratifica com a ideia de que tal tradução é possível. Falo aqui de pensamentos abstratos. Há outras linguagens. A música, a pintura, a expressão corporal. São decodificações do nosso ser profundo – esse a que estou me referindo nesse texto. Essas expressões auditivas/visuais talvez sejam mais fiéis a um sentimento original, e por conta disso são mais limitadas e passíveis de interpretações distintas. Entretanto a palavra vem ganhando o jogo de goleada. Raciocinamos e interpretamos com palavras. Usamos o vocabulário para tudo, e a tudo queremos conceituar. O jogo jogado na vida é um jogo de palavras. A invenção do ser humano vem junto com a invenção da palavra; e junto com ela uma permanente necessidade de reinvenção. Harold Bloom, por exemplo, garante que foi Shakespeare (com palavras) quem inventou o homem tal qual ele é. Antes dele, diz Bloom, os personagens literários eram praticamente imutáveis. “Em Shakespeare, os personagens não se revelam, mas se desenvolvem, e o fazem porque têm a capacidade de se autocriarem.” É de Shakespeare o conceito absoluto da existência: “Ser ou não ser, eis a questão.” Frases assim funcionam como boias jogadas num mar de inconsciência. Porém, os tempos atuais necessitam uma revisão. Existir somente não basta, é preciso se exprimir. E mais, alguém precisa ouvir: é a garantia de que existimos. A resposta veio com a internet, sobretudo num fluxo de expressão antes inimaginável. Alguns se incomodam com isso, especialmente os que detinham exclusividade da expressão. Ou seja, os que existiam não estão gostando de ter que dividir a existência. Reclamam da vulgarização, da proliferação dos não habilitados. Enquanto isso e sem dar a mínima os excluídos se aproveitam da recente inclusão e se esfalfam em opiniões, mensagens e conclusões. A palavra virou barata – não como adjetivo, mas como substantivo mesmo – e se multiplica. Mas insisto, somente se exprimir não basta. É preciso eco. É preciso que alguém esteja ouvindo, se não, não tem graça. Exemplo da hora? Twitter: 140 caracteres, uma fotinho, quem você segue, quem segue você. A propósito, @ZPgoulart. Well meus leitores eu também estou aí no Twitter. Podem seguir-me sim todos os dias e todas as noites. @cassiano_leonel ou @entrelacos - Aliás tem até link ali na esquerda para vocês follow-me Terça-feira, Julho 28, 2009
JOSÉ SIMÃO Ueba! Ratinho invade Honduras! Zelaya vai entrar em Honduras disfarçado de Ratinho gritando: "Aqui tem café no bule!" BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Ronalducho fratura a mão esquerda. Eu falei pra ele usar a direita. Rarará! Acho que ele tava tentando variar. Fazendo de conta que era outra pessoa! E essa: Rio inaugura o Disque Gripe! Você liga e pega uma gripe. Rarará! Disque um para gripe suína, disque dois para transmitir a gripe, disque três para falar com a Miriam Leitão e disque quatro para xingar um argentino. Aliás, diz que o Brasil perde pra Argentina até em gripe suína! Lá tem muito mais! E um leitor disse que faz uma semana que tá sem vontade de tomar banho. É sintoma de gripe suína? E sabe como se chama o Disque Gripe? Central de Atendimento da Gripe A! CAGA! É verdade, no Rio já estão chamando de CAGA! E o Sarney, hein? O Moribundo de Fogo! Agora apareceu um monte de laranja. Laranja do Sarney não deve ser laranja, é acerola. Acerola: vale por dez laranjas! E não tinha aquele adesivo: sou fiscal do Sarney? Agora é: sou laranja do Sarney! Eu quero um adesivo: sou laranja do Sarney! E o site Comentando revela como o Zelaya vai entrar em Honduras! Disfarçado de Ratinho! Ele é a cara do Ratinho! Vai entrar em Honduras gritando: "Aqui tem café no bule!". E vocês viram na "Vejinha", "violência no trânsito"? E a declaração do motoboy: "Se estiver certo, persigo o motorista, vou até o fim e já quebrei uns três retrovisores". Por isso que a Associação dos Motoqueiros se chama ABRAM! ABRAM CAMINHO! E por isso que motoboy é quem mais vai pro Salão do Automóvel. Pra ver os novos modelos de retrovisores que eles vão quebrar: "Olha, mano, aquele prateado, irado". E um motoboy de empresa delivery escreveu atrás da moto: Deusmelivery! Olha um motoboy! DEUSMELIVERY! E tem uma empresa de motoboys chamada Mensageiros do Caos! É mole? É mole, mas sobe. E como disse aquele outro: é mole, mas encosta pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Ubatuba, no litoral paulista, tem uma pousada chamada Pousada da Charuta! Onestidade e Igiene! Rarará. Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Gripe suína": gripe que ataca os aliados do companheiro Suiney no Suinado! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. simao@uol.com.br
28 de julho de 2009 N° 16045 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA A menina do bonde Era um domingo luminoso do inverno de 1958. Eu viajava num bonde Floresta rumo ao Abrigo da Praça XV, onde me transplantaria para o bom e velho Duque, rumo ao almoço em casa. Acabava de assistir a um filme matinal no Cine Colombo, esplendidamente estrelado por Jacqueline François, e era com sua doce imagem vestida numa saia translúcida que eu sonhava quando um flagrante da vida real me despertou. Bem na minha frente, no banco longitudinal oposto, o que um juiz severo chamaria de crime estava para ser perpetrado. Com infinita dissimulação, uma menina de seus 12 anos, magra e pobremente vestida, tentava roubar a carteira do belo tipo faceiro que sentava ao seu lado. O sujeito era distraído pela própria natureza. Pagara a passagem ao cobrador abrindo de par em par a nutrida carteira para catar os trocados e depois a deixara descansar, convidativa, no bolso direito do sobretudo elegante. Era praticamente uma oferenda à menina que, todo mundo via, passava frio e fome. Ela trajava um vestido curto e gasto, uma blusinha exígua de algodão e toda a imagem da miséria da humanidade. Com uma mirada rápida, localizou a carteira, estendeu os dedos ágeis e finos e ia pescá-la quando me viu. Percebeu no exato instante que eu seguia seus gestos. Não fugiu o olhar de mim. Ela via um garoto de 13 anos, usando óculos, uma japona e uma dose apropriada de receio. Ela compreendeu, embora um pouco incerta, minha timidez. Ela mandou me dizer, em pensamento, que por favor a desculpasse, mas não tinha um centavo, não pusera nada na boca aquele dia e talvez sua mãe estivesse num hospital. Foi pelo menos isso que eu entendi. De modo que me fixei nos cartazes do bonde, numa garota linda que não me dava bola, na paisagem transeunte da Avenida Cristóvão. Não me fixei mais na menina de 12 anos, em seus dedos ágeis, em sua dissimulação. No Abrigo da Praça XV desci do bonde Floresta, tomei o Duque, em casa me esperava um almoço com salada de maionese, massa e galinha assada. Jamais soube se a menina pobre de 12 anos obteve ou não o que desejava. Mas como não sou um juiz severo, bem dentro de mim mesmo torço até hoje para que tenha conseguido vencer seu desamparo. Terça-feira, não estivesses de férias estaria de folga - Uma ótima terça-feira para você - Aproveite o dia. Segunda-feira, Julho 27, 2009
Jairo Bouer - jbouer@uol.com.br A nova cara de Londres Mudou muita coisa no comportamento das pessoas que moram e que visitam Londres desde a última vez em que estive na cidade, há cerca de dois anos. Para começar, o cigarro passou a ser proibido em bares e em restaurantes, depois que passou a vigorar uma lei semelhante à que começa a valer para todo o Estado de São Paulo a partir de 7 de agosto. Quem não fuma não precisa mais sair dos locais fechados com os olhos ardendo e cheiro de fumaça na roupa e nos cabelos. E quem fuma precisa apenas abrir a porta e dar suas tragadas ao ar livre. Não é um preço tão caro a pagar quando se pensa na saúde e no bem-estar da maioria da população, não é mesmo? Alguns estudos têm mostrado, inclusive, que diminuem as ocorrências cardíacas e vasculares (dores no peito, infartos, derrames) depois que passa a vigorar esse tipo de lei nas cidades mundo afora. Mas, se as pessoas não fumam mais nos bares e restaurantes, elas continuam a beber muito, principalmente os mais jovens. Só que quem é pego guiando embriagado tem muitos problemas com as autoridades. Outra vantagem de Londres, do ponto de vista dos acidentes de carro, é que a imensa maioria dos jovens vai para as noitadas de metrô ou de ônibus noturno. Com uma malha de transporte público invejável, pouca gente arrisca sair de casa de carro. Com isso, beber e guiar também passa a ser uma associação menos comum. Para acabar, queria contar mais algumas mudanças no perfil da cidade. Boa parte das lojas de fast food desapareceu, dando espaço a lojas de alimentos mais naturais, o que pode refletir uma maior preocupação com a saúde. Mas as pesquisas apontam um aumento do número de casos de obesidade e de sobrepeso no país. Outra coisa que está desaparecendo são as imensas lojas de CDs e DVDs que ocupavam espaços nobres na capital inglesa! Em compensação, todo mundo anda com iPods e similares para cima e para baixo. Mais um fenômeno curioso é o desaparecimento das grandes redes de acesso à internet. Os jovens carregam smartphones e notebooks e usam as infinitas redes de wi-fi que há em bibliotecas, museus, bares e restaurantes. Por isso, as lojas de telefone brotam a cada esquina, em um fenômeno parecido com o que se vê pelo Brasil.
27 de julho de 2009 N° 16044 - KLEDIR RAMIL Autorretrato Autorretrato pode ser um desenho, um texto, uma canção. É alguém falando de si mesmo. Mas quem garante que ele não está inventando história? No meio da realidade, sempre vem um monte de fantasia. Como dizia John Lennon, “metade do que eu digo não faz sentido”. Agora, qual a metade que vale, você vai ter que descobrir sozinho. A oficina de criação da maioria dos artistas fica numa zona nebulosa entre a ficção e a realidade. É ali que nascem roteiros, romances, coreografias. O processo de criação é uma das mais belas manifestações do ser humano. Dizem que o homem foi feito à imagem e semelhança de Deus pela sua capacidade de criar. Já fiz muitas coisas na vida, entre elas, minhas obras- primas Julia e João. Autorretrato é o nome do novo CD/DVD que Kleiton e eu estamos lançando. A canção título é uma conversa entre dois amigos, onde cada um abre o coração e conta aquelas coisas que a gente só revela pra um amigo de verdade, num fim de noite, numa mesa de bar. “Coisa boa é um amigo / Pra poder conversar / E trocar figurinhas”. Esse é o conceito que permeia todo o trabalho: o valor da amizade e o prazer de compartilhar com os outros o que se tem de melhor. “Tu me ensina a viver / Que eu te ensino a sonhar”. Um sentimento clássico que sempre se renova e hoje encontra sintonia com as novas relações virtuais, onde as pessoas se expõem cada vez mais na internet através de fotos, vídeos e textos. É claro que muitos, disfarçados por uma foto retocada, inventam um falso perfil para conseguir dizer certas coisas. Já é um começo. Aos poucos irão tomando coragem para revelar seus segredos mais íntimos de peito aberto, escancarado. No meio da fantasia, sempre vem um monte de realidade. Fernando Pessoa escreveu que “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Tem gente que faz poesia. Tem gente que pinta um quadro. Tem gente que faz cinema. Agora, o que é delírio e o que é documentário? Vai saber... Kleiton e eu fazemos canções. É o que a gente sabe fazer. É o nosso jeito de abrir o coração e contar histórias. E você? Como é que você faz? Você tem figurinhas pra trocar? Uma ótima segunda-feira, uma excelente semana, fundamentalmente, aos avôs e avós já que ontem foi comemorado o seu dia. Sábado, Julho 25, 2009
26 de julho de 2009 N° 16043 - MARTHA MEDEIROS Eu não preciso de almofada Quando participo de bate-papos públicos, geralmente em escolas, costumo ser perguntada sobre de onde vêm os assuntos para escrever uma crônica, e aqui está um bom exemplo do quão inusitado pode ser o caminho da inspiração: conversando outro dia sobre decoração de ambientes, um defensor da linha franciscana de morar me disse a frase que acabei de utilizar no título acima: “Eu não preciso de almofada”.
Ao escutá-lo, olhei para os lados, disfarçadamente. Estávamos cercados por mais ou menos 25 almofadas de todas as cores, tamanhos e origens. Na minha sala e escritório tenho quatro sofás (e mais dois na sacada) e todos eles são cobertos de almofadas indianas, nordestinas, uruguaias: minha casa é o albergue internacional das almofadas. É só colocar o pé para fora de Porto Alegre e está feito: na bagagem, dobradinha, vem mais uma capa de almofada que trago do Rio, de Buenos Aires, de Gramado, de Fortaleza. É o que dispara meu lado consumista. Mas, claro, eu também não preciso de almofada. Tampouco preciso de flores, mesmo que na minha casa nunca deixarão de ser encontrados ao menos três vasos com astromelias de cores variadas: amarelas, laranjas, fúcsias. E, no mínimo, duas orquídeas. Também gerânios que parecem pequenas margaridas. Alguns ficus, bromélias. E, quando o saldo da conta corrente permite, lírios brancos. Mas eu preciso de flores? Era só o que me faltava. Também não preciso de tapetes. O fato de minha casa parecer uma loja turca é só para evitar desconforto aos que andam descalços. Não preciso de cortinas também, mas um dia encasquetei que a casa pareceria mais aquecida e acolhedora com elas, e aí gastei dinheiro bobamente com uns tecidos de linho cru e palha da índia. Frescura. Também não preciso de música. Nem tenho lugar para guardar tanto CD. Coisa mais antiga, CD. Também não preciso de portarretrato, sei de memória o rosto das minhas filhas, mesmo o de quando elas eram crianças. Não preciso de castiçais, já que tenho energia elétrica. Não preciso de estantes abarrotadas de livros, coisa mais inútil, e eles ainda acumulam pó. Não preciso de quadro: ninguém presta atenção mesmo e furar paredes é um troço que às vezes dá errado. Não preciso de esculturas. Não preciso de abajur. Não preciso de espelhos. Não preciso de guardanapos de pano. Não preciso de toalhas estampadas. Não preciso de caixinhas compradas em feiras e briques. Não preciso de lembranças de viagem. Não preciso de lembranças. Não preciso de viagens. E poderia prosseguir dizendo que não preciso de cor, não preciso de beleza, não preciso de sonho, não preciso de arte, não preciso de criatividade, não preciso de diversão, não preciso de prazer, não preciso de senso estético, não preciso de humor e também não preciso traduzir minha alma e minha história de vida em tudo o que me cerca. Mas isso equivaleria a dizer que eu não preciso de mim. É isso, garotada. Até mesmo uma simples almofada pode gerar uma reflexão. Ainda que com frio um domingo super colorido para você.
Lya Luft Crime e Castigo "Estamos levando na brincadeira a questão do erro e do castigo, ou do crime e da punição. Sem limites em casa e sem punição de crimes fora dela, nada vai melhorar" Tomo emprestado o título do romance do russo Dostoiévski, para comentar a multiplicação dos crimes nesta cultura torta, desde os pequenos "crimes" cotidianos – falta de respeito entre pais e filhos, maus-tratos a empregados, comportamento impensável de políticos e líderes, descuido com nossa saúde, segurança, educação – até os verdadeiros crimes: roubos, assaltos, assassinatos, tão incrivelmente banalizados nesta sociedade enferma. A crise de autoridade começa em casa, quando temos medo de dar ordens e limites ou mesmo castigos aos filhos, iludidos por uma série de psicologismos falsos que pululam como receitas de revista ou programa matinal de televisão e que também invadiram parte das escolas. Crianças e adolescentes saudáveis são tratados a mamadeira e cachorro-quente por pais desorientados e receosos de exercer qualquer comando. Jovens infratores são tratados como imbecis, embora espertos, e como inocentes, mesmo que perversos estupradores, frios assassinos, traficantes e ladrões comuns. São encaminhados para os chamados centros de ressocialização, onde nada aprendem de bom, mas muito de ruim, e logo voltam às ruas para continuar seus crimes. Ilustração Atômica Studio Estamos levando na brincadeira a questão do erro e do castigo, ou do crime e da punição. A banalização da má-educação em casa e na escola, e do crime fora delas, é espantosa e tem consequências dramáticas que hoje não conseguimos mais avaliar. Sem limites em casa e sem punição de crimes fora dela, nada vai melhorar. Antes de mais nada, é dever mudar as leis – e não é possível que não se possa mudar uma lei, duas leis, muitas leis. Hoje, logo, agora!
O ensino nas últimas décadas foi piorando, em parte pelo desinteresse dos governos e pelo péssimo incentivo aos professores, que ganham menos do que uma empregada doméstica, em parte como resultado de "diretrizes de ensino" que tornaram tudo confuso, experimental, com alunos servindo de cobaias, professores lotados de teorias (que também não funcionam). Além disso, aqui e ali grupos de ditos mestres passaram a se interessar mais por politicagem e ideologia do que pelo bem dos alunos e da própria classe. Não admira que em alguns lugares o respeito tenha sumido, os alunos considerem com desdém ou indignação a figura do antigo mestre e ainda por cima vivam, em muitas famílias, a dor da falta de pais: em lugar deles, como disse um jovem psicólogo, eles têm em casa um gatão e uma gatinha. Dispensam-se comentários. Autoridade, onde existe, é considerada atrasada, antiquada e chata. Se nas famílias e escolas isso é um problema, na sociedade, com nossas leis falhas, sem rigor nem coerência, isso se torna uma tragédia. Não me falem em policiais corruptos, pois a maioria imensa deles é honrada, ganha vergonhosamente pouco, arrisca e perde a vida, e pouco ligamos para isso. Eu penso em leis ruins e em prisões lotadas de gente em condições animalescas. Nesta nossa cultura do absurdo, crimes pequenos levam seus autores a passar anos num desses lixões de gente chamados cadeias (muitas vezes sem sequer ter havido ainda julgamento e condenação), enquanto bandidos perigosos entram por uma porta de cadeia e saem pela outra, para voltar a cometer seus crimes, ou gozam na cadeia de um conforto que nem avaliamos. Precisamos de punições justas, autoridade vigilante, uma reforma geral das leis para impedir perversidade ou leniência, jovens criminosos julgados como criminosos, não como crianças malcriadas. Ensino, educação e justiça tornaram-se tão ruins, tudo isso agravado pelo delírio das drogas fomentado por traficantes ou por irresponsáveis que as usam como diversão ou alívio momentâneo, que passamos a aceitar tudo como normal: "É assim mesmo". Muito crime, pouco castigo, castigo excessivo ou brando demais, leis antiquadas ou insuficientes, e chegamos aonde chegamos: os cidadãos reféns dentro de casa ou ratos assustados nas ruas, a bandidagem no controle; pais com medo dos filhos, professores insultados pela meninada sem educação. Seria de rir, se não fosse de chorar. Lya Luft é escritora Sexta-feira, Julho 24, 2009
JOSÉ SIMÃO Ueba! Gaúcho espirra ATCHÊ! Sabe qual a única solução para a crise no Senado? Privatizar a família Sarney! Rarará! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Portugal quer banir os carecas. Manchete do "Correio da Manhã": "Cheques carecas batem recorde!". Cheque sem fundo em Portugal se chama cheque careca! Me passaram um careca! E sabe como se chama e-mail em Portugal? Carta voadora. Rarará! E a gripe suína? Sabe como gaúcho espirra? ATCHÊ! Espirro de macho! Essa é do chargista Jorge Braga! E o Sarney, hein? O Moribundo de Fogo! Sabe qual a única solução para a crise no Senado? Privatizar a família Sarney! Rarará! E o Lulalelé pediu pros procuradores pensarem nas biografias dos denunciados. Não seria mais fácil pedir pros denunciados pensarem na própria biografia?! E eu tava vendo o vídeo da bispa Sônia com a mulher do Kaká! Eu achei o botox da bispa Sônia muito caído! Deve ser de segunda mão! Reciclado! Eu acho que ela tá usando botox que foi da Ana Maria Braga! Rarará! E diz que o Kaká deu US$ 2 milhões pra Igreja Renascer. Olha, por US$ 2 milhões eu trazia Jesus de volta pra Terra e ainda elegia o Kaká como papa. Rarará! E a mulher do Kaká vai abrir uma igreja em Madri. E vai gritar como? DEUS ES FIDEL? Rarará. Sucesso em Cuba! E um leitor me mandou uma foto de Quebec, no Canadá: DANGER! WOMEN SHOPPING! Perigo! Mulheres comprando! Rarará. Perigo pro cartão. Perigo pro PIB! É verdade. Diz que o ponto G da mulher é no shopping. E a namorada de um amigo meu diz que só atinge o orgasmo no provador da Daslu! Ela só atinge o orgasmo com o Valentino e com o Gucci! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que aqui em Sampa, bem no centrão, tem um bar chamado Bar do Jumento! E ainda desenharam o jumento do Shrek. Mas eu achei parecido com o Dunga! Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. A pedido de milhares de leitores, "sarna": aquele monte de confusão que o Sarney arrumou pra se coçar! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou! simao@uol.com.br Uma ótima sexta-feira e uma excelente fim de semana Quinta-feira, Julho 23, 2009
CLÓVIS ROSSI De alfinetes e ameaças SÃO PAULO - Um minuto depois de jurar que jamais colocaria "um alfinete para atrapalhar uma investigação" [do Ministério Público], o presidente Luiz Inácio Lula da Silva jogou um caminhão inteiro de mísseis, não de alfinetes, no caminho dos procuradores. Disse o presidente, na posse do procurador-geral da República: "Um dia vai aparecer alguém que vai achar que vocês são demais e vai propor mudanças no Congresso Nacional. Sabemos que a mudança nunca será por mais liberdade e sim por mais castramento". Lula sabe perfeitamente que o Congresso Nacional está discutindo limites à atuação dos procuradores, ou seja, que já apareceu alguém que quer "castrar" esse pessoal que, descontados alguns abusos, tem sido de extraordinária valia para a República. A frase de Lula roça até na ameaça, ainda mais que ela está claramente vinculada à descabelada tese segundo a qual nem todos são iguais perante a lei, posto que um político como José Sarney não pode ser tratado como "pessoa comum". Ante os procuradores, Lula insistiu nessa rematada tolice, ao dizer que o investigador "tem que pensar não apenas na biografia de quem está investigando, mas na de quem também está sendo investigado" (a reprodução é literal de uma frase algo pedregosa). Não, presidente, quem tem que pensar na biografia é o próprio biografado, que não pode cometer crimes, trambiques ou imoralidades. É correto, presidente, o investigador inocentar um assassino só porque, nos 50 anos anteriores, sua biografia era exemplar? A insistência nesse despautério fez um ouvinte da CBN enviar mail à emissora ontem suspeitando que Lula está, na verdade, impetrando um habeas corpus preventivo para a sua própria biografia quando deixar o Palácio do Planalto. Homens públicos pagam o preço pelo que fazem e também pelo que dizem. crossi@uol.com.br
23 de julho de 2009 N° 16039 - LETICIA WIERZCHOWSKI Um incêndio no meu prédio Todo mundo tem medo de alguma coisa. Certas pessoas não conseguem entrar num avião. Outras tem medo de escuro. Tem gente por aí com medo de baratas, de elevadores, de altura, de cachorro. Tem gente que tem medo até de gente. Se eu tivesse que apontar uma fobia, seria o fogo. Ainda menina, acompanhei o famoso incêndio das Lojas Renner. Eu assistia a um desenho pré-mesozoico, o Faísca e Fumaça, quando os boletins sobre o drama na Renner interromperam a programação televisiva. Esse episódio deu origem ao meu medo. O desenho Faísca e Fumaça soa por demais evocativo para o caso? Bem, não se deve confiar completamente nas recordações de uma escritora, é o que diz o meu marido. Voltemos aos medos. Ou aos incêndios. Pois quero contar que, pesadelo dos pesadelos!, na semana passada houve um incêndio no meu prédio. Um ar-condicionado entrou em curto-circuito no 12º andar, tomou o quarto de casal, e logo as labaredas já saíam pelas janelas. Eram dez horas da noite e tivemos o pacote completo: bombeiros, elevadores parados, moradores assustados descendo diligentemente pelas escadas de emergência do prédio. Nunca saí de casa tão rápido na minha vida. Após o aviso do porteiro, ridiculamente ainda dentro do meu velho pijama e usando minhas pantufas mais velhas ainda, desabalei-me pelas escadas de emergência com meus dois meninos a tiracolo. Se algum vizinho assustou-se com minha toalete entre tantos outros sustos mais prementes, teve a finésse de disfarçar (confesso que, nessa noite, meu dileto esposo estava em São Paulo, o que baixou sensivelmente meu padrão de elegância noturna). Mas nem tudo foi um fiasco… Bombeiros corriam lá em cima, fazendo seu brilhante trabalho, e todos nós no hall nos portamos com a devida calma e equilíbrio. Até os bebês pareciam serenos, surrupiados dos seus berços no meio da noite fria. Eu diria que o clima era amistoso e quase alegre. Afinal, afora os óbvios prejuízos materiais, nenhum morador ficou ferido. E olhem que nesse nosso prédio andamos todos ocupados, quase nem nos vemos, silenciosos pelos corredores, parcimoniosos nos elevadores, compenetrados nas reuniões de condomínio. Mas, nessa noite, nos comportamos todos com leveza de alma. No meio do susto, a simpatia e a solidariedade imperaram. Como diz o ditado, é na adversidade que a gente se agiganta. Uma ótima quinta-feira, especialmente para você. Quarta-feira, Julho 22, 2009
22 de julho de 2009 N° 16038 - MARTHA MEDEIROS Castidade fashion week Há 15 anos, publiquei minha primeira crônica em Zero Hora. Nem imaginava a possibilidade de ser uma colunista fixa. O convite foi para escrever uma vez e fim, mas não foi o fim, e sim o começo de uma carreira que se mantém até hoje. Lembro bem do texto. Foi inspirado numa reportagem de revista em que algumas atrizes diziam que pretendiam se casar virgens. Manchete da capa: “A virgindade na moda de novo”. Aquela matéria me pareceu um desserviço às mulheres: como assim, a virgindade na moda de novo? Castidade fashion week? E os rapazes iriam adotar essa moda também? Mesmo sendo uma alienígena para os leitores, sem jamais ter escrito uma única linha para jornal, estreei atirando: condenei a papagaiada. Disse que se uma mulher quisesse se manter virgem até o casamento, era uma escolha pessoal, íntima e legítima, mas a imprensa alardear o fato como tendência de comportamento era menosprezar as conquistas de toda uma geração que lutou muito pelo nosso direito à independência e ao prazer. Como ficar quieta ao ver o sexo ameaçado de voltar a ser um dote nupcial? Pois passados esses 15 anos, retomo o assunto, agora inspirada na pastora Carol, que vem a ser Caroline Celico, esposa do jogador Kaká, que anunciou que irá abrir uma igreja Renascer em Cristo em Madri, pelo visto atendendo a um desejo do Senhor, segundo recente depoimento. “Como pode no meio da crise alguém ter dinheiro? O dinheiro do mundo tem que estar em algum lugar. E Deus colocou esse dinheiro na mão de quem? Do Real Madrid, para contratar o Kaká. Foi uma grande bênção”. Pois essa inocência em pessoa também vem pregando a valorização da virgindade, fazendo inclusive revelações sobre os detalhes do dia em que declarou a Kaká que pretendia se casar virgem. Segundo ela, Kaká a ouviu e, depois de um prolongado silêncio, disse que esse era o sinal divino que esperava para ter certeza de que ela era a mulher da sua vida. É a história particular de um casal e ninguém tem nada a ver com isso, mas assistir a essa linda moça quase em transe, ao lado da bispa e chave-de-cadeia Sonia Hernandes, perpetuando preconceitos já vencidos (o vídeo está circulando pela internet para quem quiser conferir), me faz bater nas mesmas teclas de outrora: devagar, pastora Carol. Você é esposa de um ídolo de massa, incluindo nessa massa muitas mulheres e homens mal informados. Assim como a gandaia em que vivem alguns jogadores não deve servir de exemplo para ninguém, a carolice (desculpe o trocadilho) também não. O período do namoro serve justamente para se conhecer melhor a pessoa com quem, a priori, desejamos passar o resto dos nossos dias. E a compatibilidade sexual é um dos fatores decisivos para o sucesso de uma união. Deixar para testá-la depois de consumado o casamento pode ser romântico, mas é um risco. Sexo não é pecado, e sim um impulso natural, e dos bons. Quando reprimido, gera radicalismo, tara, violência e histeria. Depois de as mulheres terem vivido tanto tempo oprimidas na sua sexualidade, hoje elas finalmente administram seus desejos de uma forma adulta, responsável e livre. Retroceder, a essa altura, é que não tem perdão. Aproveite o dia - Uma ótima quarta-feira para você. Terça-feira, Julho 21, 2009
VOCÊ É O QUE NINGUÉM VÊ ...Você é os brinquedos que brincou, os nervos à flor da pele, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra... Você é a saudade que sente da sua mãe, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora... Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pêlo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é a palavra dita para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda... Você é a raiva de não ter alcançado, a impotência de não conseguir mudar, você é o desprezo pelo o que os outros mentem, o desapontamento com o governo, o ódio que tudo isso dá, você é aquele que rema, que cansado não desiste, você é a indignação com o lixo jogado do carro, a ardência da revolta, você é o que você queima... Você é aquilo que reivindica, o que consegue gerar através da sua verdade e da sua luta, você é os direitos que tem, os deveres que se obriga, você é a estrada por onde corre atrás, serpenteia, atalha, busca, você é o que você pleiteia... Você não é só o que come e o que veste. Você é o que você requer, recruta, rabisca, traga, goza e lê. Você é o que ninguém vê... Martha Medeiros
21 de julho de 2009 N° 16037 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA Pane no computador Meu computador mergulhou de novo em nocaute. Um fio, uma tomada, um circuito – não sei qual deles – entrou em queda livre e interrompeu o diálogo dos delicados mecanismos da máquina. Convoquei experts de minha agenda de pronto socorro, mas nenhum deles mostrou-se capaz de penetrar no mistério da pane. Fato que me levou a algumas reflexões baldias. Em 1964, eu estava no segundo ano do Curso de Direito. De repente, o que até a véspera eram solidíssimas verdades ruiu por terra. O que eu aprendi sobre a Constituição, as leis, a democracia, as liberdades individuais e coletivas, a soberania do povo exercida pelo voto, ou virou pó, ou transformou-se num arremedo de instituições. Os novos donos da República cassavam, prendiam, exilavam, proibiam, calavam, sem que poder algum fosse capaz de contrastar a sua força. Essa ditadura, que fez de minha geração um sanduíche, se repete hoje, guardadas as proporções, na opressão da tecnocracia. Tudo começou com um pacote pedagógico encomendado do Primeiro Mundo, onde já estava abandonado por se ter provado inservível. O predomínio da educação humanística – em cuja receita entravam a Filosofia e o Latim – cedeu lugar ao ensino especializado. Isso quer dizer que um estudante que lidasse com Física, Química ou Matemática estava absolvido de se preocupar com matérias como a Sociologia ou o Francês. As escolas começaram a fornecer diplomas a especialistas em minúcias, e todo um imenso legado de humanismo foi para o brejo. Um projeto de médico radiologista ou de engenheiro eletrônico já não precisava saber quem fosse Sócrates, Platão ou Aristóteles. Ao mesmo tempo, prefeitos e governadores não necessitavam perder o sono por causa de votos, e quando o Parlamento não era submisso o bastante havia uma solução simples: fechá-lo. O que isso tem a ver com os piripaques não consertados de meu computador? Muito. Quando a formação ensina como ver as árvores, mas não a floresta, qualquer desafio à inteligência e à criatividade esbarra no obstáculo das receitas não decoradas. Um parafuso fora do lugar transforma-se no desafio da Esfinge: decifra-me ou devoro-te. Raciocinar torna-se um luxo. Uma pane que fuja às normas conhecidas converte-se num enigma insondável. Em outras palavras, as pessoas andam esquecidas de pensar. Uma ótima terça-feira para você especialmente minha amiga Segunda-feira, Julho 20, 2009
MOACYR SCLIAR Palavra mágica Mas, de vez em quando, abre o computador e digita a palavra "vagabundo". Um mantra. Talvez O Ministério do Trabalho desativou temporariamente o sistema de consulta ao seguro-desemprego na internet, após um usuário ter tido de digitar a palavra "vagabundo" no sistema de verificação do site do órgão. O internauta, que está sem trabalho, entrou no site para consultar sobre seu pedido de seguro-desemprego e, para prosseguir, teve de digitar a palavra no campo em branco. O site do ministério usa um sistema para verificar se quem está fazendo a consulta é uma pessoa ou um software. Segundo Jorge Henrique Fernandes, do departamento de Ciência da Computação da UnB, é possível que um hacker tenha invadido o sistema e alterado a lista de palavras. O Ministério pediu desculpas pelo inconveniente. Dinheiro, 16 de julho de 2009 A PRIMEIRA reação dele, ao constatar que precisava digitar a palavra "vagabundo" para ter acesso ao site, foi de indignação. Que história era aquela? Já não bastava a humilhação de estar desempregado, ainda era obrigado a usar um termo seguramente ofensivo? Tão furioso ficou, que de imediato desistiu da informação. Os organizadores do site que ficassem com seu seguro-desemprego. Apesar de tudo, ele tinha sua dignidade. Não voltaria mais a acessar o tal site. A esposa -eram recém-casados e ela, professora, garantia o precário sustento dos dois- notou a perturbação do rapaz e quis saber o que tinha acontecido. Ele desconversou, disse que estava com dor de cabeça. Ela, mulher sensível, não perguntou mais nada. Não queria aumentar o sofrimento do marido. Desde que ele perdera o emprego andava com os nervos à flor da pele; precisava de ajuda, não de questionamentos. Naquela noite ele não dormiu. Virava-se de um lado para outro, na cama, até que por fim não aguentou mais: levantou-se, vestiu-se, e saiu para dar uma caminhada. O ar fresco da madrugada fez-lhe bem. Mais calmo, dava-se conta de que fizera bobagem não entrando no site. Afinal, talvez a palavra "vagabundo" tivesse sido escolhida por acaso, dentro de uma lista padronizada de palavras-chave. Talvez aquilo fosse obra de um hacker, ou mesmo de um funcionário metido a engraçado. E talvez -mas essa ideia o surpreendeu- a palavra tivesse sido selecionada em decorrência de algum raciocínio psicológico, com um propósito específico: dar-lhe um choque de realidade, capaz de fazê-lo pensar sobre sua situação, de engajá-lo num processo de mudança. O que fazia sentido. Afinal, ele não era um software, era uma pessoa. Softwares não pensam, não têm sentimentos. Pessoas pensam e têm sentimentos. Pessoas têm dignidade, pessoas podem virar a mesa quando necessário. Estava amanhecendo quando voltou para o apartamento. Correu para o computador, ligou-o, e, excitado, preparou-se para digitar "vagabundo". Para sua surpresa, a senha tinha mudado. E a razão para isso era evidente: alguém que, como ele, ficara ofendido, havia protestado, e a palavra fora por isso retirada do site. Agora ele está empregado -como digitador- e não precisa de seguro. Mas, de vez em quando, abre o computador e digita a palavra "vagabundo". Um mantra, uma palavra mágica? Talvez. Mas ele não quer saber do que se trata. Só quer digitar. Só quer acabar com o vagabundo potencial que, dentro dele, espera pelo momento de voltar ao site do desemprego. MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha.
TRAGÉDIA À BEIRA-MAR Obra era realizada sem vistoria de engenheiro A prefeitura de Capão da Canoa realizará uma perícia para verificar se era necessário licenciamento para a realização das obras no edifício Santa Fé, mas preliminarmente adianta que o tipo de trabalho constatado exigiria um engenheiro. – O certo é que a empresa já estava trabalhando. Marcas nas colunas de sustentação mostram que aquilo foi mexido. Tudo indica que a licença era necessária e não foi solicitada – diz o secretário municipal de Obras e Infra-estrutura, arquiteto Tupi Feijó. Para o empreiteiro que realizou as reformas, Selino Cardoso da Silva (da empresa Quadros e Cardoso Ltda), não era necessária licença para efetuar os consertos. Foram várias obras desde 1982, ano da construção do edifício. O último contrato com o empreiteiro foi firmado em 10 de julho, embora Cardoso tivesse feito reparos anteriores. Ele diz que foi contratado para mexer no reboco que cobre colunas, vigas e teto, na parte da frente. A ideia era tratar as ferragens com produto anticorrosivo e providenciar novo reboco. – Nada estrutural, por isso atuamos sem engenheiro – diz Selino. Ele relata que notou vigas descascadas e ferrugem corroendo as estruturas internas das colunas. Selino acredita que a parte de trás do prédio – a que caiu – estava condenada e afirma que disse isso para o síndico Joel Dieter, aconselhando-o a contratar um engenheiro para mexer na estrutura. – O síndico sabia que existia uma fissura na platibanda de um apartamento, sinal de dano estrutural. Mas não teve tempo de agir – diz Selino. A prefeitura discorda. O secretário Tupi Feijó afirma que existem sinais de obras estruturais no prédio, do tipo que exigem engenheiro responsável. Clodoaldo Reis, diretor da imobiliária Contamec (administradora do edifício Santa Fé), diz que pequenas obras tinham sido autorizadas em assembleia dos condôminos do prédio e contratadas pelo síndico Dieter. – O concreto estava esfarelando, por efeito da maresia. Outra possível razão para o desastre é que tenha sido usada areia de má qualidade, salgada, na construção do edifício, que não foi obra nossa – analisa Clodoaldo. Ele confirma que foi contatado engenheiro, que faria um laudo hoje, assim que se constatou os problemas. Bombeiros não foram ouvidos Nem imobiliária nem a prefeitura souberam informar ontem que construiu o prédio em 1982. O capitão Renato Pereira de Souza, comandante do II Grupamento do Corpo de Bombeiros (guarnição responsável por atuar em Capão da Canoa e outras cidades litorâneas), diz que a corporação não foi consultada: – Essa obra não nos foi informada. Se isso tivesse ocorrido, teríamos solicitado um laudo da administradora do prédio que, provavelmente, atestaria danos estruturais. Com certeza eram necessárias adaptações urgentes, como escadas de emergência. O delegado de Polícia de Capão da Canoa, Heraldo Guerreiro, abriu inquérito sobre as mortes e disse que os responsáveis pela obra, se for constatado necessidade de licença, podem ser responsabilizados criminalmente pelas mortes. Ontem, a prefeitura prometeu vistoriar todos os prédios da cidade com mais de cinco anos. Domingo, Julho 19, 2009
DANUZA LEÃO A fome Está mais do que na hora de lei limitar a dois o número de filhos, e quem ultrapassar não ter mais Bolsa Família SEGUNDO A ONU, vai a 1 bilhão o número de pessoas que passam fome no mundo; pois nem assim o governo Lula ataca com seriedade (nem sem) o problema do controle da natalidade. Sem esse controle, mais e mais gente nasce, e em alguns anos o bilhão vai se transformar em 2, 3, 4 bilhões. Quanto mais pobre é o país, quanto mais pobre a região do país, mais ignorante é a população, que, sem uma orientação para valer, vai continuar fazendo a única coisa que sabe: procriar. Não ouvi falar de nenhuma campanha mostrando que é possível e permitido não ter mais que um ou dois filhos, ou até nenhum. Será que alguma mãe gosta de ver seus oito ou dez filhos passando fome numa casa com chão de terra batida, sem nenhuma perspectiva? Essas pobres mães recebem mensalmente a esmola-família, e não tendo acesso à informação, portanto nenhuma orientação sobre o controle da natalidade, continuam tendo um filho por ano. Todos sabemos -ou deveríamos saber- que não é possível continuar nascendo tanta gente. Para terem direito ao benefício do Bolsa Família, as famílias precisam se comprometer a mandar seus filhos à escola. Tudo bem; mas você acredita que isso esteja acontecendo? Eu, não. Em primeiro lugar porque sabemos que existem poucas escolas no interiorzão, e as distâncias são longas. Às vezes é preciso andar mais de uma hora para chegar a um barracão tosco e aprender a ler; mas aprender para que, se, na realidade em que vivem, é perfeitamente dispensável saber ler? Quem deveria fiscalizar não fiscaliza, pois cortar o auxílio significa perder votos na próxima eleição, por isso a indústria do analfabetismo continua em alta. Interessa ter um povo que leia e compreenda o que acontece em Brasília? Claro que não. Uma população pobre, recebendo a esmola magnânima, leva a uma consequência direta: a popularidade de Lula cresce, que é o que interessa -a eles. Não é um problema local, mas do universo inteiro, e tem que ser atacado. Só para lembrar: a China escapou de uma catastrófica explosão demográfica, quando proibiu as famílias de ter mais de um filho, sob pena de multa e penalidades dramáticas. Antes que me joguem pedra na rua, não estou dizendo que devemos copiar a China em tudo, apenas dando um exemplo mais ou menos recente, pois não tomar uma providência enérgica, no panorama atual, é de profunda irresponsabilidade. Está mais do que na hora de haver uma lei limitando a dois o número de filhos, e quem ultrapassasse esse número não teria mais direito ao Bolsa Família; essa limitação deveria ser para gente de qualquer classe social, claro, mas pessoas mais esclarecidas estão tendo cada vez menos filhos, aqui e no mundo inteiro. Ao mesmo tempo, uma grande campanha ensinando como evitar filhos, e dando aos pais a ajuda necessária para que os procedimentos sejam seguidos. Levaria tempo? Levaria. Mas poderia começar, e logo. O Ministério da Saúde não distribui camisinhas de graça no Carnaval? E por que não faz o mesmo nas favelas e nas regiões mais pobres do Brasil, não esquecendo de explicar que a Igreja Católica, que parou no tempo e prefere ver pessoas mortas por Aids a liberar a camisinha, não tem rigorosamente nada a ver com o assunto? Dois filhos por mãe ou esmola zero. Crianças crescendo sem se alimentar convenientemente, ignorantes, e que quando adultas terão dificuldade para arranjar emprego, não é bom para ninguém, e o problema não é do Brasil, mas do planeta. E voltando à China: se tivesse uma população três ou quatro vezes maior, o país não seria a potência que é. danuza.leao@uol.com.br Sexta-feira, Julho 17, 2009
Rezando por nós, Sarney? Li que Sarney, sábado retrasado, saiu da espaçosa casa - aquela não declarada do Lago Sul - para ir rezar numa Igreja no centro de Brasília. Pelo visto, então, nem tudo está perdido. Papai do céu pode dar uma mãozinha para a gente, se Ele quiser. Ele há de querer. Não me lembro de notícia semelhante envolvendo ACM, Jader Barbalho ou Renan Calheiros, três dos oito presidentes do Senado nos últimos catorze anos que acabaram sendo punidos por desvios éticos ou corrupção. Os três deixaram o cargo somente depois de longos e desgastantes processos políticos e, ao que se tem notícia, não fizeram orações. Ao menos em público. Acho que nós todos, brasileiros, temos mais é que rezar. Esse bom exemplo, o Sarney está nos dando. Ao menos esse. Nossos problemas são anteriores ao Padre Anchieta e não é justo que só o presidente do Senado reze. Todos temos que fazer orações, ajoelhar, elevar o pensamento a Deus e pedir uma luz para votar bem nas próximas eleições. Todos precisamos meditar profundamente sobre o que ocorreu a partir de 1500 nestas terras ensolaradas, depois que os brancos europeus, de olhos claros, se deslumbraram com a paisagem paradisíaca de Porto Seguro e deu no que deu. Será que o presidente do Senado rezou o ato de contrição ou só pediu forças divinas para enfrentar as noites escuras que tem pela frente? Será que ele orou só por ele e pelos apoios políticos que precisa ou por nós e pelos altos interesses do Brasil? Bem que ele poderia falar sobre isso. Tomara que ele tenha rezado direitinho pelas coisas e pessoas do bem. Ele ultimamente anda quieto, fugindo da imprensa como o diabo da cruz, mas sobre Igreja e orações poderia tranquilamente falar e, quem sabe, até fazer uns versos. Além de ser chegado no poder, é beletrista e imortal. Pode ser que estes últimos escândalos, como muitos outros, fiquem soterrados pelos jornais de ontem, mantendo viva nossa tal “cordialidade” brasileira e assegurando a “governabilidade”. Pode ser que mudanças aconteçam depois das auditorias, das investigações e de eventuais punições. De qualquer maneira, é melhor seguir rezando e pedindo a Deus para que ilumine os atos, as nomeações e as contas, secretos ou não, e todos os cantos escuros e obscuros da Pátria e dos patriotas. Deus de repente fornece a sonhada transparência. Como decretou a sabedoria popular, “Se Sarney ajoelhou, tem que rezar”. Só rezando mesmo. Depois, é partir para pequenas e grandes ações cotidianas, secretas ou não, e aí construir uma verdadeira Nação e não simplesmente um País. Quem sabe, no futuro, quando a gente for à Igreja, vai ser para orar e agradecer o que de bom tivermos conseguido e não para pedir os penicos e os perdões de costume e as salvações dos malandros de plantão. Jaime Cimenti - Uma linda sexta-feira e um gostoso fim de semana Quinta-feira, Julho 16, 2009
CONTARDO CALLIGARIS Educar pelo cinema Quase sempre, na vida de um adolescente, não basta preparar-se para o futuro; ele quer viver QUANDO CHEGA uma convocação da orientação pedagógica do colégio de seus filhos, alguns pais já sabem que escutarão queixas: o garoto não estuda e não presta atenção, anda com uma gangue, dever de casa nem se fala etc. Para mim, a queixa mais alarmante é a que diz que nosso filho é legal, mas não se interessa por nada -não só por nada do que a escola lhe propõe: nenhum esporte, nenhuma atividade extracurricular, nenhum hobby, nada. Ele pode, eventualmente, ser obcecado com sua aparência (roupas, marcas, corte de cabelo), mas, no mais, ele só gosta de jogar conversa fora num shopping, beber cerveja, ficar no MSN e, às vezes, fumar cigarros ou baseados. O baseado é pior: afasta das tarefas cotidianas e do desejo, e, quando o afastamento se torna angustiante (os adolescentes sofrem com sua própria inércia), volta-se ao baseado para acalmar a angústia. É um tranco que muitos pais atravessam do jeito que dá: desde as punições (cortar mesada, computador, saídas) até as tentativas desesperadas de envolver o rebento nas atividades dos adultos. "Ele vai jogar bola comigo", "Por caro que seja, se formos para o Quênia, ele vai se interessar, ao menos, pela vida dos elefantes. E pode querer ser veterinário", "E se comprássemos um cachorro do qual só ele se ocuparia?", "E se ele trabalhar na ONG daquela amiga que cuida de crianças de rua?", "Se ele encontrasse uma namorada, não seria o estímulo que lhe falta?". O fato é que quase sempre chega um momento, na existência de um adolescente, em que, de repente, preparar-se para o futuro não lhe basta. Ele não quer se preparar, quer viver. Só que não sabe bem o que seria "viver": o mundo, como dizia a mãe de Forrest Gump, é uma caixa com chocolates variados, mas, no caso, por não conhecer os gostos e os recheios, o jovem hesita e morre de fome. Os pais e os adolescentes que passam por essa situação não precisam se desesperar. O tempo cura muitos males, e a vida não é tão curta assim que um adolescente não possa "perder" alguns anos (tanto mais que nem sempre os ditos anos são propriamente perdidos). Enfim, pais e adolescentes, que estejam ou não em apuros, não percam o livro de David Gilmour, "O Clube do Filme", que acaba de ser traduzido pela Intrínseca e que é uma pequena joia de coragem e sinceridade. Gilmour conta como, confrontado com um filho de quinze anos que ele adorava, mas que não se interessava por nada, diante do espetáculo intolerável da aflição do garoto com as obrigações escolares, ele decidiu retirá-lo da escola. Mas nada de "Se você não quer estudar, tem que trabalhar; vagabundo não cabe nesta casa". Gilmour inventou uma educação alternativa: nenhuma obrigação, salvo a de não usar drogas (crucial) e a de compor, com o pai, o clube do filme, ou seja, assistir, três vezes por semana, a filmes que o pai escolheria e introduziria com breves comentários. Depois disso, a cada vez, pai e filho conversariam sobre o filme. O garoto, evidentemente, topou. Começaram assim vários anos em que pai e filho viveram uma relação que não era parasitada pela necessidade de forçar o garoto a estudar, mas não foi nenhum paraíso: o pai, que atravessava um tempo de fracasso profissional, não parava de questionar sua própria decisão (será que ele estava acabando com o futuro do filho, que, aos 16 anos, não sabia onde está a Flórida no mapa?), e o filho não tinha como não sofrer com a sensação de estar sem rumo na vida. A história acaba bem. Mas, cuidado, não é uma receita praticável, a não ser por quem tenha uma coragem de leão e, sobretudo, consiga amar seu filho mesmo que ele não corresponda aos sonhos dos pais (tipo de amor muito mais raro do que a gente imagina). Além disso, eu me perguntei se não teria sido possível instituir o clube do filme sem que o garoto saísse da escola (talvez não, talvez sim). De qualquer forma, terminei o livro com dois pensamentos. 1) Há uma coisa que nossos filhos precisam conquistar, e que nunca vai ser uma matéria do programa: é o desejo de viver. Nessa tarefa decisiva, a ficção talvez seja o melhor recurso. E, das ficções, o cinema é a mais facilmente acessível. 2) Os adolescentes devem se preparar para sua vida futura, mas, igual eles estão vivendo, agora. Às vezes, parecemos sacrificar radicalmente seu presente em troca de nossa própria (ilusória) tranquilidade quanto ao seu futuro. ccalligari@uol.com.br
16 de julho de 2009 N° 16032 - EDITORIAIS IMAGEM DESCONCERTANTE Impressa ontem na capa dos principais jornais do país e amplamente divulgada pelos veículos eletrônicos, a imagem do abraço entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador alagoano Fernando Collor de Mello, compartilhando o mesmo palanque, deixou muitos brasileiros perplexos. Quem acompanhou o acirrado confronto eleitoral entre os dois em 1989 e a decisiva participação do PT na campanha pelo impeachment do ex-presidente em 1992 tem dificuldade para entender esta aliança entre passados tão divergentes. Para desencanto do eleitor, ela parece simbolizar a nova era dos conchavos na política nacional. Em nome de um pragmatismo que beira a incoerência, Lula prestigia Collor, pré-candidato ao governo de Alagoas, elogia Renan Calheiros, seu antigo opositor, e chancela os desmandos do presidente do Senado José Sarney. Compreende-se que um governo faça acordos políticos para garantir a governabilidade ou até mesmo para assegurar apoio eleitoral, como é declaradamente a intenção do presidente Lula no seu projeto sucessório. Nada disso é novidade. Todas as democracias possibilitam coligações partidárias, desde que os conflitos ideológicos e programáticos não sejam insuperáveis. O difícil de aceitar é tanta flexibilidade ética num momento em que a classe política, com raras exceções, enfrenta o descrédito geral. O ex-presidente Fernando Collor foi obrigado a renunciar em virtude do seu envolvimento com um esquema de corrupção combatido enfaticamente pelo Partido dos Trabalhadores, na época comandado pelo presidente Lula. Cabe reconhecer, evidentemente, que o mandatário deposto já cumpriu as sanções legais, observou o período de inelegibilidade e voltou à cena política pela decisão inquestionável dos eleitores. Só que isso não apaga da memória dos brasileiros a decepção causada pelo governante que inaugurou o novo período de eleições diretas para a presidência da República, interrompido durante o regime autoritário dos militares que ocuparam o poder em 1964. Collor elegeu-se com promessas de desenvolvimento, modernidade e moralização, mas cercou-se de aproveitadores, loteou o governo e promoveu uma traumática intervenção na economia, bloqueando a caderneta de poupança. Saiu sem deixar saudades. Por isso é preocupante esta aliança de ocasião, que revela também uma grande incoerência por parte do primeiro mandatário da nação. No mesmo palanque em que condenou o que chama de “política de compadrio”, o presidente Lula elogiou os senadores Renan Calheiros e Fernando Collor por darem sustentação ao seu governo no Parlamento. Os interesses por trás desta espúria proximidade são claros: Lula quer o apoio do PMDB e do PTB à candidatura da ministra Dilma Roussef, e Collor conta com o respaldo de Lula para reconquistar o governo de Alagoas. Diante de tais maquinações, não é de admirar que o eleitor brasileiro se mostre a cada dia mais desencantado com seus representantes políticos. Uma excelente quinta-feira especialmente para você - Apenas mais dois diazinhos para as férias de inverno.... Quarta-feira, Julho 15, 2009
A CARÍCIA ESSENCIAL DE MÃOS INESQUECÍVEIS... Amo tuas mãos, deliciosamente trêmulas Amavelmente...tépidas Pálidas, como pássaros da paz Amo beijá-las com delicadeza Deixar-te mudo e constrangido Então...aquela luz nasce em teus olhos Tuas mãos se entrelaçam nas minhas Aquecidas de vibrante emoção Nossos dedos se tocam, se encaixam Deslizo minha língua maliciosa por eles Finges uma zanga que não sentes Teu corpo estremece... Tuas mãos se aquecem Em teus lábios entreabertos As palavras emudecem Perdem toda a razão de existir Prevalece o toque, a delicadeza da carícia Tuas suaves, aveludadas mãos deslizam No contorno do meu rosto, no pescoço Descem aos ombros, viajam pelos braços E unem-se novamento em doce conjunção No calor de minhas apaixonadas mãos Depois da despedida...ainda sentirei O terno e discreto perfume De tuas mãos inesquecíveis Vera Linden
ANTONIO DELFIM NETTO A confusão de Áquila DEVERIA ser evidente que, num mundo finito que abriga recursos finitos e absorve energia externa, uma espécie animal sem inimigos naturais (a não ser, eventualmente, ela mesma), devoradora daqueles recursos, acabará encontrando os seus limites. O problema não é "se", mas "quando" isso vai ocorrer. A situação é mais urgente e mais delicada quando se internaliza o fato que é a própria necessidade da espécie que, ao aumentar o seu consumo de energia fóssil para sobreviver, produz, simultânea e inexoravelmente, um resíduo, o dióxido de carbono (CO2), que acelera a deterioração do ambiente. Este talvez seja o principal responsável pelo efeito estufa, que tem elevado a temperatura média do planeta desde a Revolução Industrial e que, aparentemente, "explica" a mudança de clima a que estamos assistindo. O problema é que menos CO2 só com menor produção e menor consumo... Questões dessa dimensão e complexidade exigem cuidadosos estudos científicos e, suas soluções, decisões políticas. Estas, normalmente, são oportunistas e, frequentemente, levam em pequena conta o longo prazo. A quem interessa, por exemplo, o voto do cidadão de 2050? Basta ver o "histórico" rocambole conclusivo sobre o controle do efeito estufa a que chegaram, no dia 8, na cidade de Áquila, os estadistas ali reunidos. Trata-se, obviamente, de um problema global e que não poderá ser resolvido por nenhum país separadamente. Todos, cinicamente, tentarão reduzir sua contribuição (ou mesmo escapar dela), mas mostrar sua clara "vontade política" de maximizá-la. Há uma assimetria muito grave: os que no passado produziram e se beneficiaram do efeito estufa para acelerar seu desenvolvimento econômico com menor custo (destruindo suas florestas naturais, obtendo energia pelo carvão e combustíveis fósseis, reduzindo a deserto suas áreas férteis etc.) não têm como, moralmente, impor o contrário aos retardatários. Teriam de oferecer-lhes compensações pelo aumento dos custos do seu próprio desenvolvimento ecologicamente mais limpo. A situação é mais grave porque existe grande incerteza sobre as certezas que maníacos ambientalistas apresentam como científicas. Por exemplo, diferentemente do que se afirma, pesquisas sérias recentes mostram que 4/5 da vegetação nativa do bioma do Pantanal está intacta e que a pecuária extensiva tradicional, praticada na região desde 1737, ajudou a construir o ecossistema com o maior índice de conservação do país! Durma-se com um barulho desses. contatodelfimnetto@uol.com.br
15 de julho de 2009 N° 16031 - MARTHA MEDEIROS O resgate da normalidade A foto dá a entender que Obama está olhando o bumbum da menina de 17 anos que posou com os integrantes do G-8 na Itália, mas um vídeo da cena mostra que na verdade ele estava se virando para ajudar uma outra moça a descer as escadas, ou seja, um cavalheiro, e não um malandro. Mas lamentei o tira-teima. Queria que Obama estivesse, sim, olhando pro derrière da moça. Por quê? Porque seria mais um capítulo da minissérie Obama, o resgate da normalidade. Obama é presidente dos Estados Unidos, cargo que automaticamente o coloca num pedestal, mas ele não faz o tipo que se empina. E o fato de ser o primeiro presidente negro do país lhe confere um status de pioneiro, mas ele tampouco fatura em cima desse pioneirismo. Age como qualquer preto comum ou qualquer branco comum: sendo comum. E é isso que o torna moderno. Obama tem uma mulher que poderia ser a vizinha da porta ao lado e tem filhas que sempre sonharam em ter um cachorrinho, em vez de, sei lá, um tigre branco siberiano. Obama mata moscas, senta em escadas, tem dificuldade em parar de fumar e olha para traseiros femininos, e se não olhou naquele dia, olhará certamente em outros, discretamente, sem nenhum desprestígio à senhora sua esposa. Homens comuns fazem isso. Pressinto no ar uma valorização da trivialidade descomprometida, aquela que existia antes da praga do politicamente correto, antes da avalanche de revistas de fofocas e antes dessa era em que tudo parece um grande teatro. Não me excomungue, mas vou ser mais uma a seguir falando do Michael Jackson. Domingo passado eu esperei o Fantástico terminar só para ver as cenas dos vídeos caseiros onde o cantor aparecia caindo na piscina de roupa e tudo, fazendo guerrinha de bexiga d’água com os amigos, abrindo presentes de Natal e planejando comer um frango com farofa (a farofa é invenção minha, para tornar a cena ainda mais prosaica), ou seja, vivendo sua infância retardatária, mas, ainda assim, vivendo, e não representando. Sujava-se, molhava o cabelo e gritava “eu vou te matar!” às gargalhadas, em meio a brincadeiras. Num tempo em que celebridades saem direto do palco para o museu de cera, eram imagens desfocadas de alguém normal se divertindo. Extra, extra! A revista Quem possui uma seção que se chama algo como “Eles são como nós”, onde mostra fotos de famosos comprando aspirina na farmácia, fazendo sinal para um táxi num dia de chuva ou limpando a lente dos óculos na barra da camiseta, como se os desmascarasse: veja, eles não passam o dia todo dentro de um ofurô! Legal. Assim fica mais fácil virar notícia. É só trocar o champanhe pela água do bebedouro, ser flagrado abocanhando um hambúrguer triplo com a maionese escorrendo entre os dedos, usar a balança do supermercado para se pesar, catar moedinha na hora de pagar o pedágio e comer frango com farofa. Aquela farofa que sempre faz falta quando o mundo fica besta demais. Terça-feira, Julho 14, 2009
ELIANE CANTANHÊDE Tudo depende dos... fatos BRASÍLIA - Adivinhe quem o PSDB e o DEM estão articulando para a presidência da CPI da Petrobras?! O Fernando Collor de Melo. Isso mesmo. O ex-presidente da República que renunciou justamente por causa de CPIs. Não se fazem mais CPIs como antigamente, mas a verdade é que a oposição lança Collor nem é para ganhar, é só para aumentar a confusão e ter pelo menos um votinho a mais. Instalada hoje, se é que vai mesmo, a CPI da Petrobras terá três nomes da oposição e oito do governo. Com Collor, passa a ser quatro a sete. E vai dar o que falar. Collor ganhou a primeira eleição direta para presidente, cassou a poupança do brasileiro, isolou-se com PC Farias, rompeu com os partidos e com a opinião pública e caiu. Até voltar ao Congresso e se tornar aliado de Lula -para quem ele faria um "mandato extraordinário". O resultado é que Collor virou presidente da Comissão de Infraestrutura do Senado, agora ganha vaga na CPI da Petrobras e está livre, leve e solto para ir para um lado ou para outro. Ou para ambos. Hoje, ele viaja com Lula para inaugurar uma obra. Amanhã, poderá estar nos braços da oposição para disputar a presidência da CPI contra o Lula, ops!, contra a Petrobras. É assim que a CPI nasce sobre fundadas desconfianças, disputando espaço com aquela Comissão de Ética esquisita e com dois adversários: Lula reuniu o ministério pela segunda vez neste ano e lançou o plano do pré-sal, menina-dos-olhos da candidatura Dilma. E José Sarney sai da condição de réu para a de juiz, cancelando as centenas de atos secretos da era Agaciel Maia (que não agia sozinho...). O que vai acontecer com a CPI, então? Com a palavra o senador Álvaro Dias (PSDB-PR), que já produziu 40 requerimentos de informações para a estreia da comissão: "Tudo depende dos fatos". A guerra que começa hoje no Congresso é justamente para isso: para ver quem vai produzir mais notícias e manchetes. Material não falta. elianec@uol.com.br Bem na verdade é tudo conta de chegar não é mesmo..? - Como acreditar que os resultados serão efetivos - Boa noite para você minha amiga
14 de julho de 2009 N° 16030 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA Perder e achar Tem coisas que só são achadas para serem perdidas. Encontrei em uma casa de câmbio de Ciudad Vieja, em Montevidéu, uma libra esterlina do ano de 1918. Era perfeita, com o retrato do Rei, com aquela solidez do Império Britânico, com aquela perfeição de traços e linhas que nunca mais surpreendi em nenhuma moeda de país algum do mundo. O dono da loja pedia uma pequena fortuna por ela. Mas eu havia ganho na véspera outra pequena fortuna no cassino do Parque Hotel, de modo que nem regateei. Paguei por aquela preciosidade cada dólar que me pediam – e mais gastaria se mais me houvessem cobrado. Pois bem; esses dias resolvi revê-la e não a localizei. Aconteceram nos últimos anos algumas mudanças – e não é impossível que entre um apartamento e o seguinte ela se tenha extraviado. Não me queixo. Já perdi outras coisas, aí incluído um exemplar de Os Lusíadas que comprei num sebo. Era para ter arrematado uma coleção de romances portugueses, começando, é claro, por Eça de Queirós e Camilo Castelo Branco. Só que veio junto, de contrabando, uma estropiada cópia da obra de Camões. Creio que foi a primeira vez que li com gosto a narrativa inteira, me demorando no episódio de Inês de Castro. E então veio outra mudança e sumiram Os Lusíadas, sumiu a linda Inês posta em sossego. Desde que dei noção de mim mesmo, ouvia meu avô dizendo: “Este relógio será de meu neto mais velho”. Meu avô era um senhor cumpridor da palavra, de modo que ganhei a joia ao completar oito anos. Minha mãe entendeu que eu não tinha ainda a idade para portar semelhante raridade, de modo que a guardou numa gaveta de sua cômoda. Sucedeu que morávamos no térreo de um edifício – e não demorou fomos visitados por amigos do alheio. Resultado: me levaram o relógio, de que nunca mais tive remota notícia. A vida é assim. Como falei no início, tem coisas que só são achadas para serem perdidas. É como o amor: você jura que durará uma eternidade, momentaneamente esquecido de que ela é construída de mínimos segundos. Uma excelente terça-feira pra você. Quem te conhece sabe... Segunda-feira, Julho 13, 2009
MOACYR SCLIAR Os mortos, os vivos e os muito vivos Uma questão delicada eram os comícios em cemitérios, coisa que poderia ferir o sentimento dos sensíveis Comissão que audita contas paralelas do Senado tem até morto. Único instrumento de fiscalização das contas bancárias mantidas em sigilo no Senado, a comissão interna formada por um senador e dez servidores é uma peça de ficção. O grupo é integrado por funcionários que não mais pertencem aos quadros do Senado e até por um servidor morto em 2005. Brasil, 6 de julho de 2009. "Os vivos serão sempre e cada vez mais governados pelos mortos." Auguste Comte (1798-1857) "Os vivos serão sempre e cada vez mais governados pelos mais vivos." Barão de Itararé (Aparício Torelly, 1895-1971) A NOTÍCIA segundo a qual um servidor já falecido fazia parte de uma comissão de fiscalização provocou surpresa e até revolta. Não entre todos, porém. De imediato formou-se um grupo de pessoas para quem aquilo que parecia uma falha era, na verdade, um desígnio do destino, indicando claramente o caminho que o país deveria seguir: entregar toda a administração pública, e não apenas eventuais comissões, a falecidos. O novo regime teria até um nome: seria a mortocracia. Mortocracia, isso os adeptos do movimento apressaram-se em deixar claro, não excluiria a democracia. Ao contrário: os mesmos critérios de escolha de representantes da população seriam utilizados, a começar pelo voto livre, secreto e universal. Partidos políticos poderiam apresentar seus candidatos, e fazer campanhas por eles. O financiamento das campanhas seguiria a regra básica da transparência; funerárias, por exemplo, estariam automaticamente excluídas, dado seu óbvio interesse no assunto. Qualquer cidadão falecido poderia ser apresentado como candidato, mediante a comprovação, pelos cabos eleitorais, do óbito, através de competente atestado. Uma questão delicada era a realização de comícios em cemitérios, coisa que poderia ferir o sentimento de pessoas sensíveis. Depois de muita discussão o grupo resolveu aceitar essa possibilidade. Sim, comícios poderiam ser realizados em cemitérios, desde que adotadas certas precauções. Showmícios, nem falar. Discursos, também não. No máximo, reuniões em silêncio e distribuição de material impresso. Uma vez eleitos os defuntos, para cargos no Executivo e no Legislativo, como funcionaria a administração? A velha ideia de que mortos não falam não poderia aplicar-se ao caso; ainda que o silêncio seja de ouro, o grupo não esquecia a sábia e antiga máxima: é conversando que as pessoas se entendem. Parafraseando Camões, os eleitos seriam contatados no assento etéreo onde havia subido para, de lá, fazerem seus pronunciamentos, emitirem seus votos, e darem seu parecer sobre o uso de verbas públicas. Ah, sim, e os assentos etéreos seriam em número igual ao de cadeiras na câmara alta, na câmara baixa e em outras instâncias do poder. Os adeptos da mortocracia sabem que a ideia está muito adiante de seu tempo. Mas não se preocupam com isso. Como Lord Keynes, afirmam que a longo prazo todos estaremos mortos. E, mortos, seremos todos candidatos potenciais. O que só confirma a validade dessa nova forma de democracia. MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha
13 de julho de 2009 N° 16029 - KLEDIR RAMIL Dábliu A única vantagem do Dábliu Bush em relação ao Obama é que era mais engraçado. Dizem que certa vez ele declarou que “uma das melhores coisas nos livros é que, às vezes, eles têm fotos fenomenais”. Pois esse ex-presidente, que não gostava de ler, deixou os EUA, o mundo e especialmente o Iraque, num estado lamentável. Bem pior do que quando assumiu. Para não ser injusto dizendo que o cara não fez nada, ele criou frases antológicas – é o que dizem – que vão ficar para a História. Divirta-se. “A grande maioria de nossas importações vêm de fora do país.” “Se não tivermos sucesso, corremos o risco de fracassar.” “O futuro será melhor amanhã.” “Eu gostaria de ter estudado latim, assim eu poderia me comunicar melhor com o povo da América Latina”. “Eu fiz bons julgamentos no passado. Eu fiz bons julgamentos no futuro.” “Nós temos um firme compromisso com a OTAN. Nós somos parte da OTAN. Nós temos um firme compromisso com a Europa. Nós somos parte da Europa.” “Um número baixo de votantes é sinal de que menos pessoas estão indo votar.” “Quando me perguntaram quem provocou as revoltas e as mortes em Los Angeles, minha resposta foi simples e direta: os revoltosos e os matadores.” “Nós estamos preparados para qualquer imprevisto que possa ocorrer ou não.” Para a NASA, o espaço ainda tem prioridade alta.” “O país de vocês também tem negros?” (pergunta feita a Fernando Henrique Cardoso). “Japão e EUA mantêm uma relação pacífica há mais de 150 anos” (esquecendo de Pearl Harbor e da bomba de Hiroshima). “Não é a poluição que está prejudicando o meio ambiente. São as impurezas em nosso ar e na água que fazem isso.” “É hora da raça humana entrar no sistema solar.” Essas são apenas algumas das pérolas. A coisa não tem fim. O que se poderia esperar de um presidente que gosta de ver as fotos, em vez de ler os textos dos livros? Domingo, Julho 12, 2009
CLÓVIS ROSSI No topo do mundo, mas solitários ROMA - Palmas para o Brasil, que acaba de ser lançado ao topo do mundo, o tal de G14 (por enquanto 14, mas sabe-se lá em que número vai parar). Mas palmas também para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que insistiu, insistiu, insistiu, correu o risco de virar um chato perante seus pares, mas ganhou a vaga pela qual lutou. Muito bem. Chega de palmas e vamos às vaias. Por muito que tenha evoluído e que umas quantas empresas tenham se internacionalizado, o Brasil continua sendo um país caipira, como o descreveu uma vez seu então presidente, Fernando Henrique Cardoso. Queria dizer que, como todo país continental, estava voltado mais para dentro que para fora. Ainda está. Cubro assuntos internacionais há 36 anos. G8, desde que era G7. Nunca, nunca, nunca precisei consultar parlamentares para me informar ou obter opiniões sobre qualquer evento internacional que me tocasse acompanhar. Juro que não é preconceito. É falta de interlocutores. Na academia, há uma dúzia de pessoas, pouco mais ou menos, com as quais se pode trocar ideias sobre temas internacionais sem sair perdendo na troca. No empresariado, basta acompanhar os fóruns de Davos para ver a insignificante participação brasileira. Também aí há três ou quatro solitários que participam e são ouvidos. Só. Nunca escondi que tenho profundo respeito pelo Itamaraty, mas não é nem lógico, nem sábio, nem democrático deixar que a política externa seja território de caça reservado aos diplomatas e/ou a um presidente que se interessa (desde sindicalista, aliás) pelo mundo. Afinal, o próprio Lula afirmou anteontem, embora em outro contexto, que, "quanto mais gente participa [dos Gês], menos chance a gente tem de errar". crossi@uol.com.br Sábado, Julho 11, 2009
12 de julho de 2009 N° 16028 - MARTHA MEDEIROS A caricatura do primeiro casamento TEnho muito interesse por relações amorosas e tudo o que as envolve. Essas relações não precisam ser necessariamente românticas também adoro histórias de pais e filhos, assim como histórias sobre fortes amizades mas o conflito gerado por um homem e uma mulher que convivem intimamente sempre me pareceu digno da maior atenção. No entanto, de um tempo pra cá, algo vem me inquietando. Essa febre de filmes, peças e livros retratando as dificuldades de relacionamento estarão sendo realistas de fato? O público se identifica, ri das pequenas tragédias que experimenta em sua vida pessoal, mas não está na hora de abrir espaço para o que não é nem tão trágico, nem tão cômico? Mulheres são de um planeta, homens de outro. Elas se sobrecarregam no papel de esposa e mãe, eles se atrapalham com seu excesso de testosterona e eterna meninice. Elas querem mais romance. Eles querem mais liberdade. Elas são doces, eles são rudes. Todos querem amar, mas ninguém se entende. Esse é o quadro, o resto são variações sobre o mesmo tema. Fascinante, mas pode estar se transformando numa caricatura avalizada por todos nós. Contrariando a regra, existem homens doces e mulheres rudes. Morar em casas separadas é uma saída que vem sendo considerada. Ter filhos já não é uma meta soberana. O “pra sempre” deixou de ser prazo irrevogável do amor. Nem todo homem procura a própria mãe na mulher por quem se apaixona. Nem toda mulher sonha com um protetor. Casar é algo que pode acontecer na vida de alguém, ou pode não acontecer. Há casais que vivem às turras, mas também há os que se entendem bem. Ou seja, há quem não se sinta representado por essa natureza esquizoide que virou padrão de relacionamento: se marido e mulher querem se matar, ufa, são normais. Na peça A História de Nós Dois, que assisti recentemente no Rio e que, com talento e graça, retrata o ciclo de começo-meio-e-fim da maioria das relações atuais, me fez perceber que, das três fases do amor, nenhuma é original: a originalidade está na quarta fase, da qual se fala tão pouco. Se a fase inicial da paixão tem um fim, se a fase do “durante” (quando os filhos nascem e as complicações aparecem) também tem um fim, então a ruptura do relacionamento, com quebra-quebra e dor intensa, também pode ter um fim, gerando a partir daí uma relação menos paranoica e mais madura, mais afetuosa e mais tolerante. Só que poucos tentam essa quarta fase com a mesma pessoa com quem viveram as três anteriores. O que é compreensível, mas nada alentador. “Quero casar de uma vez para separar logo e aí, sim, ter uma relação bacana de verdade”. Parece piada, mas é o pensamento secreto de muitos. As pessoas estão querendo vivenciar rapidamente um destino que lhes parece inevitável (uma relação familiar com começo, meio e fim) para que possam entrar, depois, numa outra relação que possa ser curtida sem amadorismo, sem amarras, sem prazos, sem um roteiro previamente estipulado. O segundo casamento é que passou a ser o grande sonho de consumo, porque ainda não foi caricaturizado. Por enquanto. Um ótimo domingo especialmente a você minha amiga.
11 de julho de 2009 N° 16027 - NILSON SOUZA Ofícios do passado Encontrei dia desses na minha caixa postal eletrônica uma seleção de imagens de profissões extintas, ou quase, pela modernidade e pela tecnologia. São pinturas belíssimas, que retratam ofícios do passado e todo o cenário de nostalgia onde eles eram exercidos por homens e mulheres que habitaram o pretérito perfeito da minha infância. Reconheci-os imediatamente. Lá estava o marceneiro alisando carinhosamente um pedaço de madeira com a sua lixa fina, como tantas vezes vi meu saudoso tio Luizinho fazer na sua oficina de trabalho, de onde saíam cadeiras e armários de acabamento perfeito. Quando era menino, gostava de correr entre as tábuas empilhadas e de sentir o cheiro da serragem e do esmalte que caracterizavam diferentes etapas daquele artesanato. Na tela seguinte, deparei com um ferreiro, segurando sobre o joelho a pata de um belo cavalo branco, para aplicar-lhe os cravos da ferradura nova. Também esta cena faz parte da minha memória infantil, com cheiro e tudo. Lembro-me muito bem do ferro incandescente arrancando fumaça do casco do animal, na moldagem do local exato onde a meia-lua de aço seria pregada. Era uma operação um tanto selvagem, que me fazia admirar a coragem e a força do ferrador, ao mesmo tempo em que me despertava compaixão pelo animal. O sapateiro à moda antiga foi outro que me fez recuar no tempo para observar, em respeitoso silêncio, aquele homem recendendo à cola, que transformava pedaços de couro bruto em solados e saltos. O que me impressionava naquele artífice compenetrado na sua tarefa solitária era a habilidade para pregar tachinhas sem martelar os dedos, até que a ponta da minúscula cunha entortasse no pé de ferro. Um afiador de facas deu som e luz às minhas lembranças. Esse homem, que ainda desfila pelas periferias das grandes cidades tocando o seu instrumento ancestral, atraía a atenção da criançada como um flautista de Hamelim. Depois, instalava-se diante de um esmeril e fazia sair faíscas dos facões e machadinhas que lhe alcançavam as donas de casa. O afiador era uma espécie de gladiador da minha infância. Outros personagens igualmente embaciados pelo tempo completam o mosaico de saudade: um tecelão, um tipógrafo, um sineiro, um queijeiro, uma costureira, uma rendeira, todos com seus instrumentos antigos. É curioso pensar que o mundo que conhecemos hoje, incluindo este computador capaz de ligar passado e futuro, foi lapidado pelas mãos desses trabalhadores. Sexta-feira, Julho 10, 2009
ARNALDO NISKIER O sertanejo é, antes de tudo, um forte Os textos euclideanos são extremamente coerentes e, hoje, despertarão grande interesse por parte dos estudantes PEDE-ME A direção da 13ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo (RS) que lhes fale sobre a atualidade de Euclides da Cunha, um dos maiores (e mais complicados) escritores brasileiros de todos os tempos. Sua narrativa a respeito de Antônio Conselheiro, em "Os Sertões", é bem elucidativa do seu personalíssimo estilo: "Apareceu no sertão do norte um indivíduo, que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerceu grande influência no espírito das classes populares, servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade. Deixou crescer a barba e cabelos..." Dois paulistas se encontram na Academia Brasileira de Letras e o tema é o centenário da morte de Euclides da Cunha, nascido em Cantagalo (RJ), no dia 20 de janeiro de 1866. A recordação foi até aquela manhã de domingo, 15 de agosto de 1909, quando o genial autor de "Os Sertões" foi assassinado pelo amante da sua esposa, Ana, o tenente Dilermando de Assis, com quem trocou tiros no bairro carioca da Piedade. Um dos interlocutores (Cícero Sandroni) lembrou as sucessivas ausências de Euclides do lar, absorvido pelas obras a que estava obrigado, como engenheiro, inclusive a famosa ponte de São José do Rio Pardo, até hoje de pé. O outro (Paulo Nathanael Pereira de Souza) confirmou esses vazios: "Foi no interior paulista que ele escreveu as sucessivas matérias do jornal "O Estado de S. Paulo", que deram origem à epopeia de "Os Sertões". E construiu diversas casas". Deixando de lado a tragédia que marcou o fim de um dos nossos maiores escritores, concentramo-nos na obra literária do acadêmico Euclides da Cunha. Homem de grande cultura, misto de civil e militar, foi engenheiro, historiador, geógrafo, jornalista, poeta e permanente defensor da natureza, o que na sua época não era muito comum. Podemos qualificá-lo como engenheiro das palavras. Ajudou, com a sua métrica poética, a compreender melhor o Brasil. Condenou veementemente o crime cometido pela República nascente, no interior baiano, dizimando a população sertaneja de Canudos. Antes do episódio histórico, chegou a condenar o movimento messiânico de Antônio Conselheiro, "que deveria ser debelado com pulso forte", mas, ao testemunhar pessoalmente, durante pouco menos de dez dias, o horror da chacina, mudou drasticamente de posição, produzindo o seu libelo de repercussão internacional. Foi então que nasceu a expressão "o sertanejo é, antes de tudo, um forte", capaz de resistir com bravura a toda espécie de óbice natural ou humano. Euclides foi além e condenou, há mais de cem anos, as queimadas e os desmatamentos. Utilizou o seu linguajar erudito, algumas vezes até incompreensível, para defender a Amazônia e os seus rios caudalosos. Tornou-se um ecologista indignado, como ao dissertar sobre as cidades mortas do interior paulista, após o auge da cultura do café. Sob esse aspecto, os textos euclideanos são extremamente coerentes e, hoje, certamente despertarão grande interesse por parte dos estudantes, sobretudo de ensino médio, desde que devidamente orientados por mestres competentes. No livro "Contrastes e Confrontos", Euclides da Cunha, que discursou diante do caixão de Machado de Assis, seu contemporâneo, parece adivinhar que a leitura dos seus textos não é um exercício dos mais fáceis. Para maior proveito, sugere que se considere o "remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços consistentes". É preciso dissecar esse pensamento, para compreender o sentido do que ele pretendeu com os seus escritos. Vale a advertência, para os que se irão iniciar em Euclides da Cunha, cujo centenário comemoramos neste ano, de que é importante ultrapassar os primeiros passos da caminhada literária. Mesmo em "Os Sertões", se não houver paciência, é bem possível que o leitor desista antes da metade. Mas, se vencer essa etapa, conhecerá as luzes de um dos textos mais bonitos da língua portuguesa, tão rica de grandes autores. ARNALDO NISKIER, 73, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do Ciee-RJ (Centro de Integração Empresa-Escola), é professor emérito da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e autor do livro "Vozes da Educação".
Cortes transversais em temas contemporâneos Donaldo Schüler, professor, também poeta, ensaísta, ficcionista e tradutor, recebeu o prêmio de melhor tradução em 2003 da Associação Paulista de Críticos de Arte, por Finnegans Wake de James Joyce. Atualmente, entre outras atividades, ele que é dos mais importantes intelectuais brasileiros, é consultor acadêmico do projeto Fronteiras do Pensamento. A partir das conferências proferidas no Fronteiras de 2008, Donaldo construiu sua obra mais recente, intitulada Fronteiras e Confrontos. O trabalho está estruturado a partir de quatro grandes temas, elaborados com base nas conferências e com base nas ideias defendidas pelo público. Fronteiras é a primeira parte e trata de globalização, muros, dizer e não dizer, explosões verbais e toma como mote para muitos textos a obra do escritor gaúcho Vianna Moog. A segunda parte do volume, chamada O Homem, fala da fábula envolvendo Aquiles e a tartaruga, do novo humanismo, de ação, máquinas desejantes e imagens, fazendo referência ao filme Em águas profundas, de David Lynch. O terceiro grande tema enfocado pelo autor é Ética, a partir das doze tábuas, dos dez mandamentos e da Crítica da razão prática, do filósofo Emmanuel Kant. No desenvolvimento do assunto, Donaldo faz referências aos filmes O invasor, de Beto Brant, Tropa de elite, de José Padilha, e reflete sobre o tema central, desde as cavernas até o episódio terrorista das Torres Gêmeas. Na parte final do volume, intitulada Lugares, o autor discorre sobre o lugar da arte, a terra, carência e utopias, mencionando Ulisses de James Joyce e Cem anos de solidão de García Márquez. Nas páginas finais estão dezenas de referências bibliográficas, para que os leitores possam buscar maiores detalhes sobre os temas tratados e aprofundar, ainda mais, reflexões e conhecimentos sobre os relevantes temas contemporâneos tratados. Realizando costuras inéditas, trançando abordagens diversas e estabelecendo cortes transversais, Donaldo Schüler oferece aos leitores caminhos e possibilidades variadas para o estudo e a compreensão dos temas tratados, temas que fazem parte de nosso cotidiano e que merecem olhares atentos. Fronteiras e Confrontos tem 200 páginas e foi publicado pela Editora Movimento, telefone 3232-0071. Bem ainda que a sexta-feira seja cor de cinza por aqui e temperatura muito baixa, é bom saber que você está bem e que estará retornando as suas aulas hoje. Um ótimo fim de semana para todos nós Quinta-feira, Julho 09, 2009
CONTARDO CALLIGARIS Um novo ideal masculino A eleição de Obama não é só um marco político; está transformando os ideais masculinos VOCÊ SE lembra de Gordon Gekko, o protagonista do filme "Wall Street - Poder e Cobiça", de Oliver Stone, de 1987? Na Nova York dos anos 90, Gekko foi o ídolo dos que tentavam fortuna no mercado financeiro. Graças a Gekko, eles se sentiam autorizados; repetiam, como um mantra: "A ganância é uma coisa boa". Gekko juntava num único ideal o sonho de fazer dinheiro e o desejo de viver perigosamente, conciliando as duas figuras tradicionais do ideal masculino: o provedor e o aventureiro (fora ou acima da lei). Funcionou durante mais de uma década. Uma geração inteira viveu sua cobiça como uma proeza gloriosa: "Olhe, fiz meu primeiro milhão de dólares, e tudo isso na corda bamba. Sou o Philippe Petit das finanças; ele caminhava entre as Torres Gêmeas, enquanto eu avanço no vazio, acima de Wall Street, e logo comprarei para você, mãe, a casa na Flórida que você sempre quis". A corda era bamba mesmo, e, em sua queda, os aventureiros gananciosos à la Gordon Gekko levaram consigo um monte de pequenos provedores "sem ousadia", que contavam com sua poupança para envelhecer tranquilos. Hoje, em Nova York, ser corretor, mesmo multimilionário, não é um ideal praticável -ao contrário, tornou-se um ofício envergonhado. Com o que sonham, então, os meninos e suas mães? Em nossas telas, os super-heróis continuam exibindo seus poderes, e há vampiros e lobisomens fascinantes que, às vezes, são "do bem". Todos eles alimentam a esperança de que nosso cotidiano (insosso?) seja apenas uma identidade secreta atrás da qual escondemos algum bizarro heroísmo; mas, convenhamos, eles são distantes demais, são ideais improváveis. Há policiais, bombeiros e militares, mas (hesitam as mães) eles ganham pouco e correm risco de vida. Há bandidos de sucesso, mas você já imaginou contar para amigas e vizinhas que seu filho está na lista dos dez mais procurados pela polícia federal? Em suma, com o fim de Gekko, falta um ideal masculino que seja distante (como deve ser um ideal), mas mesmo assim alcançável para quem não nasceu em Kripton ou não foi mordido por Drácula - também um ideal que seja honrado e não exponha os meninos a riscos letais. A eleição de Barack Obama à presidência dos EUA não foi só um marco político; está também transformando os ideais masculinos. Obama é um paradigma triunfal (a presidência americana, ainda mais para um negro, é façanha de super-herói), mas, ao mesmo tempo, ele é um homem comum, um "americano tranquilo". Ele não esbraveja, conversa com seus adversários, e já foi um ativista social (generoso, portanto). Em Obama, o esporte extremo do poder se concilia com a vida de família mais tradicional: à noite, jogos de mesa com as crianças e, no domingo, serviço religioso. Quando, duas semanas atrás, Barack e Michelle saíram sozinhos para um jantar romântico, Jon Stewart (do "Daily Show") protestou: "Como a gente vai competir com isso?" e apostrofou Obama: "Pega leve, cara" (Folha, caderno The New York Times de 22 de junho). Stewart tem razão: Obama não é só o homem que muitas mães gostariam que seus meninos fossem mas também o homem com quem elas gostariam de casar. Se esse ideal triunfar na cultura dos EUA (repertório tradicional do heroísmo masculino), ele poderia transformar as aspirações dos meninos pelo mundo afora: saem os justiceiros e os pistoleiros, os astronautas, John Wayne e seus paraquedistas, Burt Lancaster no seu submarino, Robert de Niro e sua roleta-russa, Leonardo di Caprio na proa do Titanic, e entram de vez Gregory Peck de "O Sol é para Todos" ou Sidney Poitier e Spencer Tracy de "Adivinhe Quem Vem para Jantar". O mundo agradeceria. Claro, ninguém é ingênuo: a mudança acarretaria sua parte de opressão, sobretudo para quem não é muito caseiro, mas essa é outra história. Correção da coluna da semana passada. "Ao decidir que o cliente ocasional de prostituta adolescente não viola o artigo 244-A do Estatuto da Criança e do Adolescente, o Superior Tribunal Justiça, em momento algum, afirmou que pagar para manter relação sexual com menores de idade não é crime. "Acontece que o recurso do Ministério Público se baseava só nesse artigo, o qual pune o cafetão, "que explora e submete crianças e adolescentes à prostituição". Peço desculpas e recomendo a leitura da íntegra da nota do STJ: http://www.stj.gov.br/portal-stj/publicacao/engine.wsp?tmp.area=398&tmp.texto=92714
JOSÉ SIMÃO Socuerro! Tá tudo sarneyado! E o tropeção do Lula em Paris? Não foi tropeção. Ele tava dançando o "moonwalk" BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Adorei a frase daquela ex-BBB: "A virgindade tá na cabeça, não no imã". IMÃ? E o hímen ela bota onde? Na porta da geladeira? Rarará! Ela podia abrir um negócio: "Vende-se hímens pra geladeira". Rarará. E essa diretamente da Itália: "Palácio de Berlusconi era um harém, diz prostituta". Então o Berlusconi tem que mudar de nome pra BERLUSCOME. Silvio Berluscome. Berluscome todas! Rarará! E o showneral do Michael Jackson? Ele conseguiu acordar os zumbis: Lionel Ritchie, Mariah Carey e La Toya! Agora dizem que o funeral vai sair em turnê internacional. E dizem que o Michael não vai ser cremado, vai ser reciclado na fábrica da Lego! E o chargista Dalcio diz que o único que não viu o funeral do Michael Jackson foi o próprio Michael Jackson. Que tava lá no céu jogando bola com os anjinhos! E o tropeção do Lula em Paris? Não foi tropeção. Ele tava dançando o "moonwalk". Em homenagem ao Michael Jackson. E o Lula e o Sarkozy juntos? EU ACREDITO EM GNOMOS! E aquela Cúpula do G8 tá sendo chamada de Geme 8! Todo mundo gemendo: tamo sem dinheiro, tamo sem dinheiro! E aí falaram pro Lula em Paris: "bon soir". E ele: "bon soir, bom suar, mas ninguém toma banho". E quando eu morrer eu quero um funeral igual ao da Maica Jéssica. No estádio do Morumbi. Com show da Preta Gil, Ivete Sangalo, Roberto Carlos e Agnaldo Timóteo! E o Kassab vai ter que fechar a 23 de Maio! E diz que o Senado não tá saneado, tá sarneyado. Tá tudo sarneyado! Tá tudo sarneyado! É mole? É mole mas sobe! OU como disse aquele outro: é mole, mas chacoalha pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Minas Gerais foi encontrada a cidade natal do Serra: é a SERRA DO DEUS ME LIVRE! Rarará. Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Bon soir, monsieur": companheira que sua no bustiê. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou! simao@uol.com.br Quarta-feira, Julho 08, 2009
MARCOS CINTRA Reeleição não faz bem à democracia nem à ética De imediato, há que limitar as reeleições no Poder Legislativo e começar a pensar em acabar com a reeleição no Executivo SEMPRE COMBATI a possibilidade de segundos mandatos consecutivos para os cargos Executivos. Se em outros países a reeleição funciona bem, o mesmo não se aplica ao Brasil. Nossas raízes históricas e culturais deveriam nos alertar contra qualquer tentativa de continuidade de poder. O caudilhismo latino-americano é uma ameaça sempre presente em nossas instituições políticas, associativas e até recreativas. A tentação para mandatos sucessivos é irresistível, sobretudo em países como o Brasil, onde predomina o populismo e que conta com uma massa de eleitores com baixo nível de instrução e cultura participativa incipiente. A aprovação do segundo mandato, que rompeu com uma das mais sólidas e duradouras tradições republicanas, foi um desserviço ao país. Foi aberta a porteira, e sabe-se que, "por onde passa um boi, passa a boiada". Agora começamos a pagar a conta dessa insensatez ao nos defrontarmos com a possibilidade de um terceiro mandato para Lula. Não há justificativas para a continuidade de mandatos. Se o governo é bem-sucedido, que ele tenha prosseguimento com a eleição de candidatos governistas. É preciso evitar a personalização do sucesso, pois, em questões de governo, isso é sempre uma conquista coletiva, por maior que seja o carisma e a liderança do chefe. No Brasil de Lula, isso é particularmente verdadeiro se verificarmos que o núcleo do sucesso dessa administração está exatamente na continuidade que foi dada às políticas econômicas e sociais responsáveis e consistentes iniciadas em gestões anteriores. Em vários aspectos pode ter havido aperfeiçoamentos e mudanças de ênfase, mas não houve milagres no Brasil dos últimos anos, somente o amadurecimento das ações públicas e da sociedade. Um corolário da premissa de que um mandato é sempre suficiente é que a política não deve ser profissionalizada. Em outras palavras, quando políticos tornam-se profissionais, os riscos de que eles adquiram vícios ligados ao exercício do poder se tornam enormes. Uma pessoa que abandona sua atividade de formação e se torna um profissional na vida pública passa a depender das sucessivas reeleições para viver. Assim, torna-se capaz de tudo e de qualquer coisa para se eleger. Só assim essas pessoas sobrevivem política e economicamente. Aí está a origem do populismo, das negociatas, dos acordos financeiros, do tráfico de influência, das nebulosas razões dos financiamentos de campanha e da corrupção. Não é possível negar que há indivíduos vocacionados para a atividade pública nem que existam políticos sérios e bem-intencionados. Mas essas pessoas poderiam continuar sendo úteis à sociedade mesmo com o instituto do mandato único. Nada impede que participem de pleitos eleitorais sucessivos, mas em cargos diferentes, de forma a evitar a lassidão de princípios e de comportamentos que a permanência duradoura no poder quase sempre produz. A reeleição não faz bem à democracia presidencialista. Nem a primeira e muito menos outras seguintes. Por essas razões é que defendo apenas um mandato. Mas não apenas no Executivo. Defendo o fim de reeleições em todos os Poderes, inclusive no Legislativo e no Judiciário. Mandatos vitalícios e parlamentares que permanecem interminavelmente em suas cadeiras legislativas precisam ser urgentemente questionados. Afinal, por que uma pessoa precisaria de décadas para trazer sua contribuição à sociedade? O descalabro dos atos secretos no Senado, além da enxurrada de escândalos que abalaram a credibilidade do Congresso Nacional nos últimos anos, atestam essa urgente necessidade. Mandatos sucessivos fazem nossos parlamentares sentirem-se confortáveis demais em suas cadeiras, confiantes demais na impunidade que o poder ainda concede a detentores de cargos públicos no Brasil. De imediato, há que limitar as reeleições no Poder Legislativo e começar a pensar em acabar com a reeleição no Executivo. MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 63, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas, é secretário municipal do Trabalho de São Paulo.
08 de julho de 2009 N° 16024 - MARTHA MEDEIROS O escândalo da sinceridade Pode parecer apenas mais uma frase de efeito, mas eu a tomo como filosófica. É do dramaturgo, ator e escritor Domingos Oliveira, a quem tanto admiro. Ele diz: “A única coisa que ainda escandaliza hoje em dia é a sinceridade”. Abro o jornal e leio sobre supostos escândalos políticos (federais, estaduais) que me mantêm apática, pois é tanta enrolação, disputa de poder e trocas de favores, que o máximo que consigo sentir é desprezo e desinteresse. Escandalizada, não fico. O escândalo pressupõe uma novidade. E, hoje, a única novidade está em ser sincero. O vice-presidente José Alencar, em função de suas inúmeras cirurgias, passou a ser a avis rara da política nacional, conquistando simpatia não por seus atributos profissionais, que já nem costumam ser avaliados, mas por ser um sujeito que parece real. A sinceridade não é anestésica, não estimula reticências, não teatraliza as relações humanas, não debocha da credulidade alheia, não falsifica impressões. A sinceridade é de vanguarda. É tão soberana, que emudece a todos. É tão inesperada, que impede retaliações. A sinceridade é o ponto final de qualquer discussão. Quer deixar alguém perplexo? Fale a verdade. Aja com verdade. Saindo da esfera política e passando para o reino do entretenimento: o velório de Michael Jackson se transformou num show por uma questão de coerência com a vida espetaculosa do cantor. Tudo relacionado a Michael virava um fenômeno midiático. O que ele tinha de mais sincero era seu extraordinário talento musical, que nos últimos tempos foi ofuscado por um rosto de mentira e uma vida pateticamente construída em um parque de diversões. Os fãs de Michael Jackson estão sofrendo de verdade? Não se sofre pela ausência daqueles com quem não tivemos relação pessoal. Sentimos compaixão, sentimos respeito pela trajetória artística, homenageamos quem fez a trilha sonora de uma fase da nossa vida, mas sofrimento mesmo devem ter sentido aqueles que adquiriram ingressos para o funeral e depois tentaram revendê-los pela internet por um valor superfaturado. São os cambistas da tristeza showbiz. A dramatização de certas atitudes virou a normalidade operante. Ninguém mais acredita no que os outros dizem, tenta-se apenas ler as entrelinhas, que é por onde pode escapar algo verdadeiro. Por outro lado, enquanto tantos se esforçam para parecer o que não são, as pessoas consideradas sábias admitem serenamente que de nada sabem. O “não sei” passou a ser uma comovente surpresa. Os melhores filmes, as melhores peças, os melhores livros tratam sobre a nossa ignorância, não sobre a nossa genialidade. Admitir fraquezas, reconhecer erros, viver de acordo com a própria essência, buscar ajuda nas horas difíceis, voltar atrás, sentir apenas o que se sente de fato, valorizar a discrição, conviver bem com a relatividade de tudo. Extra, extra! Eis aí os escândalos deste novo século. Ótima quarta-feira, aproveite o dia Terça-feira, Julho 07, 2009
RUBEM ALVES Explicando política às crianças No Brasil, são muitos os partidos que, no frigir dos ovos, se reduzem a dois: o das raposas e o das galinhas IMAGINO QUE AS crianças devam ficar muito confusas com as notícias da política. Resolvi, então, preparar um pequena cartilha que as ajudará a entender essa coisa misteriosa que é o centro da vida nacional e que, por vezes, quando convém aparece e quando não convém, desaparece... 1. Somos uma democracia. A democracia é o melhor sistema político. É o melhor porque nele, ao contrário das ditaduras, é o povo que toma as decisões; 2. Em Atenas, berço da democracia, era fácil consultar a vontade do povo. Os cidadãos se reuniam numa praça e tomavam as decisões pelo voto. Mas no Brasil são milhares de cidades, espalhadas por milhares de quilômetros e os cidadãos são milhões. Não podemos fazer uma democracia como a de Atenas. Esse problema foi resolvido de forma engenhosa: os cidadãos, milhões, escolhem por meio de votos uns poucos que irão representá-los. O Congresso é a nossa Atenas...; 3. Os representantes do povo, eleitos pelos votos dos cidadãos -vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, presidente-, são pessoas que abriram mão dos seus interesses e passaram a cuidar dos interesses do povo; 4. É assim que dizem as teorias. Na prática, não é bem assim...; 5. No Brasil, são muitos os partidos que, no frigir dos ovos, se reduzem a dois: o partido das raposas e o partido das galinhas; 6. As raposas, devotas de São Francisco, sabem que é dando que se recebe. Assim, movidas por esse ideal espiritual, elas dão milho para as galinhas...; 7. As galinhas acreditam nas boas intenções das raposas e tomam esse gesto de dar milho como expressão de amizade. A abundância do milho as faz confiar nas raposas. E, como expressão da sua confiança nascida do milho, elas elegem as raposas como suas representantes. Assim, na democracia brasileira, as raposas representam as galinhas; 8. Eleitas por voto democrático, às raposas é dado o direito de fazer as leis que regerão a vida das galinhas e das raposas...; 9. As leis que regem o comportamento das raposas não são as mesmas das galinhas. Sendo representantes do povo, precisam de proteção especial. Essa proteção tem o nome de "privilégios", isto é, leis que se aplicam só a elas; 10. Privilégio é assim: raposa julga galinha. Mas galinha não julga raposa. Raposa julga raposa. Logo, raposa absolve raposa; 11. "Todos os cidadãos são livres e têm o direito de exercer a sua liberdade." As galinhas são livres para serem vegetarianas e têm o direito de comer milho. As raposas são carnívoras e livres para comer galinhas; 12. A vontade das galinhas, ainda que de todas elas, não tem valia. Vontade de galinha solitária só serve para escolher suas representantes; 13. Permanece a sabedoria secular de Santo Agostinho, aqui em linguagem brasileira: "Tudo começa com uma quadrilha de tipos fora da lei, criminosos, ladrões, corruptos, doleiros, burladores do fisco, mafiosos, mentirosos, traficantes. Se essa quadrilha de criminosos se expande, aumenta em número, toma posse de lugares, de cargos, de ministérios, da presidência de empresas e fica poderosa ao ponto de dominar e intimidar os cidadãos -e estabelecendo suas leis sobre como repartir a corrupção-, ela deixa de ser chamada quadrilha e passa a ser chamada de Estado. Não por ter-se tornado justa, mas porque aos seus crimes se agregou a impunidade". 14.Portanto, galinhas do Brasil! Acordai! Uni-vos contra as raposas! Nota: O texto inteiro de "Explicando política às crianças" se encontra em www.rubemalves.com.br. rubema-alves@uol.com.br
07 de julho de 2009 N° 16023 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA Receita de domingo Desculpem se hoje é terça-feira, pois vou responder a uma pergunta de dois dias atrás, o que talvez não importe tanto, pois cada hora pode ser uma brevíssima eternidade. Uma leitora escreveu querendo saber qual é a minha ideia sobre um domingo perfeito. A resposta comporta um carrossel de probabilidades. Razão bastante para que me limite ao resumo do que não pode faltar. Antes de tudo, uma branda sensação de paz. Um domingo deve ser uma síntese de serenidade, um encontro com o que de mais íntimo temos, um resumo de nossos sonhos. Mas um domingo deve ser também um reencontro com a música. Já nem falo da clássica, mas as pessoas deveriam reservar ao menos meia hora para ouvir Felicità, Crazy, The Way you Look Tonight, Contigo em la Distancia, Stella by Starlight, Lara’s Theme, Eternally, mais tudo o que lhe sugerissem a fantasia e a imaginação. Essas melodias fazem bem à alma e não têm nenhuma contraindicação. O que mais se espera de um domingo? Eu me atreveria a declarar que livros. Há pessoas que são felizes e não sabem. Não leram ainda Memórias Póstumas de Brás Cubas e podem guardar um lugar para elas em seu futuro. Para deixar as coisas bem claras, estou falando de um romance de Machado de Assis que poderia figurar como obra-prima em qualquer literatura do universo. E o que dizer das artes plásticas? Não é preciso percorrer os maiores museus do mundo para ter presentes as imagens da Vênus de Milo, da Vitória de Samotrácia ou da Mona Lisa. Já nem falo de As Meninas, de todo o Van Gogh, de Georges de la Tour ou de uma única, solitária bailarina de Degas. Se ainda houver tempo, recomendaria uma revisitação de cenas de Luzes da Cidade, Cidadão Kane, O Conformista, Nós que nos Amávamos Tanto, daquele imenso Amarcord, ou qualquer dos filmes de Fellini, sem esquecer naturalmente A Estrada da Vida. É assim minha receita de domingo. Que não estará contudo jamais completa sem uma reflexão sobre quem somos e o que queremos. Um diálogo íntimo que tente responder ao menos de que profundezas viemos e qual será nosso incerto destino. Ótima terça-feira, aproveite o dia e para quem está de folga uma folga merecida. Segunda-feira, Julho 06, 2009
CHICO FELITTI - DA REPORTAGEM LOCAL Amiga é coisa pra difamar? Fofocas, intrigas e traições entre amigas fazem parte do cotidiano feminino; meninas são mais cruéis entre si ou isso é preconceito? "Pelo menos meu ficante não pegou minha prima!", ouviu Serena*, 13, de sua melhor amiga, no mês passado. Boa parte da escola, em Caçapava (SP), também escutou a frase, dita ao microfone do karaokê de um festival estudantil. Serena chorou na hora, mas, hoje, admite ter tido alguma culpa: minutos antes da revelação, havia dito à amiga que sua imitação de Ivete Sangalo em "Sorte Grande" (aquela da "poeeeira") havia sido péssima. "Parece que sou um ímã de traíras!", reclama. "Se bem que toda as meninas são um pouco assim." Com essa ponderação, voltou às boas com a amiga. Casos como esse, de traições e brigas entre amigas, são corriqueiros em relatos de garotas e são sucesso na ficção. Vide "Gossip Girl", que já vendeu mais de 4 milhões de livros ao redor do mundo e virou série de TV, mostrando a vida da "menina-fofoca" do título, que usa a internet, o celular e a sua identidade secreta para divulgar viralmente histórias de traição da turma -seu blog vira campeão de acessos. Nos EUA, versões romantizadas da crueldade de moças contra suas semelhantes dividem vitrines de livrarias com obras de autoajuda que servem como "antídoto" para o disse-que-disse da vida real. Títulos como "Odd Girl Out", que significa algo como "fora, garota diferente" e que ficou entre os mais vendidos do "New York Times" por três meses, ensinam como se livrar da vilania de amigas. Baixa estima "Enquanto os meninos batem uns nos outros, as meninas provocam outras lesões, invisíveis, como acabar com reputações", afirma Patrícia Guillon, psicóloga da PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica). Guillon analisou as agressões femininas em colégios brasileiros e aponta que é mais difícil escapar da violência relacional, que rola entre amigas. "A violência relacional é uma punição gratuita que uma menina impõe à outra. Quem não tem comportamento igual ao do grupo vai passar de amiga a objeto de chacota", diz. Segundo ela, são problemas de autoestima que fazem garotas se maltratarem sorrindo e, às vezes, sem consciência. Já os problemas das vítimas podem ser mais externos do que os de autoestima. Que o diga Blair*, 16, de Natal (RN). Quando a melhor amiga dela terminou o namoro, passou a atormentá-la. "Essa "mina" cismava que eu dava em cima do moleque, mas juro que não!". Num acesso de raiva, a colega enciumada acessou o fotolog de Blair, imprimiu três fotos em que ela aparecia fumando e bebendo e colou-as pela escola. A coordenadora viu e chamou a mãe de Blair. "Não deu em nada, porque as fotos eram idiotas, que nem essa "mina", que devia estar de TPM." Só que não dá para jogar a culpa de todos os atos nos hormônios, segundo o hebiatra (médico especializado em adolescentes) Maurício Lima, do Hospital das Clínicas de SP. "Hormônios como o estrógeno e a progesterona mudam bastante o humor das meninas na puberdade, mais do que acontece com os meninos. Mas não enlouquecem ninguém." Cai aí a teoria de que a falsidade feminina vem do berçário. Maldade Katie*, 18 anos e dois namorados roubados por "amigas", não culpa as colegas. "Se elas fizeram cachorrada, eles foram ainda piores, porque deveriam gostar mais de mim!." Em um dos casos, inclusive, a amiga abriu o jogo e falou sobre a paixão adúltera, chorando. O então namorado de Katie nada disse nem a atendeu quando ela ligou -para xingar. "Meninos também sabem ser mentirosos quando querem." Foi o que constatou o sociólogo Noel Card, da Universidade do Arizona (EUA). Ele cruzou os resultados de 148 estudos sobre violência realizados com 73 mil teens dos EUA, nos últimos dez anos, e descobriu que... garotos fofocam. Eles têm uma tendência duas vezes maior de partir para a violência física, se comparados às meninas, mas também sabem usar modos "mais sutis", como mentir para os amigos. "Se não fosse de mau gosto comparar a um jogo, eu diria que as equipes estão empatadas. É preciso acabar com a imagem de que meninas nascem más", disse à Folha. Se a maldade velada fosse ligada aos cromossomos XX, uma escola só de meninos não deveria ter fofoca, certo? "Fofoca aqui tem de monte! Os caras sempre inventam umas histórias uns dos outros", diz Dan*, 15, que estuda em um renomado colégio masculino. * Todos os nomes foram trocados por personagens dos livros "Gossip Girl"
MELCHIADES FILHO Campo dos sonhos BRASÍLIA - Da rápida aclamação de Dilma Rousseff à invenção de Ciro Gomes como candidato em São Paulo, as novidades mais importantes e surpreendentes do PT neste ano pré-eleitoral passam pela reconstrução do grupo que comandou o partido com mão-de-ferro no primeiro mandato de Lula e saiu estilhaçado do mensalão. Núcleo do extinto Campo Majoritário, a corrente Construindo um Novo Brasil se fortaleceu dentro da legenda e prepara uma aliança com alas que se desgarraram em 2005. O objetivo é assegurar a presidência da sigla em novembro e o controle da política interna no pós-Lula. Para essa coalizão, porém, as eleições de 2010 atrapalham. Ela não tem nomes competitivos para oferecer às principais votações (Presidência e governo de São Paulo). Os caciques caíram nos escândalos. Não surgiram novas lideranças. Daí a boa vontade desses petistas com o "dedazo" de Lula na corrida pelo Planalto. Dilma nunca militou dentro do partido. Uma vitória dela não ameaçará imediatamente a reconstrução do Campo Majoritário. Obedece à mesma lógica a ideia de transplantar Ciro Gomes. José Dirceu & Cia. sabem que vencer os tucanos em São Paulo em 2010 será quase impossível, mas sabem que a campanha tem o potencial de catapultar um novo nome para a eleição à prefeitura da capital em 2012. Apavora esse grupo a possibilidade de que Lula faça essa escolha -como fez com Marta Suplicy em 1998 (derrotada para o governo, ela levou a prefeitura em 2000). E, pior, que o presidente escolha, desta vez, um candidato petista que não tenha se "reconciliado" com o mensalão. Um Fernando Haddad (ministro da Educação), por exemplo. Por isso o lançamento afoito dos nomes do prefeito de Osasco e do ex-governador do Ceará. Se perder, a Emidio de Souza ou a Ciro só restará voltar pro seu quadrado. Já o novo Campo terá dois anos e céu aberto para consolidar uma candidatura de confiança para 2012. melchiades.filho@grupofolha.com.br Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana Domingo, Julho 05, 2009
Fabrício Carpinejar UM MINUTO Os pais rezavam antes do almoço e da janta. E nos obrigavam a acompanhar. Restava engolir a fumaça e adormecer a pele na nuvem cálida de temperos. A comida esfriava à toa. Eu me irritava com a demora. Empunhava o garfo para o ataque e tinha que suspender os movimentos selvagens com "Um minutinho, meu filho, a oração..." Ave-Maria era um couvert artístico em casa. Uma entrada inofensiva de verduras. Desesperador quando o pai estava inspirado e cumpria um sermão ao invés de somente acenar para Deus. Na pressa semanal, escutava nitidamente apenas seu sinal da cruz. Durante sábados e domingos, o pai exagerava no discurso diante da possibilidade da sesta e da volúpia do quarto trancado com a mamãe. O sexo o tornava messiânico. O sexo o impelia a acreditar na vida eterna. Um gemido levava a outro. Ele agradecia tanto que eu perdia o apetite. Comer sempre foi um adiamento. Arrebentei a toalha de mesa pelo controle sufocado dos dedos. Puxava os fios para me distrair. Do meu assento, a madeira da mesa já aparecia contornando o prato. Às vezes, ele pedia aos filhos para conduzir a reza e mostrar união familiar. Engasgava, soluçava, tropeçava no colarinho apertado da escola. Lembro que fiquei de castigo ao saudar o campeonato gaúcho do Inter. Gremista, enfureceu-se: "Futebol não é religião". Imagina se fosse... Achava uma ironia o agradecimento divino ao servirem vagem e bife de fígado. Agradecer aquilo só podia ser uma humilhação. Nestes momentos, entrava em ressaca gustativa e torcia por um terremoto, o soar da campainha, o toque do telefone. Ou que o timbre paterno virasse a Voz do Brasil com uma hora ininterrupta de notícias. A saudade apressa túmulos, é o que penso agora. Não partilho de crenças católicas, abandonei esse hábito aos oito anos com o divórcio dos pais, sofro de ansiedade, mas não consigo interromper mais o minuto de silêncio da comida. Prato feito, hesito, espero a oração em mim. Dobro as mãos como um guardanapo. Espio para cada um de meus filhos como quem limpa o acúmulo da infância da garganta. Parece gripe, mal-estar. Espaço a respiração e giro o rosto para qualquer premonição de som: o vento chiando na janela, o relógio martelando seus pássaros, os latidos dos cachorros. Atento como porta de igreja. Certo como um mendigo na escada. Meus talheres permanecem bentos, religiosos do suspiro.
Roda da vida Você está satisfeita com sua vida em todos os aspectos? Sente-se bem nos diferentes papéis que desempenha ou há áreas de frustração? Aqui você vai conhecer um instrumento que pode ajudá-la a conseguir mais equilíbrio e ainda encontrar a felicidade Direção de arte • Camilla Sola Texto • Thays Sant’Ana - Ilustração • Adriana Alves Mulher, profissional, mãe, esposa, filha, cidadã, amiga... São tantas mulheres que vivem em cada uma de nós que fica difícil administrar prioridades. Isso sem falar do imperativo de cuidar do corpo, da mente e do espírito. Nessa vida de equilibrista, é quase inevitável que algum pedaço acabe sofrendo, esquecido em detrimento de outro. Há momentos, é verdade, em que o foco deve se voltar a determinado aspecto, mas que isso não aconteça ao acaso, pois você inteira, em todo o seu ser, precisa ser olhada e cuidada. Nao se trata de estar no controle absoluto — isso não é possível, nem desejável. Mas sim de manter abertos os canais com os próprios sentimentos, o que representa um ganho na busca pela felicidade. Quem pretende gerenciar melhor todos os papéis, antes de tudo, precisa de um diagnóstico da própria situação, um raio X do conjunto. Foi pensando nisso que a Robert Wong Consultoria Executiva, empresa que atua na área de recrutamento e desenvolvimento humano, criou a Roda do Equilíbrio, ferramenta de autoconhecimento idealizada pelo consultor André Alfaya, de São Paulo. Ela ajuda a enxergar o grau de satisfação diante das escolhas diárias, o que é básico para orientar novas decisões. O melhor de tudo é que esse mapa da mina pode servir a qualquer uma de nós. Robert Wong, sócio-presidente da empresa, aposta no autoconhecimento como chave da transformação — quem se conhece de fato sabe reconhecer e tirar proveito das próprias potencialidades, corrigindo as deficiências. Assim, fica mais fácil estabelecer e perseguir metas que fazem sentido. Em contato com a própria essência, conquistamos liberdade para escolher nossos caminhos. Por outro lado, quem não sabe de si o bastante desperdiça energia direcionando-a para campos que não tocam seus verdadeiros interesses e talentos. “Se você não sabe para onde está indo, qualquer lugar serve. A Roda permite você encontrar seus caminhos” Robert Wong Faça o seu jogo A Roda é dividida em 11 áreas primárias, que constituem o grupo de necessidades comuns a praticamente todas nós. Cada divisão representa um aspecto de nossa existência: espiritual, emocional, física, intelectual, financeira, profissional, lazer, relacionamento íntimo, relacionamento social, relacionamento familiar e comprometimento com o meio ambiente.
O jogo começa com um exercício de reflexão baseado na pergunta “Quem sou eu?”. Pense no assunto e, com alguns conceitos sobre si mesma em mente, passe para a primeira etapa: observe uma a uma cada divisão (na figura, elas lembram fatias de pizza), atribuindo nota de 0 a 10, dependendo do grau de satisfação que sente naquele aspecto de sua vida. Pinte com lápis de cor, em cada fatia, as faixas — começando da faixa 1 — até atingir a nota que você daria a seu desempenho naquele aspecto. Antes de analisar o resultado, faça um segundo exercício, perguntando-se “Onde estou?”. A Roda colorida sintetiza seu olhar sobre a vida. É um retrato de seu momento e de como você está administrando a multiplicidade de papéis que lhe cabe — essa informação é decisiva no seu autoconhecimento e uma base segura para orientar suas decisões. Avalie se a cor está distribuída de forma homogênea por todas as áreas e se ela cobre um bom volume de cada fatia. Porém, pouca cor e manchas irregulares — mostrando que você anda infeliz com vários aspectos de sua vida — não devem desanimá-la. Encare esse quadro como oportunidade de grandes mudanças. O retrato que a Roda lhe oferece não traz respostas, apenas aponta eventuais desequilíbrios para orientar mudanças em cada setor, visando tornar o dia-a-dia mais coerente com seus desejos. Com o desenho colorido em mãos, trace um plano. “A diferença entre um sonho e uma meta está na data. Quando estabelecemos metas, fazemos acontecer”, afirma Alfaya, que só acredita em mudança com planejamento. E o segredo de um bom planejamento, ensina o consultor, está em responder a três perguntas: o que eu quero? Por que eu quero? Como faço para chegar lá? Assim, pode-se estabelecer metas objetivas e detalhadas. “Depois de colorir a Roda, você vai ter um retrato da sua atitude de vida em vários aspectos” André Alfaya Hora da virada Prazos têm de ser possíveis para não gerar frustração. Por exemplo, se a Roda mostrar que você está insatisfeita com a sua formação intelectual, não se proponha apenas a estudar. Procure identificar os temas que deseja aprofundar, o motivo que a leva a buscar esse conhecimento, que cursos, livros e mestres podem orientá-la e quanto tempo precisa para dominar o assunto. Não queira mudar tudo da noite para o dia. É hora de estabelecer prioridades. Trabalhe um aspecto por vez, começando pelo que pode repercutir sobre outras áreas, o que necessariamente não corresponde ao ponto com que você está insatisfeita. Vamos supor que se sinta desmotivada no trabalho. A melhor estratégia pode não ser atuar sobre esse setor. Se a situação for provocada por um descuido com a saúde física, por exemplo noites de insônia, aí pode estar a causa e é essa área que merece investigação. É importante, portanto, fazer associações entre as diversas fatias da Roda. Antes de pegar o lápis para colorir sua Roda, um último conselho de Wong: balanceamento perfeito não existe, e os eventuais desvios do ideal fazem parte do fluxo da vida. Eles nos permitem vivenciar experiências fundamentais no processo de desenvolvimento pessoal. Sábado, Julho 04, 2009
05 de julho de 2009 N° 16021 - MARTHA MEDEIROS Achamos que sabemos Outro dia assisti a um filme no DVD do qual nunca tinha ouvido falar – talvez porque nem chegou a passar nos cinemas. Chama-se Vida de Casado, um drama enxuto, com apenas 90 minutos de duração e jeito de clássico. Gostei bastante. Um homem casado há muitos anos se apaixona por uma bela garota e com ela quer viver, mas não sabe como terminar seu casamento sem que isso humilhe a venerável esposa, então decide que é melhor matá-la para que ela não sofra: não é uma solução amorosa? Não tem o brilhantismo de um Woody Allen, mas o roteiro possui certo parentesco com Crimes e Pecados. Se fosse possível resumir o filme numa única frase, seria: “Ninguém sabe o que está se passando pela cabeça da pessoa que está dormindo ao nosso lado”. Será que nós sabemos, de verdade, o que acontece a nossa volta? Achamos que sabemos. Achamos que sabemos quais são as ambições de nossos filhos, o que eles planejam para suas vidas, esquecendo que a complexidade humana também é atributo dos que nasceram do nosso ventre, e que, por mais íntimos e abertos que eles sejam conosco, jamais teremos noção exata de seus desejos mais secretos. Achamos que sabemos o que o amor da nossa vida sente por nós, baseados em suas declarações afetuosas, seus olhares ternos, suas gentilezas intermináveis e sua permanência, mas isso diz tudo mesmo? Nem sempre temos conhecimento das carências mais profundas daquele que vive sob o nosso teto, e não porque ele esteja sonegando alguns de seus sentimentos, mas porque nem ele consegue explicar para si mesmo o que lhe dói e o que ainda lhe falta. Achamos que sabemos quais são as melhores escolhas para nossa vida, e é verdade que alguma intuição temos mesmo, mas certeza, nenhuma. Achamos que sabemos como será envelhecer, como será ter consciência de que se está vivendo os últimos anos que nos restam, como será perder a rigidez e a saúde do corpo, achamos que sabemos como se deve enfrentar tudo isso, mas que susto levaremos quando chegar a hora. Achamos que sabemos o que pensam as pessoas que nos fazem confidências, aceitamos cada palavra dita e nos sentimos honrados pelas informações recebidas, sem levar em conta que muito do que está sendo dito pode ser da boca pra fora, uma encenação que pretende justamente mascarar a verdade, aquela verdade que só sobrevive no silêncio de cada um. Achamos que sabemos decodificar sinais, perceber humores, adivinhar pensamentos, e às vezes acertamos, mas erramos tanto. Achamos que sabemos o que as pessoas pensam de nós. Achamos que sabemos amar, achamos que sabemos conviver e achamos que sabemos quem de fato somos, até que somos pegos de surpresa por nossas próprias reações. Achar é o mais longe que podemos ir nesse universo repleto de segredos, sussurros, incompreensões, traumas, sombras, urgências, saudades, desordens emocionais, sentimentos velados, todas essas abstrações que não podemos tocar, pegar nem compreender com exatidão. Mas nos conforta achar que sabemos. Um excelente domingo, especialmente para você minha amiga.
Cláudio de Moura Castro Os meninos-lobo "Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo" Ilustração Atômica Studio No velho conto de Rudyard Kipling Mogli, o Menino-Lobo, o autor descreve uma criança que, adotada por uma loba, cresce sem jamais haver usado uma só palavra humana, até ser encontrada e se integrar à sociedade. O conto é atraente, mas cientificamente absurdo. Porém, houve outros casos, supostamente reais, de crianças criadas por animais. E também casos reais (até recentes) de crianças que cresceram isoladas e sem oportunidades de aprender a falar.
Faz tempo, meninos-lobo e outros jovens criados sem interação humana despertaram o interesse da psicologia cognitiva e da linguística. A razão é que seriam um experimento natural que permitiria responder a uma pergunta crucial: esses jovens, sem conhecer palavras, poderiam pensar como os demais humanos? A questão em pauta era decidir se pensamos porque temos palavras ou se seria possível pensar sem elas. Como os meninos-lobo não conheciam palavras, se podiam pensar, teria de ser sem elas. Nos diferentes casos de crianças criadas em isolamento, ficou clara a enorme dificuldade de ajustamento que elas encontraram ao ser reabsorvidas pela sociedade. Muitas jamais se ajustaram, fosse pelo trauma do isolamento, fosse pela impossibilidade de pensar humanamente sem palavras. Mas o fato é que não desenvolveram um raciocínio (abstrato) classicamente humano. O interesse pelos meninos-lobo feneceu. Mas se aprendeu muito desde então, e hoje não se acredita que o pensamento sem palavras seja possível – pelo menos, o pensamento simbólico que é a marca dos seres humanos. Ou seja, Mogli não seria capaz de pensar. "Vivemos em um mundo de palavras", diz o celebrado antropólogo Richard Leakey. "Nossos pensamentos, o mundo de nossa imaginação, nossas comunicações e nossa rica cultura são tecidos nos teares da linguagem... A linguagem é o nosso meio... É a linguagem que separa os humanos do resto da natureza." Para o neuropaleontólogo Harry Jerison, precisamos de um cérebro grande (três vezes maior do que o de outros primatas) para lidar com as exigências da linguagem. Portanto, se pensamos com palavras e com as conexões entre elas, a nossa capacidade de usar palavras tem muito a ver com a nossa capacidade de pensar. Dito de outra forma, pensar bem é o resultado de saber lidar com palavras e com a sintaxe que conecta uma com a outra. O psicólogo Howard Gardner, com sua tese sobre as múltiplas inteligências, talvez diga que Garrincha tinha uma "inteligência futebolística" que não transitava por palavras. Mas grande parte do nosso mundo moderno requer a inteligência que se estrutura por intermédio das palavras. Quem não aprendeu bem a usar palavras não sabe pensar. No limite, quem sabe poucas palavras ou as usa mal tem um pensamento encolhido. Talvez veredicto mais brutal sobre o assunto tenha sido oferecido pelo filósofo Ludwig Wittgenstein: "Os limites da minha linguagem são também os limites do meu pensamento". Simplificando um pouco, o bem pensar quase que se confunde com a competência de bem usar as palavras. Nesse particular não temos dúvidas: a educação tem muitíssimo a ver com o desenvolvimento da nossa capacidade de usar a linguagem. Portanto, o bom ensino tem como alvo número 1 a competência linguística. Pelos testes do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), na 4ª série 50% dos brasileiros são funcionalmente analfabetos. Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), a capacidade linguística do aluno brasileiro corresponde à de um europeu com quatro anos a menos de escolaridade. Sendo assim, o nosso processo educativo deve se preocupar centralmente com as falhas na capacidade de compreensão e expressão verbal dos alunos. Ao estudar a Inconfidência Mineira, a teoria da evolução das espécies ou os afluentes do Amazonas, o aprendizado mais importante se dá no manejo da língua. É ler com fluência e entender o que está escrito. É expressar-se por escrito com precisão e elegância. É transitar na relação rigorosa entre palavras e significados. No conto, Mogli se ajustou à vida civilizada. Infelizmente para nós, Kipling estava cientificamente errado. Nossa juventude estará mal preparada para a sociedade civilizada se insistirmos em uma educação que produz uma competência linguística pouco melhor do que a de meninos-lobo. Claudio de Moura Castro é economista Sexta-feira, Julho 03, 2009
MEUS FILHOS TÊM PASSADO MAIS DO QUE FUTURO Fabrício Carpinejar Jogar futebol dentro de casa é um hábito do meu filho. A bola de pano fica cobrindo seu tênis, reforçando o cadarço. Toda porta se converte em uma goleira. É natural que as esculturas da sala estejam quebradas. A namoradeira na janela foi decapitada. São Francisco de Assis de madeira perdeu seus amigos pássaros. Um pescador viu sua rede e seus peixes levantarem asas. A baiana não segurou o vaso na cabeça. O flautista da Ásia acabou partido em dois. A sala é um aprumo, uma beleza, com móveis feitos sob medida. O que fazer com as peças danificadas? Não coloquei nenhuma escultura fora. Colamos os objetos em longa entrega. Chegamos a pintar de novo, escová-los com verniz, exercendo o papel de cirurgião da infância. Meus dedos estão grudados aos dedos do meu filho de tanto que passeamos pela cola bonder. A textura plastificada não me enerva, é um esmalte transparente da cumplicidade. Coço a mão com impagável orgulho. Como um artesão depois de uma longa trama de cordas. Como um oleiro depois de girar o barro e encontrar as curvas da estrada de Caxias do Sul. Não posso ensinar aos filhos a não errar. O que me cabe é ajudá-los a restaurar, a dar a volta por cima, a cuidar do estrago e procurar a dignidade da emenda. Há uma obsessão dos pais de fazer avançar a qualquer custo. De ir para frente, de pular de série, de alcançar a excelência das notas, de profissionalizar o tempo e ocupar os horários para não tropeçar em bobagens. Educar é mandar, ser educado é aceitar ordens. Tudo é sempre uma única vez, movida a frases sentenciosas “Não irei repetir” ou “Presta atenção”. Quantos meninos e meninas se deprimem por não encontrar uma segunda chance na família? Penso o contrário. Sinto o contrário. Compreendo que a criança não poderá voar se não andar primeiro. Mais do que nunca, precisa saber voltar atrás. Ter passado mais do que futuro. Isso significa suportar a frustração, reagir quando as coisas não acontecem como esperadas. Contar com tristeza suficiente para sair da tristeza e se levantar. Mimar é não permitir que nada se quebre. Amar, de outro modo, é reconstituir os estilhaços. Não penalizar por uma nota ruim com castigo e privação dos prazeres, mas dar a consciência de que o conceito é provisório e que é natural melhorar. Estimular o pequeno com a própria dificuldade. Recompor o que foi estragado, reconstituir um desenho rasgado, remontar os escombros e não se envergonhar pela demora. Deixo as esculturas mancas na sala. Não me importo como as visitas vão reagir ou se passarão a me observar com desconfiança. Os defeitos permanecem expostos. A vida é para ser usada.
Fabrício Carpinejar PERDÃO SENSUAL Matava o tempo antes de pegar a estrada, com um copo de café gemendo em minha boca. No canto da cafeteria, uma moça escrevia no seu computador. Buscava um pensamento fora e se vidrava novamente na tela, obcecada a encontrar a frase melódica antes de mim. Quando ela foi se espreguiçar, eu vi. Vi o luzeiro de sua pele por uma fechadura minúscula. Sua camiseta básica estava rasgada debaixo dos braços. Um pequeno furo. Tolo e miserável corte. Pela pilha de casacos e blusões na cadeira ao lado, ela nem deveria ter notado. O inverno tem a mania de sonegar a penúria do pano. Somos um excesso de andares de golas de manhãzinha e um térreo na hora do almoço. Na rua, as pessoas carregam seus sobretudos como engradados de cervejas. Ela não me viu. Mas eu insisti em olhar. Queria que ela se espreguiçasse de novo. Quem sabe era o primeiro rasgo de seu dia. Um rasgo involuntário. Sem campainha, sem som de tecido, sem aquele anzol zunindo na água para avisar os peixes da captura. Quase me levantei para avisá-la; eu me contive. Ao confirmar o sinal com os dedos, ela deixaria de usar a camisa. Ou guardaria em uma cesta de vime até encontrar uma folga para costurar. Não queria que fizesse isso. Não agora. Ela poderia sentir vergonha da mínima gastura na blusa. Gastura da vida. Talvez fizesse um comício, um protesto, iria correr ao banheiro. Pediria desculpa a todos, a si, aceitaria que é um desleixo imperdoável. Um descuido fatal de sua beleza. Mas eu fiquei apaixonado pelo bocejo do fio. Tomado de uma compaixão sensual. Excitado com a ternura. Não há nada mais excitante do que a ternura. A ternura incontrolável do primeiro amor. Do último amor. Beijar os olhos e morder levemente os cílios. Puxar os fios dos olhos. Era uma fresta de sua nudez. Uma mulher se produz tanto para sair de casa que aquilo significava um descanso, um domingo repentino, que a tornava ainda mais bonita. Mais humana, mais falível, mais acessível. Transportada acidentalmente para seu quarto. Aquele corte desatento criava intimidade. Retribuía infâncias. Sua roupa sorria desajeitada para mim. Gerava confiança de cotovelos e rostos próximos. Tinha vontade de confessar todos os meus pecados e espantar os insetos da insônia e me curar das noites mal dormidas. Um rasgo na camisa feminina é o botão que falta ao homem. Ela nos perdoava da aparência.
Michael Jackson Das milhões de imagens de tua carreira multimídia pós-moderna, Michael Jackson, acho que vamos ficar gostando e lembrando mais das primeiras, aquelas que mostram o saltitante e dançante menino de cinco anos, olhos e sorriso brilhantes de pequeno, puro e genial Mozart dos palcos. Depois vieram os meganúmeros dos megashows e sucessos e o tempo te transformou rápido demais num inteligente, marqueteiro e astuto adulto. Ou, ao menos, tentou te transformar. No início da apoteótica e inevitável carreira solo tu deves ter achado deslumbrante aquela fama e aquela grana toda. Aos vinte e poucos já eras universal como Elvis, Jesus, os Beatles e Pelé e de repente já pensavas em dançar o moonwalk lá na lua mesmo, para que todos os seres, de todos os universos, apreciassem tua arte e tua luz. Os mundos te amavam. E eles eram correspondidos. Nesse mundinho e nesse tempinho onde quase tudo que é sólido ou não se desmancha no ar e tem vida curta de palito de fósforo, tua arte, tua fama e teu sucesso declinaram mais ligeiro do que todos pensávamos. Os escândalos, as lendas, os processos, os enigmas e os mistérios começaram a tomar conta dos teus dias e noites. Foste atrás do tempo perdido na Terra do Nunca e deves ter morrido pensando em algum trenó perdido no baú da memória da infância, feito o protagonista do Cidadão Kane, o maior filme de todos os tempos. Tua vida e tua obra também são um dos maiores filmes de todos os tempos. Mas antes de partir aprendeste, como todos nós, que a arte é longa e a vida é curta, que o importante é a poesia e não o poeta e que, ao fim e ao cabo, só a arte e o amor são os reais salvadores de vidas. Nos últimos anos ficaste, assim como John Lennon, curtindo as grandezas do lar e o crescimento dos filhos, que são as verdadeiras e domésticas celebridades. Por algum ou muito tempo os humanos vão escarafunchar tuas caixas, teus armários, segredos e caminhos, vão passar horas na internet para saber mentiras e verdades sobre ti e tua vida e vão ficar pensando se eras mesmo o Rei do Pop ou não. Os fãs vão comprar teus objetos em leilões e frequentar a Neverland, que deve tornar-se um novo templo de romaria amorosa. Essas caras e bocas, esse tititi e essa curiosidade são o que menos importa e tu agora, mais do que nunca, sabes disso. No julgamento do tempo e das pessoas do bem, que são os mais importantes, tua voz, tua música, tua dança, teu brilho e tuas criações e revoluções é que vão passar com nota dez e encantar nossas festas das sextas ou os momentos tristes dos finais de domingo. O resto é menos, menor. Agora, finalmente, entraste noutra dimensão e deves estar dançando na lua, emprestando um pouco do teu fulgor para as estrelas. Uma ótima sexta-feira e um excelente fm de semana. Quarta-feira, Julho 01, 2009
01 de julho de 2009 N° 16017 - MARTHA MEDEIROS Viagem pra lugar nenhum Fui assistir a Jean Charles, com o excelente Selton Mello no papel daquele rapaz brasileiro que foi estupidamente assassinado num vagão de metrô, quatro anos atrás, confundido com um terrorista. O filme é quase um documentário, sem artifícios técnicos: uma narrativa comum, descolorida, acinzentada como a Londres dos imigrantes. A primeira vez em que lá estive, em 1986, me hospedei na casa de uma inglesa que tinha quatro filhos e muitas dívidas, por isso amontoava a garotada num mesmo quarto para poder alugar o outro para estrangeiros e ganhar algum trocado extra. A casa ficava num bairro bom, mas a vida dessa inglesa não era um passeio. Lembro que comprava comida com data de validade vencida porque era mais barato. Já eu só pensava em conhecer a tal cidade que inspirou a frase: quem enjoou de Londres enjoou de viver. Fiquei 18 dias e não enjoei nem um segundo. Voltei outras três vezes, me hospedando não mais em quartos de casa de família, e sim em pequenos hotéis. Enfim, uma turista clássica curtindo os parques, os museus, os pubs, as feiras, os monumentos, os teatros, as livrarias, as ruas. Há quem dispense fazer turismo e só cogite viajar para o Exterior se for para se instalar e vivenciar de fato o dia a dia da cidade. Uau. Eu adoraria estudar em Londres, escrever em Londres, viver um tempo lá como vivo aqui, mas não é tão simples. Geralmente, ou se faz turismo com os dias contados (o que já é um luxo), ou se vai para lavar prato, fazer faxina, pegar no pesado. Jean Charles de Menezes morava numa cidadezinha no interior de Minas e foi para a Inglaterra ganhar a vida como eletricista. Passou a viver lá com mais três primos, todos tentando faturar em moeda forte. Eu saí do cinema pensando em como essa ilusão custa caro. A gente deveria ter condições de viver dignamente como eletricista ou garçom ou camareira no país em que nasceu mesmo. É barra ter que se deslocar pra tão longe, sem direito a nenhum prazer. Há um momento em que a atriz Vanessa Giácomo, interpretando a prima Vivian, que deixou o namorado no Brasil para trabalhar em Londres como garçonete numa espelunca, diz a Jean Charles algo como: “Maldita hora que eu vim pra cá ralar nessa porcaria de cidade”. Diz isso à beira do Tâmisa, em frente ao deslumbrante prédio do Parlamento, que para ela não tem nenhum significado – ela está na Europa apenas pelo dinheiro, longe do seu amor, do seu idioma e sem nenhuma chance de crescimento interior. Numa situação como essa, é perfeitamente compreensível que Londres se transforme numa porcaria, por mais que doa associar essa palavra à terra de Shakespeare. Jean Charles se divertia como? Não era frequentando o Ronnie Scott’s, tradicional clube de jazz londrino, e sim vendo Sidney Magal ao vivo num teatro de quinta, cercado de outros brasileiros, muitos deles ilegais no país, saudosos da pátria, do feijão, da goiabada e da Sandra Rosa Madalena, sem a possibilidade de absorver a cultura local, de sofisticar o gosto, de viver uma experiência nova. O objetivo é apenas economizar e voltar pra casa assim que der, como fazem milhares de trabalhadores rurais que se transferem para centros urbanos. É o êxodo atrás de emprego e futuro. Não bastasse a dureza que é viver desse modo, seja em Londres, São Paulo ou em qualquer lugar, levar uns tiros na cabeça às dez da manhã dentro de um transporte coletivo, sem chance de defesa, entra pra categoria das histórias inacreditáveis. No filme, Vivian, a prima que chegou pela primeira vez a Londres odiando tudo aquilo, volta à capital inglesa mais capitalizada e mais madura. E faz o quê? Coloca uma mochila nas costas e, sozinha, vai conhecer melhor a Europa e a si mesma. Realiza, enfim, uma viagem de verdade, e honra a vida que Jean Charles só teve em sonhos. Uma ótima quarta-feira. Um excelente mês de julho e um grande segundo semestre de 2009 com muitas realizações, especialmente para você. |
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