Nuvens Brancas |
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Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
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Quarta-feira, Agosto 27, 2008
27 de agosto de 2008 N° 15708 - MARTHA MEDEIROS Em quem pensar primeiro? Semana passada, deputados aprovaram a Lei Nacional de Adoção, que, se for sancionada pelo presidente, irá agilizar os processos de adoção no país, o que é uma boa notícia. Ainda assim, fiquei um pouco espantada com a idade mínima para se adotar uma criança: caiu de 21 para 18 anos. Aos 18, dificilmente alguém tem estabilidade financeira para arcar com as próprias despesas e mais as despesas de um filho, e também me parece um pouco cedo para tomar uma decisão tão definitiva e que exige tanta responsabilidade, mas, enfim, se há amor suficiente, que seja aos 18. O que lamento mesmo é que alguns deputados tenham exigido que o dispositivo que estendia o direito aos casais homossexuais fosse retirado. Quando um deputado faz isso, em quem ele está pensando? A única resposta que me ocorre é: nele mesmo. Em ano de eleição, não pega bem ser moderninho. Sempre é bom fazer uma média com a nossa população tão religiosa e defensora da moral e dos bons costumes. Talvez ele, intimamente, nem seja tão preconceituoso, mas não consegue deixar de fazer o papel de bom moço. Ou então é realmente obtuso e nem cogita em tomar uma atitude que favoreça um casal homossexual. Nada de facilitar a vida desses pervertidos, não é assim? Um deputado – e qualquer outra pessoa – pode ter os pensamentos que quiser, é um direito de todos. Mas se a função do político é legislar pelo bem comum, em quem mesmo ele deve pensar quando se está em debate uma lei de adoção? Me parece lógico: na criança que, por algum motivo, não poderá ser criada pelos próprios pais. Essa criança está num abrigo para menores, aguardando ser escolhida. Até quando ela terá que esperar para que um casal hétero a leve para casa? Se surgir a oportunidade de ser amada e criada por dois homens ou duas mulheres predispostos a formar uma família, não seria muito melhor estar com eles do que sob a guarda de assistentes sociais? Eu sei que é um arranjo que perturba – fugir do convencional nunca é fácil. Não tenho nada contra priorizar os padrões, pelo contrário, o ideal é mesmo uma criança ser criada por um homem e uma mulher, cada um com seu papel definido, mas isso não é garantia de equilíbrio emocional: a felicidade é sempre uma loteria. A única coisa que me parece indiscutível é que, para uma criança que não tem lar algum, será sempre um privilégio ter sido escolhida para viver com quem deseja lhe dar amor, segurança e educação. Ser criado por homossexuais lhe causará algum constrangimento futuro? Pode ser, pode não ser. Alguém tem bola de cristal? Só vamos saber quando tivermos menos medo de polêmicas e mais coragem para aceitar que a sociedade mudou. Excelente quarta-feira, para todos nós, ainda com sol pelo menos. Terça-feira, Agosto 26, 2008
SARKOZY, O MINÚSCULO Dominique Wolton, sociólogo do CNRS, o centro nacional de pesquisa científica da França, esteve em Porto Alegre. Deu um curso para os mestrandos e doutorandos em Comunicação da PUCRS.
Autor de alguns livros altamente provocativos, como 'O Elogio do Grande Público' e 'Internet, e Depois?', ele sustenta que a televisão aberta contribui mais para a democracia e para os vínculos sociais que a televisão a cabo. Nessa mesma linha, defende que só há liberdade de comunicação quando existe equilíbrio num país entre televisão pública e privada. Dominique Wolton não é marxista. Ri abertamente de quem acredita no poder da Internet, ou de qualquer outra tecnologia, de tornar o mundo mais igualitário. A tecnologia, explica, pode acelerar a circulação de informações, mas o que interessa mesmo é a comunicação. A informação é a mensagem (os dados). A comunicação é a relação. Ou seja, um processo antropolítico complexo. Li para ele a reportagem da revista Veja que acusa os professores do ensino fundamental e médio de 'esquerdizar' as crianças com essa história de formar cidadãos. A sua reação foi simples e clara: essa revista 'direitiza' os leitores. Pode-se muito bem ensinar, ao mesmo tempo, matemática e pensamento crítico. Conhecedor das críticas ao apego dos franceses ao Estado, recorrentes na mídia conservadora, ele tem resposta na ponta da língua para essa objeção: é uma ideologia liberal de privatização generalizada disfarçada de neutralidade. Uma conversa fiada interesseira para diminuir o tamanho do Estado e dar mais espaço à especulação e à transformação, por exemplo, das questões relativas à saúde em comércio. O Estado não pode ser máximo nem mínimo. Deve ser o ponto de equilíbrio. Espanta-o o interesse da mídia internacional pelo presidente francês, Nicholas Sarkozy, a quem se refere como o minúsculo, por não ter um projeto político renovador e por praticar uma política dura em relação aos estrangeiros em busca de trabalho. Wolton garante que as três grandes questões do futuro serão a preservação do meio ambiente, a comunicação e a imigração. Ele sonha em fazer um livro de entrevista com o presidente Luiz Inácio. Acha que o mundo ainda não deu a merecida atenção aos feitos de um operário que se tornou chefe de uma grande nação e, contrariando as previsões das elites enciumadas e profundamente ideológicas, fez melhor, ou não fez pior, que os seus antecessores. Na França, o Bolsa-Família aparece como uma medida justa, humanitária e somente criticada por opositores que colocam a ideologia acima dos interesses reais das pessoas. Conhecedor do Brasil, Wolton já foi convidado algumas vezes a dar consultoria para a Rede Globo. Ele não entende por que os intelectuais brasileiros, se estão insatisfeitos, não enviam uma carta aberta à família Marinho exigindo mais compromissos da emissora com a diversidade cultural. Estão achando que se trata de um francês maluco? Wolton vende milhares de livros, recebe convites do mundo inteiro, tem uma agenda lotada, acredita na capacidade da mudança pela negociação, defende a democracia acima de tudo e crê na educação como método decisivo de transformação social. Nada tem de um dinossauro esquerdista. Só não cai facilmente no papo-furado das novas direitas travestidas de neutras. Ah, tenho convicção de que ele toma banha todos os dias! juremir@correiodopovo.com.br Uma excelente terça-feira, pelo menos com sol, com certeza. Segunda-feira, Agosto 25, 2008
EDITORIAL - Folha de S. Paulo - 25/8/2008 Sem lágrimas Conquistar medalhas olímpicas é sempre positivo, mas não tem por que ser prioridade num país como o Brasil APESAR de alguns feitos notáveis -como as medalhas de ouro conquistadas por César Cielo, na natação, Maurren Maggi, no salto, e a equipe feminina de vôlei-, um sentimento de frustração parece inevitável diante do desempenho dos atletas brasileiros na Olimpíada de Pequim. No caso da seleção masculina de futebol, um longo tratado, repleto de antecedentes históricos, de análises de psicologia motivacional e de bastidores administrativos, ainda está por ser escrito pela crítica especializada. No contexto deste comentário, basta citar o conselho de Virgílio a Dante Alighieri, no passo da "Divina Comédia" em que ambos contemplam o destino das almas incaracterísticas, carentes de ímpeto próprio: "Non ragionam di lor, ma guarda e passa". Passemos, portanto, ao largo da questão. Vale mais refletir sobre os exemplos das estrelas em outras modalidades esportivas que, por alguma razão, tiveram desempenho inferior ao esperado. Sejam quais forem as precariedades com que todo atleta brasileiro é forçado a conviver, o fato é que acidentes, imprevistos e frustrações são normais em qualquer competição esportiva. O que parece fugir, talvez, aos padrões rotineiros em outros países é a carga de emocionalidade e expectativa que se deposita, muitas vezes, sobre a figura individual deste ou daquele jovem atleta, que por alguns dias experimenta sobre os ombros o peso de uma exposição midiática e de um furor patriótico sem freios. Pode-se dizer, claro, que em muitos outros países, a começar pela própria China, uma veemente necessidade de auto-afirmação nacional faz de cada disputa por medalha olímpica uma empreitada cívica. Mais do que os desafios inerentes a cada modalidade esportiva, é como se estivessem em jogo vários séculos de história, cuja carga de insucessos devesse ser superada num salto fenomenal, numa pirueta espetacular, num giro sobre-humano. Ocorre que a China -como, no passado, os países do Leste Europeu- investiu pesadamente no treinamento de seus atletas. Aqui, é como se os sonhos de um país inteiro se encarnassem num número relativamente pequeno de esportistas, cujos eventuais malogros repercutem desproporcionalmente, sem dúvida, sobre os ânimos gerais. Ganhamos menos medalhas do que poderíamos; paciência. Investir mais em esporte é fundamental para o bem-estar, a saúde e o lazer da população; tal objetivo não tem necessariamente de vir atrelado ao de subir novos degraus no "ranking" olímpico. A simbologia dos recordes e do ouro é sem dúvida significativa, mas não deixa de ser simbologia apenas. Sediar a Olimpíada -outra questão em que os brios nacionais se acendem- tampouco fará, por si só, do Brasil um país diferente do que é. Afinal, seu engrandecimento, no esporte como em qualquer outra área, não se mede em recordes, prêmios e medalhas, mas sim na conquista de uma vida melhor para a população.
25 de agosto de 2008 N° 15706 - KLEDIR RAMIL FuTribol 2ª parte Outro dia escrevi sobre a evolução do jogo de futebol, imaginando que no futuro haverá jogos com três times em campo. Além disso, inevitavelmente, a tecnologia chegará aos gramados. O uso de aparelhos vai evitar o erro dos juízes e permitir resultados mais justos e transparentes. A bola, os jogadores e as linhas do campo serão monitorados por chips eletrônicos e células fotoelétricas, resolvendo definitivamente as dúvidas em relação a se foi ou não impedimento, se a bola saiu pela lateral, se a mão tocou na bola ou se a bola tocou na mão. Os jogadores terão um “ponto”, discreto fone de ouvido, para receber instruções do técnico. Esse, por sua vez, terá um sistema de telemetria à disposição para tomar decisões e fazer mudanças táticas, quando necessárias. Cada uma das três equipes terá que estar preparada para possíveis alianças temporárias com um dos times adversários, tanto em situação de ataque como de defesa. Vai depender de quem estiver com a bola dominada. Só por aí já dá pra sentir a complexidade do jogo e a necessidade de jogadores com um preparo físico, técnico e psicológico muito superior. Um atacante, além do 2º Grau completo, também vai precisar saber defender, o que hoje em dia é o sonho de todo técnico de futebol. E mais, em determinados momentos, os atacantes do lado esquerdo poderão ser chamados a ajudar os do lado direito, e vice-versa. Qualquer jogador terá que saber chutar com os dois pés, bater o córner e correr pra cabecear. E ter uma visão holística da partida. Como teremos dois times atacando uma mesma defesa, você já pode imaginar que vai sair muito mais gols do que hoje em dia. E os placares mais movimentados farão com que os campeonatos sejam ainda mais emocionantes, com tabelas e soma de pontos que só poderão ser acompanhadas com a ajuda de um computador. O resultado da partida mostrará quantos gols o time fez e quantos levou. Por exemplo, imagine um clássico Gre-Ju-Nal (Grêmio x Juventude x Internacional). Digamos que o Inter meteu 5 no goleiro do Juventude e 4 no do Grêmio. O Juventude fez 3 no Colorado e 4 no Tricolor. E o Grêmio não fez gol em ninguém, só tomou. O resultado seria: Inter 9 a 3, Juventude 7 a 4, Grêmio 0 a 8. Imaginem um jogo de 90 minutos com 31 gols e tantas opções. É o futuro. Você ficou confuso? Vou explicar de novo. Pega papel e lápis aí pra fazer um desenho. Ótima segunda-feira e uma excelente semana para todos nós. Domingo, Agosto 24, 2008
FERREIRA GULLAR Auto-retrato falado Quase nenhum fidalgo quis vir para a selva, cheia de mosquitos, serpentes e índios antropófagos DE UNS tempos para cá, não sei por que, comecei a me perguntar o que nos caracteriza, quem somos nós, brasileiros. E para ver se achava uma resposta fui relembrar como tudo começou. Verifiquei que custou a começar talvez porque nossos descobridores, os portugueses, não contavam com isso: de repente, caiu-lhes no colo uma terra selvagem quando o que buscavam era um caminho mais fácil para as Índias. Tomaram posse da terra, mas a deixaram de lado, até descobrirem que havia aqui uma preciosa madeira de cor vermelha, que os piratas franceses levavam para vender na Europa, sem nada pagar ao rei português. Isso deu origem a guerras sucessivas, que se estenderam por mais de meio século. As duas grandes nações indígenas tomaram partido: os tupinambás aliaram-se aos franceses, e os tupiniquins, aos portugueses, até que em 1559, Villegaignon, depois de tentar implantar aqui a França Antártica, se deu por vencido e foi embora. Mas em nenhum momento Portugal deu a entender que via o Brasil como uma extensão de nação portuguesa. Nada disso: pensava apenas em extrair da nova terra o que lhe desse lucro, e só. Trinta e dois anos após a descoberta, o rei português decidiu dividir a costa brasileira em capitanias para impedir que os invasores continuassem a saquear sua propriedade ou até mesmo ocupá-la. Mas quase nenhum fidalgo quis vir para a selva, cheia de mosquitos, serpentes e índios antropófagos. Vieram alguns membros da pequena nobreza, afora os condenados à morte, os degredados e alguns aventureiros, que se tornariam o outro componente do futuro povo brasileiro: desclassificados socialmente, sem família, eles se juntaram às índias e geraram os primeiros mestiços que, criados pelas mães, falavam tupi-guarani e se portavam como indígenas. O número desses mestiços foi crescendo à medida que, com a ocupação do território, os brancos passaram a prear índios e levá-los para trabalhar nas fazendas. Dá para entender por que, até meados do século 18, o idioma de quase todos era a língua geral do Brasil, ou seja, a língua dos índios. A certa altura, Portugal se dá conta de que estava se formando aqui um país que pouco tinha de português, e então surgiram decretos proibindo que se falasse tupi-guarani nas cidades e tornando obrigatório falar português. Ao lembrar esses tempos, verifica-se o total desinteresse de Portugal por oferecer formação cultural à nação que surgia. Pelo contrário, a impressão de jornais e livros era proibida. A atividade intelectual só a exerciam os jesuítas, que, para catequizar os índios, ensinavam-os a ler, mas tudo o que liam era o catecismo. Após perceberem que a melhor maneira de preservar os ganhos da coroa com a nova terra era povoá-la, surgiu a necessidade do escravo negro, mais facilmente dominável que o índio. Com a vinda dos negros e a miscigenação que aos poucos se deu, integrava-se no processo de nossa formação o terceiro elemento étnico e cultural. Mas até então, não havia a noção de que nascera aqui uma nação, de que todos pertenciam a uma mesma pátria. Segundo Capistrano de Abreu, isso ocorre pela primeira vez, quando brancos, negros, índios e mestiços se unem para expulsar os holandeses de Pernambuco. Com o crescimento das atividades econômicas, particularmente do comércio, surgiu uma classe média, cujos filhos iam estudar em Coimbra. Conquanto, já desde 1551, os colonizadores espanhóis fundavam uma universidade no México e, em seguida, outra no Peru, no Brasil, isso não ocorre nem mesmo depois da vinda de d. João VI, no começo do século 19. Assim, chegamos atrasados à civilização -o que não foi de todo ruim. Colonizado por nobres de segunda classe e meliantes de primeira, livramo-nos dos fidalgos, o que facilitou a mistura. Mas devemos muito a Portugal: um Portugal pragmático, sem metafísica. Conhece você algum outro rei que, para escapar ao invasor e salvar o reino, tenha fugido com as jóias e os móveis da Corte? Vão-se os princípios, fiquem os anéis. Herdamos essa "objetividade" que às vezes se traduz em sensatez. Aqui, não floresceu uma literatura do absurdo nem onírica, e até a ditadura, que nos oprimiu, torturou e matou bem menos que as dos chilenos e dos argentinos; só o necessário... E, depois, diferente da deles, terminou numa anistia que abarcou todo mundo, perseguidores e perseguidos. O que passou, passou, bola pra frente. É cinismo, amoralidade ou uma concessão realista pela volta à democracia? Berço de Macunaíma, aqui, pelo menos, jamais surgirá um Bin Laden. Sábado, Agosto 23, 2008
24 de agosto de 2008 N° 15705 - MARTHA MEDEIROS A miopia do mundo Wim Wenders diz: muita coisa nos diverte, mas o que vale são as experiências que nos transformam. Acho que essa frase define a palestra que o cineasta deu na última segunda-feira na Reitoria da UFRGS, dentro do projeto Fronteiras do Pensamento. A platéia saiu, de fato, transformada, ou não o teria aplaudido tanto, e com tanto vigor, e por tão longo tempo. Aos 65 anos, o alemão Wim Wenders é um homem centrado, que fala pausadamente sobre coisas simples e universais, abrindo nossos olhos para o que intimamente sabemos, mas que, diante do atropelo dos dias, esquecemos de lembrar. O tema da palestra, muito apropriadamente, foi: fronteiras. Uma palavra que perdeu o status. Fronteira lembra muro, prisão, e quem deseja isso? Então vem a globalização e faz do universo um lugar aberto onde todos se parecem, tudo se parece. Ok, facilita a comunicação, mas o que exatamente está sendo comunicado? Wim Wenders ressalta a importância das fronteiras como um espaço para se concentrar no que se é, em quem se é. Ele valoriza a sensação de se pertencer a um lugar, e tudo o que esse lugar nos transmite. Rejeita filmes que possam acontecer em qualquer cidade, em qualquer época. Ele quer a identidade, ele quer o foco no que é micro, para que isso possa ganhar o mundo e comunicar o que está sendo ocultado: que há outras vidas além dos padrões instituídos. Reconhece que o cinema americano é forte e excitante, mas raramente nos faz pensar. Por isso é que, na hora de assistir a um filme, ele geralmente escolhe um documentário, que é o diferencial do cinema de hoje. Ali se tem um olhar focado, que traz informação, emoção, que atravessa paredes. Enquanto ele dizia isso, lembrei de Janela da Alma, um documentário brasileiro sobre a perda da visão, sobre a miopia do mundo (direção de João Jardim e Walter Carvalho), que foi das coisas mais emocionantes que assisti no cinema, e que, não por acaso, contava com um depoimento de Wim Wenders, em que ele dizia que o mundo estava precisando de menos ofertas, de menos estardalhaço e de mais restrição. Ele usa um óculos de grau desse tamanho, mas enxerga longe. No final da palestra, Wenders pediu licença para apresentar um documentário dirigido por ele, que faz parte de um projeto da organização Médicos sem Fronteiras. Esses médicos fizeram uma lista das terríveis mazelas por que passam habitantes de várias regiões carentes e ofereceu a lista para alguns cineastas escolherem o que filmar, numa tentativa de, através desses pequenos filmes, mostrar ao mundo as dores que ninguém vê. Wenders escolheu filmar depoimentos sobre mulheres que sofrem abuso sexual no Congo, na região mais pobre e isolada da África. O documentário chama-se Invisible Crimes e deixou a platéia de garganta seca e olhos marejados. Belamente fotografado, mostra testemunhos de uma brutalidade que está acontecendo agora, neste momento, com garotas de 13 anos, de 18 anos, com mulheres de 40, de 60 anos, que não têm seus direitos respeitados e que sofrem nas mãos de criminosos impunes, em lugares onde não existe lei. Assim como no Congo, isso também acontece aqui no Brasil e em diversos outros países. Desejei que esse documentário fosse veiculado na tevê aberta, em horário nobre. É uma vergonha que mulheres ainda padeçam tanto nos dias de hoje, enquanto as revistas sugerem que nossa única preocupação é com a vaidade e o rejuvenescimento. O mundo é imenso. Um grande playground onde só se cultua o sexo e a violência. Mas se prestarmos atenção nos detalhes, nos espaços fechados, onde câmeras não entram, poderemos ter uma visão mais abrangente do mundo e alcançar a paz. A globalização é uma falsa abrangência. É o que gera a verdadeira invisibilidade. Engajado sem ser chato, elegante sem ser pedante, simples sem ser superficial. Esse foi Wim Wenders em Porto Alegre, abrindo, literalmente, as fronteiras do nosso pensamento.
A estátua-estrela Elis Ah, somos gaúchos! Como somos! Por vezes, demasiado gaúchos e, claro, divididos uma barbaridade, peleando até com a própria sombra. Chimangos, maragatos, gremistas, colorados, petistas, antipetistas, urbanos, praieiros, contra o muro da Mauá, a favor dele e por aí vai. A memória de Elis Regina, o teatro com seu nome e sua estátua poderiam nos unir. A sábia e apimentada Elis não deve estar se preocupando com a tal estátua, que, para mim, não é lá muito bonita. O Ulysses Guimarães, grande e saudoso brasileiro,disse que a estátua dele era o povo na rua, que só os passarinhos tratam com naturalidade as estátuas, fazendo cocô na cabeça delas. Se for para unir a galera, por mim podem guardar a estátua da Elis no cofre do Banrisul ou colocá-la em sala nobre do Museu Júlio de Castilhos. Quando ouço a maior cantora do Brasil de todos os tempos cantando Águas de março, Como os nossos pais, Fascinação ou O bêbado e a equilibrista ergo uma estátua de luz no meu altar interior para Elis e estou pouco ligando se vou encontrar sua imagem em bronze em algum lugar da cidade. Teixeirinha tem uma estátua interessante no cemitério da Santa Casa, onde com freqüência os fãs depositam flores frescas. Bom, bonito isso, mas a alma e a música dele são maiores e mais importantes do que a estátua de corpo inteiro do Teixeira. Bom, tudo bem, claro que a Elis merece uma estátua, ou várias, em vários pontos da cidade. Estátuas que nem deveriam ser de bronze. Elis é ouro, ouro puro, primeirona. Quem sabe não deveriam ser construídas algumas estrelas douradas bem grandes e depois colocadas no Iapi, no Gasômetro, na Redenção, no Morro Santa Teresa e em outros lugares, para reverenciá-la. De noite, uma iluminação variada e multicolorida daria um brilho a mais lembrando que Elis vive, que sempre foi e será A estrela. Mario Quintana disse que os caminhos seriam tristes sem a presença das estrelas. Ah, e se eu morrer, por favor, mandem tocar umas trinta vezes Águas de março no velório, usando, óbvio, a antológica gravação do Tom e da Elis. E desejo que sirvam champanha, vinho, cerveja, água mineral, refrigerantes e comidinhas para os convidados, que, afinal, eu sou eles, eles são eu e nós todos vivemos em muitos mundos e dimensões, iluminados sempre pelas estrelas. Jaime Cimenti
GUSTAVO FRANCO A humanidade em Pessoa O NACIONALISMO em Fernando Pessoa é o que se espera de quem foi descrito como "o cidadão do imaginário" e disse que sua pátria "é a língua portuguesa". É plural, como é próprio de um "pobre recortador de paradoxos", e que se desdobra em mais de 70 heterônimos. Ao fim da vida, em 1935, ao preencher o formulário de uma nota biográfica, no quesito "ideologia política", definiu-se "conservador de estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionário". No quesito "posição patriótica", se diz "partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda infiltração católico-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema: "Tudo pela humanidade, nada contra a nação'". A última frase contém uma alusão jocosa ao bordão de Mussolini "Tudo pelo Estado, nada contra o Estado", que havia sido importado para Portugal, por Salazar, num formato nacionalizado: "Tudo pela nação, nada contra a nação". O paradoxo, ou a sátira, predomina em todos os seus escritos políticos. É como diz Andrés Ordoñes em seu magnífico estudo "O Místico sem Fé": Pessoa "enfrentando a realidade dando-lhe as costas". Ao explicar o que é "a essência nacional" em Portugal, Pessoa definiu três características: (1) o predomínio da imaginação sobre a inteligência; (2) o predomínio da emoção sobre a paixão; (3) a adaptabilidade instintiva. E explica: "O futuro de Portugal é sermos tudo... Quem, que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só fé?". Ora, de que país, assim tão universal, fala o poeta? Ordeñez observa que Pessoa "propõe a concepção plural de Portugal: conceber a nova grandeza do país, a mesma que batizou do "Quinto Império", como um heterônimo coletivo", uma fórmula para afastar a frustração com a dura realidade da economia de seu país. E o país, afinal, é feito de pessoas, e aqui peço a indulgência do leitor para este trocadilho, que, na verdade, pertence a Ferreira Gullar, que disse que o poeta deveria chamar-se Fernando Pessoas (sic). Pois bem, mas onde estaria Fernando Pessoa nos debates brasileiros de hoje? Sobre economia, Pessoa escreveu bastante, e seus textos nesse terreno, bem mais objetivos que os sobre política, têm impressionante atualidade. Foram recentemente reeditados no Brasil. Vale olhar, pois não dão nenhum alento ao pensamento econômico esotérico. gh.franco@uol.com.br
Claudio de Moura Castro Agronegócio sem educação? "Podemos discutir se as escolas são fruto da prosperidade ou se ajudam a trazê-la. Mas sabemos que o agronegócio só vinga onde há gente bem educada" Repetem-se as proezas do agronegócio brasileiro. O país faz bonito na soja, nos sucos, na carne, no frango e em outros produtos resultantes do feliz encontro entre sol, água, inovação tecnológica e capacidade empresarial. A equação contém os ingredientes do sucesso. Sol e água creditamos à generosidade divina. Na tecnologia, bem conhecemos a liderança da Embrapa, que traz a reboque muita pesquisa universitária. O empresariado rural foi uma surpresa. Persiste a imagem do coronel do interior, herdeiro de um feudalismo atrasado. Era um empresário ausente do campo e presente nas grandes capitais, onde esbanjava suas riquezas. De onde veio essa nova classe empresarial moderna, arrojada e pragmática? A história ainda não está bem contada. Quem sabe o mapa do Brasil daria algumas respostas? Pedi a um agrônomo que me marcasse com pontinhos no mapa onde estava situado o agronegócio. Em seguida, tomei os níveis que cada estado obteve no Ideb (um indicador do MEC que combina a velocidade de avanço dos alunos no sistema com a pontuação obtida na Prova Brasil). Dividi os estados em quatro categorias. Em seguida, superpus um mapa ao outro. Pude ver, simultaneamente, a distribuição do agronegócio e o nível de avanço da educação. Surpresa! O agronegócio só viceja nos estados que estão na metade de cima da qualidade da educação. Seja qual for a razão, ele não gosta de estados com gente pouco educada. Vamos entender melhor o lado da educação. A liderança dos estados do Centro-Sul é centenária. Mas o Centro-Oeste deu um salto enorme, ultrapassando velozmente o Norte e o Nordeste.
A razão é simples: foi colonizado por migrantes do Rio Grande do Sul, Paraná e São Paulo, tradicionalmente os estados com os melhores níveis de escolaridade. Ao migrar para os cerrados do Centro-Oeste, essa gente reproduziu lá seu estilo de vida. No interior de Goiás deparei com um negro trajando bombachas. Vinha do Rio Grande do Sul, tchê! Como levaram as bombachas, os gaúchos também carregaram para lá as escolas e a infra-estrutura de água e esgoto tratados. O mapa, contudo, mostra algumas bolinhas avançando sobre estados educacionalmente mais pobres do Norte e do Nordeste. Mas são microrregiões colonizadas pelos fluxos migratórios sulinos, avançando no território do oeste da Bahia, sul do Piauí e do Pará. As aparentes exceções não fazem senão confirmar o que indica o mapa: o agronegócio não se localizou onde a educação é fraca. Poderíamos pensar que a Embrapa estaria a serviço de um capitalismo sulino, furtando-se de investir no que precisariam o Norte e o Nordeste para dar igual salto. A teoria parece boa. Mas não é. A Embrapa tem enormes investimentos em produtos para toda a geografia nacional. Ainda assim, seus grandes clientes se encontram no agronegócio. Ao se registrar a forte aderência do agronegócio às regiões habitadas por gente mais bem educada, nota-se, também, pistas para o enigma do aparecimento de um empresariado moderno no campo. Ao que tudo indica, seu surgimento está ainda associado aos níveis superiores de educação e modernidade do Centro-Sul e às ondas de colonização vindas de lá. Por serem mais bem educados e possuírem uma cultura empresarial, eles entendem de mercado e apropriam-se das melhores tecnologias. No fim dos anos 70, numa visita a Ijuí, eu discutia educação rural com as lideranças de uma cooperativa agrícola. Eu falava de escolas com galinhas circulando pelas salas de aula e não nos entendíamos. Finalmente, eu vi que estava fora de seu universo. A preocupação delas era conseguir que as instituições de ensino da região preparassem seus alunos para entender a bolsa de cereais de Chicago, já on-line na cooperativa. São esses os responsáveis pelo crescimento da soja no Centro-Oeste. O que aprendemos com o mapa citado no presente ensaio? Podemos discutir se as escolas são fruto da prosperidade ou se ajudam a trazê-la. Podemos entrar no campo pantanoso das relações entre educação e traços culturais. Mas, no mínimo, ficamos sabendo que o agronegócio só vinga onde há ou aparece gente mais bem educada. Claudio de moura castro é economista claudio&moura&castro@cmcastro.com.br
JOSÉ SIMÃO Viva! O Brasil é ouro em periquita! O esporte mais popular do país: acender vela. Pra ver se a situação melhora! Rarará! BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Direto de Pequim! Piada Pronta. Piada Plonta. Piada Pilata: "Cavalo brasileiro é pego no doping". Como é o nome do cavalo? CHUPA CHUP! O que esse cavalo chupou, gente? Isso também dá doping. Rarará! E vou lançar a campanha: "Tenha um Dunga no seu jardim e seja feliz". Rarará! Arrumou emprego novo. Anão por anão, eu prefiro o Nelson Ned! E já ganhamos duas pratas. Começou o faqueiro! E as meninas do futebol? Maravilhosas. Lugar de mulher é na Olimpíada. O poder da periquita. A força da periquita em Pequim. O Brasil devia ser ouro em periquita: futebol, vôlei, tudo! E sabe por que as americanas têm mais preparo físico? Porque nasceram comendo Kellogg's, criadas no sucrilho! E um leitor me mandou um recado: "Vamos pedir pro chinês que sumiu com a vara da brasileira sumir com o microfone do Galvão?". Ele fica mandando recado pras mães das jogadoras. É o novo Silvio Santos: "Dona Teresinha, um beijo". "Um beijo, dona Ivete, quem sabe daqui a pouco sua filha faz um gol." Foi a narração mais hilária! "O Brasil tem Formiga." O Brasil tem formiga, saúva, tamanduá, capivara e ANTA. E essa: "Dona Teresinha, a senhora aí, e eu aqui, em Pequim". O Galvão é um sapo prestes a explodir. Sabe aquele sapo que a gente bota bombinha na boca? BUM! E prata em vela? Scheidt ganha prata em vela. Sendo que brasileiro é campeão em acender vela. O esporte mais popular do Brasil: acender vela. Pra ver se a situação melhora. E uma amiga me disse que o Brasil é ouro em Wellaton, só tem loira tingida! Ereções 2008! A Galera Medonha! A Micareta dos Picaretas. Cresce a bancada do PGN, Partido da Genitália Nacional. De Maceió, Alagoas, vem o Zé Cunhão. Esse tem o cunhão roxo. É de Alagoas! E de Xavantina, o Boneca! Com o slogan: "É dando que se recebe". Errado. Eu faria o slogan: "É ferro na boneca"! E de Curitiba vem o Lingüiça do Circo, com o slogan: "Faça o Lingüiça sorrir". E como é que se faz pra uma lingüiça sorrir? Rarará! E direto de Santana do Parnaíba: Zé do Pauzão. E ainda diz que não tem bens a declarar! E de Jaci, SP, simplesmente o Zezinho Merda! Zé do Cunhão, Zé do Pauzão e Zezinho Merda. E ainda tem gente querendo votar nulo. Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como diz aquele outro: é mole, mas, se bolir, acorda! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Eufemismo": companheiro descobrindo sua porção mulher. Rarará! O lulês é mais fácil que o chinês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! E vai indo, que eu não vou! simao@uol.com.br Sexta-feira, Agosto 22, 2008
22 de agosto de 2008 N° 15703 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA As pequenas coisas da vida Contei aqui na outra sexta que uma senhora me deteve na rua, sorriu, perguntou como eu ia, indagou de pessoas que me são próximas, e a todas essas eu não fazia a menor idéia de quem ela fosse. Pois não é que menos de uma semana depois entro num táxi e o motorista, que eu aparentemente nunca tinha visto, me trata pelo nome? Esse rompe logo o suspense. Esclarece que há uns 30 anos trabalhamos juntos na mesma empresa, eu como escrevinhador, ele como encarregado de conferir as assinaturas de um estranho mecanismo de relógio-ponto, do qual não guardo a menor saudade. E já que se apresentou, relembra personagens, ressuscita cenas e acontecimentos, com uma capacidade de reinvenção das coisas que me deixa literalmente pasmo. Gostaria de ter um arquivo assim, ainda mais quando ele desce a detalhes pitorescos dos quais eu já não tinha remota noção. Ao pagar-lhe a corrida, certamente menos do que lhe fiquei devendo por seu talento para as recordações insólitas ou divertidas, me surpreendo pensando se as pequenas coisas da vida (há um filme com esse nome, se não me falha a desmemória) não serão as mais importantes. A gente guarda pedaços da caminhada que são os mais decisivos. É capaz de reviver as grandes datas, as grandes conquistas, as grandes paixões, as grandes amizades. Mas tudo isso não será apenas um rio fluindo por entre mínimas ilhas que são realmente as que contam? Sei que livros escrevi, que cargos ocupei, que prêmios ganhei, o que produzi em determinados pontos de minha trajetória. E contudo o que verdadeiramente marca não serão veredas diversas? Na época que o motorista recriou, eu era jovem. Pode haver algo de mais fundamental do que isso? Nesse tempo eu ainda sonhava em conhecer Paris, então um sonho distante. Naqueles dias as pessoas não eram tão prisioneiras de dígitos e de teclas. No tempo de que ele me falou podia-se caminhar pela cidade de madrugada, exilado qualquer temor de um assalto. Nos dias que ele reviveu, desconheciam-se os seqüestros-relâmpagos, o gigantesco submundo da droga, ou quadrilhas cometendo crimes de dentro de presídios. O que me dá uma forte desconfiança de que o mundo era melhor. Quinta-feira, Agosto 21, 2008
JOSÉ SIMÃO Socuerro! A Volta da Galera Medonha! Começou o Hilário Eleitoral! Os candidatos, antes de mudar o Brasil, têm que mudar o visual BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Direto de Pequim! Acharam o ladrão de vara! Acharam quem roubou a vara da Fabiana Murer! Diz que foi um chinês que partiu a vara em duas e levou pra comer Miojo! E hoje não acordei com pódio, acordei com ódio. Nós não perdemos pra Argentina. Perdemos pro genro do Maradona. Se ainda fosse a filha do Pelé! Perdemos pro genro do Maradona, o Aguero. Aguero dá lavada no Brasil! E diz que o Dunga não é técnico nem aqui nem na China! E acaba de sair o novo patrocinador da Seledunga: bronzeador Cenoura e Bronze. Já levamos cenoura da Argentina, só falta o bronze! Mais um bronze pro Bronzil! EEEEÉ do Broooonzil! E sabe por que a gente tá se dando bem no vôlei? Porque NÃO É bola na rede. E as chinesas são tão baixinhas que deviam passar a bola POR BAIXO da rede. Rarará! E uma amiga disse que vai receber os atletas com uma moeda de R$ 1 amarrada numa fita do Senhor do Bonfim! Chega de ouruca e ourubu! E COB quer dizer Comitê Olímpico do Bronze! E o Ronaldinho Gaúcho disse que o Brasil não sabe perder. Ao contrário: não sabe ganhar! SOCUERRO! Começou o ULTRÁGICO POLÍTICO! O Hilário Eleitoral. O horário eleitoral devia passar na TV AL Jazira, só tem terrorista! E até aqueles vídeos do Bin Laden gravados na caverna são melhores! Mais bem produzidos! E os candidatos, antes de mudar São Paulo e o Brasil, têm que mudar o visual. E o candidato Agnaldo Timóteo? E a Ângela Maria vem junto? Eu só voto no Agnaldo Timóteo se a Ângela Maria vier junto. Um Tango pra Teresa! E tem uma comunista que não come criancinhas, e sim assusta. Parece a avó da Mortícia Addams. Quanto será que ela cobra pra assombrar um casa de dois dormitórios? E eu sou pela transparência. Se um candidato aparecer falando: "Eu sou cleptomaníaco", voto nele. Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas se bolir acorda! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha "Morte ao Tucanês". Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que tem um restaurante japonês ótimo pra Selecinha comemorar a derrota: NORABO! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Varonil": a vara da companheira Fabiana Murer que tomou Doril. Rarará! O lulês é mais fácil que o chinês. Nóis sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno. E vai indo, que eu não vou! simao@uol.com.br
VIVA A ARGENTINA! Eu adoro perder para a Argentina. Ainda mais quando os hermanos nos humilham. Tomar 'chocolate' é algo que me fascina. Sou masoquista. Amo ser pisoteado por adoradores de tango e por eleitores dos Kirchner.
Um país que estabelece uma dinastia democrática neoperonista me seduz. Há algo de extraordinário nessas operações nostálgicas que fazem de uma nação um museu arqueológico. Os Estados Unidos tentaram com os Clinton passar o poder de marido para mulher, mas não conseguiram. Felizmente, já tinham chegado lá, na fórmula tradicional do pai para filho, com os Bush. A população mundial é um rebanho nos currais de poucas famílias. No Brasil, sempre atrasado, só chegamos a esse patamar de civilização com a família Garotinho, no Rio de Janeiro, já esquecida. Certo é que vibro quando a Argentina nos surra. É a prova de que não somos sempre os melhores do mundo. Graças a Deus. O esporte só é interessante quando os títulos e as medalhas mudam de mão. Se Michael Schumacher não tivesse parado, a Fórmula 1 teria morrido. Se Phelps continuar nas piscinas, a natação será um tédio. O melhor das competições são as grandes e inesperadas derrotas. Um atleta que ganha sempre se torna um chato. Tocar com as nádegas no chão pode ser um importante exercício antropológico de relativização. Baixa a crista. O esporte continua a ser, como na época dos nossos ditadores fardados, um instrumento de ufanismo ideológico nacionalista. Galvão Bueno, na Rede Globo, é um Médici do microfone. Pra frente, Brasil, salve a Seleção. Mas a Seleção não se salva. Brasil, ame-o ou deixe-o jogar mal. Em campo, o time tenta adormecer o adversário com a sua falta de ousadia e de agressividade. Os argentinos não caíram nessa estratégia enfadonha e nos massacraram. Cada vez mais, o esporte cumpre duas funções essenciais: salvar-nos do tédio dos domingos à tarde e incutir-nos uma boa auto-estima com o chapéu alheio. É a melhor maneira de fazer ginástica sem precisar sair do sofá. Sem contar que o esporte, especialmente o futebol, serve de alternativa para alguns capítulos de novela. O seu papel mais importante, no entanto, é geopolítico. Entenderam? Uma Olimpíada serve para desmascarar todas as hipocrisias universais: aceitam-se a censura, o desrespeito aos direitos humanos, partilhar bons momentos com ditaduras, o trabalho infantil, a mentira, o cinismo, tudo. É uma situação especial em que os países se encontram para celebrar tudo aquilo que não praticam em nome de uma falsa idéia de participação desinteressada. Cada um quer ser o melhor e pronto. Nada contra. O problema é provar isso na hora do corpo a corpo. No Brasil versus Argentina da última terça, de repente, os clichês se inverteram: a Argentina era o Brasil, o Brasil era a Argentina. Os argentinos driblavam, dançavam, atacavam e sorriam. Os brasileiros, duros e medíocres, batiam, apelavam, perdiam a cabeça e davam vexame. Os comentaristas buscavam desesperadamente uma explicação racional para o nosso fracasso. Uma falha em nossa estratégia ou um problema na postura dos nossos jogadores teria de justificar o injustificável. A verdade, contudo, era bem mais simples: os argentinos eram melhores. A idéia de que, em futebol, o Brasil deve ganhar sempre é uma doce mentira que a realidade teimosamente insiste em negar. Argentina e Brasil são iguais: duas faces do mesmo chocolate ufanista. A hegemonia esportiva é a última palavra do nacionalismo. juremir@correiodopovo.com.br Uma ótima quinta-feira ainda que com muita chuva por aqui que, rebeldemente teima em continuar Quarta-feira, Agosto 20, 2008
20 de agosto de 2008 N° 15701 - MARTHA MEDEIROS Nosso Centro Histórico Muda alguma coisa se, em vez de dizer que o Theatro São Pedro fica no Centro, dissermos que ele fica no Centro Histórico? Talvez pareça frescura, mas isso pode colaborar, sim, não só para incrementar o turismo da Capital, mas principalmente para melhorar o conceito que o próprio porto-alegrense tem desse bairro que já foi sinônimo de elegância, depois entrou em decadência, e que agora tenta se reerguer. É só uma questão de semântica, mas a alteração do nome não atrapalha em nada, ao contrário, chama a atenção para algo que está acontecendo: o centro começa a se tornar um lugar novamente aprazível para se visitar, para morar e para trabalhar. Não faz muito tempo, a maioria das salas comerciais ficava no Centro. Era lá que trabalhavam médicos, dentistas, advogados. Meu primeiro emprego foi numa agência de propaganda situada na ladeira da Rua da Praia, e o endereço não era considerado maldito. Aos poucos, foi ficando. Os profissionais liberais começaram a abrir escritórios em bairros residenciais, as lojas foram se transferindo para os shoppings e os camelôs foram tomando conta das ruas. Todos que pudessem evitar ir ao Centro, evitavam. Ainda é assim? Não totalmente, porque temos não só o já citado Theatro São Pedro, mas o Margs, o Santander, a Casa de Cultura Mario Quintana, o Centro Cultural Erico Verissimo, a Usina do Gasômetro, o reformado Mercado Público e o recente e bem-vindo Caminho do Livro, todo sábado, na Riachuelo. O Centro Popular de Compras (camelódromo) está quase pronto e vai acomodar mais de 800 comerciantes da região, liberando as ruas, e ainda há a promessa de revitalização do Chalé da Praça XV e o sonho de ver o Cais do Porto se transformar numa área de lazer e cultura. O centro está mudando, não há dúvida. Mas falta mudar também a nossa mentalidade. Morar no centro nunca me passou pela cabeça, por exemplo. Hoje me pergunto: por quê? Pelas carências da região (elas ainda existem, óbvio), mas também por preconceito. Mesmo sabendo do charme e da amplitude dos prédios antigos, da possibilidade de ter vista para o Guaíba e de a violência não ser diferente da que existe nos bairros nobres, continuamos a marginalizá-lo. É por isso que o Conselho Municipal do Patrimônio Histórico e Cultural, presidido pela engenheira Rita Chang, está trabalhando para conscientizar a todos de que não podemos continuar desprezando essa que é uma das mais belas áreas da cidade e que tem tudo para voltar a ser o mais importante cartão-postal da cidade. Trouxe esse assunto porque estamos em plena Semana do Centro Histórico. As comemorações envolvem diversas atividades até o próximo sábado. Hoje, por exemplo, a partir do meio-dia, haverá aula de dança no Largo Glênio Peres, depois oficina de escultura e aula de tai chi chuan na Praça da Alfândega, e happy hour no Mercado Público. Nada mudará da noite para o dia, mas fico na torcida para que o Centro recupere seu status. Centro, não. O Centro Histórico, que é como ele oficialmente se chama agora. Mesmo com chuva, que teima em não parar, que tenhamos todos uma excelente quarta-feira. Terça-feira, Agosto 19, 2008
JOSÉ SIMÃO Pequim! Passaram a mão na vara! Será que foi outra atleta que roubou a vara da brasileira? Sumir vara é roubo ou adultério? BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Direto de Pequim! o Sumiço das Varas! Protesto! Passaram a mão na vara da Fabiana Murer! Pequim tá em perigo! Tão dando elza em vara! Roubaram a vara da brasileira do salto com vara! Não ganhou ouro por falta de vara. Rarará! Daria a grande manchete: "Não ganhou ouro por falta de vara!". E será que foi outra atleta que roubou a vara dela? Aí é roubo ou adultério? Sumir vara é roubo ou adultério? E esconderam onde? Já viram o tamanhão da vara do salto com vara? Nova modalidade olímpica: ESCONDE VARA! E ela não devia aceitar outra vara. "Eu quero uma vara do tamanho com que estou acostumada." Ela ficou desvairada e desvarada! E o técnico dela foi meu personal trainer. É verdade! Só espero que não queiram sumir com a minha vara. Rarará! E as meninas da ginástica? Pelotão do Choro. CHOURO ARTÍSTICO. Elas ganharam duas medalhas: OURUCA E OURUBU! E a Jade ganhou ouro em lenço de papel. Ouro em Yes! E o site Comentando mostra o placar da ginástica. China, KAI ZU. Diego, KAI ZONZO! Rarará! O Kai Zu e o Kai Zonzo! E, finalmente, um ouro. Esse ouro caiu do CIELO! Rarará! E o Galvão transmitindo? "É ouuuro! Ééé oouro! É ooouro!" E botou um ovo. Parecia galinha botando ovo. Ovo de ouro. O Galvão é ouro em botar ovo! E diz que pior que o Galvão gritando é o Leonardo cantando no comercial do Apracur. Rarará! E o Brasil foi pegar um bronze na China. Mais um bronze. Pro Bronzil! Meninas ganham bronze em vela. Eu também sou campeão de vela; todo dia eu acendo uma vela pra ver se a situação melhora. Brasileiro é ouro em acender vela! Aliás, o Brasil é ouro em Wellaton, só tem loira tingida! Ouro em Wellaton! Rarará! E vela é um esporte superpopular no Brasil, todo mundo pratica. Vela no Piscinão de Ramos. Aliás, aquele barco parece uma jangada. Agora só falta bronze em jegue alado! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heróica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que em Curitiba tem o restaurante Seven Days. De segunda a sexta. Rarará! Mais direto, impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Desvairada": companheira Fabiana Murer, que ficou sem vara. Rarará! O lulês é mais fácil que o chinês. Nós sofre, mas nóis goza. Hoje, só amanhã. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! simao@uol.com.br
Jânio de Freitas - Folha de S. Paulo - 19/8/2008 Pequenas originalidades Entrevero no Rio entre Cabral e general tem originalidade, pois a regra dos governantes é criticar militares em surdina SORRIA : você hoje está entrando no período de campanha eleitoral gratuita. Não é todo ano que os políticos, reais ou ainda imaginários, nos dão a oportunidade de ver o que têm feito de nossas cidades o que elas são. Sorria, porque a alternativa pode ser chorar. Com alma leve de quem traz sorrisos, não lhe custará ser compreensivo com os militares que exterminaram os preparativos de guerrilha no Araguaia e, agora, pedem que suas seqüelas psicológicas sejam indenizadas em R$ 300 milhões. Decepar cabeças de prisioneiros, desestruturar pessoas mentalmente, mutilar em tortura, esquartejar para enterrar as partes em lugares diferentes não dispensaria de seqüelas mentais. Se bem que por aí haja má vontade bastante para considerar que quem ordenou e quem aceitou executar tais atos era portador de demência criminosa já antes dos seus feitos no Araguaia, não sendo hoje o caso de seqüelas. Seqüela que se comprova nos últimos dias, contrapondo um general e um governador, vem dos acontecimentos no morro da Providência. Não por causa do envolvimento de militares também na tortura e assassinato de três rapazes. O governador Sérgio Cabral faz e reitera a acusação ao comandante militar do Leste, general Luiz Cesário Filho, de "não ser pró-ativo", o que parece acusá-lo de se lixar para pedidos de ação na segurança. Ao que o general contesta, com uma lista de colaborações variadas. O entrevero tem certa originalidade, porque a regra dos governantes em geral é criticar militares em surdina. Não há, porém, o risco de problema sério, idéia que logo projetou preocupações nos paisanos sensíveis. O caso é que o general Cesário se mostrou muito pró-ativo com o candidato Marcelo Crivella, cedendo soldados para colaborar com suas obrinhas eleitorais no morro da Providência. E o candidato de Sérgio Cabral chama-se Eduardo Paes. Esse entrevero, portanto, não tem futuro pró-ativo. Outro entrevero, este na Comissão de Infra-Estrutura do Senado, em torno da nomeação de Emília Ribeiro para a Agência Nacional de Telecomunicações tem mais um capítulo previsto para amanhã. Com a delicadeza de evitar vetá-la, o relator Sérgio Guerra considerou-a, no entanto, desprovida da capacitação técnica específica que é exigida para o cargo. Emília Ribeiro exerceu assessoria no Senado, no Ministério da Educação e, consta, com êxito que a faz bastante apoiada para a sabatina na comissão: o argumento, nesse sentido, é que não tardará a aprender o necessário na própria Anatel. É provável. Ainda assim, não há como os senadores expliquem uma questão remanescente e silenciada. Todos sabem, no Senado e fora dele, por escrito e em oral, que a candidata foi escolhida para encerrar o impasse na direção da Anatel, onde dois votos a favor e dois contrários emperram as alterações da legislação para a compra, ainda ilegal, da Brasil Telecom pela Oi/Telemar -a transação imoral, entre interesse privado e governo, que adapta a lei ao negócio e não o negócio à lei. Se a candidata, ou seja quem for, vai para a Anatel com a função predeterminada de dar um voto sem independência, já comprometido com um grande negócio que a legislação vigente proíbe e que beneficia um pequeno grupo de empresários, pergunta-se: não está aí caracterizada a falta de probidade que impede a nomeação para cargo público? Uma solução para o problema: já que se trata de mudar a legislação para favorecer negócios privados, mudem também, governo e congressistas, o impedimento de tais nomeações.
O BAIANO WIM WENDERS O cara é engraçado. Lembra, com seus cabelos compridos e sua maneira de vestir – como se estivesse de fraque ou coberto com uma casca de milho –, o nosso Visconde de Sabugosa. Quando eu o entrevistei em Berlim, há alguns anos, não tinha notado essa semelhança. Uma pena. Teria gostado ainda mais dele desde aquela época. Wim Wenders mostrou-se, em Porto Alegre, um sujeito divertido e acessível.
Num coquetel, domingo à noite, no restaurante Chez Philippe, para a nata intelectual e midiática gaúcha, revelou algo que nem se sabia da existência: o humor alemão. Contou, por exemplo, que, menino, colecionava imagens de Brasília. Isso mesmo. Sonhava em ser arquiteto e apaixonou-se pela cidade construída no meio do nada. Na primeira vez que visitou a nova capital brasileira, decepcionou-se. Tudo lhe pareceu engessado e cerebral. Na segunda vez, caiu de quatro. Um alemão que cresce colecionando figurinhas de Brasília só pode ser diferente. Na verdade, Wim Wenders é um baiano disfarçado de alemão. Já esteve muitas vezes em Salvador. Entende mais de candomblé do que muito brasileiro. Parece que sabe até o que é que a baiana tem. Se sabe mesmo, não contou. Estava acompanhado pela mulher. Convidado do ciclo de conferências Fronteiras do Pensamento, promovido pela Braskem, Wim Wenders não bancou o David Lynch nem o pastor alemão. Nada de pensamento positivo nem de meditação transcendental. Pensamento crítico. Foi um show de bola. Entraria como uma luva no time do Inter. Pega mais do que o Clemer, não fura em bola, distribui o jogo e troca passes. Não escapou, porém, da nossa vontade geral de explicar-lhe um trocadilho infame: Wim Wenders e aprendendo. Ninguém conseguiu. Mesmo assim, ele riu bastante. Certamente das nossas tentativas. Na Faculdade de Comunicação da PUCRS, Wim Wenders bateu um papo legal com os estudantes de cinema. Queria mais. Falou de sua vida de estudante e de professor. Defendeu o cinema que se faz com idéias e criatividade, mesmo com baixo orçamento, contrariando o dogma do dinheiro como valor estético supremo. Ironizou os norte-americanos que se acham melhores em tudo, melhores diretores, montadores, escritores. Devemos ter piedade dessa prepotência toda. Com simplicidade e alegria, Wim Wenders indicou que a arte pode e deve ser mais forte do que a vontade ganhar dinheiro. Nos Estados Unidos, alfinetou, quase se prescinde do criador. Quem manda é produto. Quanto mais dinheiro, menos liberdade para criar e dizer o que se pensa. Terrível paradoxo da sociedade do espetáculo. Os meios aniquilam os fins. Wim Wenders citou filmes de Glauber Rocha para mostrar que o cinema brasileiro não lhe é estranho. Mas não ficou no velho Cinema Novo. Revelou sua amizade com Walter Moreira Salles. Em pouco tempo, deu uma bela aula. Deu para entender que a arte para ele não é uma pizza que se entrega pronta a qualquer hora do dia. Artista é aquele que não se contenta em satisfazer o gosto do freguês. Ele mesmo não ama os seus filmes pelo sucesso que fazem, preferindo alguns que tiveram menos repercussão. Foi muita boa a passagem de Wenders em Porto Alegre. Antes de tudo porque ele nos fez esquecer David Lynch. Aliás, quando lhe disseram que Lynch estivera por aqui na semana anterior, ele sorriu e brincou: 'Aposto que ele falou de meditação transcendental'. Não chegava a ser uma maledicência. Apenas um comentário de quem conhece o pessoal do seu campo. juremir@correiodopovo.com.br Embora com chuva, que tenhamos todos uma excelente terça-feira. Segunda-feira, Agosto 18, 2008
NELSON DE SÁ - nelsondesa@folhasp.com.br O começo do fim Em perfil no "New York Times" e reportagem no "Financial Times", o economista Nouriel Roubini está de volta. Foi ele o profeta, dois anos atrás, da crise financeira americana. A crise acaba de fazer um ano -e a semana passada evidenciou, no dizer de Roubini, que "todas as economias do G7 estão a caminho de uma dura aterrissagem recessiva". Sobre os EUA, país que agora "depende da bondade de estranhos", credor que é do financiamento de China, Rússia e países do Golfo: "Este pode ser o começo do fim do império americano". Prevê que ele se arrasta pela crise até "emergir como uma nação diferente, com um lugar diferente no mundo". Perfilado como "Dr. Doom", Sr. Apocalipse, diz que "esse desastre do mundo desenvolvido vai encerrar o avanço dos Brics". Sobre o Brasil, o problema maior seria a queda das commodities. "THE OIL IS OURS" Esta Folha publicou que, "para tentar vencer as resistências", Lula já "admite estrangeiros no pré-sal". E o site do "FT" abriu ataque à bandeira "The oil is ours", o petróleo é nosso, e vê como "o maior perigo" que "o nacionalismo cresce novamente" por aqui. Por outro lado, meses após a recriação da 4ª Frota pelos EUA, a Reuters deu no final da semana que "a Marinha do Brasil planeja manobras para defender nova descoberta de petróleo". Não que exista "um inimigo provável", diz o almirante que vai comandar as manobras. "Numa visão moderna de planejamento, você envia um sinal à comunidade internacional: "Eu estou preparado"". NA COSTA A Record visitou na sexta "um dos mais modernos navios da Marinha", com seus "sensores e sistemas de armas de última geração" -e "sempre preparada a defender a costa nacional" NA BAÍA A Globo fez ao menos três visitas em apenas quatro meses a navios americanos como o "superporta-aviões preparado para usar armamento atômico" exibido pelos EUA na baía da Guanabara AÉCIO VS. LULA Semana passada, Aécio Neves, enquanto FHC se reunia com Geraldo Alckmin, saía a atacar Lula por todo lado, criticando os gastos do governo. Mas veio sexta na Globo e Alckmin surgiu 15 pontos atrás de Marta Suplicy. Veio domingo e, na manchete de "O Estado de S. Paulo" e no topo da busca de Brasil no Yahoo! News, "Gastos federais cresceram menos do que o PIB". De outra parte, o blog de José Dirceu passou a atacar Aécio Neves, em meio a posts dos Jogos de Pequim, onde está "a negócios", segundo a "Veja". DO CHOQUE AO FIASCO Diego Hypólito e Daiane dos Santos erraram e os sites daqui passaram a usar expressões tipo "decepção", "fiasco" -e a criticar a ginástica que volta "sem medalhas". Mas ecoou o ouro de César Cielo, com "China Daily" dando "parabéns a este jovem e ao Brasil!". Do site oficial feito pelo Google chinês, o Sohu, à BBC, foi "um choque". Já a imprensa australiana lamentou por seu favorito. DESELEGÂNCIA Nem na Globo gostaram. Do blog de Patrícia Kogut: "Galvão foi deselegante com Gustavo Borges. Quando comentava a vitória de Cielo, ele fez comparações com Gustavo, que foi prata". E Cielo, postou o blog dos enviados do UOL, "não conseguiu acordar no domingo chinês para estar ao vivo no "JN". A produção ficou mais raivosa porque ele também desmarcou ida à Muralha".
DORIVAL, O BAIANO CARIOCA Como se perde tempo na vida. Fazia meses que eu não ouvia uma canção de Dorival Caymmi. Por quê? Falta de tempo. Andava preocupado com os volantes do Inter, com as provocações do ministro Tarso Genro, com as bravatas do presidente da República e com a vida em prosa. Ouvia música automaticamente.
Escolhia, às vezes, um CD e nem chegava a parar para sentir as vibrações emanadas do aparelho. A morte de Caymmi me deu um tranco. Não que seja uma surpresa. Era um homem de 94 anos. Todo mundo esperava a notícia do seu falecimento a qualquer momento. Em breve, seguiremos como se nada tivesse acontecido. Essa é a força e a fraqueza da existência. É assim que conseguimos seguir em frente sem nos atolarmos na depressão. Mas é assim também que deixamos de lembrar, freqüentemente, quem merece culto e aplausos eternos. Dorival Caymmi não será esquecido. Ele e Jorge Amado são a Bahia mítica do século XX. Os dois criaram a Bahia que existe no imaginário de cada brasileiro. Fizeram isso sem mentir, somente recolhendo fragmentos da vida cotidiana. É impossível esquecer um sujeito que fez 'É Doce Morrer no Mar', 'Marina', 'Samba da Minha Terra', etc. Assim como é impossível esquecer o escritor que pariu Gabriela. Apesar disso, certo esquecimento é inevitável. Será que as novas gerações lêem Jorge Amado e escutam Caymmi? A força de um construtor de imaginários como Caymmi consiste em ir além de si mesmo. Mesmo que, por acaso, alguém o desconheça por completo, acaba, cedo ou tarde, por cantar algo seu. Afinal, o que é que a Bahia tem? Tem Jorge Amado, tem Dorival Caymmi, tem vatapá, tem candomblé e tudo mais que Amado e Caymmi mostraram. A poesia de Caymmi ganhou vida própria como os personagens de Amado. Gabriela anda por aí feito Dom Quixote, uma filha que cresceu e foi embora de casa. Virou imortal. Tem mais vida do que qualquer um de nós. Esse é o paradoxo da arte: não é o artista que se torna imortal, mas a sua obra, os seus personagens, as suas invenções. Capitu e Gabriela não deixarão Machado de Assis e Jorge Amado morrerem. As canções de Caymmi serão a cada vez um sopro de vida para que o baiano balance numa jangada ao sabor das ondas. Não há obra sem autor. A imortalidade da obra recompensa a mortalidade de quem a criou. É um pacto que cobra os melhores anos da vida em nome da perenidade. Baiano saudoso, Caymmi morreu no Rio de Janeiro, onde morava desde 1938 e de onde seu corpo não mais sairá. Jorge se foi há mais tempo. Zélia se foi neste ano. Dorival também partiu. A Bahia está, ao mesmo tempo, mais pobre e mais rica. Perdeu gente de carne e osso. Ganhou novas entidades. A Bahia de Caymmi não é um estado de espírito, mas um espírito estadual que se universaliza. Passei o final de semana ouvindo Caymmi. A chuva deu mais melancolia ao ritual. Hoje é segunda-feira. A prosa, aos poucos, tomará o lugar da poesia. A falta de tempo, esse truque da engrenagem sistêmica para nos afastar do essencial, acabará por nos engolfar com suas racionalizações. Mesmo assim, como meninos travessos, podemos cantar baixinho enquanto lemos e assinamos ofícios, 'Ai, ai que saudade eu tenho da Bahia/ Ai, se eu escutasse o que mamãe dizia/ ‘Bem, não vá deixar a sua mãe aflita/ A gente faz o que o coração dita/ Mas esse mundo é feito de maldade e ilusão’'. Não só, que mamãe também se engana, também é feito de Caymmi. juremir@correiodopovo.com.br Ainda que com chuva, que possamos ter uma ótima semana Domingo, Agosto 17, 2008
JOSÉ SIMÃO UFA! Quero ouro em cadeira de praia! E eu acho que vamos ganhar ouro em bronha, palitinho, porrinha, reco-reco e pega-vareta BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! Direto de Pequim! Tô exausto! Quero ouro em cadeira de praia. Você liga a TV e sempre tem alguém pulando, lutando, nadando e correndo! E num güento mais atleta chorando. Vamos ganhar ouro em Choro Atlético! E sabe o que o Lula disse quando viu o Ninho do Pássaro? "Olha, inauguraram ainda com os andaimes". E tem gente pedindo pro Galvão escovar os dentes com água benta! E sabe como grita "socorro" em chinês? Diu Diu Uó! De repente você encontra o Galvão na rua: "Socorro! Diu Diu Uó!" E sabe como se fala Rolex? LOLEX. E Prada? PLADA! E eu vi a foto do vendedor de lolex vestindo a camiseta: "Comunistas Não São Cool". E o Lula quer Olimpíadas para os pobres. Os Irmãos Bacalhau já sabem as modalidades: 1) alongamento do carnê das Casas Bahia. 2) 10 mil metros de engarrafamento em ônibus lotado. 3) Medalha de santo Expedito! E eu acho que nós vamos ganhar ouro em palitinho, porrinha, reco-reco, pega-vareta e bronha. A MENINA DO STAND CENTER! Piada Plonta da China. Piada Pilata: China usa cantora falsa no show da abertura. A cantora era feinha e aí botaram uma bonitinha pra dublar. E sabe como tão chamando a cantora falsa? Cantorinha da 25! E como os chineses, com uma população de 1 bilhão, não encontraram uma menina que seja bonitinha e cante ao mesmo tempo?! E todo mundo criticou a atitude da China. Menos um leitor: "Bando de hipócritas, vocês convidariam pro seu casamento uma daminha de honra com a cara do inferno?". E o Phelps? O Fenômeno! O BOTO! Daqui a pouco ele vai começar a afogar a mulherada! Ele nada até em lava-rápido. E ele não é feio, ou, como dizem no Nordeste: ele é desabonitado. E nada de orelhada! DUMBO DA PISCINA. Ele ganhou tanto ouro que pode derreter e viver de renda! Ereções 2008! A Galera Medonha! A Turma da Tarja Preta! Da cidade Braço Trombudo, temos o Cueca! E em São José dos Campos tem o médico ortopedista Doutor Machuca. Se como ortopedista ele machuca, imagine como prefeito. E em Ubaitaba tem o candidato Porqueres. E o slogan: "Luto pela Limpeza. Vote PORQUERES!". Temos Hamilton Pé de Cana, A Delícia do Posto e Zezinho do Pinto Roxo. E tem gente que quer votar nulo! É mole? É mole, mas sobe! Ou, como diz aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! E atenção! Cartilha do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. "Tapume": companheiro que luta judô na base do tapa. Deitei no tatame e levei um tapume. Nóis sofre, mas nóis goza. Vou pingar o meu colírio alucinógeno! simao uol.com.br. |
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