Nuvens Brancas |
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Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
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Quarta-feira, Fevereiro 10, 2010
10 de fevereiro de 2010 | N° 16242 MARTHA MEDEIROS Aristogatos Nunca imaginei ter um bicho de estimação, por uma questão de ordem prática: moro em apartamento, sempre morei. E, se morasse em casa, escolheria um cachorro. Logo, nunca considerei a hipótese de ter um gato, fosse no térreo ou no 10o andar. Quando me falavam em gato, eu recorria a todos os chavões pra encerrar o assunto: gato é um animal frio, não interage, a troco de que ter um enfeite de quatro patas circulando pela casa? Hoje, dona apaixonada de um gato de cinco meses (e morando no 10o andar), já consigo responder a essa pergunta pegando emprestada uma frase de um tal Wesley Bates: “Não há necessidade de esculturas numa casa onde vive um gato”. Boa, Wesley, seja você quem for. Gato é a manifestação soberana da elegância, é uma obra de arte em movimento. E, se levarmos em consideração que a elegância anda perdendo de 10 x 0 para a vulgaridade, está aí um bom motivo para ter um bichano aninhado entre as almofadas. Só que encasquetei de buscar argumentos ainda mais conclusivos. Por que, afinal, eu me encantei de tal modo por um felino? Comecei a ler outras frases irônicas e aparentemente pouco elogiosas. Mark Twain disse que gatos são inteligentes: aprendem qualquer crime com facilidade. Francis Galton disse que o gato é antissocial. Rob Kopack disse que, se eles pudessem falar, mentiriam para nós. Saki disse que o gato é doméstico só até onde convém aos seus interesses. Estava explicado por que gamei: qual a mulher que não tem uma quedinha por cafajestes? Ser dona de um cachorro deve ser sensacional. Lealdade, companheirismo, reciprocidade, eu sei, eu sei, eu vi o filme do Marley. Cão é boa gente. Só que o meu cachorro preferido no cinema nunca foi da estirpe de um Marley. Era o Vagabundo, sabe aquele do desenho animado? O que reparte com a Dama um fio de macarrão, ambos mastigam, um de cada lado, e mastigam, mastigam até que (suspiro... a emoção impede que eu continue). Eu trocaria todos os príncipes loiros e bem-comportados da Branca de Neve e da Cinderela pelo livre e irreverente Vagabundo, que foi o personagem fetiche da minha infância. E, lembrando dele agora, consigo entender a razão: aquele malandro tinha alma de gato. Imagino que, com essa crônica, eu esteja revelando o lado menos nobre do meu ser. Pareço tão sensata, tão bem resolvida, tão madura – quá! – tenho outra por dentro. Que vergonha. Levei mais de 40 anos para me dar conta de que não faço questão de uma criatura que me siga, que me agrade, que me idolatre, que me atenda imediatamente ao ser chamado, que me convide pra passear com ele todo dia. Sendo charmoso, na dele e possuindo ao menos alguma condescendência comigo, tem jogo. Cristo, um simples gato me fez descobrir que sou mulher de bandido. Uma gostosa quarta-feira pra vc. Aproveite o dia. Terça-feira, Fevereiro 09, 2010
09 de fevereiro de 2010 | N° 16241 LIBERATO VIEIRA DA CUNHA Uma praça, uma ponte Imaginem uma imensa pétala de altos chafarizes, iluminada por uma coleção de holofotes multicoloridos, tudo embalado por uma sintônica sinfonia de músicas clássicas. Essa era apenas uma das atrações da Praça José Bonifácio, no coração pulsante de Cachoeira. Alinhada à Rua Sete de Setembro, ela vizinhava ainda com algumas das principais lojas da cidade, abrigava o Bar América, que era um restaurante imbatível no seu gênero, um estádio de esportes, um parque infantil, ruas e escadarias internas e, em tempos mais recuados, até o centenário Mercado Municipal, assassinado, como acaba de ser também, a Ponte de Pedra. O Cine-Teatro Coliseu ficava a 20 metros, o Clube Comercial uns palmos além, na mesma calçada do Banco da Província. A praça era o centro de Cachoeira e, nas noites de verão, a passarela por onde desfilavam as mais belas garotas do Estado. Não estou exagerando. Já contei em idas crônicas que nenhuma outra cidade gaúcha ostentava mais sedutora seleção de beldades. Ali nasciam namoros, noivados e um rol de casamentos. Ali os olhos se olhavam nos olhos – e era como se fosse uma declaração de amor. Recordo de uma noite em que sentei, no passeio dos bancos mais afastados, ao lado de uma menina lindíssima. Enquanto avançavam os ponteiros do relógio do pedestal que ficava no meio da quadra, trocamos juras e confidências que, traduzidas, eram pura ternura. Essas coisas a gente não esquece. Essas coisas permanecem contigo por toda a vida. Sinto agora, neste momento em que escrevo, a textura de suas mãos, a maciez de seus lábios. Lembro de um entardecer, como depois nunca vi outro. Os céus de Cachoeira, contemplados ali da praça central, eram uma suave mistura de nuvens azul-claras e rosadas. A garota sentada junto a mim era loira e seus cabelos longos dançavam com a brisa que vinha do poente. Nós nos prometemos um ao outro o paraíso, nós nos juramos paixão eterna, mas depois os caminhos da vida nos separaram. Conservo até hoje, tantos anos passados, o exato timbre de sua voz, o preciso matiz celeste de seus olhos. Aquela praça mora dentro de mim, não do jeito que é hoje, mas com as formas que teve. É bem como a Ponte de Pedra, que eu prefiro chamar de a Ponte do Imperador, pois que em homenagem deste foi erguida no ano de 1849. Mas nada reconstrói uma ponte – ou revive uma igreja, um romance – sem que se lance um olhar aos muitos passados de que somos feitos. Uma linda terça-feira para você. Aproveite o dia Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010
08 de fevereiro de 2010 | N° 16240 KLEDIR RAMIL Autobiografia – Os primeiros passos Quando meu pai começou a insistir com a ideia de que já estava na hora de eu andar com minhas próprias pernas, contra-argumentei: “O importante não é aprender a caminhar, mas saber aonde ir”. Eu era uma criança com sobrepeso, haviam me dado comida em demasia. Com um pouco mais de agilidade corporal, talvez eu tivesse me movimentado mais cedo. De qualquer forma, eu já estava com três anos de idade, tinha que começar a me mexer. Levantei e saí caminhando. Como não sabia em que direção ir, continuo até hoje andando a esmo. O que confirma minha intuição de que aquela atitude era precipitada. Meus primeiros passos foram em direção à geladeira. Abri a porta e peguei uma garrafa de 3 Fazendas. Voltaram os rumores de que tratava-se de uma criança especial, mas minha mãe deu de ombros e resmungou que aquilo só demonstrava que teríamos mais um alcoólatra na família. Apesar de todos os indícios, não me agarrei à bebida. Foi um vício fácil de largar. Depois de dois comas alcoólicos em hospitais públicos, virei abstêmio. Meus segundos passos foram em direção a uma vizinha, que no esplendor dos seus quatro anos de idade, entortou meu coração e com ele todos os meus conceitos de afetividade. Me agarrei com tamanha força à cintura da guria que foi preciso chamar o Corpo de Bombeiros para separar. Com a ajuda da Brigada Militar e um balde de água fria. Meus terceiros passos foram em direção ao rock and roll. Essa pelo menos foi a avaliação do psicólogo, depois de assistir à coreografia que eu insistia em apresentar todas as manhãs, durante as aulas do pré-primário. Baseado nesse trinômio “sexo, drogas e rock and roll”, comecei a construir os alicerces daquilo que seria a minha existência, se é que se pode chamar assim. Atravessei os anos com uma certa dignidade, sempre tendo em mente a imagem daquela vizinha estonteante, o movimento correto dos quadris de Elvis Presley e os efeitos alucinógenos do consumo de bebidas destiladas. Se com esses parâmetros foi possível construir um sujeito com curso superior completo, imagine do que um ser humano é capaz, se partir de bases sólidas. Pensando sobre isso, resolvi parar e começar tudo de novo. Foi quando começou a fase que eu chamo de Renascimento. Ainda que com chuva uma linda segunda-feira e uma gostosa semana. Domingo, Fevereiro 07, 2010
FERREIRA GULLAR Carta tardia a um poeta arredio Saquear a estátua de Carlos Drummond de Andrade é coisa de gente demasiado ignorante POETA CARLOS Drummond de Andrade, desculpe-me se venho lhe perturbar o sossego, dizendo-lhe coisas que, para você, a esta altura, não têm qualquer importância. Estarei sendo mesmo impertinente, ao manifestar-lhe, deste modo, minha solidariedade em face do vandalismo com que têm agredido sua estátua, ali, no calçadão da avenida Atlântica. Saquear a estátua de um poeta é coisa de gente demasiado ignorante. Falo de impertinência minha porque, pelo que sei de você, estou certo de que não aprovaria essa ideia de materializá-lo em bronze como se estivesse sentado num dos bancos da praia a observar os banhistas e as banhistas sob o sol escaldante. Não que fosse indiferente à beleza das moças exibindo-se nos maiôs sumários que usam. Mas uma coisa é um poeta de carne e osso e outra, muito diferente, um poeta de bronze. Tenho certeza de que jamais imaginou, ao passear por esse mesmo calçadão, que um dia estaria ali, metalicamente moldado, exposto ao sol e à chuva, à contemplação dos turistas como à solidão das noites intermináveis, quando o bairro inteiro dorme e mal se ouve, distante, o quebrar das ondas na areia. Já que você, agora, é de bronze, e não me ouve, aproveito para dizer-lhe o que não disse nas raríssimas vezes em que nos encontramos e nas poucas, também, em que falamos, porque a verdade é que, se não sou tão arredio quanto você, sempre me foi difícil procurar as pessoas, muito mais ainda, poetas célebres, como é o seu caso. Já bastava ser célebre para me assustar; pior ainda se, além de célebre, era esquivo como você. Vi-o, pela primeira vez, ao sair do elevador do "Correio da Manhã", na avenida Gomes Freire, aonde fui com Oliveira Bastos e Décio Victório, certa tarde, em que decidimos escandalizar as pessoas. Meus dois companheiros tinham as respectivas gravatas presas à cintura, enquanto eu trajava calças, paletó e gravata mas, em lugar de sapatos, calçava tamancos. Você não deve ter se dado conta da provocação, pois mal nos olhou, ao sair do elevador. Subimos até o andar da Redação e, numa saleta, nos deparamos com Otto Maria Carpeaux que, míope como era, escrevia à mão com a cara grudada no tampo da escrivaninha. Entramos os três e nos pusemos, ali, imitando-o, também com a cara colada na mesa. Ele se assustou e nos lançou um olhar indignado que nos fez deixar a saleta às gargalhadas. Isso foi em 1955, quando alguns poucos que me conheciam tinham-me por maldito. Eu vagabundava, naquela época, pelas ruas do centro da cidade e às vezes me sentava à porta de um restaurante, ali na esquina de Graça Aranha com Araújo Porto Alegre; para contemplar o edifício do hoje Palácio Gustavo Capanema, que parecia flutuar, onde você trabalhava. E o vi, certa vez, deixar o trabalho, de mãos dadas com uma mocinha, que, soube depois, era sua namorada. A sua cara, porém, nada dizia. Muitos anos se passaram até que você chegasse aos 70 anos e me convidassem para participar de um programa de televisão em sua homenagem. Escolhi, para dizer, aquele seu poema "Memória", por ser curto e por ser belo: "As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão. Mas as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão." Fiquei todo bobo quando, dias depois, recebi um bilhete seu, agradecendo minha participação na homenagem e elogiando o modo como havia dito o poema. Tenho esse bilhete comigo, até hoje, guardado em alguma gaveta. A última vez que o vi foi no velório de Vinicius de Moraes, no cemitério São João Batista. A morte, neste caso, serviu para nos aproximar: fui falar com você e, para minha surpresa, em vez do homem tímido e reservado, deparei-me com um sujeito irritado, reclamando da doença que lhe tinha aberto uma ferida no rosto, como me mostrou. Havia, de fato, uma cicatriz que lhe marcava a face direita. Depois disso, só voltaria a vê-lo naquele mesmo cemitério, desta vez em seu próprio velório. Eu tinha, naquele dia, um compromisso de trabalho em Brasília mas, a caminho do aeroporto, fui, por assim dizer, despedir-me de você. E, desta vez, quem estava revoltado era eu, revoltado com sua morte, com esse fato inevitável e inaceitável, que é a morte das pessoas que amamos ou admiramos. As declarações, que dei aos jornalistas, naquela ocasião, estavam mais perto do insulto que de outra coisa. A quem eu insultava, na verdade, não sei. Sábado, Fevereiro 06, 2010
07 de fevereiro de 2010 | N° 16239 MARTHA MEDEIROS Os best-sellers O fato de um livro vender muito ou pouco não desperta em mim nem curiosidade, nem desprezo Um leitor me pergunta se a lista de livros mais vendidos influencia minhas escolhas. Já que é tempo de férias, quando temos mais predisposição para ler, vale a pena amplificar esse assunto. O fato de um livro vender muito ou vender pouco não desperta em mim nem curiosidade, nem desprezo. Não é a lista de mais vendidos que determina as minhas escolhas, e não deveria determinar as escolhas de ninguém. Um livro pode virar best-seller por haver uma grande fidelização ao autor, independentemente do título que ele esteja lançando. Ou então porque há um filme ou uma série de tevê inspirada no livro e isso alavanca as vendas. Ou porque o investimento em propaganda foi forte. Ou porque o livro traz um tema polêmico. Ou porque é uma obra póstuma de um autor importante. Ou porque o boca-a-boca fez sua parte. Ou, claro, porque o livro é mesmo sensacional. Enfim, há muitas razões, nem todas literárias, para um livro estar entre os mais vendidos, e não se pode esquecer que inúmeras obras excelentes nunca chegaram a vender mais do que mil exemplares, o que descredibiliza as listas como indicadores soberanos de boa leitura. O melhor método para se escolher um livro é através da informação. Você pode até ter sabido da existência de um livro através de uma lista, mas não deve comprá-lo apenas por essa razão, a não ser que não dê valor ao seu dinheiro. Primeiro, pesquise sobre o autor, se ele lhe for estranho. Descubra seu estilo, o que ele já escreveu, que temas costuma abordar, o que já se disse sobre ele. O Google está aí para isso. Já dentro de uma livraria, pegue o livro, leia a orelha, o prefácio, um pouco do primeiro capítulo – as livrarias hoje têm poltronas e sofás pra esse fim: refestele-se. Ninguém vai obrigá-lo a efetuar a compra. Dê atenção aos suplementos culturais dos jornais. Leia a Revista Bravo, que traz tudo sobre música, teatro, cinema, artes plásticas e, claro, literatura, e assine o mais importante jornal literário do Brasil, o Rascunho. E o mais importante: escute a opinião de pessoas a quem você dá crédito. Um bom fornecedor de dicas é fundamental. O Comer, Rezar, Amar, da Elizabeth Gilbert, achei uma delícia de leitura. Gilbert é alguma Jane Austen? Nem perto, mas o livro é agradável, divertido e caiu nas minhas mãos numa época em que a história dela me desceu bem. Por outro lado, nunca li nem vou ler A Menina que Roubava Livros, mesmo tanta gente tendo elogiado. Outro fator a ser considerado: implicância. Não deixa de ser um método de seleção também. Ser popular não é pecado. Há os populares excelentes e os populares medíocres, assim como há os clássicos sensacionais e os clássicos chatonildos. Quem decreta isso? Sua majestade, o leitor. Do que se conclui: leia best-sellers, leia livros malditos, leia livros que todo mundo está comentando e também aqueles de que ninguém nunca ouviu falar, leia o que alguém antenado recomendou, leia o livro que você descobriu sozinho num sebo, leia o livro cuja capa deixou você fascinado, leia o que sua professora exigiu, leia o que a sua namorada implorou pra você ler, mesmo ela sendo fã de água-com-açúcar (não custa agradar a guria, depois você dá o troco com dignidade, recomendando a ela um Rubem Fonseca), releia o que você leu 15 anos atrás e amou, releia o que você leu 15 anos atrás e odiou (se todos diziam que era genial, dê uma nova chance ao livro, talvez 15 anos atrás você não estivesse pronto para textos bombásticos), leia os livros até o fim, abandone-os no meio se forem uma xaropice, leia livros de suspense, eróticos, policiais, poemas, biografias, mas leia. Estou no momento lendo pela primeira vez um japonês chamado Haruki Murakami, mas não comecei pelo livro certo, dois ou três amigos já me disseram que há outros títulos do autor que são bem melhores. É assim que funciona. Uma lista confiável de best friends é tudo de que se precisa. Prestígio zero Pesquisa mostra que os bons alunos não querem mais seguir o magistério - um desastre para o ensino Alunos de ensino médio: eles são desencorajados em casa de optar pelo curso de pedagogia
Um bom termômetro para aferir o prestígio de uma profissão é o número de jovens que a assinalam como primeira opção na hora do vestibular. Por esse medidor, a carreira de professor, que décadas atrás foi um símbolo de status, nunca esteve tão em baixa. Uma nova pesquisa, conduzida pela Fundação Carlos Chagas a pedido da Fundação Victor Civita, chama atenção para o problema, trazendo à luz um dado preocupante: às vésperas de ingressarem na universidade, apenas 2% dos estudantes brasileiros pretendem seguir o magistério - opção que os outros 98% já descartaram. No levantamento, baseado numa amostra de 1 500 alunos de ensino médio em escolas públicas e particulares de todo o país, o curso de pedagogia patina na 36ª colocação, entre as sessenta carreiras que hoje mais exercem fascínio sobre os jovens - lista encabeçada pelas áreas de direito, engenharia e medicina. Agrava o cenário saber que esses poucos que ainda optam pela docência se concentram justamente no grupo dos 30% de alunos com as piores notas na escola. Pouco disputado, o curso de pedagogia significa, para a imensa maioria dos estudantes, a única porta de entrada possível para o ensino superior - e não uma carreira de que realmente gostam. Conclui a especialista Bernardete Gatti, coordenadora da pesquisa: "Sem atrair as melhores cabeças para as faculdades de pedagogia, o Brasil jamais conseguirá deixar as últimas colocações nos rankings de ensino". A situação de desprestígio da carreira de professor é o retrato final de um processo deflagrado na década de 70, quando se iniciou no país uma acelerada massificação do ensino público. Sem profissionais em número suficiente para suprir a galopante demanda, as escolas passaram a recrutar até leigos para dar aulas. Foi aí também que as faculdades de pedagogia e as licenciaturas proliferaram à revelia da qualidade acadêmica, e os salários começaram a cair. A remuneração dos professores é, por sinal, o segundo fator elencado pelos jovens de hoje para nem sequer cogitarem o magistério, atrás de um item que se refere à completa falta de identificação com o ofício, segundo mostra a pesquisa da Fundação Carlos Chagas. Os estudantes contam ainda que são desencorajados pelos próprios pais de fazer essa opção. Boa parte dos entrevistados chega a afirmar que a família "jamais aceitaria tal escolha profissional". Países onde o ensino prima pela excelência, como Coreia do Sul e Finlândia, encontraram bons caminhos para atrair os alunos mais brilhantes às faculdades de pedagogia - experiência que pode ser útil também ao Brasil. Ela indica que elevar o salário dos professores é apenas uma das estratégias eficazes, mas não a de maior impacto. O que realmente suscita o fascínio dos melhores alunos pela docência diz respeito, acima de tudo, à possibilidade descortinada pela carreira de verem seu talento reconhecido e sua capacidade intelectual estimulada. Nesse sentido, distinguir os profissionais de melhor desempenho em sala de aula, com iniciativas como bônus no salário e mais responsabilidade na escola, tem sido, há décadas, um potente motor de atração para a carreira de professor mundo afora. O Brasil precisa aprender a lição. ![]() Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010
Ficções e relações na internet Há quem diga que na internet está todo mundo sozinho junto com todo mundo. Há quem reclame dos excessos de “imeils” e da falta de controles na rede. Existem os que acham que a maior parte das mensagens é superficial, de baixo nível ou comercial demais. Críticas e elogios à parte, a coisa está aí para ser bem utilizada e até os vovôs estão navegando, à procura do que for possível. Esse papo todo é para introduzir o belo livro de contos Histórias do Mundo Virtual, de Tânia Alegria, gaúcha radicada em Portugal e finalista do Prêmio Açorianos de Literatura 2009 com o livro de poemas InVerso. A coletânea tem ilustrações da fotógrafa espanhola Beatriz Morán e suas oito narrativas retratam os afetos e desafetos do mundo virtual, onde, como se sabe, não há fronteiras e limites. Tânia Alegria nasceu em Porto Alegre e desde 1969 reside em Portugal. Formada em Direito e Ciências Sociais pela Pucrs e pós-graduada em Ciências Sociais e Políticas em Lisboa, depois de 25 anos trabalhando com comércio exterior Tânia, leitora obstinada desde jovem, resolveu dedicar-se a escrever. Já publicou contos e poemas no Brasil, em Portugal e na Espanha, e neste Histórias do Mundo Virtual revela-se pessoa e narradora experiente. Encontros e desencontros, amores e desamores, certezas e equívocos, crimes e intrigas e muito mais dos universos reais e virtuais, habilmente mesclados por Tânia, estão nos contos da antologia, que, de quebra, têm altas doses de poesia e sensibilidade verdadeiramente humana. Ah, tem ainda fina ironia e humor nas histórias de homens e mulheres meio indefinidos de nosso tempo. Na introdução, Cristiano Crivella referiu que “percorrendo sem passaporte os caminhos da palavra escrita, os protagonistas das diversas narrativas que compõem a obra tentam transpor as fronteiras entre o mundo real e o virtual, envolvendo-se em relações afetivas caracterizadas por contornos nebulosos e cujo desfecho é imprevisível.” É por aí. Tânia Alegria mostra os velhos seres humanos envolvidos com os novos meios eletrônicos de comunicação e, a partir daí, afloram sentimentos, emoções, amores, desamores e rancores de todos nós, protagonistas desses dias em que cada um é seu próprio editor, como previu Marshall McLuhan há décadas. As ilustrações de Beatriz Morán dão um toque especial ao volume de narrativas. 136 páginas, Editora Movimento, Crivella Editora e Editora e Livraria Porto Alegre, telefone (51) 3337-3836. Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010
Policial se comove ao encontrar bebê Agente Roberto Chagas relata a ZH a emoção de deparar com menina abandonada próximo a altar Às 14h30min de ontem, eu estava na delegacia, em Venâncio Aires, no Vale do Rio Pardo, com o meu colega, Paulo Ullmann, atendendo os casos de todos os dias – no caso, alguns roubos. Eu ouvi pelo rádio da Brigada Militar, ao qual também temos acesso, que uma mulher havia avisado a polícia sobre uma criança encontrada na Igreja São Sebastião Mártir. Nós entramos na viatura e fomos até a igreja, que fica a uma quadra da delegacia. Quando cheguei ao templo, vi que, próximo a um altar de Nossa Senhora Aparecida, estavam três policiais militares. Um deles, o sargento Nei, tinha a menina nos braços. Ela estava calma, dormindo o tempo todo. É uma menina muito linda e saudável. A primeira coisa que eu fiz foi tirar a câmera fotográfica do bolso e fazer fotos dela com os policiais. A mulher, que havia entrado na igreja para rezar, só viu a menina porque ela se movimentou, mas chorava. O bebê estava limpo, enrolado em uma manta, e parecia ter sido alimentado recentemente. Acredito que a mãe pensou em deixá-lo na igreja porque é um local onde ele seria facilmente encontrada. Além disso, ali dentro não estava quente. Todos ficaram emocionados com a situação, mas aquela cena me causou um choque. Em 20 anos de profissão, já presenciei muitas situações difíceis, mas ver um bebê abandonado pela mãe não é nada fácil. Como policiais temos de tratar essa situação de forma imparcial, mas não há como, a emoção vence. Quando eu a enxerguei, era como se visse minha filha, há 18 anos, recém-nascida, no hospital. Assim como a Roberta, Rogério, 16 anos, também foi adotado. Quando eu morava em São Nicolau, nas Missões, eu e minha ex-mulher tentamos ter filhos durante cinco anos. Já tínhamos comprado o enxoval, quando descobrimos que eu não poderia ter filhos. Decidimos então adotar. Na cidade, o procedimento não era um costume, as pessoas estranharam nossa atitude. Mas, depois disso, outros começaram a adotar também. Penso que mudamos o pensamento daquelas pessoas. Por isso essa história me marcou tanto. Quando saímos da igreja, a menina foi levada pela Brigada Militar para o Conselho Tutelar e depois encaminhada para o hospital do município, onde ela passa bem. Não sei qual será a decisão judicial, mas tenho certeza que muitas pessoas vão se emocionar com essa história. Espero que ela fique bem e que encontre uma família que cuide bem dela. Confesso, se tivesse condições eu seria o primeiro a pedir para adotá-la. Uma linda quinta-feira para você. Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010
03 de fevereiro de 2010 | N° 16235 MARTHA MEDEIROS Eu te amo, mas... Não há o que não haja no vasto mundo da internet. Geralmente descubro o que está rolando nesse tal planeta Cyber através da mídia convencional. Foi o que aconteceu quando, ao ler a revista Bravo, soube de um site que reúne pequenas frases que, em comum, têm o fato de começar com “Eu te amo, mas...”. É o www.loveyoubut.com, cuja finalidade não faço ideia qual seja, a não ser a de fornecer alguma inspiração a cronistas famintos por qualquer coisa que lhes sirva para preencher um primeiro parágrafo. Tenho simpatia por tudo o que desmistifica o sagrado, e uma declaração de amor é de natureza sacra, faz parte das coisas aparentemente invioláveis. Sai geração, entra geração, o “eu te amo” segue no topo das paradas. De forma curta e milagrosa, faz desaparecer desavenças, raivas, dúvidas, muxoxos. É o abre-te sésamo da paixão, a concretização do grande desafio: fazer dois seres humanos acreditarem que o amor basta para lhes fazer feliz. Ô, responsabilidade. Então, surge um site espirituoso que nos lembra que todo amor, mesmo os mais sólidos, vem acompanhado do advérbio “mas”. Ou você acreditava que o amariam assim, sem nenhuma ressalva? Eu te amo, mas você compra todos os presentes de Natal em outubro. Eu te amo, mas você dá apelidos para si mesmo. Eu te amo, mas você coloca pontos de exclamação em todas as frases!!!! Eu te amo, mas você pendurou sua foto da formatura na parede. Eu te amo, mas você insiste em dizer que O Alquimista mudou a sua vida. Eu te amo, mas você fala de celebridades como se fossem seus amigos íntimos. Esses são alguns exemplos divertidos (catados no site) de como o amor da nossa vida pode ser honesto, inteligente e lindo, mas não escapa de ter um ou vários hábitos enervantes. Inspirador? Sim, mas proponho uma inversão: em vez de criar a sua frase secreta sobre a criatura que divide os lençóis com você (“Eu te amo, mas você dorme com o ar-condicionado na potência máxima”), procure especular o que ele, o amor da sua vida, diria a SEU respeito. De minha parte, vou exercitar minha humildade e imaginar tudo o que eu ouviria depois do “mas”. Daria uma bíblia, e iniciaria certamente com “eu te amo, mas você é maluca, dorme com a janela do quarto fechada com esse calorão”. E mais. Engasgo com frequência, não sei me atirar de bico na piscina, costumo roer as unhas com pele e tudo, não gosto de comida japonesa, falo mal o inglês, acredito em anjo da guarda e não enxergo um palmo à frente sem óculos. Absolvida? Espero que sim. Enquanto o “mas” fizer vir à tona apenas os meus humaníssimos defeitos, não morro solteira. O importante é que o “mas” continue sendo precedido por um sincero “eu te amo”. Aí topo ar-condicionado na potência máxima e talvez até tire as meias pra dormir. Uma ótima quarta-feira e um gostoso inicio de semana para quem estava de feriadão como eu, ehehehehe. Terça-feira, Fevereiro 02, 2010
Macchu Picchu! Voltei mutcho putcho! Lula passou sábado pelo Incor e foi bem em todos os exames. Menos no de português! Rarará! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta! Chegam ao Rio os brasileiros resgatados de Macchu Picchu. E mutcho putchos. Um amigo meu chegou de Macchu Picchu mutcho putcho! Rarará! A saúde do Lula. Boas notícias: Lula passou sábado pelo Incor e foi bem em todos os exames. Menos no de português! É que não tinha exame de português. Rarará! A pressão estourou: foi pra 51/8! E o Lula tem hipertensão e um amigo meu tem HiperPENSÃO: paga pensão pra três mulheres. E o site Comentando revela que o Lula lançou mais um programa depois do susto: Programa de Inspeção Regular Intensificada de Pressão Arterial dos Companheiros. PIRIPAC! PAC quer dizer Pressão Alta Cumpanhero! Outros acham que não é hipertensão, é megalomania! Vocês viram o discurso que ele mandou pra Davos? TEMOS QUE REINVENTAR O MUNDO! Só isso? Oba. Vamos lá. Eu topo! Rarará! E outros ainda dizem: foi apenas uma marolinha de gases. E os filmes que ele pegou pra assistir, pra relaxar: "Os Substitutos" e "A Morte Pede Carona". Verdade! Rarará! E olha o cartaz de um estabelecimento em Mossoró, Rio Grande do Norte: "Corta-se cabelo masculino AO VIVO!". É o efeito televisão! O mundo virou uma televisão! E essa outra pichação numa parede: JESUS SAUVA! O que é isso? Formiga gospel? Jesus saúva! Rarará! E o jogo do Corinthians? Roberto Carlos foi expulso! O Roberto Carlos ficou famoso pela meia! Pois é: um jogador de meia-idade, jogou meia partida, fez falta na meia esquerda e o jogo foi meia boca! Foi expulso porque deu um carrinho. Sabe como se chama carrinho em Portugal? Penalidade sobre quatro rodas. Rarará! E o novo patrocinador do Corinthians? Vovôzzano! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". É que tem um cartaz num boteco de Guarulhos: "Fiado só quando o Serra terminar o Rodoanel". Rarará. Mais direto, impossível. Viva o antitucanês! Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Urucubaca": urubu que pousou num companheiro babaca. Quanto mais infame, melhor! O lulês é mais fácil que o ingrêis. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo que eu não vou! simao@uol.com.br
02 de fevereiro de 2010 | N° 16234 LIBERATO VIEIRA DA CUNHA O terceiro capítulo Está sendo lançado um novo romance de Sidney Sheldon (A Senhora do Jogo), mas dificilmente ele comparecerá à sessão de autógrafos, e isso por uma singela razão: morreu em 2005. Tinha deixado o livro pronto? – perguntará o leitor distraído. Ao que eu responderei que não, que na verdade a obra foi composta por uma inglesa, Miss Tilly Bagshawe, cujo nome aparece discretamente na capa. Em contraste, o de Sidney Sheldon surge em letras berrantes, como convém a um escritor traduzido para 51 idiomas e que vendeu incríveis 300 milhões de exemplares no mundo inteiro. É um dos mais espantosos casos de sobrevivência em toda a História. Transferido desta para melhor há cinco anos, Sheldon é um dos mais cotados nas listas de best-sellers em Europa, França e Bahia – e isso por um livro a que ele não adicionou uma vírgula. Na verdade, segundo leio em reportagem de Jerônimo Teixeira na Veja, sua ajuda é indireta, pois o romance é uma saga familiar, o que significa que os principais personagens já existiam. Mas Miss Tilly está para lançar um outro livro com o nome de Sheldon, que não é mais a continuação de uma obra anterior, mas uma trama no estilo do autor. É o que me leva a imaginar, por um simples exercício de fantasia, que um dos meus romances tivesse um seguimento póstumo. Como eu já não estaria mais aqui para avaliá-lo, só posso desejar que fosse um trabalho bem além de meu acanhado talento. A mocinha seria um prodígio de beleza, os traços suaves, o corpo perfeito, as feições primorosas. Seria alta, teria os olhos e os cabelos claros, as curvas impecáveis. Seria rica, dona de uma imensa mansão e de uma cultura invejável. Teria um affair inesquecível com um rapaz pobre porém honesto, e suas cenas de sexo seriam tórridas como a região equatorial. Seus diálogos seriam imperecíveis, plenos de sabedoria e de ternura. E seus pensamentos, um compêndio de bom senso e de partilha. Lutariam por causas nobres e dignificantes, seus inimigos seriam todos derrotados, estenderiam a mão para os humilhados e os ofendidos. Prostariam os arrogantes, se imporiam aos tolos, venceriam os pérfidos. E ninguém seria mais feliz do que eles. Aqui faço ponto e vírgula e me dou conta de que personagens assim seriam infinitamente chatos, e ninguém leria sua história além do terceiro capítulo. A condição humana não suporta a perfeição, mesmo nas páginas de um romance. Certa mesmo está Miss Tilly, que constrói sua história sem perdão, com a receita dos feios e dos maus, pois é assim que caminha a humanidade. Uma linda terça-feira e um excelente feriado para quem está de feriado hoje. Para quem for viajar boa viagem. Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010
MOACYR SCLIAR Melhorando Picasso Ela dera a Picasso, ainda que involuntariamente, uma colaboração, que o mestre poderia considerar preciosa Um importante quadro do pintor espanhol Pablo Picasso foi danificado quando uma mulher perdeu o equilíbrio e caiu sobre a obra, no Museu Metropolitan, em Nova York, na última sexta-feira. O acidente deixou um rasgão de cerca de 15 centímetros de comprimento no canto inferior direito da tela "O Ator", pintada no inverno entre 1904 e 1905, e marca a transição do trabalho do artista da chamada "fase azul" para a "fase rosa". A obra retrata um homem posando diante de um fundo abstrato. Cotidiano, 26 de janeiro de 2010 ELA NÃO entendia nada de arte, não gostava de arte, e sobretudo detestava museus. Mas estavam fazendo turismo em Nova York e, como disse o marido -ele sim, um homem culto, familiarizado com a obra dos grandes artistas- ir a Nova York e não visitar o famoso Museu Metropolitan era um verdadeiro absurdo. Coisa da qual ela acabou se dando conta; a última coisa que queria era voltar para o Brasil e ouvir de uma de suas metidas e arrogantes amigas um comentário do tipo: "Mas como, você foi a Nova York e não visitou o Metropolitan?" Aceitou, pois, a sugestão do esposo, impondo algumas condições. A visita seria curta (e seguida de uma excursão ao Macy's e a um fino restaurante); e ele a pouparia de ver as obras mais complicadas, aquelas que a pessoa nunca sabe se se trata de arte ou de brincadeira de mau gosto. Foram, pois. Como ela previa, achou aquilo uma chateação; a todo instante consultava o relógio. Mas aguentou razoavelmente até o momento em que o marido disse: "Vamos dar uma olhada nas obras do Picasso". Aquilo era demais. Porque, embora inculta, ela sabia que Picasso era sinônimo de quadros bizarros, um olho aqui, um nariz ali, nada a ver com nada. Ele, porém, prometeu que aquilo encerrava a jornada artística, e ela, ainda que de má vontade, o seguiu. Detiveram-se diante de uma tela intitulada "O Ator". E então, o inesperado. Olhando o homem jovem que ali estava representado, e que parecia mirá-la fixamente, ela se sentiu como que transportada para um mundo estranho, um mundo onde nunca estivera antes. De repente, compreendia a arte. Não: de repente a arte penetrava-a, se apossava dela. Uma verdadeira revelação, uma epifania; a emoção foi tão forte que a fez cambalear. Ela caiu sobre a tela. O marido e outras pessoas que estavam ali socorreram-na. Recuperou-se, e então viu que, ao cair, produzira um rasgão na tela. Um rasgão que tornara o quadro completamente diferente, surpreendente, mesmo. Ou seja: ela dera a Picasso, ainda que involuntariamente, uma colaboração, que o mestre poderia (e deveria) considerar preciosa, um novo horizonte em seu trabalho. Foi o que disse ao esposo: "Pode ser que o Picasso até me agradeça pelo que fiz. Pode ser até que me convide para colaborar com ele." Ele sorriu: "Difícil, minha querida. O Picasso já morreu." Com o que ela calou-se. Muito irritada: tal como pensava, os artistas são uns enganadores. Não se pode confiar neles: morrem quando menos se espera, sem ao menos agradecer pela colaboração que seria decisiva em sua obra. moacyr.scliar@uol.com.br
01 de fevereiro de 2010 | N° 16233 ARTIGOS Mãe do povo de Porto Alegre, por Luiz Carlos Susin* Ela chegou deslizando pelas águas, acompanhando os migrantes dos Açores e de Portugal, povos do mar. E aqui, diferente de Rio Grande, Florianópolis, da Bahia ou do Recife, ancorou em porto de águas doces. É sempre a mesma, mas com o jeito do povo do lugar. Nos Alpes é Nossa Senhora “dos Cimos”, das alturas. No sul da França é Nossa Senhora da Oliveira, como em Portugal, com os pastores de Fátima falando o português das crianças, é da “azinheira”. Em Guadalupe é a mãe do povo mexicano, tem cor mestiça e roupa índia. Se é verdade que Deus está lá nas alturas, sem imagem e sem nome, a mãe de Jesus continua trazendo Deus para bem perto. Em Porto Alegre, tornou-se logo a mãe dos negros, dos escravos da cidade, que viram nela, como o Negrinho do Pastoreio na versão de Simões Lopes, a “madrinha dos que não a têm”. A festa de Nossa Senhora dos Navegantes é realmente a festa do povo de Porto Alegre. Seu olhar para a cidade se encontra no entroncamento de muitos caminhos que aqui aportam: os rios que chegam do Norte, do Oeste e do Leste, a cabeceira do aeroporto, em que os aviões permitem sempre uma saudação para quem está sentado junto à janela, do lado direito, a autoestrada que junto dela começa e termina, a ponte, que passa contornando sua igreja, o trem metropolitano que só não tem uma estação junto dela por descuido eclesiástico – enfim, todos os caminhos de Porto Alegre passam sob o seu olhar. Por isso, ela não podia deixar de ser aqui, como em todo outro lugar, a mãe do sincretismo, negra com os negros, como aqueles que a recuperaram das águas em Aparecida, e Mãe “Oxum”, das águas doces que dão vida. Qual é a mãe que, ao querer reunir toda a família, não faz concessões para envolver cada filho e cada filha? Ela sempre foi assim, em todo lugar: maternalmente sincrética, como a mãe que balbucia brincando junto ao berço para se comunicar com quem sabe só esta linguagem. E, por isso, em Porto Alegre ela inventou um sincretismo bem local: a festa dela é a festa da melancia. Com a oferenda da melancia, as flores e as luzes de vela ganham também um surpreendente sabor refrescante no verão. Como acontece nas boas famílias, pode alguém nascido ou chegado à cidade não se sentir membro deste povo e sentir pela sua festa uma irresistível simpatia? Afinal, é a festa da mãe que congrega a cidade numa grande família e dá a possibilidade de todos se sentirem irmãos. *Professor da Faculdade de Teologia da PUCRS - ÓTtima semana, excelente mês de fevereiro para você. Domingo, Janeiro 31, 2010
DANUZA LEÃO O preço a pagar Escolher entre os prazeres da mesa e a vaidade é de uma crueldade que deve ter sido inventada pelo demônio UM DOS PRAZERES da vida é comer, comer o que a gente gosta; e depois que a gastronomia ficou na moda, difícil é decidir entre comer de tudo ou viver fazendo dieta a vida inteira. Pode parecer que este é um tema superficial, só que não é; implica fazer uma opção, o que é sempre um tormento. As tentações estão em todos os lugares: nas fotos das revistas, nas vitrines, numa conversa no telefone. Onde vamos almoçar domingo, recebi um chouriço e aprendi uma receita nova, venha para cá, você traz o vinho, e quem resiste a um convite desses? E dizer não a troco de quê? A vida é combate, como sabemos; mas escolher entre os prazeres da mesa e a vaidade de ter um corpinho esbelto é de uma crueldade que deve ter sido inventada pelo demônio. É sempre assim: a cada prazer vem imediatamente a conta, aliás, o castigo, como aprendemos com as freiras. Se num único dia você come tudo que não devia, vai precisar de dez a pão e água -aliás, só água- para voltar ao peso antigo, o que é a prova da injustiça da vida. Se viajou por duas semanas, quando chegar vai encontrar a TV sem funcionar, e se estiver tudo na mais santa paz, desconfie. Tem mais: quanto mais maravilhosa tiver sido a viagem, mais dramáticos serão os problemas; talvez o melhor seja filosofar, imaginando que este é o tal do equilíbrio fundamental da vida -dizem. Estamos cansados de saber que é preciso comer com moderação, beber com moderação, ser sensata ao passar por uma vitrine, não tomar sol demais, não beber demais, não ler demais, para não cansar a vista, não rir demais -muito riso, pouco siso-, não amar demais para não cair do cavalo, não acreditar demais no ser humano para não se decepcionar, mas também não ser totalmente descrente, pois sem acreditar, a vida não tem sentido. Por sensatez, compreenda-se: o mundo quer que se viva de maneira média -e quando se fala em mundo, fala-se dos pais, dos irmãos mais velhos, das leis, das pessoas com juízo; crianças médias não ameaçam a estabilidade da família, esposas com desejos médios não põem em risco o casamento, cidadãos médios são mais fáceis de ser governados. Mas é possível ser sensata e feliz? É possível ficar na praia olhando o relógio para ver se já são 10h, já que a partir daí não se pode mais tomar sol? Não, não é; viver medindo tudo, para não ser nem de menos nem de mais, ser equilibrada o tempo todo, a vida inteira, não dá. Às vezes é preciso ser radical, em qualquer dos sentidos, e escolher: ou come tudo que tiver vontade ou passa fome; ou bebe tudo que tiver vontade ou toma água. Água, essa coisa tão sem graça, não só pode, como deve. Uma coisa é certa: seja qual for sua decisão, você vai pagar por ela. Deve haver um lugar no universo onde se possa ter tudo o que se quer ao mesmo tempo, sem precisar contar as calorias, pesar, medir os prós e os contras, e sem pagar o preço. Tem alguma graça ganhar uma caixa de chocolates e comer civilizadamente só um ou dois? E sentir de repente uma paixão daquelas incontroláveis e se conter, quando sua vontade é ir para o fim do mundo, se fim de mundo houvesse, e fazer tudo, absolutamente tudo que tem vontade, mandando às favas a tradição, a família, a propriedade e o que mais for preciso? Qual a relação entre uma caixa de chocolates e uma paixão? Teoricamente, nenhuma. Só que as duas, depois que acabam, costumam deixar uma mulher devastada. No corpo ou na alma. danuza.leao@uol.com.br Sábado, Janeiro 30, 2010
31 de janeiro de 2010 | N° 16232 MARTHA MEDEIROS É impossível ser feliz sozinho? Pense nos melhores momentos da sua vida: você estava sozinho ou acompanhado?
A limentar muita expectativa é o caminho mais curto para a frustração. Mais uma vez a máxima se confirmou: fui assistir a Amor sem Escalas, o badalado filme do mesmo diretor do excelente Juno, e não fiquei impactada como se prenunciava. Achei bom, apenas. Tem alguns diálogos espertos e uma inversão de papéis inusual (no que se refere a relações entre homens e mulheres), mas, apesar do frescor que Jaison Reitman imprime a seus filmes, desta vez ele por pouco não escorregou pro sentimentalismo barato. Dentro do mesmo tema – é possível ser feliz sozinho? – prefiro Estrela Solitária, de Wim Wenders, que tratou sobre o isolamento do ser humano com muito mais poesia e beleza. Ainda assim, uma frase me marcou. “Pense nos melhores momentos da sua vida: você estava sozinho ou acompanhado?”. Pode não ser comum, mas há pessoas que não têm nenhuma vocação para constituir família, e nem por isso merecem a cadeira elétrica. Eles simplesmente preferem estar em movimento, não ter amarras, e essa liberdade cobra um preço que, se costuma ser alto para a maioria, para outros pode ser uma dívida fácil de quitar. Eu bem que gosto de ficar sozinha. Já tive ótimos momentos comigo mesma dentro de um trem, em frente ao mar, lendo um livro. Mas reconheço que os momentos sublimes, aqueles eleitos como inesquecíveis, aconteceram quando eu estava “avec”. Reconhecer isso não faz eu desprezar a solidão, mas me impede de adotá-la como estilo de vida permanente. Sozinha eu posso ser mais livre, mas não sou desafiada. Compartilhar a vida com alguém exige participação: a gente é impelido a se manifestar, a traduzir em gestos e palavras o que estamos sentindo, e isso engrandece o momento, cria vínculo, avaliza o que está sendo vivido, confere magia ao instante, credibiliza aquilo que está nos deixando emocionado. Não precisa ser um momento repartido apenas com seu grande amor: pode ser também com os pais, com um irmão, um amigo, até mesmo com desconhecidos. Quando se olha nos olhos dos outros e se compreende o que se está passando, a sintonia se dá, mesmo silenciosa. Lembrei de Scarlett Johansson sozinha num bar de hotel em Tóquio, percebendo o também solitário Bill Murray tomando seu uísque, em Encontros e Desencontros. A secreta comunicação do olhar entre ambos dava sentido ao que não havia sentido algum. Pode acontecer entre dois, e também pode acontecer entre muitos. Um estádio de futebol lotado, com a massa gritando pelo mesmo time. Um show vibrante, todos cantando a mesma letra. Imagine se o espetáculo fosse exclusivo pra você: que graça teria? Estando sozinhos, a sensação interna sobre o que está sendo vivido é quase triste, mesmo que não seja. Juntos, até o que não parece alegre, fica.
A Toyota na funilaria A empresa revolucionou a maneira de fazer carros e tornou-se líder mundial. Agora enfrenta um recall constrangedor – que poderá arranhar a sua imagem Luís Guilherme Barrucho - Redd Saxon/AP PÁTIO CHEIO
Falha no acelerador interrompeu a venda nos EUA de oito modelos da fabricante japonesa Foram necessários setenta anos para que a japonesa Toyota realizasse o sonho de seu criador, Kiichiro Toyoda. Em 2007, a empresa tornou-se a maior fabricante de carros do mundo, superando a americana General Motors. O sucesso só foi possível graças à tecnologia que se tornou sinônimo de conforto e segurança, a preços competitivos. Na semana passada, essa reputação sofreu um golpe. A Toyota convocou 2,3 milhões de proprietários nos Estados Unidos para solucionar um defeito no acelerador, produzido por um fornecedor canadense. Houve incidentes em que o carro continuava acelerando, mesmo depois de o motorista parar de pressionar o pedal. O defeito envolve oito modelos da Toyota, entre eles seus dois sedãs mais vendidos nos Estados Unidos, o Camry e o Corolla. O mais constrangedor: incapaz de solucionar a falha, a empresa suspendeu a produção e a venda desses veículos. O recall, que não afeta o Brasil, também foi estendido à Europa e à China. Ao todo, estima-se que mais de 4 milhões de automóveis terão de passar pelo conserto. Foi a segunda grande falha registrada em menos de quatro meses no mercado americano. Em setembro, a Toyota já havia chamado 4,2 milhões de veículos de volta às concessionárias, por causa de um problema com o tapete do motorista, que se enroscava nos pedais. Como se não bastasse, a companhia tem perdido mercado para novatas, como a coreana Hyundai. Para completar, padece de um equívoco estratégico: fez apostas tímidas nos mercados que mais crescem atualmente, como a China e o Brasil, ao contrário da alemã Volkswagen, que já dá sinais de superá-la. O resultado é que desde que a montadora japonesa alcançou a liderança mundial, há dois anos, suas vendas caíram quase 20%. Estaria sob ameaça o reinado da marca? "Acredito que não", afirmou a VEJA Jeffrey Liker, da Universidade de Michigan. "Os princípios da Toyota são suficientemente fortes para evitar que dois problemas isolados contaminem toda a empresa." A companhia cresceu seguindo catorze princípios criados por Kiichiro Toyoda e pelo engenheiro Taiichi Ohno, entre eles a busca pelo aprimoramento contínuo. A Toyota estabeleceu um novo modelo de administração, o just in time, em que a montagem e os embarques de carros são imediatos e correspondentes à demanda, o que reduz o custo para manter estoques. As concorrentes a copiaram e se reergueram, enquanto a japonesa parece ter baixado a guarda. Diz Alan Middleton, da Universidade York, no Canadá: "Quando as empresas se tornam grandes demais, existe o risco de se acomodarem e deixarem a criatividade de lado". Para permanecer no topo, a Toyota precisará ter humildade oriental e reler os seus próprios princípios. Junko Kimura/Getty Images LÍDER CABISBAIXO
Akio Toyoda, neto do fundador e atual presidente da Toyota: críticas pela resposta tímida diante das falhas
30 de janeiro de 2010 | N° 16231 NILSON SOUZA O objeto perfeito O caderno Vestibular, encartado na edição da última quarta-feira deste jornal, apresentou uma desafiadora sugestão para estudantes do Ensino Médio: a leitura de um livro por mês. Educadores e especialistas selecionaram títulos por faixa etária, e o jornal apresentou um roteiro específico para jovens entre 15 e 18 anos, indicando um livro a cada 30 dias como receita, senão para uma formação literária excelente, pelo menos para uma vida prazerosa. Li com atenção a reportagem, conferi os títulos que já fazem parte do meu currículo de leitor, mas fiquei pensando: que jovem da geração digital dispõe de tempo para devorar um livro por mês? Os críticos mais rigorosos do admirável mundo novo em que vivemos certamente responderão que o problema não é tempo, mas vontade. Como diria aquele célebre dicionarista, discrepo. Vontade muitos têm. Mas os apelos da tecnologia são mais fortes. Os celulares chamam, torpedeiam, vibram como pequenos terremotos da atenção. Os computadores brilham, emitem ruídos, falam e ouvem. Os tocadores de música ocupam os ouvidos e o cérebro. Os teclados chamam os dedos. Fica mesmo difícil exigir que a garotada se conforme em ocupar as mãos e os olhos com um objeto aparentemente inanimado como um livro. E no entanto ele se move. O livro (de papel, bem entendido) é um daqueles objetos perfeitos – portátil, fácil de manusear, responde prontamente ao toque dos dedos que o folheiam, permite retrocesso nas páginas, dispensa o uso do mouse, não trava, o conteúdo não se apaga quando falta luz nem quando se toca numa tecla errada. Dependendo do operador, pode ser tão interativo como qualquer equipamento eletrônico, já que possibilita soltar a imaginação. Acho mesmo tudo isso, mas reconheço que esta é uma visão antiga. Estudiosos do cérebro dividem os leitores em contemplativos, fragmentados e virtuais. Os primeiros são da época ancestral em que o livro era a principal fonte de conhecimento, consumia todo o tempo do consulente. O leitor fragmentado pegou o tempo do jornal, da televisão, do ambiente urbano cheio de placas luminosas, sinais que se movem. Passou a consumir a leitura com pressa, em movimento, sem tempo para reler e meditar. E chegamos ao leitor virtual, que interage com som, texto, imagem, vídeos, telas planas, tudo misturado, numa celeridade quase alucinógena. É quase antinatural querer que essas criaturas multimídias desacelerem cérebros e dedos para ler um livro por mês. Mas quem já leu vários daqueles títulos sugeridos pelo velho método de folhear página por página tem motivos para pensar que a garotada está perdendo algo muito valioso. Sexta-feira, Janeiro 29, 2010
Perdão, esquecimento y otras cositas mas Todo mundo tá careca de saber que raiva, ressentimento, inveja, culpa, remorso e outros sentimentos negativos são péssimos para a saúde física e mental da gente e dos outros. Tudo bem, somos humanos, demasiado até, por vezes. Vingança, para quem ainda gosta disto, é um prato que se come geladinho. Há quem sonhe em comer o fígado do inimigo bem friozinho, em forma de finas fatias, com azeite de oliva extravirgem, alcaparras e queijo grana padano, tipo um diabólico carpaccio. Para esses, não desejo buon apetito! Somos anjos e demônios, mas procuro acreditar mais no bem e na energia positiva. Deus para mim é uma grande, misteriosa e infinita energia criativa e positiva. Melhor achar que a gente é anjo de uma asa só, que precisa de outro para voar. Já perdoei um monte de gente por uma pá de coisas e espero que tenham me perdoado por muita coisa que possa ter feito. Não acho brega dizer “desculpe qualquer coisa”, mesmo depois de uma festa bem-sucedida. Brega é não sorrir, não se desculpar, não agradecer ou não pedir licença. Agora, esquecer já é mais complicado. O grande ator Morgan Freeman, esses dias, disse que perdoar é mais fácil que esquecer. Concordo. Mas acho que a gente deve se esforçar para colocar pensamentos, emoções e palavras boas na vida e tentar esquecer certos atos, cidadãos, situações e outros lances baixo-astral que pintaram e pintam. Conseguir esquecer certos acontecimentos e fazer uma faxina mental é o máximo. Só não se sinta Deus depois disso. Menos, né? Deepak Chopra, médico e pensador internacional e, inclusive, doutor do pegador anistiado Bill Clinton, está coberto de razão científica e filosófica quando diz que palavras, atitudes e pensamentos positivos fazem mal para nossa cabeça, tronco e membros. Diz ele que se tu não abres teu coração, algum cardiologista vai ter que fazer isto por ti. Que fique para trás aquela história de que homem não chora, tem ataque cardíaco. Sim, mas, vamos combinar, também, que não precisa chorar em público por qualquer coisa. Sorria, chore, agradeça, não fure a fila, peça licença, peça para Deus fazer justiça a teus inimigos e, se possível, esqueça das porcarias passadas e lembre aí que dá para se exercitar e brincar com a memória, onde as coisas acontecem, ou não, muitas vezes, de várias maneiras. Jaime Cimenti Um lindo dia pra vc. Um gostoso fim de semana. Quinta-feira, Janeiro 28, 2010
SAUDADES... Eu não queria senti-la, mas é mais forte que eu, todas essas lembranças me escravizam, me tiram a paz, sinto saudades de você, saudades de nossas conversas, dos nossos carinhos, enfim, de tudo de bom que vivemos juntos e que a vida cruelmente roubou de mim. Hoje, junto com a saudade, uma solidão terrível impera ao meu redor, tudo é vazio, tudo é triste; só a saudade de você que insiste em me machucar. Quero reviver com você todos os nossos momentos, volta a conversar com você e sentir o seu carinho em cada frase escrita em cada mensagem trocada. Eu tentei te esquecer, mas não consegui, perdi as rédeas do meu coração, eu sei que preciso superar tudo isso, mas se tornou muito difícil, sinto saudades, muitas saudades. Não sei se lhe verei novamente algum dia, mas gostaria que essas palavras chegassem ao seu coração e você entendesse que minha vida perdeu a cor e deu lugar a uma imensa dor. Não sei quais foram os motivos que nos separaram, e até hoje não entendi da razão de tantas mágoas suas. Rancor até, e talvez seja por isso que essa saudade doa tanto. A triste certeza de que não verei seu rosto, nem terei mais seu carinho em tantos momentos bons. Queria poder gritar, explodir essa angústia, mas ela se resume em um choro, onde a melancolia e a tristeza se misturam. Queria lhe procurar, mas não posso, queria que houvesse uma maneira de erradicar esse maldito sentimento da minha vida, queria lhe ver, olhar seus olhos, mas esse desejo é o mesmo que tentar agarrar o sol. Tanto amor não foi suficiente para evitar esse desfecho. Hoje sou sufocado pela saudade, e forçado a viver te vendo nas fotografias que ficaram guardadas e nas mensagens que recebi de ti.
ELIANE CANTANHÊDE Perdeu o bonde e pagou a conta BRASÍLIA - O Brasil começou bem, mas perdeu o bonde na crise de Honduras. A reação brasileira ao golpe de junho de 2009 foi rápida e contundente, em defesa do princípio de que militares não podem catar presidentes eleitos democraticamente e jogar fora em outros países na calada da noite. Da defesa de princípios à busca de protagonismo, porém, foi um pulo. Ou um salto no escuro. Admitida como verdadeira a versão de que Zelaya chegou sem pedir e sem avisar, o Brasil não tinha outra alternativa se não acolhê-lo na embaixada em Tegucigalpa. Mas deveria acolhê-lo na condição de asilado, como prevê a legislação internacional, e estabelecendo limites. Não fez uma nem outra. O resultado é que o Brasil agarrou-se a Zelaya, assumiu um só lado da questão, isolou-se e bateu de frente com os EUA e parte da América Latina ao se recusar a tratar a eleição do novo presidente como saída da crise -aliás, a única. Assim, o bonde hondurenho chegou ao destino com um projeto de união nacional, novo maquinista, Porfírio "Pepe" Lobo, e todos os passageiros que interessam: a Corte Suprema de Justiça, o Congresso, a mídia, a igreja, os EUA, boa parte da comunidade internacional e o mais fundamental, o povo, que votou no novo presidente em eleições cuja lisura não foi questionada nem por adversários. Mas o governo brasileiro não embarcou. Ficou do lado de fora, sem ter o que fazer nem o que dizer, ao lado da turma da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), que orbita em torno de Hugo Chávez. Zelaya ganhou quatro meses de casa, comida, telefone, palanque e holofotes de graça na embaixada brasileira, junto com a mulher, a parentada e centenas de amigos, militantes e agregados. E o Brasil, o que ganhou com isso? Ou melhor: e você, ganhou alguma coisa? Não. Só pagou a conta. elianec@uol.com.br |
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