Nuvens Brancas |
||
|
Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
Archives
Visitors:
|
Terça-feira, Junho 30, 2009
ELIANE CANTANHÊDE Febre alta BRASÍLIA - O salário de um motorista do Senado que dá expediente como mordomo em ilustres casas particulares é de R$ 12 mil, enquanto um médico pediatra ganha o inicial de R$ 3.600 mensais por semana de 20 horas na rede pública do DF e em torno de R$ 4.200 entre consultas particulares e cobertas por convênios. Mas não é essa comparação que irrita os pediatras, até porque o sistema de saúde do Senado, o SIS, é o único convênio que paga R$ 100 pela consulta. É mais que o dobro do pago pelos planos de saúde -R$ 24 a R$ 47. Muito pouco para uma responsabilidade bem maior do que cuidar do carro, da copa e da cozinha de Suas Excelências e para cobrir aluguel, secretária, telefone, água, luz e transporte. Os pediatras do DF fazem protesto amanhã contra os planos de saúde que pode se multiplicar pelo país. Vão atender normalmente na rede pública, mas se recusar a receber guias de convênios na privada. A ideia é cobrar R$ 90 e sugerir que os pais reclamem reembolso. Quem tem filhos sabe como o pediatra é amigo, confidente, professor, consultor. É para quem você liga três vezes de dia e mais uma de madrugada quando a criança tem 40C de febre ou não para de chorar. Não raro, uma consulta paga se desdobra em várias grátis, a título de "retorno". Todas longas. Apesar de ser uma área tão nobre, os médicos começam a reagir à pediatria. Só 23 das 47 vagas de residência nessa área no DF foram preenchidas neste ano. Os hospitais particulares começam a ter problema para manter a escala de pediatras e o pronto-socorro na especialidade. Em Belo Horizonte, consta que 90% dos 50 já não têm. Em São Paulo, metade dos 178 também não. Em Brasília, dois grandes hospitais acabam de anunciar o fim da emergência pediátrica. Socorro! Que tal gastar menos com motoristas de senadores e mais dinheiro público e dos planos de saúde com os pediatras das crianças do Brasil? elianec@uol.com.br
CLÓVIS ROSSI Madoff e a inveja BASILEIA - A condenação do megavigarista Bernard Madoff a 150 anos de prisão é o tipo de acontecimento que dá uma baita inveja do funcionamento do sistema legal norte-americano. Madoff é claramente o "branco de olhos azuis" que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpou pela crise. Com uma agravante: ele deu um golpe, ao passo que os outros "brancos-de-olhos-azuis" se mexeram nos estritos limites da legalidade de um capitalismo desregulado e, por isso mesmo, selvagem. Madoff não é nem pobre nem negro -e, não obstante, vai para a cadeia perpétua. Perpétua porque -e aqui há outro elemento a invejar- a legislação norte-americana determina que liberdade condicional só mesmo após cumprir 80% da pena. Significa que Madoff só ficará livre se sobreviver 120 anos. Terceiro elemento para inveja: até aqui, as autoridades recuperaram US$ 1,2 bilhão do total de US$ 13,2 bilhões de seus golpes. No Brasil, desnecessário lembrar, nunca ninguém recupera nada de golpes dados contra o erário -e Madoff fez os seus trambiques contra particulares, não contra os cofres da nação. Note bem, caro leitor, que eu não tenho na boca o gosto de sangue. Nem acho que criminosos dessa estirpe devam ser necessariamente condenados à prisão. Prisão é para quem representa risco de vida para os demais. Pode-se alegar que, com seus golpes, Madoff pôs em risco a vida de quem a ele confiou seu dinheiro. OK, mas a punição mais adequada é obrigá-lo a devolver tudo o que roubou. Enquanto não o faz, aí, sim, que fique na cadeia. Note também, leitor, a rapidez com que o caso se resolveu. No Brasil, qualquer rolo envolvendo gente de olhos azuis e colarinho branco leva séculos para ir a julgamento -quando vai. E nenhum Madoff tapuia jamais foi preso. crossi@uol.com.br
ESPERANÇAS Apesar de todos os obstáculos que encontro pela minha vida, apesar dos contratempos que me deparo, apesar das portas fechadas que vejo, apesar das dificuldades que enfrento, ainda assim, tenho a esperança. A esperança vive em mim amanhece comigo, percorre o dia todo e quando anoitece ela está ainda mais fortalecida. Quando meus pensamentos estão confusos e minhas idéias não são decifráveis, não desisto! Lembro-me da esperança que me move... Quando meu caminho está tortuoso, e minhas chances são diminuídas, lembro- me da esperança que devo ter sempre... Esperança, é a certeza de que algo de bom vai acontecer, é a confiança que tudo vai dar certo. Todos devemos ter essa esperança, para que não nos sintamos caídos, para que nosso dia seja menos tumultuado, e para que nosso coração esteja menos pesado. Desejo a você, que também tenha sempre a esperança, que ela permaneça sempre em seus pensamentos. Desejo que você nunca desista, porque enquanto houver a esperança, nenhum sonho está perdido! Vilma Galvão Só que fico pensando quando dizes sempre: Não quero te dar esperanças.- Como foi sua folga hoje?
30 de junho de 2009 N° 16016 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA Reunião de família O bom das festas de família são as pequenas inconfidências que surgem, antes acobertadas por séculos de cúmplices silêncios. São a alegria do reencontro, após um mês, um ano, uma eternidade de distanciamento. São o sentimento de que todos pertencem a um condomínio de lembranças compartilhadas. São os mínimos segredos, antes mais ou menos ocultos, e de súbito divididos em sua inteira verdade. São a sensação de que todos pertencem a um mesmo acervo de experiências que precisa ser reaprendido. São a terna consciência de que, apesar da diáspora, nunca realmente nos apartamos. São a redescoberta de recordações compartidas e desde muito caladas. São a doce atmosfera de união na diversidade, pois há tanto separados somos no fundo iguais. São as vivências repartidas de acontecimentos que entendíamos independentes. São as alegrias esquecidas e que, sem aviso, voltam a tocar nossos corações. São os netos que nascem, os filhos que se tornam adultos e a tia que tem 85 anos e a alma de uma menina. São os sorrisos e as palavras dessa tia, que tornam presente o passado mais-que-perfeito. São os simples olhares em que há todo um entendimento. São a noção mágica de pertencer a um clã, a uma comunidade de afetos. São as vozes e os risos que dão existência aos seres e às coisas. São a reinvenção de muitas vidas, até ali dispersas, até ali reencontradas. São a nua síntese de uma comunhão de caminhadas paralelas. Assim são as festas de família: a reconstrução do que o tempo nunca poderá destruir. Segunda-feira, Junho 29, 2009
MOACYR SCLIAR Zona de sombra Ao menor choro do bebê, ela pulava da cama como que impulsionada por uma mola, mas a ele, mal dava atenção Pesquisadores mostraram como as mães desenvolvem um ouvido tão aguçado para o choro de seus bebês, pela redução da atividade nas áreas cerebrais não direcionadas especificamente para o choro dos filhos. "Imagine um refletor iluminando um cantor no palco. Se outras luzes estiverem acesas, o artista não aparece tanto. Mas se todo o resto estiver escuro, o refletor destacará o artista muito bem", explicou Robert Liu, da Emory University. Folha Ciência, 15.jun.09 QUANDO a mulher teve o primeiro filho, ele deveria, naturalmente, sentir-se feliz e orgulhoso. Isso não aconteceu, por uma razão da qual não falou a ninguém: suspeitava que o filho fosse de outro. Não tinha nenhuma prova de que a esposa o traísse; ao contrário, ela parecia fiel e dedicada. Mas nove meses antes ele passara algumas semanas fora, a serviço da empresa. Pouco depois de sua volta ela anunciou-lhe a gravidez. Ele tentou mostrar entusiasmo, e, em parte, conseguiu: ela não notou sua mágoa. Que, contudo, foi crescendo à medida que o tempo passava. Ele passou a vigiá-la e notou algo que o desagradou profundamente; ao menor chorinho do bebê, ela pulava da cama como que impulsionada por uma mola e ia atender a criança. Mas a ele, ao marido, mal dava atenção. Até fez um teste: uma noite começou a gemer, primeiro baixinho, depois mais alto, como se estivesse passando mal. Inútil: a esposa, profundamente adormecida, nem sequer se mexeu. Mas quando, já de madrugada, o bebê começou a chorar ela pôs-se de pé num salto. Resolveu comentar o assunto com um amigo, médico pediatra. E o fez afetando despreocupação. O amigo riu: "É assim mesmo, meu caro. Coisas da natureza". E explicou que, de acordo com as mais recentes teorias científicas, o choro do bebê conseguia, de forma absolutamente soberana, ativar o cérebro da mãe, que aparecia iluminado nos exames especializados. "Ou seja: o bebê acende o cérebro da mãe. E deixa todo o resto, inclusive você, na zona de sombra." Nenhuma expressão poderia definir melhor o que ocorrera: ele agora vivia na zona de sombra. Ele e os seus espectros, ele e seus fantasmas. Ah, mas a isso não se resignaria. De forma alguma. Como Goethe no leito de morte, bradaria: "Mais luz!" E lutaria por essa luz com os meios que estivessem a seu alcance. Mas... quais eram esses meios? Como poderia ele, da mesma maneira que o bebê, iluminar o cérebro da mulher que, apesar de tudo, ele amava? A resposta logo lhe ocorreu: o choro. O choro seria o abre-te Sésamo que lhe permitiria sair da escura caverna em que se encontrava. Ele tinha de chorar como o bebê, e começou a treinar para isso. Gravou o choro da criança e passou horas a ouvi-lo. Depois de ensaiar durante semanas, achou que estava pronto para o grande teste: no meio da noite acordaria a mulher com o simulado chorinho. Ela descobriria então que ele também existia; os dois se abraçariam e fariam amor. O nenê que berrasse à vontade. O teste decisivo seria realizado na noite de seu aniversário. Mas, ao jantar, enquanto brindavam à data, ela disse que tinha um presente para ele: estava grávida de novo. Desta vez ele não tem qualquer dúvida a respeito da paternidade da criança. E está muito feliz em viver numa zona de sombra. Onde às vezes até esboça o chorinho que tão cuidadosamente ensaiou. MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha
29 de junho de 2009 N° 16015 - KLEDIR RAMIL Datas – da série “Consertando o mundo” Por sugestão de uma leitora, resolvi analisar nosso calendário de festas anuais e notei que várias datas estão em posição errada. A começar pelo Carnaval, que insiste em acontecer sempre no verão. O Carnaval é uma festa em que as pessoas dançam e pulam debaixo de um calor de rachar. Seria muito mais apropriado se fosse no inverno. A temperatura mais baixa, tipo ar condicionado natural, faria as pessoas se divertirem sem suar tanto, o que deixaria o ar mais respirável. Com menos calor, diminuiria também o consumo de cerveja, tornando a festa mais civilizada, com menos brigas e acidentes de trânsito. E, ao mesmo tempo, resolveria o problema do cheiro de urina nas ruas. A festa de São João deveria ser no outono. Manter uma fogueira acesa no inverno requer muita lenha, o que estimula o desmatamento das florestas, provocando desequilíbrio ecológico e o aquecimento global. Uma atitude politicamente correta seria transferir as festas juninas para a época da Páscoa, quando as árvores já estão secas mesmo e um galho a mais ou a menos não faria muita diferença. A Páscoa teria então que ser deslocada para, sei lá, dezembro. Por sua vez, o Natal iria para o inverno e poderíamos, finalmente, curtir sem culpa os pinheiros com neve e toda aquela decoração glacial. E o cara que se veste de Papai Noel não sofreria tanto com o calor. Existe dia da mulher, da criança, do idoso. Só o homem, coitado, não tem um dia pra chamar de seu. Não adianta vir com a piadinha de que a mulher tem só um dia e todos os outros 364 são do homem. Queremos um dia exclusivo para nós. Vou passar um twitter e convocar uma passeata. E, já que estamos tocando no assunto, precisamos privilegiar o dia dos pais. Abril seria uma boa data. No início de agosto saímos prejudicados, pois o orçamento doméstico chega sem fôlego, depois de passar pelo dia da mães, dia dos namorados e férias de julho. Só recebemos migalhas. Pra você ter uma ideia, ano passado, no dia das mães, dei um iPhone de presente pra minha mulher e no dia dos pais recebi um par de meias. Não é justo. Para encerrar, o Ano Novo poderia ser festejado no dia 17 de dezembro, dia de São Gabirú, data máxima do calendário gregoriano, que marca a vitória triunfal do Sport Club Internacional sobre o Barcelona... Enfim, é só uma sugestão. Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana. Domingo, Junho 28, 2009
Honra ao mérito A chance de um marceneiro dar aula num mestrado de arquitetura abre debate sobre méritos e talentos A PARTIR de agora, para você ganhar um título de mestre não será mais necessário entregar aquelas gigantescas dissertações, repletas de citações, rodapés, tudo isso embrulhado na hermética linguagem universitária. Basta um produto: música, pintura, reportagem, software ou artigo. Muitos de seus professores não ostentarão títulos acadêmicos, alguns deles talvez nem mesmo tenham diploma de ensino superior. Mas, necessariamente, precisa demonstrar reconhecida experiência no mercado de trabalho. Essa é a consequência de uma portaria anunciada na semana passada, propondo uma nova avaliação para os mestrados profissionalizantes, destinados a pessoas que não querem dar aula nem fazer pesquisa, mas se aprimorar na sua profissão. A residência médica ou um MBA, por exemplo, já valeriam o mestrado. O ministro Fernando Haddad me diz que, com essas mudanças, será mais fácil colocar nas universidades os talentos do mercado de trabalho, compartilhando sua experiência com os alunos. ""É exatamente o que muitos estudantes esperam de seus cursos, depois que terminam a graduação", explica. A chance de um sofisticado marceneiro, com seu diploma de ensino médio, dar aula num mestrado de arquitetura de uma USP indica que estamos metidos num interessante debate sobre méritos e talentos. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, voltou a sinalizar, na semana passada, que, além do jornalismo, mais diplomas poderão deixar de ser obrigatórios -arquitetura, administração, educação, economia, e por aí vai. Se um advogado, devidamente treinado em comunicação, pode trabalhar em jornal, por que um aluno de engenharia não poderia dar aula de física ou matemática numa escola pública? Bastaria que tivesse uma ajuda para saber transmitir seu conhecimento. Para melhorar as escolas públicas, a cidade de Nova York chama os talentos da sociedade e oferece um curso de didática em apoio -são mandados para os piores lugares. Os resultados são bons, claro. Os alunos gostam de professores que adoram fazer coisas, sejam elas quais forem. Esse tipo de questionamento pode parecer estranho agora num país elitista dominado por cartórios e corporações. Mas é apenas consequência da velocidade do conhecimento. Essa velocidade se traduziu na quinta-feira com a morte de Michael Jackson: quem deu primeiro a notícia foi um site de celebridades (TMZ). O debate sobre o mérito profissional e acadêmico aparece das mais diversas formas -e ocorre, em boa parte, porque estamos buscando novas formas de medir eficiência, uma das novidades (embora engatinhando) da administração pública no Brasil. Na semana passada, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou projeto para contratação de professores. Mas, depois de passar no concurso, terão de fazer um curso. Docentes temporários terão de se submeter a provas -assim como os dirigentes regionais de ensino. Só puderam criar bônus de desempenho para professor porque existem indicadores (trágicos, diga-se) sobre os alunos. Centros de saúde e hospitais públicos tocados por entidades filantrópicas apanharam de todos os lados, especialmente dos sindicatos e grupos ligados ao PT. Diante dos resultados positivos, inquestionáveis pelos números, o governo federal, comandado pelo PT, chamou algumas dessas organizações para ajudar na gestão de mais hospitais públicos pelo país. Sabemos que os alunos do ProUni têm desempenho melhor que os alunos regulares; é o que já constamos com os cotistas das universidades. Os números desmontam assim bobagens sobre o risco desses jovens piorarem a vida acadêmica. É o contrário. Estão mudando os critérios para entrada no vestibular porque se considera que o mérito não está em decorar informações, mas desenvolver uma rede de habilidades e competências; premia-se quem aprende a aprender. O mercado premia quem aprende a fazer. Essas mudanças são resultado previsível das sociedades democráticas em que se exige mais transparência, todos têm de dar conta de seus atos e, portanto, são mais avaliados e fiscalizados -e aí vai dos familiares de Sarney, no Senado, aos professores, montados em seus títulos. Não é à toa que, cada vez com mais intensidade, a sociedade olha desconfiada os privilégios das corporações, seja de políticos, seja de professores, seja de jornalistas. A recente greve da USP se desmoralizou porque uma das suas principais causas era a readmissão de um funcionário que teria sido demitido por justa causa em qualquer empresa; daí a novidade de alunos se rebelarem contra a greve. PS- É um movimento mais rápido do que se imagina. É por isso que José Sarney, acostumado a ver há tanto tempo aquelas mamatas do Congresso, não poderia imaginar que uma bomba explodiria em seu colo -a tal ponto que, na semana passada, cresceu a pressão por sua renúncia. Não é o Senado que piorou, mas a fiscalização que melhorou. gdimen@uol.com.br
ROBERT MCCRUM Ao mestre, com carinho TRINTA E OITO ANOS MAIS JOVEM QUE T.S. ELIOT E HOJE COM 82 ANOS, A VIÚVA DO POETA, VALERIE, PREPARA A EDIÇÃO DE BILHETES E RECORTES DO CASAL, EM QUE REVELA A VIDA SÓBRIA E APAIXONADA QUE LEVAVAM Casamento feliz "Um fotógrafo do "Daily Express" nos flagrou no saguão nesta noite, e um homem do "Daily Mail" nos perseguiu até Roquebrune! Lua de mel maravilhosa, exceto por TSE ter contraído uma gripe e rachado um dente." Após a morte de Eliot, ela disse à BBC: "Ele obviamente precisava de um casamento feliz. Não morreria enquanto não o tivesse. Havia dentro dele um garotinho que nunca se libertara." Apesar dos 38 anos de diferença entre eles, o segundo casamento de Eliot lhe trouxe a realização plena. Rosemary Goad diz: "Ele foi completamente rejuvenescido por Valerie". Tendo feito parte do quadro de profissionais da Faber muito tempo depois da morte de Eliot, recordo-me de seu editor americano, Robert Giroux, me contando sobre a primeira visita feita pelos Eliot a Nova York, recém-casados. No dia depois de chegar à cidade com sua jovem mulher, o escritor famoso telefonou para seu editor para fazer apenas um pedido: o hotel era ótimo, mas eles queriam uma cama de casal. Todos concordam que Eliot encontrou enorme prazer em sua vida conjugal com Valerie, tendo escrito em um poema posterior ("A Dedication to My Wife", Uma Dedicatória a Minha Mulher) sobre "amantes cujos corpos cheiram um ao outro". Nos cadernos de recortes, o casal reuniu uma série de suvenires ternos e mundanos, exemplares de papel de parede de quartos, bilhetes rabiscados em programas de teatro, recortes de jornais cuidadosamente datados e cardápios anotados de jantares requintados ("Valerie pediu crepe suzette"). Teatro e dança Em festas literárias, os convidados observaram, fascinados, a figura cadavérica do poeta de mãos dadas com sua mulher jovem, loira e de seios fartos. Valerie, por sua parte, estava sempre a postos para afastar atenções indesejadas. Os cadernos de recortes também trazem evidências de que Eliot, além de marido e amante, fez o papel de mentor e figura paterna para Valerie. Eles geralmente ficavam em casa à noite, mas, quando iam ao teatro, ele fazia anotações cuidadosas nos programas. Depois de assistir a "Beyond the Fringe" [Além da Margem], Eliot rabiscou no verso de seu programa: "Quarteto de jovens espantosamente vigoroso: o espetáculo é ágil e bem produzido, um misto de brilhantismo, juvenilidade e mau gosto". Observou especialmente Peter Cook e Alan Bennett, concluindo que "é agradável ver esse tipo de entretenimento sendo tão bem sucedido". Em outro recorte, ele diz ao "Daily Express": "Estou pensando em fazer aulas de dança outra vez, já que não danço há alguns anos". A alegria recém-encontrada na vida de Eliot se manifesta em seus trabalhos posteriores. Na época de seu casamento, ele estava concluindo uma peça nova, "The Elder Statesman" [O Velho Estadista], em que uma figura pública sênior é comparada a um bicho-da-seda que durante anos sobrevive à base de folhas de amoreira muito amargas. Sua filha lhe diz que é hora de desistir dessa dieta e sair para o mundo, como uma borboleta. A tragédia da felicidade recém-encontrada de Eliot foi que sua saúde, que nunca fora boa, estava começando a se enfraquecer. Na Londres fria e poluída do pós-guerra, sofreu gravemente de gripe e bronquite, e seu coração era fraco. Valerie organizou as coisas para que Eliot tirasse férias durante o inverno, para convalescer, nas Bahamas e no Caribe. Os cadernos deles contêm muitas fotos que os mostram relaxando ao sol. Eliot, de colete e boina branca de golfe, pode ter as barras das calças enroladas para cima, mas mesmo assim parece desajeitado e deslocado, como um bancário numa festa. Além de visitas anuais à Jamaica, Valerie levava Eliot para passar períodos com sua mãe idosa em Leeds. Previsivelmente, a sra. Fletcher ficava maravilhada com seu genro e impressionada com sua aparência, que descrevia como "virginal". Em junho de 1964, Eliot fez sua última visita a Leeds, cidade da qual aprendera a gostar. Em outubro daquele ano, mergulhou num coma do qual não se previa que acordasse. Valerie segurou sua mão durante uma vigília que atravessou a noite, e, pela manhã, ele recobrou consciência. Mais tarde, ela contou ao "Observer" que "ele me olhou como quem dissesse "consegui!'", e ela o levou para casa, em Kensington. Quando atravessou a soleira do apartamento, carregado, ele exclamou "viva, viva, viva!", e durante algum tempo recobrou suas forças. Mas vivia à base de oxigênio, e no Natal seu coração começou a fraquejar novamente. Segundo Peter Ackroyd, cujo relato não autorizado da vida de Eliot ["T.S. Eliot", ed. Penguin] é de longe o melhor que está disponível, o poeta saiu de seu coma final para pronunciar o nome de Valerie e então morreu, em 4 de janeiro de 1965. Valerie tinha 38 anos quando ele morreu. Durante anos guardou o apartamento deles em Kensington como santuário à memória de Eliot, sem mudar nada, chegando a guardar os frascos de oxigênio dos seus últimos dias de vida. Extrato do caderno mais da folha de hj - O que o amor não faz na vida de duas pessoas não é..? Sábado, Junho 27, 2009
28 de junho de 2009 N° 16014 - MARTHA MEDEIROS Os ausentes Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. Não precisa virar o mestre-de-cerimônias da noite, ao menos agracie seus semelhantes com dois ou três sorrisos. Não dói EU não assisti ao programa, mas soube da história. O jornalista David Letterman recebeu Joaquim Phoenix para uma entrevista. O ator fez jus à fama de bad boy: não parou de mascar chiclete e só respondia com monossílabos e grunhidos, não facilitando o andamento da conversa. Letterman tentou, tentou, e como não conseguiu arrancar nada do sujeito, encerrou a entrevista com uma tirada ótima: Joaquin, uma pena que você não pôde vir esta noite. Quando uma pessoa se dispõe a dar uma entrevista, tem que entrar no jogo: responder com generosidade ao que foi perguntado e valer-se de uma educação básica, caso tenha. É bom lembrar que a maioria das entrevistas não é feita apenas para dar ibope ao programa, e sim para ajudar na divulgação de algum projeto do convidado. Ambos saem ganhando. Só quem não ganha é a plateia quando o convidado finge que está lá, mas não está. Madonna é até hoje o trauma da carreira de Marilia Gabriela, pelos mesmos motivos. Claro que há quem defenda a atitude de Phoenix com o argumento da “autenticidade”, mas existe uma sutil diferença entre ser autêntico e ser grosso. É muita inocência achar que podemos prescindir de uma certa performance social. Espero não estar ferindo a sensibilidade dos “autênticos”, mas de um teatrinho ninguém escapa, a não ser que queiramos voltar a viver nas cavernas. Não sou de me irritar facilmente, mas acho um desrespeito quando uma pessoa faz questão de demonstrar que não compactua com a ocasião. São os casos daqueles que se emburram em torno de uma mesa de jantar e não fazem a menor questão de serem agradáveis. Pode ser num restaurante ou mesmo na casa de alguém: estão todos confraternizando, menos a “vítima”, que parece ter sido carregada para lá à força. Às vezes, foi mesmo. Sabemos o quanto uma mulher pode ser insistente ao tentar convencer um marido a participar de um aniversário de criança, assim como maridos também usam seu poder de persuasão para arrastar a esposa para um evento burocrático. Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. Não precisa virar o mestre-de-cerimônias da noite, mas ao menos agracie seus semelhantes com dois ou três sorrisos. Não dói. Dentro da igreja, ajoelhe-se. No estádio de futebol, grite pelo seu time. Numa festa, comemore. Durante um beijo, apaixone-se. De frente para o mar, dispa-se. Reencontrou um amigo, escute-o. Ou faça de outro jeito, se preferir: dentro da igreja, escute-O. Durante um beijo, dispa-se. No estádio de futebol, apaixone-se. De frente para o mar, ajoelhe-se. Numa festa, grite pelo seu time. Reencontrou um amigo, comemore. Esteja! Se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. Melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada. Um ótimo domingo minha amiga, este que é o último de junho de 2009. Sexta-feira, Junho 26, 2009
A morte mais lenta da história do showbizz Jackson pagou alto preço pelo dom do fogo criativo JOÃO MARCELLO BÔSCOLI - ESPECIAL PARA A FOLHA O artista é um ser com aptidões contraditórias. Por um lado, é um "homem comum" com apetites, desejos, frustrações, contas para pagar. Por outro, é um homem em um sentido maior: um "homem-coletivo". Aquele que capta e dá forma ao inconsciente da raça humana e o devolve sob a forma de uma obra de arte. E a realização dessa tarefa mobiliza uma grande quantidade de energia. É como se fossem dotados de um certo capital de energia ao nascer, e o lado que precisa realizar essa tarefa sobre-humana tentasse tomá-la integralmente para si. Nada pode impedir a execução de sua missão -muito menos o lado humano. Este é visto quase como um erro, uma limitação do artista. Talvez, por isso, os artistas permaneçam infantis e vaidosos depois de adultos, desenvolvendo uma série de más características e idiossincrasias no campo pessoal, para evitar que o "homem comum" desperdice energia e tempo, atrapalhando sua jornada. De certa forma, ele se torna sua obra. "Fausto" define Goethe, "Billie Jean" define MJ -e não o contrário. O artista permite que a obra se manifeste através de si -e não o contrário. Como regra, a vida do artista é altamente insatisfatória -para não dizer trágica-, afinal, duas forças opostas duelam o tempo todo dentro dele, tentando tomar o poder. Há de se pagar um alto preço pelo dom do fogo criativo. A dualidade dos sexos é fundamental para a concepção de um novo ser, assim como a razão e a loucura são necessárias para a criação artística. Pode ser ou parecer uma limitação o tal lado humano, mas ao costurar sua fantasia em seu próprio corpo, Michael Jackson abriu mão de sua dualidade, da energia gerada entre os extremos e, consequentemente, de sua fonte criativa. Foi a morte mais lenta da história do show-business. Baseado em um texto de Carl Jung - JOÃO MARCELLO BÔSCOLI é produtor-executivo do selo Trama
Suor anônimo na garoa De vez em quando até a Gisele Bündchen, o Lula, o massagista da Juliana Paes e os fotógrafos da Playboy devem reclamar do emprego que têm. Até o comprador de filmes da Globo que viaja para os Estados Unidos ou o diretor cultural da Fundação Cultural Banco do Brasil são capazes de se lamentar pelo cansaço do trabalho. Nesse Brasil de impunidade, má distribuição de renda e mordomias federais, estaduais e municipais, fico pensando nos dois operários que não estavam se queixando da vida e do trabalho. Era segunda-feira, sete e vinte da matina, uns dez graus de frio sulino, garoa caindo direto nos pescoços dos dois homens que, literalmente, quebravam rochas enormes, com talhadeiras, marretas e martelos. Trabalho duro, início de obra, água, barro, alicerce. Proteção? Nada de macacões ou capas. Um dos peões estava sem luvas. Apenas capacetes cobriam os cabelos suados deles, que, ao menos naquele momento trabalhoso, não falavam em melhores salários, greves ou condições de trabalho adequadas. As poucas palavras que trocavam eram sobre futebol, mulheres, política, temperatura, mestre de obra e a dureza dos blocos de basalto que cortavam em cubos, que depois empilhavam no fundo do canteiro da construção do edifício. Edifício fino, no qual certamente não entrarão depois que os apartamentos dos doutores estiverem prontos. Os dois operários trabalhavam anônimos, afanosamente, sem precisar de câmeras de tevê, olhos do dono da obra ou de algum poema do Vinícius de Moraes ou do Chico Buarque. Muito menos estavam necessitando de algum filme patrocinado pela Petrobrás para cumprir suas tarefas ou do apoio de algum fiscal do Ministério do Trabalho. Os tapumes do empreendimento e as janelas vazias dos prédios dos lados garantiam aos dois trabalhadores sem plateia, vaidade, elogios ou palmas. Aqueles dois pedreiros não levariam quarenta minutos para cimentar um túmulo, feito o coveiro de Tancredo Neves, naquela transmissão inesquecível e arrastada da tevê. E nada de crônica do Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura ou Carlos Heitor Cony para eles. O máximo que os dois trabalhadores conseguiram em matéria de mídia foi um texto de um modesto cronista municipal, meio metido a cronista estadual, vá lá, que, na hora, inspirado pelos trabalhadores de construção, pensou que a missão de construir com palavras pode registrar e resgatar um momento de boa e digna "pequena história" popular brasileira. Um momento que dá esperança de futuro decente e limpo, mesmo diante de tudo o que está sempre acontecendo aí no Senado, Câmara e outros locais sinistros da vida. Jaime Cimenti Ótima sexta-feira - Excelente fim de semana Quinta-feira, Junho 25, 2009
I N G R A T ID Ã O Sabe, sempre Que minhas lágrimas Rolam pelo meu rosto, Fundamentalmente teem você Como a razão principal. Muita tristeza. Melancolia profunda, Dolorida, Pela ausência forçada, Pela indiferença marcada, Pela amargura de noites, E mais noites mal dormidas. Que sempre me levam A uma angústia profunda, Por estar liberando, O mais puro sentimento De amor que crê ainda, Mesmo combalido, Permanece vivo e brilhante, No meu coração. Você, talvez não mereça, Mas certamente, Não mais me entristeço, Eu apenas amadureço, Em meu gesto carinhoso, Com muita ternura, Pode ser que enobreço, Sem permitir nem tolerar, Que em meu peito, Se instale ou venha sentir, Qualquer rancor, Pessoal pelas circunstâncias, Que possa trazer, Mais mágoa, mais dor. Serei forte espero, Lutarei o suficiente, Para abortar de meu ser, Toda esta ingratidão, Que um dia imaginei, Pudesse ser um grande amor Mas que nem a amizade restou.
CARLOS HEITOR CONY O máximo das máximas RIO DE JANEIRO - Fumar faz bem à saúde. Um país não se faz com homens e livros. Deixe para amanhã o que pode fazer hoje. A pressa é amiga da perfeição. Ultrapasse outro veículo quando a faixa for contínua, sobretudo se estiver bêbado. É possível completar a chamada. Só o amor não constrói para a eternidade, o ódio sim. No momento posso atendê-lo; por favor, não ligue mais tarde nem nunca. Quem dá a Deus não empresta aos pobres, empresta a si mesmo. O todo é menor do que a parte. Peru de fora deve se manifestar. A soma do quadrado dos catetos não é igual ao quadrado da hipotenusa (É preciso saber previamente o que seja uma hipotenusa. Mas é bom saber quem foi Pitágoras, lateral-esquerdo de um time de São José das Três Ilhas). Sua alma não é sua palma nem sua calma. Quem te viu continua te vendo. Cavalo na chuva não é para se molhar, mas para se refrescar. O apressado não come cru, come mais e melhor do que os outros. Por fora, bela viola; por dentro, nada mesmo. Dize-me com quem andas e te direi o que queres deles. A hora não é de consenso, a hora é boa pra virar pangaio (até hoje não sei o que é o "pangaio" daquela marchinha gravada pelo Bando da Lua nos anos 30). Quem vê cara vê cabeça, tronco e membros. Dura lex sed lex, meu cachorro chama-se Rex. Água dura e pedra mole tanto dá que tudo fura. Os cães passam e as donas deles também. Mais valem dois pássaros na mão do que um voando. O corcunda não sabe como se deita. Vão-se os dedos e ficam os anéis. Pra baixo todo mundo ajuda. Pão pão, queijo queijo, goiabada goiabada. Depois da bonança, sai de baixo que vem a tempestade. E atenção, senhores passageiros, favor fumar nos lavatórios. E não esqueça: voltando à consulta, queira trazer a receita.
25 de junho de 2009 N° 16011 - ARTIGOS - por Mara Y Debus O melhor presente: ler com os filhos “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora, mas, sim, morar, como morei no Robinson (Crusoé).” O comentário é de Monteiro Lobato em carta escrita a um amigo. E, de fato, ele criou um lugar especial chamado Sítio do Picapau Amarelo, onde encontramos uma boneca de pano travessa e tagarela chamada Emília, um sabugo erudito que é visconde, uma bruxa que é cuca, uma menina amável, um menino destemido e uma avó sabichona contadora de histórias com vocabulário acessível ao universo infantil. Nesse lugar mágico, atemporal, muitas crianças já “moraram” e muitas outras irão “morar” um dia! Lembrar Monteiro Lobato é oportuno no momento em que Zero Hora lança no seu caderno Meu Filho a série “Frannie aprende uma lição”, criada pela Associação Mundial de Jornais. Visando aproximar pais e filhos e incentivar a leitura, a série trará capítulos semanais acompanhados de um guia de atividades didáticas – entre elas atividades que utilizam o jornal como objeto de pesquisa e que por si só estimulam o hábito da leitura – e outras que proporcionam a discussão sobre valores. Todas as crianças ficam encantadas ao ouvir uma boa história! Seja contada pelos pais ou pela professora (que deve gostar de ler, já que quem não gosta de ler dificilmente ensina alguém a gostar de ler). E bons livros, boa literatura, devem estar ao alcance das mãos, não apenas em estantes ou em uma grande e bela biblioteca. O ato da leitura é por si só um grande estímulo à criatividade, imaginação, inteligência e a capacidade verbal e de concentração. Assim, os livros devem estar presentes no dia a dia das crianças, do mesmo modo que os brinquedos e os jogos, pois permitem um mergulho no universo de aventuras, histórias e riquíssimas informações. A leitura é, sem dúvida, uma grande janela para a formação em todos os sentidos. O ambiente de familiaridade que se desenvolve nas crianças quando compartilham histórias com adultos que se preocupam com elas é o melhor presente que os pais e as pessoas envolvidas em seu processo educativo podem oferecer, já que os questionamentos e as trocas proporcionados por esses cúmplices momentos permitem a descoberta dos prazeres da leitura. O momento da leitura em voz alta conduz as crianças a um mundo à parte, delicioso, gostoso e excelente e se constitui em uma aventura compartilhada do saber, conhecer e descobrir. A escritora Ana Maria Machado destaca que “(...) ninguém resiste à tentação de saber o que se esconde dentro de algo fechado – seja a sabedoria do bem e do mal no fruto proibido, seja na caixa de Pandora, seja no quarto do Barba Azul. Mas, para isso, é preciso saber que existe algo lá dentro. Se ninguém jamais comenta sobre as maravilhas encerradas, a possível abertura deixa de ser uma porta ou uma tampa e o possível tesouro fica sendo apenas um bloco compacto ou uma barreira intransponível”. Cabe aos educadores e pais o convite às nossas crianças para abrir a primeira página e entrar nesse mundo fantástico repleto de encantamentos! E você minha amiga, deverá fazer isso muito bem - Uma ótima quinta-feira para nós todos. Quarta-feira, Junho 24, 2009
MARCELO COELHO Um brinquedo diabólico Sinto saudade de bonecos mais primitivos; minhas chaves não funcionam VOCÊ SABE o que é um Bakugan? Não é fácil de explicar. Eu próprio tenho dúvidas a respeito. Antes de tudo, é preciso já ter visto um DinoRock, ou retornar às origens e evocar na mente a imagem de um Kinder Ovo. O Kinder Ovo é atualmente objeto corriqueiro em padarias e supermercados. Trata-se de um pequeno e fino ovo de Páscoa bicolor, dentro do qual se esconde uma cápsula de plástico, difícil de desatarraxar. Na cápsula se esconde um minúsculo brinquedo-surpresa, acompanhado de um manual de instruções liliputiano, que os pais terão de seguir na hora de montar as pecinhas encarregadas de fazer a alegria fugacíssima de uma criança de cinco anos. A coisa evoluiu para o DinoRock, brinquedo que acompanha as edições da revista "Recreio", voltada para crianças dessa idade. É uma espécie de sólido e duro objeto de plástico em forma de pedregulho, meio rugoso, que varia de cor conforme a edição. Cabe aos pais descobrir as ranhuras certas naquele seixo colorido. Usando-se com atenção as unhas, aquele objeto fechado em si mesmo se abre. De seu ventre nascem um pescoço, uma cabeça, um rabo de dinossauro, formando o bicho pré-histórico por inteiro. O "bakugan" é a mesma coisa, só que menor e mais complicado. Vem na forma de uma bolinha de pinguepongue, e não dá trabalho na hora de abrir. Basta arremessá-la no chão, ou em cima de alguma das cartas imantadas de um baralho especial. Pronto! A bolinha se transforma em outra coisa, não sei se robô, guerreiro ou dinossauro. Para os pais, o problema será reconduzir o brinquedo à sua forma original de bolinha. Às vezes é fácil. Bakugans elaborados, entretanto, exigem uma sequência precisa de movimentos e a coordenação impecável dos dez dedos do pai ou da mãe. Uma cabecinha de dinossauro retrátil deve ser pressionada na direção do pescoço do bicho, enquanto suas asas têm de ser recolhidas no tempo certo. Eis então que os dois hemisférios do brinquedo não se encaixam! Tente de novo. Sinto saudade de trenzinhos e bonecos mais primitivos. Hoje em dia, por razões de segurança, o compartimento das pilhas nos brinquedos tornou-se indevassável. O pai ou responsável deve possuir um jogo completo de chavinhas de parafuso de alta precisão, se quiser trocar uma simples pilha do brinquedo. Que pilha, aliás? Existem inúmeros tipos no mercado. Não é preciso dizer que minhas chavinhas de parafuso não funcionam. São chinesas, como tudo. Recomendaram-me as alemãs. Cada Bakugan está custando cerca de R$ 70. As crianças não sabem direito o que fazer com eles. Supostamente, existe um jogo, com regras e cartões, a ser jogado com aquelas bolinhas. Mas elas querem o brinquedo mesmo sem saber como utilizá-lo. Não as culpo: eu mesmo, na infância, colecionei bolinhas de gude pelo simples prazer de tê-las e de vê-las, sem nunca aprender as variações infinitas que há na atividade de disputá-las num chão de terra com os amigos que não tive. Os Bakugans são desejados porque existe na TV um desenho animado japonês. No desenho, as bolinhas são armas poderosas para enfrentar os inimigos de sempre. Logo em seguida, somos bombardeados pela publicidade, que promete poderes inauditos à criança que comprar o brinquedo. É diabólico. Mas é simbólico também. Será que as duas palavras têm raiz comum? Imagino que o símbolo unifique aquilo que o diabo divide. Nesse sentido, o brinquedo é diabólico quando inferniza a vida dos pais. Mas é também simbólico quando representa, ao mesmo tempo, os desejos de uma criança e de um adulto. Daquela minúscula bolinha, pula um guerreiro poderoso. Natural que qualquer menino pequeno goste disso. Aos pais, cabe o inglório esforço de voltar atrás, e reduzir o monstro, o dinossauro, o guerreiro, à condição de bolinha. Dá trabalho, e é contraditório. Temos de estimular, como se diz, o "desenvolvimento" e a "auto-estima" da criança. Temos igualmente de reprimi-la, alertando sobre o que ela pode e o que ela não pode. A televisão projeta sucessos impossíveis na cabeça do menino. Os pais se encarregam de reduzi-lo à condição de criança. O brinquedo é o meio termo, dispendioso e simbólico, entre uma coisa e outra. Natural que a criança logo se desinteresse dele; e que os pais odeiem o objeto que foram forçados a comprar. coelhofsp@uol.com.br
24 de junho de 2009 N° 16010 - MARTHA MEDEIROS Nós, os trogloditas Semana passada recebi uma enxurrada de informações enaltecendo o vegetarianismo e condenando a prática de se matar animais para comer. Eu, que deliro diante de uma picanha mal passada, já estava me achando a mulher de Neanderthal quando, em meu socorro, sem que eu houvesse solicitado, me chegou por e-mail um capítulo do livro Incríveis Casos Verdadeiros, do gastroenterologista carioca Geraldo Siffert Junior, em que ele redime a carne vermelha, inclusive contando casos engraçados, como o do dia em que, por volta das 17h, percebeu que ainda não havia almoçado e resolveu entrar numa churrascaria que estava praticamente vazia, a não ser por um sujeito solitário que estava ali num canto atracado numa costela. Qual a surpresa do médico ao reconhecer que era seu melhor amigo, notório vegetariano da cidade, que ficou lívido: “Me sinto como se você tivesse me surpreendido com uma amante. Isso é hora de você aparecer? Churrascarias, nesse horário, são alcovas!”. Revistas especializadas já absolveram a carne vermelha, salientando seus valores nutritivos, como a proteína e o ferro, além de confirmar que as menos gordurosas são fundamentais para a musculatura de pessoas idosas, mas nada disso melhora a imagem dos carnívoros: dizem que o pobre do boi não merece pagar o pato. Nem mesmo o pato merece pagar o pato. Quem come bicho morto é a escória. E o que dizer de Obama, que matou uma mosca não para comê-la, mas para fazer gracinha diante das câmeras? Adorei a desenvoltura do presidente norte-americano. Obama se concentrou, mirou e pum: abateu-a de um golpe só. Pois o que era para ser apenas uma atitude descontraída, acabou atiçando os brios do pessoal do Peta, que defende os direitos dos animais. A organização não se conformou com a execução ao vivo: “Apoiamos a compaixão mesmo por animais pequenos, estranhos e desagradáveis”, declarou o porta-voz Bruce Friedrich, que por certo também luta pela preservação dos ácaros. E não parou por aí: “Esmagar uma mosca na TV mostra que Obama não é perfeito”. Pois é, Bruce, Obama não é perfeito, e ainda por cima é chegado num bife. Perfeitos são os que patrulham as pessoas que matam moscas e que se alimentam de carne. Nem todo mundo é evoluído, Bruce. Nem todos têm seu grau de consciência ecológica e ambiental. Ainda há muita imperfeição no mundo. Diria até, Bruce, que há imperfeições mais nocivas à sociedade do que as que você combate. Dá para acreditar que há seres humanos que, além de comer carne e matar moscas, são capazes de jogar bombas em passeatas gays, de empregar parentes que são pagos com dinheiro público, de esfaquear maridos e de espancar meninas até provocar traumatismo craniano? Pois é, Bruce: tem gente que mata gente. Ou gente e mosca dá no mesmo? Sempre respeitei os vegetarianos e respeito quem preserva a vida dos animais. Mas enquanto não for crime comer carne e matar insetos, que os Bruces deixem de ser radicais e também tolerem as escolhas que, nós, os trogloditas, ainda temos o direto de fazer – pelo visto, não por muito tempo. Well, primeiro aniversário, depois o dia de folga. Agora já pode começar a semana não é mesmo. Uma ótima quarta-feira para nós todos. Terça-feira, Junho 23, 2009
23 de junho de 2009 N° 16009 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA O rastro da deusa Razão quem tinha mesmo era Rubem Braga. “Porto Alegre” – escreveu ele – “é uma cidade que se diferencia das outras por uma rua que ela tem, onde a metade da população fica parada para ver a outra metade passar.” Nem é preciso dizer que ele se referia ao footing da Rua da Praia. A penúltima revista Donna ZH dedicou a capa e seis páginas à que já foi a passarela da cidade e acertou fundo em minha nostalgia. Tenho uma memória profunda dos seres e das coisas – e isso inclui minha idade de três anos: um pedaço de gente caminhando por entre vitrines iluminadas de uma rua que parecia desconhecer a noite. A reportagem de Patrícia Rocha, enriquecida pela arte de Edu, no entanto, vai muito além de minhas lembranças. A Rua da Praia é a própria identidade desta mui leal e valorosa – e isso não apenas pelo livro de Nilo Ruschel, como pelas anotações seculares de Saint-Hilaire ou pelas memórias de João Neves da Fontoura. De qualquer modo, a conheci ainda em seu pleno esplendor. A meia quadra de minha casa, tomava o Bonde Duque, que me deixava na esquina da Casa Masson, na Marechal Floriano. A alguns metros, era o portal da Galeria Chaves, ainda à época – falo dos anos 1950 – dotada de um teto de vitrais. Um pouco adiante, ficava a Livraria do Globo, creio que a maior do país naquele tempo. Esses eram apenas alguns dos pequenos milagres da principal das ruas da cidade. Havia mais, muito mais. Havia um comércio de luxo que, suponho, só encontrava rival em Montevidéu ou Buenos Aires. Havia uma quadra de cinemas. E havia as confeitarias, bem providas de champanhe e orquestras. Hoje tudo mudou. Um calçadão deslocado, verdadeira piscina olímpica em dias de chuva, desbancou o delicado desenho do calçamento em granito azul e rosa. Onde antes os rapazes viam desfilar as raparigas em flor, há uma multidão apreensiva com o conteúdo de suas carteiras e de suas bolsas. Apagaram-se os anúncios em gás néon. Já não se houve falar no Baile do Perfume do Clube do Comércio. E os cinemas, ou desertaram, ou se refugiaram no shopping center, certamente o primeiro dos muitos que virão. E não há sinal dela. Não sobrou rastro da deusa que um dia eu encontrei, com o coração na mão, no hall que parecia imenso da eterna Casa Krahe. Uma ótima terça-feira, aproveite o dia. Segunda-feira, Junho 22, 2009
JG de Araujo Jorge Gostaria Queria compartilhar contigo os momentos mais simples e sem importância. Por exemplo: sair contigo para passear, sentir-te apoiada em meu braço, ver-te feliz ao meu lado alheia a todo mundo que passasse. Gostaria de sair contigo para ouvir música, ir ao cinema, tomar sorvete, sentar num restaurante diante do mar, olhar as coisas, olhar a vida, olhar o mundo despreocupadamente, e conversar sobre "nós" esse "nós" clandestino que se divide em "tu e eu" quando chega gente. Encontrar alguém que perguntasse: "Então, como vão vocês?" E me chamasse pelo nome, e te chamasse pelo nome e juntasse assim nossos nomes, naturalmente, na mesma preocupação. Gostaria de poder de repente te dizer: Vamos voltar pra casa... ( Como se felicidade pudesse ser uma coisa a que tivéssemos direito como toda gente) Queria partilhar contigo os momentos menores da minha vida, porque os grandes já são teus. Não esqueças de desligar o rádio que toca automaticamente quando abre a página para assistir o vídeo. . Hoje é um dia especial, pois é seu aniversário! Hoje é um dia especial, pois é seu aniversário! Momento especial de renovação para a sua alma e seu espírito, porque, Deus, na sua infinita sabedoria deu à natureza a capacidade de desabrochar em cada nova estação. Deu-nos também a possibilidade de recomeçar a cada ano. Esta é mais uma prova da centelha divina em nossas vidas. Hoje é seu aniversário e mais uma vez e saibas que estou feliz por poder lhe desejar mais um ano de vida cheio de amor e alegrias, afinal, fazer aniversário é ter a chance de fazer novos amigos, ajudar mais pessoas, aprender e ensinar novas lições. Também é ter a chance de vivenciar outras dores e suportar velhos problemas. Sorrir novos motivos e chorar outros porquês. Amar novos próximos e dar mais amparo, rezar mais preces e agradecer mais vezes. Fazer aniversário minha amiga é amadurecer um pouco mais, e olhar a vida como uma dádiva de Deus. É ser grata, reconhecida, forte, destemida... É ser rima, é ser verso, é ver Deus no Universo...Parabéns a você neste dia tão grandioso e que Deus ilumine sempre teu caminho e seu renascer. Com um abraço fraterno e saudoso deste que admira e gosta muito de você. Domingo, Junho 21, 2009
Tapando o sol com a mão Um discípulo procurou o rabino Nahman de Braslaw: - Não continuarei mais meus estudos dos textos sagrados - disse. - Moro numa pequena casa com meus irmãos e pais, e nunca encontro as condições ideais para concentrar-me no que é importante. Nahman apontou o sol, e pediu que seu discípulo colocasse a mão na frente do rosto, de modo a ocultá-lo. O discípulo fez isto. - Sua mão é pequena, e no entanto conseguiu cobrir totalmente a força, a luz e a majestade do imenso sol. Da mesma maneira, os pequenos problemas conseguem lhe dar a desculpa necessária para não seguir adiante em sua busca espiritual. “Assim como a mão tem o poder de esconder o sol, a mediocridade tem o poder de esconder a luz interior. Não culpe os outros por sua própria incompetência.” De quem é a culpa Um casal saiu de férias; ao voltar, encontraram a casa arrombada; os ladrões tinham levado tudo. O marido acusou a mulher, dizendo que as trancas não tinham sido colocadas. Ela afirmou que ele esquecera de fechar a porta com a chave. Uma longa discussão começou, até que os vizinhos chamaram um padre para serenar os ânimos. - A culpa é dela, que sempre foi desleixada - disse o marido. - Não, a culpa é dele, que não presta atenção no que faz - respondeu a mulher. - Um momento - disse o padre. - Vivemos culpando uns aos outros por coisas que jamais fizemos, e terminamos carregando um fardo que não é nosso. Será que nunca lhes ocorreu a idéia que os ladrões são os verdadeiros culpados pelo roubo? Deus e o amor do homem Um homem chegou até o filósofo Ramanuja, e pediu: - Mostre-me o caminho até Deus. - Você já se apaixonou por alguém? - Apaixonar-me? O que o grande mestre quer dizer com isso? Eu prometi a mim mesmo jamais me aproximar de uma mulher, fujo delas como quem tenta escapar de uma doença. “Eu sequer as olho: quando passam, fecho os meus olhos, de modo a estar sempre concentrado na busca espiritual.” - Procure voltar ao seu passado, e tentar descobrir se nunca, em toda a sua vida, houve algum momento de paixão que deixasse seu corpo e seu espírito cheios de fogo. - Vim até aqui para aprender como rezar, e não como me apaixonar por uma mulher. Ramanuja ficou em silêncio por alguns minutos, e finalmente disse: - Não posso ajudá-lo. Se você ainda não teve uma experiência de amor, você nunca conseguirá experimentar a paz de uma oração. Portanto, volte para sua cidade, apaixone-se, e só me procure novamente quando sua alma estiver cheia de momentos felizes. Um ótimo domingo, despedida do outono, entrada do inverno, véspera de aniversário de uma pessoinha. Tudo de bom. Sábado, Junho 20, 2009
21 de junho de 2009 N° 16007 - MARTHA MEDEIROS Brrrrrr, o inverno de novo HOuve uma época em que eu perdi totalmente o juízo: acreditava que o inverno era a melhor estação do ano. Repetia à exaustão: ah, nada como lindos dias ensolarados e a temperatura nunca acima dos 13 graus. Todo mundo tem o direito de surtar de vez em quando.
Hoje afirmo categoricamente: por mim, o inverno poderia durar uma semana. Ok, duas semanas. O suficiente para tomar uma bela sopa, acender a lareira, dar um pulo em Gramado, tomar chá, quentão, vinho tinto e usar todos os cachecóis e botas que nos deixam tão elegantes. O melhor do inverno está nas páginas do caderno DonnaZH de hoje: a moda. Fora isso, não tenho visto grande vantagem em ele durar intermináveis três meses – aliás, mal consigo imaginar como seria viver num país onde ele dura quase o ano inteiro. No inverno, os dias são mais cinza. Há nevoeiros. Os voos não decolam de manhã cedo. É uma praga levantar antes das sete para trabalhar ou para levar os filhos à escola, ou ambos. Ainda está escuro lá fora. Tem coisa mais deprimente do que abrir a janela do quarto de manhã e ainda ser noite? A maldita da rinite não nos larga. A umidade penetra nos ossos. Fresta na janela é espirro na certa. Dá preguiça de tirar a roupa para tomar banho. E quando a gente tira e se olha no espelho, surpresa: engordamos. Sem falar na pele desbotada. Foi-se a marca do biquíni. O nome disso é inverno. Que saudade de acordar bem cedo com a cidade já acordada, de não passar frio, de colocar qualquer vestidinho com uma sandália rasteira e estar preparada para o dia. Comer mais salada, mais frutas, tomar mais líquidos, caminhar mais pelas ruas, ir ao clube, aos parques, passar alguns finais de semana na praia, praticar mais esporte, ganhar um bronzeado saudável. Não conheço melhor regulador do humor. Do bom humor. A vida fica mais colorida, mais leve, e os dias mais longos: quem é que está a fim de que o tempo passe ligeiro? Concordo, mormaço é chato também, ficar suando não é nada agradável, mas como sou friorenta de nascença, nada disso me incomoda. O inverno mal começou e eu já quero vê-lo pelas costas. Sei que é a estação mais sofisticada, mais civilizada, a preferida das cabeças pensantes, dos intelectuais. É muito mais chique gostar do inverno. O verão é vulgar, dizem. Concordo. Mas estou disposta a devolver minha carteirinha de “mulher chique, civilizada, pensante”. Podem me expulsar dessa turma. Quero jogar frescobol na beira da praia, quero estar perto do mar, quero usar menos roupa, quero pegar sol, quero tomar caipirinha, quero todos os pecados tropicais. Minha estação preferida? Sendo absolutamente sincera, são as de transição: outono e primavera, sem extremismos, um pouquinho de frio e calor na medida certa. Mas se é pra radicalizar, verão toda vida. E torçamos para que eu não esteja em surto de novo. Um ótimo domingo, este que marca a entrada de mais um inverno e o fim de um outono nem tão alegre eu diria.
*Cristiane Segatto Eles traem sem camisinha Foram realizadas 8 mil entrevistas com homens e mulheres de 15 a 64 anos de todas as regiões do país. No quesito fidelidade, confirmou o que todos nós imaginávamos: 21% dos homens casados ou que vivem com companheiras têm parceiras eventuais. Entre as mulheres, apenas 11% têm relações fora do casamento.
A diferença não surpreende. Nossa cultura tolera - e até enaltece - as escapadelas masculinas. Não faz o mesmo com as femininas. Mulheres que traem são punidas com a execração familiar e social. É comum encontrar matronas que protegem os filhos que pulam a cerca. Às filhas que fazem o mesmo reservam a mais dura censura. Os números do governo apontam algo mais grave: os homens traem sem camisinha. A maioria dos casados que buscaram outras parceiras não usou preservativo em todas as relações. No grupo dos traidores, 57% dispensaram a camisinha. Isso é criminoso. De uma ignorância atroz. De uma irresponsabilidade sem tamanho. Muitos desses homens são os mesmos que também não aceitam usar camisinha com as mulheres que vivem com eles. Ou seja: pegam aids ou outras doenças sexualmente transmissíveis nas relações eventuais e levam para casa. Infectam a parceira de tantos anos, a mulher com quem dividem os melhores e os piores momentos da vida a dois, a mãe dos filhos. Acho impossível exigir fidelidade de alguém. Embora seja fiel (que fique bem claro), tenho minhas dúvidas sobre se ela de fato garante a felicidade dos casais. Respeito, no entanto, é o mínimo que se pode exigir e esperar de um casamento. E respeito, entre outras coisas, é usar camisinha em todas as escapadelas. Sempre que converso com alguma mulher que pegou aids do marido - o que é muito comum -- penso na crueldade que reside nessas histórias. A mulher não trai, resiste a todas as oportunidades de fazer sexo casual e é infectada dentro de casa porque foi tonta o suficiente a ponto de confiar no marido. Segundo a pesquisa, 80% dos entrevistados (homens e mulheres) acham que ter parceiro fiel e não infectado reduz o risco de trasmissão do HIV. Esse nosso povo brasileiro, tão desconfiado de tantas coisas, está acreditando em fidelidade. Eu, que já passei da idade de acreditar em histórias da carochinha, não acredito em marido fiel. Fiz um pacto com ele. Não transamos sem camisinha. Se ele for fiel como eu, estamos empatados. Se não for, estou protegida. É esse pacto que as mulheres precisam começar a construir: camisinha em todas as relações - eventuais ou não. Entre as mulheres que traem, 75% não usaram preservativo em todas as relações eventuais. Ou seja: elas não exigem camisinha em casa nem na rua. Todos perdem. Homens e mulheres maduros precisam ouvir as lições sobre sexo seguro que seus filhos e sobrinhos conhecem e aplicam. A pesquisa confirmou que os jovens usam mais camisinha. Na faixa dos 15 aos 24 anos, 49% dos entrevistados disseram ter usado camisinha no último ano em todas as relações com parceiros casuais. O índice poderia ser mais elevado, mas não é exatamente ruim. Dos 25 aos 49 anos, caiu para 44%. Dos 50 aos 64 anos, despencou para 32%. Não é fácil fazer esse tipo de pesquisa. Quando se trata de sexo, as pessoas costumam mentir descaradamente. Ainda assim, essa tentativa de flagrar o comportamento sexual do brasileiro convida a várias reflexões. Qual é a sua? O que você pensa sobre fidelidade e camisinha? Queremos ouvir a sua opinião. *Repórter especial, faz parte da equipe de ÉPOCA desde o lançamento da revista, em 1998. Escreve sobre medicina há 14 anos e ganhou mais de 10 prêmios nacionais de jornalismoHomens casados traem. Mais do que as mulheres. Até aqui nenhuma novidade. O Ministério da Saúde divulgou o resultado da mais ampla pesquisa sobre o comportamento sexual do brasileiro.
20 de junho de 2009 N° 16006 - MOACYR SCLIAR A arte da fuga As situações de estresse são extremamente comuns em nossa época, como mostra a pesquisa de Ana Maria Rossi. E a pergunta se impõe: o que fazer a respeito? Para respondê-la, é preciso notar, em primeiro lugar, que o estresse não afeta só a espécie humana. Os animais também passam por isso na luta diária pela sobrevivência.
E reagem às ameaças de um forma muito simples, com uma resposta binária: a luta ou fuga (fight-or-flight, na expressão em inglês, que envolve um engenhoso trocadilho – expressão esta proposta pelo fisiólogo Walter Cannon em 1915). A zebra que, numa savana africana, avista um leão, não hesita em dar no pé, sob pena de transformar-se em refeição para os carnívoros. Ou seja: luta ou fuga para os animais é uma escolha simples. Não para os sere humanos. Fuga, para nós, é sinônimo de covardia. Somos ensinados, desde a infância, a, diante de uma ameaça, cerrar os dentes e os punhos e prepararmo-nos para o combate. Que, muitas vezes, se acompanha de uma derrota. Fugir nada tem de vergonhoso. O leão não foge da zebra, nem do tigre, mas diante de uma tempestade ameaçadora o rei dos animais vai se abrigar numa caverna qualquer. Os bichos fazem isso instintivamente, mas no caso dos seres humanos a decisão envolve uma arte: a arte da fuga, diríamos, parodiando o título da famosa peça musical de Bach. Para começar, é melhor falar em retirada estratégica, em tirar o time de campo, do que usar a palavra fuga. Em segundo lugar, é preciso saber como fazê-lo. O senador gaúcho Pinheiro Machado (antepassado do grande Ivan, da Editora L&PM), deu a receita. Diante de uma multidão enfurecida que, no centro do Rio de Janeiro, bloqueava a passagem de seu tílburi, disse ao cocheiro: “Siga, mas não tão depressa que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação”. Às vezes a fuga se traduz no apelo ao álcool, às drogas, coisas que levam ao isolamento, um agravante do estresse. É por isso que atualmente reforça-se o papel do convívio social como antídoto para o estresse. Está estressado? Não fique só. Procure a família, os amigos. Use as modernas redes de comunicação, criadas (ou reforçadas) pelo celular, pela internet. Pesquisas feitas nos Estados Unidos mostram que este simples e acessível recurso diminui em muito os agravos do estresse. À arte da fuga podemos acrescentar a arte do convívio – e assim minimizar os problemas causados pelo estresse. Faleceu em Londres o médico, antropólogo e escritor Cecil Helman, autor do magistral Cultura, Saúde e Doença, aqui lançado pela Editora Artes Médicas. O dr. Helman tinha muitos amigos no Rio Grande do Sul, e aqui esteve várias vezes para palestras e cursos. Um original pensador da medicina, e um belo ser humano. Sexta-feira, Junho 19, 2009
Crítica/"Tinha que Ser Você" Drama romântico explora amor maduro RONI FILGUEIRAS COLABORAÇÃO PARA A FOLHA Aos 38 anos e apenas um longa anterior no currículo, o inglês Joel Hopkins já diz a que veio em "Tinha que Ser Você" ("Last Chance Harvey"). E com o mérito de explorar um tema pouco visto nas telas, o amor maduro. De quebra, ele reúne dois tarimbadíssimos atores para um improvável par romântico: Dustin Hoffman e Emma Thompson. Hoffman interpreta o americano Harvey, pianista de jazz frustrado, na casa dos 70, que trabalha criando jingles publicitários. A contragosto, ele viaja a Londres para o casamento da filha única, Susan (Liane Balaban). O reencontro o obriga a passar em revista os atos que lhe renderam a mágoa da ex-mulher (Kathy Baker) e o afastamento de Susan. Nessa prestação de contas com o passado, o acaso o aproxima da inglesa cinquentona Kate (Emma Thompson). Dona de uma vidinha besta, cuja maior fonte de prazer são as aulas de literatura com um professor octogenário, ela gasta o tempo livre administrando os próprios acessos de pânico e tristeza, despertados pela solidão, e a neurose materna. Hopkins aproxima os futuros amantes sem pressa, num primeiro encontro espinhoso, que evolui com o tempo - principal combustível dos encontros verdadeiros. O forte deste drama romântico são o trabalho de direção e a sofisticada criação dos personagens, nunca óbvio, e que têm à mão -coisa rara- diálogos feitos de carne e paixão. Hoffman, que volta a ser protagonista, depois de anos em papéis sem importância, ganha um personagem à sua altura. Está ótimo como um cara que, aos 45 minutos do segundo tempo de um jogo quase perdido, aposta na mudança. Mas quem rouba os holofotes mesmo é Emma Thompson. Sua desengonçada Kate é tocante, de uma delicadeza e verdade constrangedoras em sua solidão e seu desespero contido. Com vários prêmios em sua estreia ("Jump Tomorrow", 2001), Hopkins assina o roteiro, simples e ao mesmo tempo repleto de pequenos detalhes, que destaca tanto o ridículo quanto o sublime dos enamorados e ratifica o poder transformador do amor. O diretor-roteirista subverte os chavões do gênero, introduzindo elementos surpresa, que provocam ruídos quase sempre cômicos, esbanjando talento no manejo das ferramentas do cinema narrativo clássico. O filme é uma bela surpresa. TINHA QUE SER VOCÊ Direção: Joel Hopkins Produção: Estados Unidos, 2008 Com: Dustin Hoffman, Emma Thompson Onde: Cidade Jardim e Iguatemi Cinemark Classificação: 12 anos Avaliação: bom Well, pelo menos já estou no aeroporto de Brasilia onde posto estas matérias, retornando para Porto Alegre - Durma bem e até amanhã
Rua da Praia Dom Carlos Reverbel, o saudoso escritor, jornalista e marido da não menos saudosa professora Olga Reverbel, gostava de frases. Lá pelos anos setenta, acho, ele disse que a Rua da Praia estava enterrada no belo livro de Nilo Ruschel, de 1971, que tem o mesmo título que a rua e que há poucos dias ganhou merecida nova edição, da Editora da Cidade e do Instituto Estadual do Livro. Outro bom frasista, o também saudoso pintor Iberê Camargo, referindo-se à nossa principal rua do Centro, disse, acho que lá pelos anos noventa, que a Rua da Praia revelava o achinelamento nacional. Como seria uma boa frase para definir a Rua da Praia de 2009? Este texto não pretende lembrar os anos dourados, o cafezinho do Rian, os paralelepípedos e o antigo charme da Andradas. Tenho saudade do meu tempo de guri, quando planejava ler todos os livros da Livraria do Globo e me embriagava, de leve, com os bombons de licor da Kopenhagen. Mas, pensando bem, outras cidades e outras partes do mundo também mostram certo achinelamento. Isso consola um pouco, vá lá. A elegância (que não é necessariamente sinônimo de poder, casta, dinheiro ou posição), a grana e a delicadeza são artigos que andam mesmo escassos no planeta. A Rua da Praia segue viva, pulsando, com muitas pessoas habitando, trabalhando, namorando e vivendo em seus prédios e circulando pelas calçadas e pelo calçadão. Claro que o comércio, os serviços e os frequentadores mudaram e que muitos antigos barões imobiliários do Centro preferem investir em outras regiões da cidade. Os valores dos imóveis e dos aluguéis não são os mesmos e tal. Mesmo diante de tudo isso, prefiro, no fundo, a exemplo de muitos porto-alegrenses, que a Rua da Praia recupere sua importância. Iniciativas especialmente na área da cultura estão aí, em várias partes do Centro, buscando revitalizá-lo. O projeto do Cais do Porto deve ajudar, assim como os projetos habitacionais, que atendem a camadas populares e que, ao fim e ao cabo, proporcionam vida, consumo e movimento. O grande desafio, claro, é ver crianças e jovens frequentando a Rua da Praia e as demais ruas do Centro. Meu lado guri ainda curte, quando dá, o lendário cachorro do Bigode, aquele da Galeria do Rosário. Tem tele-entrega, mas o melhor e mais democrático é degustar de pé, no balcão, ouvindo o velho coração da Rua da Praia batendo. Pois é, no fundo eu e muitos torcemos para que o coração da vovó aguente mais uns séculos. Saúde! Bem domingo às 2h45m começa o inverno, portanto aproveite esse restinho de outono. Um ótimo fim de semana e Porto que me espere. Quinta-feira, Junho 18, 2009
QUEM PAGA A CONTA? Sou lento. Muito lento. Mais lento do que eu só o Rio Grande do Sul. Ainda continuamos neoliberais. Ou estamos até mais do que antes. Tivemos o neoliberalismo do Antonio Britto. Agora temos o neoliberalismo da Yeda. Num intervalo, tivemos o socialismo do Olívio. Só não tivemos até agora um período capaz de unir desenvolvimento e modernidade sem cair nos chavões dos dois extremos. Estou acompanhando a polêmica sobre a construção de presídios privados para resolver o problema da superlotação carcerária do nosso Estado. Tentei raciocinar. É algo que não faço todos os dias. Cansa. Tomei os pedágios como referência. Como funciona, grosseiramente falando, um pedágio? O governo aluga uma estrada para uma empresa, que se obriga a conservá-la ou a modernizá-la, raramente a construí-la e, em contrapartida, a empresa pode cobrar uma taxa pelos veículos que trafegam por ali. Quem paga a conta? O usuário, o motorista, o cliente, o consumidor, nós. Faz sentido. De onde sai o lucro (a diferença entre o que o empresário investe e o que ele arrecada)? Do bolso do usuário da estrada. Faz muito sentido. Quem usa, paga. Quem não usa, nada tem a ver com o peixe. Claro que resta saber para quem usa o que foi feito dos seus impostos. É como pagar duas vezes. Mas tudo bem. Funciona. Em geral. No caso de uma prisão, quem pagará a conta? O preso? Vai pagar aluguel pela cela? Certamente, não. Vai ser obrigado a trabalhar para o administrador privado da prisão? Parece impossível. Li nos jornais que hoje um preso no Rio Grande do Sul custa ao Estado em torno de R$ 700,00. Com a privatização, custará em torno de R$ 2 mil. Confesso que não entendi. Sou lento. Muito lento. Quer dizer que para resolver o problema da falta de presídios e da falta de recursos públicos o Estado pagará mais? Como se pode resolver a falta de recursos gastando mais recursos em princípio inexistentes? Se é o Estado quem vai pagar a conta, como está pintando, por que se chamará a isso de privatização ou de parceria público-privada? Não seria simplesmente uma terceirização? Para que haja lucro, razão pela qual o empresário vai entrar na jogada, será necessário que exista uma diferença entre o investido e o arrecadado, o tal do lucro. Significa que o Estado, além de desembolsar uma quantia para realmente manter o preso, comida, saúde, segurança, terá de desembolsar uma quantia extra para remunerar o parceiro privado, ou seja, terá de pagar uma taxa de administração? Se bem entendi, a vantagem é que o empresário adianta o dinheiro da construção da prisão. E depois de findo o período de ressarcimento como fica? Isso faz pensar na 'Ópera do Malandro': o larápio passa a perna no otário, que transfere o prejuízo para outro otário e assim por diante. Na ponta da cadeia (opa!), todos se unem para saquear o Estado, que, como não tem dinheiro próprio, repassa o que tirou da coletividade dos otários, os contribuintes. E assim somos todos iguais na hora de pagar duas vezes a mesma conta. juremir@correiodopovo.com.br Quarta-feira, Junho 17, 2009
Roberto Freire Ame e dê Vexame Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco, você levou para conhecer a sua mãe e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele escuta Sivuca. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, e ainda assim você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Por que você ama este cara ? Não pergunte pra mim. Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes de Woody Allen, dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador e seu fettuccine ao pesto é imbatível. Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desses, criatura, por que diabo está sem um amor ? Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados. Não funciona assim. Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estrelar. Costuma ser despertado mais pelas flechas do cupido que por uma ficha limpa. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referências. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o amor tem de indefinível. Honestos existem aos milhares, generosos tem às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó. Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é.
17 de junho de 2009 N° 16003 - MARTHA MEDEIROS Minhas filhas com Madonna Deixei minhas duas filhas na porta do hotel para passarem a tarde com a Madonna, como se Madonna fosse uma espécie de ex-marido que tivesse o direito à guarda compartilhada. No final da tarde, quando fui buscá-las, veio a notícia: Madonna não as devolveria nem naquele horário, nem no dia seguinte, nem nunca. Adotaria as crianças. Adotaria as minhas crianças. Meu coração veio até a boca, eu sentia meu rosto pegando fogo. O que aquela loira mequetrefe estava pensando que era? Que bastava chegar aqui no Brasil, fazer uni-duni-tê e levar pra casa uns brinquedinhos? Ela já tinha seu menino Jesus, sua Lola, seu Rocco, seu filhinho africano, que ideia era essa agora de capturar duas adolescentes gaúchas com endereço fixo e família constituída? Armei um escândalo. Chamei os colegas aqui do jornal, exigi a presença de um juiz, de um promotor, de um delegado, de um psiquiatra e de um atirador de elite. Me avisaram que o William Bonner já estava a caminho e que faria entradas ao vivo no Jornal Nacional. O hotel estava cercado. Eu passava torpedos alucinados pro celular da minha filha maior, pedindo que ela tivesse calma e que cuidasse de sua irmã mais nova, que a situação era absurda mas que eu duvidava que Madonna fizesse algum mal a elas. Aliás, estranhava a cantora não ter confiscado o aparelho. Será que minhas duas meninas haviam sido trancafiadas num cubículo, sozinhas, apavoradas? Será que estavam sendo obrigadas a ouvir Give it 2 Me sem parar? Chamei também um representante dos Direitos Humanos: tortura, não. Eu bufava. Maldita hora em que aquele juiz não permitiu que a cantora adotasse a pequena órfã de Malaui, a essa hora estaríamos todos em casa, tomando uma sopa quente e se preparando para ir pra cama, mas não, o juiz achou que a menina estava sendo bem tratada no orfanato e não permitiu que ela partisse com qualquer uma para Nova York, e agora eu é que tenho que arcar com os caprichos dessa desvairada. A madrugada avançava e eu perdi o contato com minhas filhas. Todos me diziam: pode desistir, ela levará as gurias com ela. Foi então que tive uma violenta arritmia cardíaca e acordei. Eu não arrisco afirmar qual é a coisa mais chata do mundo, porque a lista é grande, mas ouvir o sonho de alguém está certamente entre os top-ten. A pessoa pode ter sonhado algo muito engraçado, doido ou significativo, mas para o ouvinte será sempre um suplício. Freud não devia estar batendo bem quando inventou de estimular a interpretação dos sonhos, só podia estar de provocação com os colegas. Não condeno aquela cochiladinha que todo psicanalista dá durante as consultas. Sonho é uma ficção fajuta, é uma história em cima do muro, não aconteceu e ao mesmo tempo tem um componente de realidade: aconteceu, sim, só que dentro de uma cabeça, esse território obscuro. É um roteiro sem começo nem fim, mal dirigido e sem nenhum interesse para o interlocutor que está ali, coitado, ouvindo tudo há 15 minutos. Se você faz questão de divulgar as criações absurdas do seu inconsciente, conte apenas o trailer. Esta semana soube que Madonna finalmente teve autorização para adotar a pequena Mercy James, também de Malaui. Acho que agora posso dormir sossegada. Tenhamos todos uma ótima quarta-feira - Aproveite o dia minha amiga. Terça-feira, Junho 16, 2009
JOSÉ SIMÃO Ueba! Marta e Serra assustam a parada! Viram a cara do Serra?°° O Kassab devia se casar com o Serra. Ia nascer um pastel de palmito BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Manchete piada pronta do UOL: "Parada Gay desce na contramão". E a minha empregada foi pra parada com o namorado. Entregar o bofe de oferenda! E agora descobriram mais um parente do Sarney no Senado. É sobrinha, é neto. Ele vai ser indiciado por FORMAÇÃO DE FAMÍLIA! Buemba! Sarney indiciado por formação de família! Rarará! E o Brasil não tá em recessão, tá em retrocesso: a volta do Sarney, a volta do Collor, a volta do Ronalducho; o Fittipaldi e o Cafu viraram garotos propagandas e as TVs tão brigando pelo Gugu. E a Disparada Gay? E a multidão na Paulista? Depois diz que é minoria. Veio biba até de Marte! De Marte e de Marta! Vocês viram a Marta na parada? Não tava uma drag queen. Tava um DRAGÃO QUEEN. E sempre com aquele jeans dois números a menos. Deus é justo, mas o jeans da Marta é muito mais! E um amigo meu impressionado com a multidão na Paulista me disse: Sou hetero mas não tenho culpa! Rarará! E o Serra? Vocês viram a cara de animado do Serra? É Dia das Bibas, não é Dia das Bruxas! E o Serra é a favor da união estável. Ainda bem. Só que união com o Serra não deve ser estável, deve ser detestável. Buemba! Serra é a favor da união detestável. Rarará! E o Kassab devia se casar com o Serra. Ia nascer um pastel de palmito. Aliás, o Kassab tem carisma de pastel de palmito. E essa notícia: "Solteiras revoltadas com os bonitões da parada". É o que sempre diz uma amiga minha: é melhor um feio na mão do que dois lindos se beijando. Rarará. E o que você deu pra sua namorada no Dia dos Namorados? Dei um chifre! É mole? É mole, mas sobe! Ou como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês"! Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que nos ônibus de Porto Seguro (BA) tem a placa: "É proibido fumar qualquer coisa". Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Lava jato": flanelinha do Aerolula. Rarará. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou! simao@uol.com.br Bem e amanhã e quinta-feira estarei em Brasília. Quem sabe já fique de novo por lá, mais uns cinco anos!!!
16 de junho de 2009 N° 16002 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA A mulher mais bela Era um esplendor. Uso esta palavra por não conhecer outra para melhor descrevê-la. Já descobriram que falo de uma mulher. O que não sabem ainda é que caminhava em minha direção pela Rua Duque e que se deteve diante de mim. Será que eu podia fazer o favor de indicar-lhe onde ficava a sede do Tribunal de Justiça? Eu sabia, mas por cinco ou dez segundos a contemplei. Era alta, tinha os cabelos dispostos num corte Chanel, seus traços não poderiam ser mais perfeitos e ela trajava roupas deliciosamente outonais. Tinha uma simplicidade elegantemente sensual de gestos. A voz era levissimamente rouca, como mandava o ar frio da manhã. E de todo o seu corpo exalava um perfume como só na França sabem decantar. – A sede do Tribunal de Justiça? – perguntei, porque aquilo me dava uns instantes a mais para observá-la. Gostaria que tivesse me pedido o segredo da origem do universo, o mistério do pulsar das estrelas, a explicação do enigma da vida, pois assim eu poderia distraí-la com minhas palavras e desfrutar por mais tempo de sua brevíssima companhia. Não havia nesta cidade de Porto Alegre mulher mais bela e no entanto eu não podia retê-la. Esclareci com palavras banais a exata direção do Tribunal de Justiça, ela me agradeceu com uma rápida inclinação de sua cabeça magnífica e retomou seu caminho. Eu a vi afastar-se no rumo indicado como quem se separa de um milagre de encantamento e desejo. Eu a perdi como quem se distancia de um prodígio de lindeza para o nunca mais. Essa mulher não é para mim – argumentei comigo mesmo. Essa mulher é um sonho que se move pelas ruas de minha cidade – tentei convencer-me. Essa mulher é feita para um potentado, um filme de que só haja uma cópia, uma peça de teatro que seja a sua própria apoteose. Jamais tornei a vê-la. Mas por vezes, nas noites quietas, suspeito que aqui vive a mulher mais formosa do mundo. Uma ótima terça-feira, aproveite o seu dia de folga minha amiga. Segunda-feira, Junho 15, 2009
15 de junho de 2009 N° 16001 - KLEDIR RAMIL Chá O chá é uma bebida preparada por meio da infusão de folhas, flores ou raízes. Existe chá preto, chá branco, chá verde. Chá de hortelã, de camomila, de boldo, de jasmim e até de bergamota. Todas as culturas, através da História, adotaram a bebida. Há no Oriente a Cerimônia do Chá, um ritual iniciático de elevação espiritual. Na Amazônia, algumas comunidades misturam cipó Caapi com folhas de Chacrona e fazem um chá conhecido como Ayahuasca que, dizem, provoca uma expansão de consciência e revela uma outra dimensão da realidade. Nós, os gaúchos, aprendemos com os índios guaranis a tomar o chimarrão. Preparado com a folha da Ilex Paraguariensis, o mate amargo não chega a abrir as portas da percepção mas, segundo o ditado popular, “é bom pras ideia e pras urina”. De todas as tradições, o chá inglês é o que mantém o protocolo mais rigoroso. Deve ser bebido com um pingo de leite, pontualmente às 5h da tarde e com o mindinho levantado. O jogador Adriano, quando abandonou a Inter de Milão, tomou um chá de sumiço no Rio de Janeiro e foi encontrado vários dias depois no Complexo do Alemão. Ao voltar pra casa, levou um puxão de orelhas de sua mãe com a recomendação: “Você tá precisando é tomar juízo”. Alguns médicos e dentistas têm o hábito de dar um chá de cadeira nos pacientes. As mulheres, quando vão casar, fazem chá de panela. Depois fazem chá de bebê ou chá de fraldas. No Rio Grande do Sul, usamos a expressão chá de pera, para quem faz o papel de acompanhante de um casal de namorados. Tia Hilda era irmã de minha vó Ramila e, como todas as mulheres da família, era forte, cheia de saúde e chegou quase aos cem anos de idade. Já idosa, com mais de 90, tinha uma receita infalível para qualquer tipo de enfermidade: chá de losna. Se alguém chegasse em sua casa reclamando de uma certa indisposição de estômago, frieira ou queda de cabelo, ela recomendava chá de losna. Não só recomendava como imediatamente levantava e dizia: “Vou fazer um chá de losna pra ti, meu filho. Vai sarar na hora”. Ia até o quintal, passava a mão em qualquer capim verde que encontrava e jogava numa panela de água quente. Era um perigo. Corria-se o risco de tomar chá de urtiga. Ou mestrunço. Cada vez que íamos visitar tia Hilda e ela perguntava pela saúde, eu me apressava em responder: “Estou ótimo, tia. Nunca estive tão bem na vida”. Uma ótima segunda e uma excelente semana. Não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas. E eu questiono por que tem que ser assim tão dolorido..? Domingo, Junho 14, 2009
+ Marcelo Gleiser Anjos e demônios da ciência No filme, os cientistas são inocentes e os cardeais são sábios Como não podia deixar de ser, hoje escrevo sobre o filme "Anjos e Demônios", baseado no romance homônimo de Dan Brown. Para os leitores que não tiveram a oportunidade de assistir ao filme ou ler o livro, a narrativa trata de um complô para assassinar a cúpula da Igreja Católica durante a escolha de um novo papa. Uma bomba extremamente poderosa foi escondida em algum lugar da famosa basílica de São Pedro, no Vaticano, e irá explodir, a menos que nosso herói, o professor de Harvard especialista na interpretação de símbolos Robert Langdon (Tom Hanks), consiga desvendar uma série de mistérios e pistas. A bomba, e aqui entra o tema principal do filme, é um artefato que usa uma amostra de antimatéria criada pelos cientistas do Cern, o centro europeu de física de partículas, a casa do LHC, o gigantesco colisor de partículas que deverá entrar em funcionamento em alguns meses. O filme retrata o conflito entre os magistérios que supostamente disputam o domínio da sociedade: a religião e a ciência. A cena inicial se passa no templo da ciência, onde os seus sacerdotes, os cientistas do Cern, preparam-se para acionar a maior máquina já construída na história. A bela física italiana Vittoria Vetra (Ayelet Zurer) e seu colega, um padre físico (vejam que essa união não é impossível), planejam isolar um pouco de antimatéria. O ponto é que antimatéria é extremamente rara: o Universo é composto quase exclusivamente de matéria, os átomos formados de partículas elementares como elétrons e quarks (componentes dos prótons e nêutrons). Ainda bem. Partículas de matéria desintegram-se imediatamente quando entram em contato com partículas de antimatéria, transformando-se em raios gama, uma forma de radiação eletromagnética de altíssima energia. Se você apertasse a mão da sua antipessoa, o Brasil desapareceria em instantes. A bomba que ameaça destruir o Vaticano é feita de antimatéria, roubada do experimento no Cern. No livro, fica claro que a intenção dos físicos é recriar o Big Bang, o momento da criação, transformando mistério em ciência. O padre físico quer provar que Deus existe; os cientistas, que a ciência explica até mesmo o mistério da criação sem a necessidade de interferências sobrenaturais. No meio tempo, a liderança da Igreja Católica pode desaparecer do mapa: o fim da religião pelas mãos da ciência. Não vou contar o que acontece no filme, para não estragar a surpresa. Mesmo que o enredo não faça muito sentido do ponto de vista científico, Dan Brown consegue trazer o conflito entre ciência e religião ao grande público, o que acho notável. Infelizmente, no filme vemos uma tendência a manter estereótipos que me parecem injustos. Existe uma aura de inocência nos cientistas e de sapiência nos cardeais, como se cientistas fossem imaturos e irresponsáveis perante a autoridade moral da igreja. O templo da ciência parece um brinquedo perante o majestoso templo da igreja. (E, em termos de beleza, não há mesmo o que comparar. Mas a questão aqui é a função de cada um.) Mas o que define a sociedade moderna? Os "brinquedos" digitais da ciência ou a moral ancestral da religião? A sabedoria e a moralidade não são província exclusiva da religião. Muitas pessoas sábias e altamente morais não são religiosas. Todos sabem que matar é errado (mesmo que as religiões se esqueçam disso com frequência), e a maioria sabe que devemos amar o nosso próximo. Os desafios que enfrentaremos ao longo deste século, do aquecimento global à crise de energia, serão resolvidos nos templos da ciência e não nos belos templos da religião. MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "A Harmonia do Mundo" Sábado, Junho 13, 2009
14 de junho de 2009 | N° 16000 - MARTHA MEDEIROS Um lugar para se viver A Maria Rezende é uma poeta carioca que recentemente lançou um livro encantador chamado Bendita Palavra, onde, entre tantos versos, fui surpreendida por este: dentro de mim não é mais um bom lugar para se viver.
Semana passada eu decretei que o melhor lugar do mundo é dentro de um abraço. Mas o abraço é um refúgio externo. O que fazer quando dentro de nós, esse lugar privativo, deixa de ser um bom lugar para se estar? O verso da Maria Rezende reflete uma necessidade de se exorcizar, o pânico de não detectar dentro de si um abrigo, uma quentura, um espaço aprazível onde caibam todos os nossos fantasmas. A voz que fala através da poeta tem vontade de expulsar-se de si própria, já não reconhece um sol interno – isso sou eu que estou interpretando, Maria fala mais bonito: “teve um tempo em que esse dentro parecia com o fora/ era um ótimo lugar pra uma moça como eu era”. Aí a personagem do poema virou uma moça diferente, hospedou em si uma criatura arrebentada, ferida, e danou-se, agora ela não é mais um bom lugar para se viver. Explica tanta coisa, esse sentimento. Explica a gente não conseguir se relacionar bem com os outros, explica autoflagelo, explica engordar ou emagrecer além do razoável, explica suicídio, explica a sensação de ser um estrangeiro até para si próprio. Como lidar com esse despatriamento, para onde levar nossa mochila, nossa bagagem, nosso “eu mesmo” pra se instalar em outro corpo? Nascer de novo não dá. Ou até dá. Até dá. De vez em quando é necessário se perguntar se dentro de nós é um bom lugar para se viver. Depois de ler a poeta carioca, eu tenho me perguntado. E a resposta, sem nenhum ranço pseudointelectual, sem nenhuma espécie de autoaversão, ou seja, da forma mais simplória, é que sim, eu sou um bom lugar para se viver. Dentro de mim há pensamentos demais, o que torna tudo meio caótico, mas tenho tentado dar uma arrumada nessas ideias e manter cada uma em sua gaveta. Há também sentimentos variados, mas de forma alguma vou expulsá-los, deixo que circulem à vontade por esse meu corpo que lhes serve de ringue, já que eles às vezes brigam uns com os outros. Dentro de mim é sempre verão e toca música o tempo inteiro, e mantenho uma satisfação secreta que precisa se manter secreta para não passar por boba. Há crianças e adultos dentro de mim, todos da mesma idade. Aqui dentro existe uma praia e uma montanha coladas uma na outra, parece até Rio de Janeiro, só que os tiroteios são feitos com bala de festim. Dentro de mim estão muitas lágrimas que não foram choradas para fora e muitos sorrisos que, de tão íntimos, também guardei. Dentro de mim são produzidas algumas cenas sofisticadas e também roteiros de filme B. Um universo movimentado e contraditório: como não gostar de viver aqui dentro? E você, tem sido um bom hospedeiro de si mesmo? Um ótimo domingo, aproveite-o e, especialmente, para você minha amiga.
CRISE, SIM. MAS MENOS AMARGA Depois de seis anos de crescimento, o país sente o contágio externo e entra em recessão. Desta vez, no entanto, a contração econômica não assusta Benedito Sverberi - Jorge Araújo/Folha Imagem
CONSUMO PRESERVADO Loja de eletrodomésticos em dia de promoção: agora a retração não solapou o poder de compra das famílias O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) informou na semana passada que o total de mercadorias e serviços produzidos pela economia brasileira, o produto interno bruto (PIB), sofreu uma queda de 0,8% no primeiro trimestre. Essa retração se deu na sequência de uma redução mais profunda, de 3,6%, que havia sido registrada nos três últimos meses do ano passado, durante o período mais acerbo da crise internacional. Os economistas, por convenção, dizem que um país entra em recessão quando sua economia registra dois trimestres consecutivos de contração. Foi isso que aconteceu com o Brasil. Mas, ao contrário das recessões anteriores, que sempre deixaram um gosto amargo, a atual teve um sabor mais suave. No passado, as crises invariavelmente vinham acompanhadas de inflação fora do controle e juros nas alturas. Em alguns episódios, os brasileiros foram sujeitados a privações similares às de países em guerra, com racionamentos, confiscos e prateleiras vazias nos supermercados. Não se viu nada disso agora. O país suportou, com avarias moderadas, a procela devastadora da crise internacional já apelidada de A Grande Recessão. Há diversas evidências de que, desta vez, a recessão não vai assustar tanto. Em primeiro lugar, historicamente as crises financeiras obrigavam o Banco Central a lançar a taxa básica de juros, a Selic, na estratosfera, e assim conter uma fuga maciça de dólares e impedir o aumento de preços. Nos últimos meses, no entanto, o BC tem reduzido os juros. Na semana passada, a Selic caiu a 9,25% ao ano, um patamar inédito (veja o quadro). Essa queda no custo do dinheiro, vital para estimular o crédito, só foi possível porque o Brasil não apresenta hoje as vulnerabilidades que o tornavam presa fácil diante da menor ameaça. "Quando a dívida pública era excessiva e havia um grande déficit nas transações externas, era fácil apostar contra o Brasil, e toda a economia do país se desarranjava", diz o economista Cristiano Souza, do Santander. Tais desequilíbrios forçavam os brasileiros a engolir dropes extremamente amargos. Diz Paulo Leme, diretor de pesquisas de mercados emergentes do Goldman Sachs: "As profundas recessões dos anos 80 faziam o trabalho de extrair recursos da economia doméstica, penalizando a população, para que fosse possível fazer frente às obrigações das dívidas externas". Alguns números ajudam a entender a dimensão do que era uma crise no Brasil duas décadas atrás. Entre fevereiro de 1989 e fevereiro de 1990, a inflação acumulada superou 2 700%. Ao fim daquele ano, o PIB encolheu 4,35%. Tal descalabro castigava sobretudo os mais pobres e aprofundava a concentração de renda. Agora, com a inflação sob controle, os mais pobres têm sido justamente os menos atingidos. A retração ficou concentrada na atividade industrial, principalmente naquela voltada para a exportação, e foi bem mais tênue no consumo interno. "Além disso, a queda nos preços de produtos agrícolas deixou a cesta básica mais barata e ajudou a preservar o poder de compra das famílias", explica Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados. Por isso não surpreende que, em meio à recessão, o presidente Lula tenha visto sua popularidade voltar a crescer. A chave para entender a resistência brasileira reside no tripé que, há dez anos, sustenta a política macroeconômica: responsabilidade fiscal, meta de inflação e câmbio flutuante. Outro ponto fundamental é o fato de o Brasil ter liquidado sua dívida externa. Para completar, o país dispõe de um colchão de 205 bilhões de dólares em reservas internacionais. Tudo isso tornou o contágio internacional mais ameno. Existe inclusive a percepção de que a recessão já tenha ficado para trás. Em maio, o fluxo de caminhões nas estradas cresceu 2,7%, quarto mês consecutivo de alta, sugerindo uma retomada das encomendas à indústria. O consumo de energia industrial também vem subindo gradativamente desde fevereiro, após dois meses de queda acentuada. Comenta Paulo Leme, do Goldman Sachs: "Os dados recentes são auspiciosos. É como fazer uma avaliação estrutural após um furacão e perceber que quase tudo ficou de pé. A crise foi uma prova crucial para o arcabouço institucional e macroeconômico. O Brasil passou no teste". Essa parece ser a visão dos investidores estrangeiros, que começaram a trazer de volta os dólares que haviam retirado do país. Impulsionada por esse ingresso de capital, a Bovespa registra uma alta superior a 40% desde o início do ano, enquanto a cotação do dólar recuou 16%. Em um novo mundo, no qual os países desenvolvidos ingressarão com a credibilidade maculada e levarão anos para contornar plenamente a crise, a economia brasileira aparece como uma das mais capacitadas para atrair investimentos para o setor produtivo. Se o país souber aproveitar essa oportunidade, o sabor deixado pela recessão será ainda menos amargo. Com reportagem de Luís Guilherme Barrucho Sexta-feira, Junho 12, 2009
Olegario Schmitt Das Formas de Amar Meu amor, amar é mais simples do que se poderia supor, sabias? Amar é mais fácil do que a gente imagina, e há muitas maneiras, muitas intensidades de se sentir essa coisa. Eu por exemplo, quando digo "eu te amo" não quero com isto dizer que tu és o grande amor da minha vida, tão pouco é uma promessa de que o que sinto será eterno. Por isso quando digo "eu te amo" não sintas medo e não entres em pânico de forma alguma, pois não imponho a esse sentimento qualquer tipo de responsabilidade recíproca. Não espero por este sentimento qualquer tipo de resposta ou atitude, pois amar é sentir sem cobrar, sem querer nada em troca. Amar é simplesmente sentir. E gostar também é amar, gostar muito é amar, sentir carinho é amar. É sentir vontade de abraço e de colo, mas não qualquer abraço, não qualquer colo. Amar é sentir um certo tipo de carência específica. Amar é vontade de emprestar o peito para deitares tua cabeça. Amar é abrir a porta do carro para ti sem demagogia, amar é roubar uma flor e te dar, na impulsão do momento, sem me importar muito se gostas de flores ou não, e sem ligar a mínima se o gesto parecer ridículo. Amar é instável pois amar é constante transformação. Amar é diferente hoje de manhã. Por isso te amo a cada dia de uma forma, te amo até mesmo quando não amo, pois penso que este seria apenas mais uma das inúmeras formas desse sentimento se manifestar. Não te amo hoje menos do que amanhã, tão pouco amo mais, apenas amo diferente. Te amo quando sinto a tua falta e te amo até mesmo quando, por enquanto, não quero mais estar contigo. Te amo quando quero ficar em silêncio comigo mesmo e a tua presença não atrapalha o meu destino. Te amo quando estás longe e me sinto sozinho mesmo estando junto aos meus melhores amigos. Te amo quando, em meio à conversa mais interessante, me desligo e me ponho a pensar no que tu estarias fazendo agora e como seria melhor se estivesses aqui participando disso que sequer consigo fazer parte direito. E não faço parte porque não estou aqui, e não estou aqui porque tu não estás aqui. Também sei que te amo quando estás comigo, e sinto vontade de te abraçar além do teu corpo, de te abraçar além do que meus braços poderiam e de te beijar mais do que o tamanho da minha boca. E sei, finalmente, que te amo, quando me ponho a escrever estas coisas, essa forma silenciosa de gritar tudo o que sinto.
DIA DOS NAMORADOS Se você tem alguém especial; ame-a com todas as forças, não deixe pequenas coisas interromperem sua felicidade, Se você tem alguém especial; Diga a ela que você a ama, que sente sua falta quando longe ela está, que você se sente bem com a voz e alegria dela. Se você tem alguém especial; neste dia diga isso, faça isso, mesmo que por um dia, seja e faça alguém se sentir especial. Feliz Dia dos Namorados! Quinta-feira, Junho 11, 2009
1. Não tenha pressa para achar o cara certo O poeta Vinicius de Moraes costumava dizer que, para apaixonar-se, basta estar distraído. Esse pensamento vai ao encontro da milenar sabedoria oriental do I Ching, que defende que o destino tem um modo ziguezagueante de agir e que, quanto mais se tenta controlá-lo, mais as coisas dão errado.
Sabe aquela conversa de “Eu te amo pra sempre, você é o homem da minha vida, vamos decidir o nome dos filhos”? Pois é, ela atrapalha e muito. Fala o psicólogo Bernardo Jablonski, professor da PUC-RJ: “Tentar forjar situações e sentimentos é uma ótima maneira de afugentar o outro”. A ansiedade pode aumentar quando suas amigas contam que estão namorando ou vão se casar. Nessas horas, pense que estado civil não garante felicidade (quanta gente comprometida você conhece que se diz insatisfeita?!) e invista em aprender a ser feliz sozinha. Enquanto isso exercite a fé na vida que ela a recompensará! 2. Não procure só sua alma gêmea Vários estudiosos defendem que a chance de um relacionamento dar certo se torna maior se os indivíduos apresentam semelhanças em nível social e cultural. Tem gente que leva isso tão a sério que sabe descrever direitinho como seria a metade da sua laranja. “Às vezes, as pessoas procuram uma reprodução de si mesmas, o que, convenhamos, é muito difícil de encontrar”, diz a especialista em relações de gênero da PUC-SP Edna Kahhale. A máxima “Os opostos se atraem” raramente dá certo, mas por outro lado nenhum parceiro preencherá tudo aquilo que se deseja. Aqui vale de novo a recomendação de segurar a ansiedade – não elimine um candidato que seu coração acha interessante simplesmente por achar que ele não preenche os requisitos de seu memorial descritivo do parceiro ideal. 3. Lugares certos para paquera Ficar em casa não vai adiantar. Cair na balada e beijar o primeiro cara que aparecer também não garante nada. Pesquisa realizada pelo psicólogo Ailton Amélio da Silva, especialista em relacionamento amoroso da USP, mostra que apenas 20% dos casais se formam a partir de encontros em festas, bares e afins. Outros 37% nascem de relações de amizade ou coleguismo; 32% são apresentados por terceiros; 5% surgem de encontros acidentais (em uma fila, por exemplo) e 1% se conhecem pela internet (os 5% restantes se encaixam na categoria “outros”). Se pretende ir à caça de um amor, vale mais investir em atividades de seu interesse do que cair na noite. As afinidades são um ótimo ponto de partida! Se gosta de filmes, por exemplo, por que não se matricular em um curso de história do cinema? 4. Não fique falando só sobre você Não é incomum que as mulheres procurem, em um relacionamento amoroso, dividir seu passado em detalhes, seus pensamentos mais íntimos, suas inseguranças e traumas... Isso acontece porque o registro que a gente tem de amor vem da nossa relação com os pais e irmãos, que nos amam apesar de tudo e se interessam por quase qualquer coisa que diga respeito à gente. Se a intimidade com o seu candidato a namorado surgir naturalmente e for regulada pelo tempo, que bom! Mas fazer de um romance em estágio inicial um confessionário é uma ajuda e tanto para miná-lo. Principalmente se, no fundo, você estiver esperando que o sujeito que acabou de chegar na sua vida seja a sua tábua de salvação. Em geral, mulheres falam mais do que homens. Que tal ouvi-lo mais? 5. Uma mulher não muda um homem Você sabia que presidiárias são abandonadas pelos maridos com muito mais freqüência do que os presidiários são deixados por suas esposas? Isso prova que o espírito de cuidar feminino e a crença na possibilidade de o parceiro mudar superam as mesmas características masculinas. Uma pessoa só muda por conta própria. Se você está enrolada numa relação com um bandidão mulherengo, saia dessa e permita que a fila ande! Dois corpos não ocupam o mesmo espaço, diz a física. Isso vale para o seu coração. 6. Não provoque ciúme Nem toda a comunicação é verbal – o que não é falado muitas vezes fica explícito, jogos de ciúme inclusive. Quem provoca se sente dominado pela ansiedade e perde a espontaneidade. Quem é vítima da armação fareja o golpe e, em vez de valorizar o outro, descobre nele a insegurança. “Causar esse sentimento no companheiro é sinal de imaturidade”, diz o psicólogo da USP Thiago de Almeida.
JOSÉ SIMÃO É hoje! Promoção do Motel Bimbada! E a melhor namorada do mundo é a dona Marisa. Que não fala! Parece boneco de Olinda! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Começou o Feriadão da Gandaia: Dia dos Namorados, Santo Antônio Casamenteiro e Parada Gay. CORPUS ALEGRES! E a piada pronta: descobri uma nova dupla sertaneja: BÁTIMA E ROBSON! Perfeito pro Dia dos Namorados. Ótima dica: um cd do Bátima e Robson e uma fantasia de Mulher Maravilha! E a pérola do Dia dos Namorados da minha morenanta predileta Lucianta Gimenez. Que perguntou pruma modelo: "Que presente você vai pedir no Dia dos Namorados pro Papai Noel?". Rarará! E a melhor namorada do mundo é a dona Marisa. Que não fala! Parece BONECO DE OLINDA! Vai pra tudo quanto é evento e fica só balançando a cabeça! E um amigo meu vai trocar a namorada por uma gata de verdade. Não tem que levar pra jantar fora. Basta um pires de leite e ela fica feliz. E aquele surreality show "A Fazenda", da Record? Cheio de celebridades anônimas. O Dado Dolabella viu uma ovelha parindo e se lembrou da mulher grávida! Ou então ele pensou: "Já vi essa ovelha no camarote da Brahma". Rarará! E o PIB? Adorei a declaração do Lula sobre o PIB: "O PIB cresceu menos do que eu queria, decaiu mais do que eu queira, mas decaiu menos que o prenunciados pelos especialistas". Pôxa, falou difícil. E teve um derrame cerebral em seguida? Rarará! Ou como disse o Blog do Bonitão: ele tá falando do PIB ou do Ibope da Fazenda? Rarará! E brasileiro tá interessado em PIB? Brasileiro quer comprar presente pra namorada em 12 vezes sem juros! O PIB virou pibinho. PIB Danoninho, vale mais que um pibinho! E eu já disse mais de mil vezes que PIB é a Pobreza Individual do Brasileiro! É mole? É mole mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que aqui em em Sampa tem um motel ótimo pro Dia dos Namorados: Motel Bimbada! Entrada pelos fundos. Rarará. Mais direto impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Meigalinha": companheira meiga que virou galinha. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo que eu não vou! simao@uol.com.br Quarta-feira, Junho 10, 2009
JOSÉ SIMÃO Ueba! Feriadão de Corpus Alegres! Feriadão da Gandaia! Dia dos Namorados, Santo Antônio Casamenteiro e Parada Gay! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Este será o Feriadão da Gandaia! Dia dos Namorados, Santo Antônio Casamenteiro e Parada Gay! Só não goza quem não quer! E não vai ser o Feriadão de Corpus Christi, vai ser o Feriadão dos Corpos Alegres! E eu tenho uma dica ótima pros namorados. Tem uma empresa em Campos do Jordão chamada Flores & Pinto! O melhor presente. Nessa ordem! E o ditador da Coreia do Norte condenou duas jornalistas americanas a 12 anos de trabalhos forçados. Vão ter que assistir a entrevista do Nelson Jobim e a jogo do Flamengo. Por 12 anos! E já saíram mais dois apelidos pro Kill Bill, aquele que morreu se masturbando por asfixia: Kill Bilau e KUNG FUNHETA! Rarará! E adivinha qual piloto mais pegou segundo lugar na F-1? Carlos Pace. E qual piloto mais pegou segundo lugar em segundo? Ele mesmo, o piloto de enceradeira, o Rubinho. E eu tenho uma foto de dois elefantes sendo içados por guindaste. E a legenda: "Ronaldo e Adriano voltando da balada". E o almoço pra Dilma na casa da Marta Martox? Esqueci de comentar. Só pererecas. Só pererecas de botox: Dilma, Martícia Adams, Ana Maria Brega, ops, Anameba Brega, Lucianta Gimenez, Adriana Galisteu e Maria Paula. E o blog Pérolas Políticas flagrou um momento desse almoço. Dilma: "Que tal esse slogan: "Peruas unidas jamais serão vencidas'". Marta: "Prefiro: "Relaxa e goza com Dilma poderosa'". E a Lucianta: "Ai, meu Deus, tem que fazer cara de quem entendi tudo". Rarará! E tá formado o Ministério da Dilma! Cultura, Lucianta Gimenez, Saúde, Adriane Galisteu. Haja saúde! E Marta pro Ecoturismo, não, pro EGOturismo! E Ana Brega pra Proteção dos Papagaios. É mole? É mole, mas sobe! Ou, como disse aquele outro: é mole, mas rela pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que no Paraná tem um rio chamado Rio Chupador. Ótimo lugar pro Dia dos Namorados. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Martírio": almoço na casa da companheira Marta! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! simao@uol.com.br
10 de junho de 2009 N° 15996 - MARTHA MEDEIROS O segundo lugar Não sei se você já reparou. Quando alguém vai entrevistar uma modelo famosa e pergunta como ela iniciou a carreira, é quase certo que ela vai dizer que estava acompanhando uma amiga num teste e que acabou sendo a escolhida, mesmo não querendo nada com aquilo. E, quando entrevistam um ator famoso, é comum ele contar que passou anos fazendo papéis figurativos até que foi chamado para substituir às pressas um galã que ficou doente, e só então sua carreira decolou. Tem também o caso clássico da vencedora de concurso de beleza que acaba sendo ofuscada pela candidata derrotada. Em 1994, Gisele Bündchen ficou em segundo lugar no concurso da Elite, perdendo para Claudia Menezes, sabe a Claudia? Ninguém sabe. E tem a nossa vice Miss Universo, Nathalia Guimarães, até hoje em evidência como se fosse dela a faixa, o cetro e a coroa. Não sei como se explica isso, mas o fato é que acontece: em concursos das mais diversas naturezas, os que ficam em segundo ou terceiro lugar despontam, enquanto que os ganhadores, por vezes, desapontam. Logo, a ideia de que sucesso significa entrar pela porta da frente nem sempre é exata. As pessoas mais bem-sucedidas que eu conheço entraram discretamente pela porta dos fundos, e o talento, o esforço e o destino as conduziu, com o tempo, para o palco de onde nunca mais saíram. Dá para acreditar que Luis Fernando Verissimo começou sua carreira jornalística escrevendo horóscopo? Pois é. E ele só aprendeu a tocar sax porque na cidade onde morava nos Estados Unidos, durante sua adolescência, não havia aula de trompete, que era o seu verdadeiro sonho. Lembrei de tudo isso por causa do fenômeno Susan Boyle, assunto que já torrou a paciência de todos, mas que serve como reflexão sobre ganhar e perder. Ela passou pelas duas coisas: primeiro ganhou uma projeção absurda com sua performance num concurso de calouros e ficou meio lelé com a mudança repentina da sua vida. Agora, creio que a melhor coisa que aconteceu para essa jovem (meros 48) foi ter perdido para o grupo de dança na finalíssima do programa Britain’s Got Talent. Ela já assinou contratos para shows e, se conseguir superar seus abalos psicológicos, incrementar o repertório e levar a sério o seu dom, poderá ter uma carreira muito mais promissora do que os dançarinos que levaram o primeiro lugar... qual é mesmo o nome deles? Numa era em que todos querem vencer e se destacar com o maior imediatismo possível, de preferência encurtando os caminhos, vale lembrar que as portas laterais, aquelas mais modestas e sem campainha, também dão acesso ao mundo em que se pretende entrar. Permanecer nele é outro assunto. Aproveite o dia. Uma ótima quarta-feira para você. Terça-feira, Junho 09, 2009
JOSÉ SIMÃO Ueba! O Kill Bill virou Kill Braulio! O melhor lugar pra comemorar o Dia dos Namorados é o drive-thru do McDonalds BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Babado da semana! Só se falou nisso: ator David Carradine, o Kung Fu, o Kill Bill encontrado morto enforcado num hotel em Bangcoc! Num acidente autoerótico. Acidente autoerótico? Tucanaram a masturbação! Então o Kill Bill virou o Kill Ball, KILL BRAULIO, o Kill Bronha! Pior, tava praticando a masturbação por asfixia: botou uma corda no pescoço, pendurou no armário e amarrou no pingolim. Poxa, ele tava querendo se masturbar ou trabalhar no Cirque du Soleil! E com 72 anos! E eu imagino o que aconteceu: puxou a ponta da corda errada, em vez de puxar o pingolim, puxou o pescoço. Só pode ser! E como disse o outro: enforcou as duas cabeças! Rarará! E sabe como se chama a legista tailandesa: PORNtip! E sabe o que o Carradine falou pro Tarantino? Vou esfolar o bill e já volto. Essa é do blogdobonitao! E eu já paguei tanto imposto esse ano que vou mudar o Hino Nacional: "'O Pátria Amada, idolatrada, PAGUE, PAGUE!". E diz que o Rubinho já fez mais pelas tartarugas que o projeto Tamar. E essa moda de retirar assinatura de CPI? Eu também quero, quero retirar minhas assinaturas de todos os cheque prés. Rarará! Dia dos Namorados! Um amigo me disse que não vai dar nada pra namorada porque está "financeiramente deprimido". Tucanaram a dureza. E pra quem tá duro o melhor lugar pra comemorar o dia dos namorados é o drive-thru do McDonalds. Pra dar uma rapidinha. Entra, dá uma rapidinha e sai. É o McRapidinha Feliz! E na noite do dia dos namorados é assim: meu anjo, bebê, lika, fofita, pudinzinho. E aí acorda no dia seguinte de ressaca e a pudinzinho vira anta e vaca. "Onde tá o alka seltzer, sua anta?". "Onde tá a minha cueca, sua vaca". Rarará. É mole? É mole mas sobe. Ou como diz aquele outro: é mole mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Porto Velho tem um forró chamado Joelho da Cobra. Uau! Parece Dias Gomes. Mais direto impossível. Viva o antitucanês. viva o Brasil! E atenção! Cartillha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro obvio lulante: "tapume". Companheiro que luta judô na base do tapa. Deitei no tatame e levei um tapume. Rarará. O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre mas nóis goza. Hoje só amanhã! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! simao@uol.com.br
09 de junho de 2009 N° 15995 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA Não perca o seu latim O professor Marco Antônio Bomfoco, doutor em Letras, me dá uma exceleArquivonte notícia em artigo publicado em Zero Hora. Nos Estados Unidos, mais de 130 mil estudantes prestam a cada ano o Exame Nacional de Latim. Em Nova York, algumas escolas têm dois professores da matéria em tempo integral. Na verdade, nos países anglo-saxões essa língua antiga nunca saiu dos currículos. A moda está pegando também no Brasil. Esses tempos, convidei uma sobrinha minha para almoçar e Maria Eduarda me disse: – Tio, não posso. Tenho de preparar a prova de Latim. Isso, na prática, significa que, nesta nossa Porto Alegre, colégios estão reintroduzindo entre suas disciplinas o idioma de César, Cícero e Virgílio. O nosso não existiria sem ele. Mais: toda uma civilização e uma cultura passariam a quilômetros de nós sem o latim. Quando eu estava no I Clássico, que era um curso para adolescentes com queda para as ciências humanas, estudava cinco línguas: português, francês, inglês, espanhol e latim. Mais do que isso: queimava pestanas com filosofia. E não era só: lembro de um ano inteiro em que um professor nos presenteou com cada detalhe das tragédias gregas. Eu sabia tudo a respeito de Édipo, Electra ou Clitemnestra. Isso não me tornou um homem melhor, mas me converteu numa pessoa que sabia mais ou menos tudo sobre algo chamado humanismo. No vestibular de Direito, ninguém passava sem saber de cor e salteado as cinco declinações. E já no primeiro ano do curso havia uma cadeira que atendia por Direito Romano, com a qual você não se dava bem se não soubesse um mínimo da gíria do Imperador Adriano. Já quase adivinho leitores me perguntando por que moças e rapazes de hoje devem dominar o idioma de um império morto e enterrado a partir do século V. A resposta é simples. O latim já foi um meio de comunicação universal próprio das pessoas que pretendessem reunir uma síntese de civilização. E, como se isso não bastasse, era a língua da lógica, da claridade e da cultura. Uma excelente terça-feira e por favor minha amiga: não fiques indignada por situações tão triviais e que podem ser facilmente modificadas, porque representam meros números em uma página Segunda-feira, Junho 08, 2009
UM MUNDO MISTERIOSO Uma conta de telefone celular acima do esperado me fez viajar pelo mundo da telefonia hipermoderna. É fantástico, misterioso, complexo, fascinante e incompreensível. É tanto pacote que a gente se sente enrolado. Confesso que todos os meus conceitos estavam ultrapassados. Quis saber quanto eu pagava por minuto para receber ligações, por exemplo, com meu celular porto-alegrense no Rio de Janeiro. Mandaram-me ligar para a Telefônica. Não hesitei. O pessoal da Telefônica disse que nada tinha com o pato. Eu. Depois de quatro tentativas com diferentes moças da minha operadora, obtive um número aproximativo: R$ 1,80 por minuto. Até aí nada de mais. Só que a guria, muito gentil, acrescentou uma informação que me desconcertou: 'Seria mais interessante para o senhor ligar em vez de receber. Se tivesse ligado do Rio de Janeiro para Porto Alegre, o senhor teria pagado 70 centavos por minuto'. Caí da cadeira: R$ 1,80 para receber, 70 centavos para ligar. Sou analógico, anacrônico, mais superado do que o Barrichello. Meu destino é andar atrás. Sou do tempo do telefone convencional em que não se pagava para receber. Na verdade, sou da época em que era dando que se recebia. Pelo jeito, com os celulares, o melhor é dar e não receber. A curiosidade bateu. Quis saber mais. Inventei perguntas. Se eu deixasse meu celular desligado em casa durante um mês, no fundo da gaveta, quanto pagaria: R$ 171,00. Aquilo bateu forte no meu imaginário pagador. Decidi entender a composição dos valores pagos. Descobri que tinha um pacote especial para falar no final de semana com taxa fixa de R$ 30,00. Logo eu, que no fim de semana não faço uma única ligação de celular. Fiquei sabendo que o meu plano me dava direito a 50 torpedos por mês. Mesmo assim, eu pagava um pacote extra para ter mais, sei lá, 40 ou 50 torpedos. Detalhe: eu mando, no máximo, três torpedos por mês. Eu pagava dois planos para ligações à distância, um de 30 minutos e outro de 60, sendo que a minha média mensal de ligações à distância é de 18 minutos. Uma pergunta começou a incendiar o meu cérebro: quando terei e em que condições contratado todos esses pacotes enrolados? Estaria bêbado? Será que consumo crack e não tenho consciência disso? Não posso acreditar que a empresa tenha acrescentado pacotes à minha conta sem eu ter pedido. O mais incrível é o que a moça acabou por dizer para me acalmar: sem pagar nada, no mesmo plano, eu poderia receber 100 minutos fora da minha área, o que já teria evitado pagar R$ 1,80 por minuto nas ligações recebidas na conta anterior. Fiquei pasmo. Se já estava nas possibilidades do plano, em meu favor, por que não foi executado? A resposta foi impressionante: só com a minha autorização. Fiquei furioso. Virei um selvagem. Cortei pacotes, desbastei planos, lancei torpedos contra os torpedos, ameacei jogar o aparelho no rio (lago?) Guaíba, reconheci a minha condição de milionário, mas decidi não permitir que enfiem a mão no meu bolso sem maiores explicações. Oi? Agora estou me sentindo vivo. Tudo acabou bem. Claro. juremir@correiodopovo.com.br Ótima segunda-feira para você e uma semana iluminada minha amiga Domingo, Junho 07, 2009
FERREIRA GULLAR Uma experiência radical A visão neoconcreta pôs em questão a natureza contemplativa da experiência estética NAQUELA NOITE de abril de 1959, no apartamento de Lygia Clark, ali, na Prado Júnior, esquina com avenida Atlântica, quando li o manifesto neoconcreto para os companheiros que deveriam assiná-lo, nem eu nem nenhum deles imaginaria o que de fato começava naquele momento. Na verdade, começava um movimento que marcaria a história da arte brasileira e seria reconhecido como efetiva contribuição à vanguarda artística internacional. Até algumas semanas antes, não me passava pela cabeça escrever um manifesto que assinalasse um rumo novo para a arte construtiva no Brasil. A proposta inicial, de Lygia Clark, era fazermos uma exposição coletiva para mostrar os trabalhos que os integrantes do grupo haviam realizado nos dois últimos anos. Fiquei encarregado de escrever o texto de apresentação dessa mostra, mas, ao começar a tomar notas para escrevê-lo, dei-me conta de que os nossos trabalhos -tanto dos artistas plásticos como dos poetas- diferiam muito do que se entendia por arte concreta. Por que, então, me perguntei, continuar a nos chamar de "grupo concreto do Rio", em contraposição ao grupo concreto de São Paulo? Ocorreu-me o nome "neoconcreto" porque, ao mesmo tempo que indicava a nossa origem (o concretismo), afirmava que já não seguíamos a mesma trilha. Algo novo nascera. Essa é a razão por que, diferentemente dos demais manifestos, o nosso não anunciava a arte do futuro: apenas mostrava que os trabalhos mais recentes do grupo diferiam do concretismo de Max Bill, dos concretos argentinos, dos paulistas e, mais que isso, que nossa visão teórica da arte era radicalmente outra. Em que consistia a diferença? Vou tentar explicá-lo sucintamente: a arte concreta, herdeira que era das vanguardas construtivas do começo do século 20, transformara a pintura numa espécie de exploração das energias do campo visual, o que a tornara uma experiência estritamente retiniana, ótica, destituída de qualquer subjetividade. Essa concepção estética era o reflexo, no plano da arte, da visão racionalista e cientificista, que pretendia eliminar da expressão artística toda e qualquer emoção e fantasia. Dentro dessa concepção, o que não fosse objetivo e "científico" não passava de resíduo romântico, que a modernidade superara. Contrapondo-se a isso, nosso manifesto, apoiado na fenomenologia de Merleau-Ponty, afirmava que a experiência afetiva do homem no mundo era um modo de conhecimento tão verdadeiro quanto o conhecimento científico. E, do ponto de vista da criação artística, mais rico. Isso implicava um retorno à subjetividade e a substituição da expressão ótica instantânea pela duração e pela participação manual, tátil do espectador na obra de arte. Essa nova relação obra-espectador -que começou com os "livros-poema", os "poemas espaciais" e desenvolveu-se com os "bichos" de Lygia Clark- teria desdobramentos inesperados, nas obras futuras da própria Lygia e de Hélio Oiticica. A visão neoconcreta, ampliada na teoria do não-objeto, pôs em questão a natureza contemplativa da experiência estética e abriu caminho para que a ação substituísse a contemplação. Daí os "objetos relacionais" de Lygia e os "parangolés" de Hélio, antecipadores do que hoje se chama de arte contemporânea, mas que não devem nada a Duchamp. Encerrei minha participação no movimento neoconcreto, depois de inventar o "poema enterrado", construído na casa de Oiticica, mas que, no dia de sua inauguração, estava inundado pela chuva da noite anterior. Fui então trabalhar em Brasília, donde voltei para atuar no CPC da UNE, desligando-me das experiências de vanguarda para escrever poemas políticos e trabalhar pela reforma agrária. O resto se sabe: golpe militar de 1964, intimação para responder a inquérito policial-militar. O CPC virou o Grupo Opinião, um dos centros de resistência à ditadura militar. As consequências foram prisão, clandestinidade e exílio. Não obstante, meu afastamento não significou o fim do neoconcretismo. Pelo contrário. Especialmente Lygia e Hélio, com sua audácia, estenderam a desdobramentos extremos as propostas implícitas na teoria neoconcreta, hoje considerada uma contribuição brasileira ao pensamento estético contemporâneo. Esses dois artistas ganharam reconhecimento internacional, tendo levado para além dos limites do que se chama arte as inquietações nascidas daquele convívio e intercâmbio que nos uniam e incendiavam. Isso foi há 50 anos. Um ótimo domingo - Que haja muito sol lá fora e dentro de você minha amiga.
07 de junho de 2009 N° 15993 - MARTHA MEDEIROS Dentro de um abraço A Onde é que você gostaria de estar agora, neste exato momento? Fico pensando nos lugares paradisíacos onde já estive, e que não me custaria nada reprisar: num determinado restaurante de uma ilha grega, na beira de diversas praias do Brasil e do mundo, na casa de bons amigos, em algum vilarejo europeu, numa estrada bela e vazia, no meio de um show espetacular, numa sala de cinema vendo a estreia de um filme muito esperado, e principalmente, no meu quarto e na minha cama, que nenhum hotel cinco estrelas consegue superar a intimidade da gente é irreproduzível.
Posso também listar os lugares onde não gostaria de estar: num leito de hospital, numa fila de banco, numa reunião de condomínio, presa num elevador, em meio a um trânsito congestionado, numa cadeira de dentista. E então? Somando os prós e os contras, as boas e más opções, onde, afinal, é o melhor lugar do mundo? Dentro de um abraço. Que lugar melhor para uma criança, para um idoso, para uma mulher apaixonada, para um adolescente com medo, para um doente, para alguém solitário? Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro. Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e, se faltar luz, tanto melhor. Tudo o que você pensa e sofre, dentro de um abraço, se dissolve. Que lugar melhor para um recém-nascido, para um recém-chegado, para um recém-demitido, para um recém-contratado? Dentro de um abraço nenhuma situação é incerta, o futuro não amedronta, estacionamos confortavelmente em meio ao paraíso. O rosto contra o peito de quem te abraça, as batidas do coração dele e as suas, o silêncio que sempre se faz durante esse envolvimento físico: nada há para se reivindicar ou agradecer, dentro de um abraço voz nenhuma se faz necessária, está tudo dito. Que lugar no mundo é melhor para se estar? Na frente de uma lareira com um livro estupendo, em meio a um estádio lotado vendo seu time golear, num almoço em família onde todos estão se divertindo, num final de tarde de frente para o mar, deitado num parque olhando para o céu, na cama com a pessoa que você mais ama? Difícil bater essa última alternativa, mas onde começa o amor, senão dentro do primeiro abraço? Alguns o consideram como algo sufocante, querem logo se desvencilhar dele. Até entendo que há momentos em que é preciso estar fora de alcance, livre de qualquer tentáculo. Esse desejo de se manter solto é legítimo, mas hoje me permita não endossar manifestações de alforria. Entrando na semana dos namorados, recomendo fazer reserva num local aconchegante e naturalmente aquecido: dentro de um abraço que te baste. Interessante a recomendação da Martha. É tudo o que um ser humano apaixonado gostaria se a recíproca fosse verdadeira. Sábado, Junho 06, 2009
Claudio de Moura Castro Educar é contar histórias "Bons professores eletrizam seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar" De que servem todos os conhecimentos do mundo, se não somos capazes de transmiti-los aos nossos alunos? A ciência e a arte de ensinar são ingredientes críticos no ensino, constituindo-se em processos chamados de pedagogia ou didática. Mas esses nomes ficaram poluídos por ideologias e ruídos semânticos. Perguntemos quem foram os grandes educadores da história. A maioria dos nomes decantados pelos nossos gurus faz apenas "pedagogia de astronauta". Do espaço sideral, apontam seus telescópios para a sala de aula. Pouco enxergam, pouco ensinam que sirva aqui na terra. Tenho meus candidatos. Chamam-se Jesus Cristo e Walt Disney. Eles pareciam saber que educar é contar histórias. Esse é o verdadeiro ensino contextualizado, que galvaniza o imaginário dos discípulos fazendo-os viver o enredo e prestar atenção às palavras da narrativa. Dentro da história, suavemente, enleiam-se as mensagens. Jesus e seus discípulos mudaram as crenças de meio mundo. Narraram parábolas que culminavam com uma mensagem moral ou de fé. Walt Disney foi o maior contador de histórias do século XX. Inovou em todos os azimutes. Inventou o desenho animado, deu vida às histórias em quadrinhos, fez filmes de aventura e criou os parques temáticos, com seus autômatos e simulações digitais. Em tudo enfiava uma mensagem. Não precisamos concordar com elas (e, aliás, tendemos a não concordar). Mas precisamos aprender as suas técnicas de narrativa. Há alguns anos, professores americanos de inglês se reuniram para carpir as suas mágoas: apesar dos esplêndidos livros disponíveis, os alunos se recusavam a ler. Poucas semanas depois, foi lançado um dos volumes de Harry Potter, vendendo 9 milhões de exemplares, 24 horas após o lançamento!
Se os alunos leem J.K. Rowling e não gostam de outros, é porque estes são chatos. Em um gesto de realismo, muitos professores passaram a usar Harry Potter para ensinar até física. De fato, educar é contar histórias. Bons professores estão sempre eletrizando seus alunos com narrativas interessantes ou curiosas, carregando nas costas as lições que querem ensinar. É preciso ignorar as teorias intergalácticas dos "pedagogos astronautas" e aprender com Jesus, Esopo, Disney, Monteiro Lobato e J.K. Row-ling. Eles é que sabem. Poucos estudantes absorvem as abstrações, quando apresentadas a sangue-frio: "Seja X a largura de um retângulo...". De fato, não se aprende matemática sem contextualização em exemplos concretos. Mas o professor pode entrar na sala de aula e propor a seus alunos: "Vamos construir um novo quadro-negro. De quantos metros quadrados de compensado precisaremos? E de quantos metros lineares de moldura?". Aí está a narrativa para ensinar áreas e perímetros. Abundante pesquisa mostra que a maioria dos alunos só aprende quando o assunto é contextualizado. Quando falamos em analogias e metáforas, estamos explorando o mesmo filão. Histórias e casos reais ou imaginários podem ser usados na aula. Para quem vê uma equação pela primeira vez, compará-la a uma gangorra pode ser a melhor porta de entrada. Encontrando pela primeira vez a eletricidade, podemos falar de um cano com água. A pressão da coluna de água é a voltagem. O diâmetro do cano ilustra a amperagem, pois em um cano "grosso" flui mais água. Aprendidos esses conceitos básicos, tais analogias podem ser abandonadas. É preciso garimpar as boas narrativas que permitam empacotar habilmente a mensagem. Um dos maiores absurdos da doutrina pedagógica vigente é mandar o professor "construir sua própria aula", em vez de selecionar as ideias que deram certo alhures. É irrealista e injusto querer que o professor seja um autor como Monteiro Lobato ou J.K. Rowling. É preciso oferecer a ele as melhores ferramentas – até que apareçam outras mais eficazes. Melhor ainda é fornecer isso tudo já articulado e sequenciado. Plágio? Lembremo-nos do que disse Picasso: "O bom artista copia, o grande artista rouba ideias". Se um dos maiores pintores do século XX achava isso, por que os professores não podem copiar? Preparar aulas é buscar as boas narrativas, exemplos e exercícios interessantes, reinterpretando e ajustando (é aí que entra a criatividade). Se "colando" dos melhores materiais disponíveis ele conseguir fazer brilhar os olhinhos de seus alunos, já merecerá todos os aplausos. Claudio de Moura Castro é economista Sexta-feira, Junho 05, 2009
Selton Mello e Luana Piovani turbinam apelo de comédia CRÍTICO DA FOLHA
Luana Piovani aparece com pouca ou nenhuma roupa a maior parte do tempo, em apelo considerável de mercado, mas reside em Selton Mello a principal aposta de "A Mulher Invisível" para se tornar o terceiro filme brasileiro da temporada a atrair plateia digna dos anos 70, depois de "Se Eu Fosse Você 2" (6,1 milhões de espectadores) e "Divã" (1,6 milhão). "Meu Nome Não é Johnny", a maior bilheteria nacional em 2008, com 2,1 milhões de espectadores, demonstrou que o ator hoje transita, de acordo com os parâmetros do circuito brasileiro, em nicho reservado a poucos astros. Natural, portanto, que receba aqui tratamento especial, com o filme todo desenhado à sua volta. Seu personagem -um controlador de tráfego no Rio, avesso bem-humorado do angustiado personagem de Leonardo Medeiros no paulistano "Não por Acaso" (2007)- vive, no início, o avesso de duas fantasias: não sonha com a vida de solteiro, suposto sonho de consumo masculino, porque adora a vida de casado, suposto sonho de consumo feminino. Como estamos no terreno da comédia, o castelo não demora a cair. Então, entra em cena outra fantasia masculina, a da vizinha sensual (Piovani). Não se faz um protagonista desses sem um "melhor amigo" (Vladimir Brichta); como bônus, outra vizinha (Maria Manoella) que, embora bem concreta, parece invisível. A partir daí, os ingredientes são combinados de forma industrial, em busca de todas as faixas de público (homens, mulheres, jovens e adultos), pelo diretor e roteirista Cláudio Torres ("Redentor"). Quem a todos quer abraçar deixa lacunas inevitáveis pelo caminho - e talvez seja mais apropriado considerar que elas levam "A Mulher Invisível" a se aproximar da plateia jovem, que fez de "Meu Nome Não é Johnny" um êxito e que tem Mello em ótima conta. (SERGIO RIZZO) O meu programa para o fim de semana - Bem que vc poderia ir comigo não é..?Ah seria tão gostoso se você fosse A MULHER INVISÍVEL Direção: Cláudio Torres Produção: Brasil, 2009 Com: Selton Mello, Luana Piovani Onde: em cartaz no Center Norte, Pátio Higienópolis e circuito Classificação: 12 anos Avaliação: regular
A reforma dos políticos e os eleitores interditados Volta e meia se fala na tal reforma política e em outras reformas, tributária etc. Véspera de eleições parece o momento adequado para promessas e planos que quase sempre ficam congelados em plenários, palcos, microfones, espaços de mídia impressa, câmeras de tevê e telas da internet. Já tem deputado colocando epitáfio na reforma política 2009, que mal começou. Você aí já foi perguntado sobre financiamentos públicos de campanhas, fidelidade partidária, voto distrital ou voto em lista? Eu não fui e provavelmente não serei. Espero que você seja. Você já tomou conhecimento de alguma pesquisa com o eleitorado sobre tais assuntos relevantes? Se tomou, me diga, por favor. Estou querendo me informar. É que como não me lixo para a opinião pública, gostaria muito de saber o que os cidadãos pensam sobre essas questões de nossa democracia ainda meio assim adolescente. Tem aí umas pesquisas dizendo que as pessoas estariam, em boa parte, a favor de terceiros mandatos para prefeitos, governadores e presidente. Preocupante, não? Algum escritor francês escreveu que fraldas e políticos devem ser trocados periodicamente e pelas mesmas razões. Brincadeira e um pouco de exagero à parte, a frase faz pensar. O certo é que questões vitais como voto em lista, reeleição, financiamentos públicos de campanhas, fidelidade partidária e voto distrital deveriam ser amplamente discutidas por todos em todos os meios de comunicação e não deveriam ser conversadas, debatidas e decididas apenas pelas altas cúpulas. A reforma política merecedora deste nome deve ser de todos e não apenas dos e para os políticos. Reforma de políticos é outro departamento. A História Universal demonstra que democracias verdadeiras e duradouras se fizeram e se fazem com partidos fortes, instituições sólidas, políticos comprometidos com o bem comum, liberdade, justiça e com o maior respeito e informação possível aos eleitores. O resto é tantas vezes jogo de cena, corporativismo, descaso, atraso e tentativa de interdição dos eleitores. E isso, se pensarmos bem, ao fim e ao cabo, acho que não interessa para ninguém, nem mesmo para os que acham que vão se beneficiar para sempre e ficar impunes. Mesmo lentamente (o parto do Brasil é demorado, disse o poeta João Cabral) as coisas estão mudando e é melhor que a luz do sol da democracia brilhe para todos. Jaime Cimenti - Uma ótima sexta-feira e um fantástico fim de semana. Quinta-feira, Junho 04, 2009
Não esqueça de desligar o rádio que toca atomaticamente ao abrir a página para assitir o vídeo. Carry You Home (tradução) James Blunt Composição: Indisponível Te Levar Para Casa Problema é o único amigo dela E ele voltou de novo Faz o corpo dela mais velho do que realmente é. Ela diz que está mais do que na hora dela ter ido embora, Ninguém tem muito a dizer nesta cidade. Problema é que o único caminho é para baixo Para baixo, para baixo. Tão forte quanto você é, Sensível (Meigo) você vai. Eu estou vendo você respirando Pela última vez. Uma canção para o seu coração, Mas quando ele está silencioso, Eu sei o que significa E eu a levarei para casa Eu a levarei para casa. Se ela tivesse asas ela voaria para longe, E num outro dia Deus a daria algum. Problema é o único caminho para baixo. Para baixo, para baixo. Tão forte quanto você é, Sensível (meigo) você vai. Eu estou vendo você respirando Pela última vez. Uma canção para o seu coração, Mas quando ele está silencioso, Eu sei o que significa E eu a levarei para casa. Eu a levarei para casa. E todos eles nasceram bonitos nas luzes da cidade de Nova York, E alguém de uma garotinha foi tirada do mundo esta noite, Sob as Estrelas e Listras (Bandeira dos EUA). Tão forte quanto você é, Sensível (meigo) você vai. Eu estou vendo você respirando Pela última vez. Uma canção para o seu coração, Mas quando ele está silencioso, Eu sei o que significa E eu a levarei para casa. Eu a levarei para casa.
A VIDA É DURA Não é mole, não. Vida de estrela é duríssima. Como se dizia antigamente, é o preço da fama. Dei uma olhada nos jornais para conferir a agenda das celebridades na última semana. É pau puro. Pé na estrada. Quase boleia de caminhão. Afinal, todo político e todo artista devem ir aonde o povo está. Ou não tem voto. Nem devoção.
É dando que se recebe aplausos. A ministra Dilma Rousseff, designada herdeira do trono por Sua Majestade Luiz da Silva, foi à inauguração da festa junina de Caruaru. Eta festa porreta! Mesmo debilitada pelo câncer, como ela mesma admitiu, Dilma dançou forró. Não existe repouso para quem sonha com o poder. Mais do que isso: assistiu aos shows de Elba Ramalho e Fagner. É quase um atestado de cura. Na linguagem global, o quadro parece auspicioso. O pessoal dos camarotes vai a lugares que fazem sonhar. O gaúcho Luis Fernando Veríssimo foi ao Festival da Mantiqueira. É literatura. Mas não é ficção. Enquanto isso, em Bangu 8, o ex-banqueiro Salvatore Cacciola sonha em ir a algum lugar, mas não deixam. Anda sem sorte. Os seus pedidos de habeas corpus não caem mais na mão do ministro do STF Marco Aurélio Mello. Na última vez em que isso aconteceu, Cacciola trocou 37 dias de prisão no Brasil por um exílio dourado na Itália. Chegou lá dizendo que quem tem boca vai a Roma. Mas volta. O problema é que Cacciola não se contentou com as belezas italianas, da Roma antiga ao renascimento florentino, e foi dar uma volta no mundo dos velhos e, principalmente, dos novos ricos, em Mônaco. Acabou atrás das grades do principado. Hoje, se pudesse, iria a Caruaru. Dançaria forró. E ouviria Fagner. Tudo pela liberdade. É um mundo estranho. No Rio Grande do Sul, a viagem acabou. O secretário da Transparência pode perder o cargo. A oposição alega que a sua gestão e a sua secretaria são obscuras. A estrutura prometida pela governadora Yeda Crusius não saiu do papel. A Secretaria da Transparência é opaca. Há quem ainda defenda a instalação de uma CPI para dar clareza aos escândalos que assolam o Piratini. O deputado Eliseu Padilha, porém, fez uma advertência que talvez liquide para sempre essas fantasias luminosas: com uma CPI poderia haver excesso de transparência. Quando há luz de mais, fica impossível enxergar alguma coisa. Se todos os gatos são pardos, melhor ficar no escuro. Que viagem! Outro que não para de viajar é Sua Majestade Luiz da Silva. Vai mais longe. Faz a volta do mundo. Sem esquecer Caruaru e a Mantiqueira. E ri. Ri e sorri. Como ri esse Luiz da Silva! A vida é dura. Mas é bela. Enquanto seus escudeiros tentam emplacar um terceiro mandato para ele, Luiz da Silva diz que não quer. Não é bobo. Prefere ficar quatro anos de repouso, viajando e fazendo palestras bem pagas. Depois, voltará. Como um Getúlio, sem qualquer tentação de suicídio, ele voltará nos braços do povo. Tudo lhe cai bem. Inclusive ouvir Fagner e dançar forró. Luiz da Silva sabe como poucos que quem tem boca e jogo de cintura viaja muito e sempre volta para Brasília. juremir@correiodopovo.com.br A verdade é que se tem que acreditar e ele acreditou: tanto que está lá e poderá voltar, acredito até. Um ótimo dia, para você minha amiga em especial. Quarta-feira, Junho 03, 2009
RUY CASTRO Quatorze minutos de eternidade RIO DE JANEIRO - Entre a hora presumida de entrada do Airbus A330 da Air France na zona de turbulência sobre o Atlântico e a última mensagem enviada pelo equipamento do avião, na noite de domingo, passaram-se 14 minutos. Se fosse só isso, já seria aterrorizante. Mas o tempo de apreensão, angústia e pavor a bordo pode ter sido ainda maior para os 228 passageiros e tripulantes. É tempo de sobra para que, diante da iminência de morte, a vida -tudo que se fez e se disse, ou o que deixou de ser feito ou ser dito- passe várias vezes pela cabeça de uma pessoa, com uma definição de cinema. E com uma crueldade de Juízo Final, porque não há mais tempo para dizer ou fazer o que faltou. Entre os que conseguem se manter íntegros em tal situação, há quem tente vencer o abismo rabiscando algo às pressas, descrevendo o avião em queda ou a aproximação das chamas, despedindo-se de parentes ou namorados, ou tentando deixar uma reflexão mais profunda. É uma tentativa desesperada de comunicar-se pela última vez, de fazer com que sua voz seja ouvida depois do nada. Sabemos disso porque fragmentos dessas mensagens costumam ser encontradas em destroços de aviões caídos em terra. É por esses retalhos calcinados que nos damos conta de que o drama pessoal de cada vítima de um acidente aéreo é maior do que a fria estatística da soma dos mortos no mesmo acidente. Na tragédia do voo AF 447, comovemo-nos com o casal rumo à lua-de-mel em Paris e com o alemão que iria tratar dos papéis para se casar com uma brasileira. Mas havia também empresários, professores e executivos, que viajavam a negócios, a estudos ou para receber prêmios -enfim, para um luminoso futuro próximo. E outros cujas histórias pessoais, talvez riquíssimas, nunca chegaremos a conhecer.
03 de junho de 2009 N° 15989 - MARTHA MEDEIROS O avião Desde 1906, quando Santos Dumont pilotou o primeiro avião, o 14-Bis, fazendo-o levantar voo com total autonomia, sem a ajuda de uma catapulta (como fizeram três anos antes os irmãos Wright), o mundo se curvou diante dessa invenção. O avião tem mais de cem anos e segue mantendo uma aura de mistério e classe. Voar sempre foi o maior desejo do homem, e mesmo que hoje cruzem pelo céu milhares de aeronaves que partem e chegam dos mais diversos pontos, ainda assim é um meio de transporte que não se trivializou, e creio que manterá para sempre sua imponência. Diariamente, vidas se perdem em acidentes de ônibus, de carro, de moto, de barco, e tudo é sempre muito comovedor, pois é o destino interrompendo a vida de alguém. Uma vez escutei que a morte de uma única pessoa é sempre uma tragédia, enquanto que a morte de centenas é apenas uma estatística. Uma visão fatalista da realidade, mas que não se aplica aos acidentes aéreos. Recentemente, uma família inteira faleceu durante a explosão de uma aeronave que aterrissava em Trancoso, na Bahia, e ficamos compungidos. Agora são 228 homens e mulheres desaparecidos, e ficamos muito mais. Nenhum desses corpos faz parte de uma estatística, e sim de um mito: a morte coletiva no veículo que é considerado o mais seguro do mundo e, ao mesmo tempo, a morte individual do sonho de cada um dos passageiros e tripulantes. Porque um avião está sempre carregado de sonhos. A garota que finalmente conseguiu uma bolsa para estudar na Europa. O casal que contava os minutos para sua lua de mel. O grupo de amigos que economizou anos para fazer uma longa viagem depois da formatura. O empresário que se preparou para fechar um acordo internacional. O artista que iria lançar seu trabalho em solo estrangeiro. O jogador de futebol se transferindo de time. A mãe que visitaria a filha pela primeira vez do outro lado do oceano. Um avião transporta todas essas histórias que, para a grande maioria da população, são contos de fada. Mesmo nos voos domésticos, muitos deles precedidos de atrasos e bagunças em aeroportos, a fleuma se mantém. Ninguém esquece a primeira vez em que apertou o cinto e prestou a maior atenção nas informações que a comissária transmitia, com seus braços parecendo asas sinalizando as saídas de emergência. Nervosismo e êxtase: o risco levado a sério. Então aquele bicho enorme e pesado ganha velocidade e começa a subir. A cidade vai ficando minúscula lá embaixo, as nuvens vão passando ao lado da sua janela, e o dia nublado e chuvoso deixado pra trás transformase num céu límpido, descortinado. Poucas horas depois, Rio de Janeiro, Salvador. Outras horas adiante, Londres, Nova York. Isso nunca vai ser considerado banal, por mais milhas que um viajante acumule. Todas as pessoas têm sonhos, não importa de que tamanho. Todas merecem ser pranteadas, não importa de que modo falecem. Mas há coisas na vida que pertencem a um deslumbramento que não obedece à lógica. Um avião que cumpre a sua trajetória do início ao fim está realizando um passe de mágica com o qual ainda não nos acostumamos, prova disso é o número de gente que, em terra firme, assiste a decolagens e aterrissagens como se fosse um espetáculo – e é. Quando a mágica não funciona, voltamos todos a um estado de descrença e dor: a ilusão não se cumpriu. Uma ótima quarta-feira - Aproveite o dia. Terça-feira, Junho 02, 2009
O PAPEL DO FUTEBOL Porto Alegre será uma das sedes brasileiras da Copa do Mundo de 2014. Ufa! Estamos aliviados. Nosso orgulho está salvo. Chegamos a temer pela nossa importância no cenário nacional.
Correu um friozinho na barriga. Claro que agora todo mundo dirá que jamais houve dúvida. A verdade é que não suportaríamos uma desfeita. No caso de uma recusa, teríamos de invadir a Suíça e amarrar os nossos cavalos na porta da Fifa. Ainda bem que eles tiveram juízo e evitaram de comprar briga conosco. O futebol é a única coisa realmente séria no mundo globalizado. Pesquisas acabam de constatar que o esporte é o assunto mais comentado pela mídia universal. Nem a Internet conseguiu mudar esse gosto pela guerra simbólica. Vamos ter Copa do Mundo em Porto Alegre. Oba! Graças a isso, teremos metrô. Atribui-se ao protestante Henrique IV esta célebre frase: 'Paris vale uma missa'. Um metrô para Porto Alegre vale uma Copa do Mundo. Mesmo que venhamos a receber algum jogo palpitante entre Coreia e Japão, o benefício valerá o sacrifício. Salvo, claro, se tivermos a Argentina. O futebol é mágico. Abre portas e cofres. Até hoje não tivemos pressa nem recursos para um verdadeiro metrô, subterrâneo, ligando vários bairros da Capital. O metrô de Paris foi inaugurado em 19 de julho de 1900. Estamos apenas 109 atrasados. Também houve um pretexto para acelerar a construção do metropolitano parisiense: uma feira mundial. Naquela época, o futebol ainda não reinava no ocidente. Quase nem existia. Era preciso recorrer ao vil comércio para impulsionar o progresso. Se bem que as Olimpíadas de 1900 aconteceram em Paris. Mas perderam de longe em interesse de público para a feira mundial. A organização fracassou de cabo a rabo. Eram uns bárbaros. O metrô de Londres é do século XIX. Está certo que Paris e Londres têm alguns anos a mais de existência do que Porto Alegre. Mesmo assim estamos atrasados. Faltava-nos um bom motivo. Nada melhor que ter de fazer bonito para os de fora. A gente só arruma a casa se tiver visita. A hospitalidade acima de tudo. Não fosse pela Fifa, que faz muito mais pelos países pobres do que a ONU, levaríamos mais cem anos para ter um metrô. É um mistério. De repente, como que do nada, aparece dinheiro para obras faraônicas. É o PAC da Copa. Até os governos liberam dinheiro para construção de estádios. Uma Copa do Mundo tem o dom de enterrar qualquer crise. Jorra dinheiro. Todo mundo quer investir. Não falta patrocinador. O futebol é keynesiano por natureza. Faz o Estado entrar em ação para acelerar a economia privada. Eu acredito na Fifa. Reconheço o poder do futebol. Sei que essa gente não brinca em serviço. Estou apostando que Porto Alegre terá o seu metrô. Quero buraco. Não me venham só com trenzinho de superfície. É útil. Mas só me contentarei com buraco. Meu sonho é ver um trem passar por baixo do Guaíba. Isso é que é civilização. Se o Brasil ganhar a Copa, ficarei muito contente. Mas só o metrô de Porto Alegre me deixará realmente feliz. Não quero morrer sem ir para a PUC de metrô. Subterrâneo. juremir@correiodopovo.com.br Um ótima folga para quem está de folga hoje. Uma excelente terça-feira. Segunda-feira, Junho 01, 2009
Para ouvir o vídeo, não esqueça de desligar o rádio que toca automaticamente ao abrir a página. Incancellabile Laura Pausini - Composição: Indisponível A volte mi domando se Vivrei lo stesso senza te Se ti saprei dimenticare Ma passa un attimo e tu sei Sei tutto quello che vorrei Incancellabile oramai Sembrava un’altra storia che Il tempo porta via con sé Tu non lasciarmi mai Tu non lasciarmi... E più mi manchi e più tu stai Al centro dei pensieri miei Tu non lasciarmi mai Perché oramai sarai Incancellabile Con la tua voce l’allegria Che dentro me non va più via Come un tatuaggio sulla pelle Ti vedo dentro gli occhi suoi Ti cerco quando non ci sei Sulle mie labbra sento la voglia che ho di te Così profondamente mio Non ho mai avuto niente io Tu non lasciarmi mai Tu non lasciarmi... E più ti guardo e più lo sai Di te io m’innamorerei Tu non lasciarmi mai Tu non lasciarmi... Non farlo mai perché Se guardo il cielo Io sento che sarai Incancellabile oramai Tu non lasciarmi mai Tu non lasciarmi... Incancellabile tu sei I miei respiri e i giorni miei Tu non lasciarmi mai Tu non lasciarmi... E si fa grande dentro me Questo bisogno che ho di te Tu non lasciarmi mai Tu non lasciarmi... E più mi manchi e più tu sei Al centro dei pensieri miei Tu non lasciarmi mai Tu non lasciarmi... Da sola senza te Ora e per sempre resterai Dentro i miei occhi... Incancellabile!
01 de junho de 2009 N° 15987 - KLEDIR RAMIL Reflexões filosóficas Não acredite nos seus próprios olhos. Quando você olha para um objeto qualquer e enxerga a cor amarela, significa que ele possui todas as outras cores, menos o amarelo. É isso mesmo, lei da física. A cor que você vê é a que está sendo refletida, exatamente a que o objeto não absorveu. Aquele objeto pode ser qualquer outra coisa, menos amarelo. Partindo desse princípio, passei a observar o mundo à minha volta e comecei a desconfiar que a gente enxerga tudo ao contrário. O que as coisas são, na verdade, a gente não vê! O mundo real é todo pelo avesso. Só se consegue enxergar o que as coisas não quiseram ser e devolveram ao meio ambiente. O mundo é ilusão, é Maya, como ensinam os orientais. Eu não tinha ideia de onde estava metido. Tudo bem, você pode alegar que meu QI é de 2 dígitos e minha teoria não tem fundamento científico. Não importa. Cheguei à conclusão, como Saint Exupéry em sua frase simplória, que “o essencial é invisível para os olhos”. Me agarrei a isso e minha vida mudou. Para aprofundar ainda mais meus estudos, resolvi consultar um velho livro de física sobre as leis de refração e reflexão. Uma frase ficou martelando na minha cabeça: “O ser humano percebe visualmente apenas uma faixa de sete cores que varia do vermelho ao violeta”. Acredite se quiser, há muito mais coisas fora desses limites. Pra lá dessas fronteiras, onde nossa vista não alcança, existe um mundo de infravermelhos, ultravioletas e outras esquisitices. Uma região nebulosa que eu passei a chamar de sobrenatural. Também o nosso ouvido consegue escutar apenas uma determinada faixa de frequências. Somos assim, limitados. Tampouco conseguimos perceber toda a maravilha de cheiros, sabores e texturas que estão disponíveis na natureza. Nossos cinco sentidos nos proporcionam uma experiência parcial da realidade e o mais perigoso deles é a visão, que nos faz enxergar exatamente aquilo que as coisas não são. A partir dessa revelação, adotei essa inversão de valores visuais no meu dia-a-dia e meu humor melhorou 100%. Comecei pelo meu extrato bancário, que vivia no vermelho e, sob essa nova ótica, ficou azul. Fui conversar com meu gerente, mas ele não entendeu o espírito da coisa. Continuou me cobrando os juros do cheque especial. Tem gente que não tem sensibilidade mesmo. Ótima segunda-feira, uma excelente semana e um iluminado mês de junho, das lindas festas juninas. |
|