Nuvens Brancas |
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Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
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Domingo, Janeiro 29, 2012
Ferreira Gullar Nasce o poema Em "O Formigueiro", eu queria expor o "cerne claro" da palavra, materializado no branco da página Não vou discutir se o que escrevo, como poeta, é bom ou ruim. Uma coisa, porém, é verdade: parto sempre de algo, para mim inesperado, a que chamo de espanto. E é isso que me dá prazer, me faz criar o poema. E, por isso mesmo, também, copiar não tem graça. Um dos poemas mais inesperados que escrevi foi "O Formigueiro", no comecinho do movimento da poesia concreta. É que, após os últimos poemas de "A Luta Corporal" (1953), entrei num impasse, porque, inadvertidamente, implodira minha linguagem poética. Não podia voltar atrás nem seguir em frente. Foi quando, instigado por três jovens poetas paulistas, tentei reconstruir o poema. Havíamos optado por trocar o discurso pela sintaxe visual. Já em alguns poemas de "A Luta Corporal", havia explorado a materialidade da palavra escrita, percebendo o branco da página como parte da linguagem, como o seu contrário, o silêncio. Por isso, diferentemente dos paulistas -que exploravam o grafismo dos vocábulos, desintegrando-os em letras-, eu desejava expor o "cerne claro" da palavra, materializado no branco da página. Daí porque, nesse poema, busquei um modo de grafar as palavras, não mais como uma sucessão de letras, e sim como construção aberta, deixando à mostra seu núcleo de silêncio. Mas não podia grafá-las pondo as letras numa ordem arbitrária. Por isso, tive de descobrir um meio de superar o arbitrário, de criar uma determinação necessária. Ocorre, porém, que essas eram questões latentes em mim, mas era necessário surgir a motivação poética para pô-las em prática. E isso surgiu das próprias letras, que, de repente, me pareceram formigas, o que me levou a uma lembrança mágica, de minha infância, em nossa casa, em São Luís do Maranhão. A casa tinha um amplo quintal, em que surgiu, certa manhã, um formigueiro: eram formigas ruivas que brotavam de dentro da terra. Eu ouvira dizer que "onde tem formiga tem dinheiro enterrado" e convenci minhas irmãs a cavarem comigo o chão do quintal de onde brotavam as formigas. E cavamos a tarde inteira à procura do tesouro que não aparecia, até que caiu uma tempestade e pôs fim à nossa busca. Foi essa lembrança que abriu o caminho para o poema, mas não sabia como realizá-lo. Basicamente, eu tinha as letras, que me lembravam formigas, mas isso era apenas o pretexto-tema para explorar a linguagem em sua ambiguidade de som e silêncio, matéria e significado. Que fazer então? Como encontrei a solução, não me lembro, mas sei que não surgiu pronta, e sim como possibilidades a explorar. Tinha a palavra "formiga", que era o elemento cerne. Experimentei desintegrá-la -numa explosão que dispersou as letras até o limite da página- e depois a reconstruí numa nova ordem: já não era a palavra "formiga", e sim um signo inventado. Foi então que pensei em grafar as palavras numa ordem outra e que nos permitisse lê-las. Em seguida, surgiu a ideia mais importante para a invenção do poema: constituir um núcleo, formado por uma série de frases dispostas de tal modo que as letras de certas palavras servissem para formar outras. Nasceu o núcleo do poema, a metáfora gráfica de um formigueiro. Ele surgiu da conjugação das seguintes frases: "A formiga trabalha na treva a terra cega traça o mapa do ouro maldita urbe". Construído esse núcleo, o poema nasceu dele, palavra por palavra, sendo que cada palavra ocupava uma página inteira e suas letras obedeciam à posição que ocupavam no núcleo. Desse modo, a forma das palavras nada tinha da escrita comum. Não era arbitrária porque determinada pela posição que cada letra ocupava no núcleo. "O Formigueiro" foi, na verdade, o primeiro livro-poema que inventei, muito embora, ao fazê-lo, não tivesse consciência disso. Chamaria de livro-poema um tipo de criação poética em que a integração do poema no livro é de tal ordem que se torna impossível dissociá-los. Nos livros-poemas posteriores, essa integração é maior, porque as páginas são cortadas para acentuar a expressão vocabular. O livro-poema é que me levou a fazer os poemas espaciais, manuseáveis, e finalmente o poema-enterrado, de que o leitor participa, corporalmente, entrando no poema. Sábado, Janeiro 28, 2012
29 de janeiro de 2012 | N° 16962 MARTHA MEDEIROS Fakebook O Facebook tem rendido muitas risadas entre mim e minhas amigas. Temos um grupo que se reúne com certa frequência (da maneira antiga: ao vivo), e volta e meia surge o assunto. Claro que todas estão na rede social, com exceção de duas. Duas mulheres de Neanderthal, entre as quais, eu. Antes não estávamos no Facebook porque não nos fazia a menor falta, masagora não estamos porque virou questão de honra. Tem sido uma diversão resistir à insistência de quem alega que estamos “fora do mundo”. A Danuza Leão afirma, em seu último livro, que é um mico a gente tornar público que não entende nada de rede social. É mais moderno dizer que está por dentro, mesmo que não saiba ligar um computador. Ai, Danuza, tarde demais. Já pendurei na parede meu diploma de pré-histórica. Tenho mestrado e doutorado em alienação virtual. O que não me impede de estar no Face. Não, não estou me contradizendo, tenho uma meia-dúzia de perfis na rede. Se você procurar, vai encontrar gente que extrai frases das minhas crônicas e faz uma gentil colaboração, melhorando- as, e também gente que se faz passar por mim, trocando ideias com seus adicionados como se fosse eu. A generosidade desse pessoal não tem limite. Antigamente, isso seria considerado crime, agora está enquadrado como “homenagem”. Eu agradeço pra quem? “É uma terrível calamidade, para uma época, não saber mais a quem estimar.” Essa frase eu não tirei da internet, e sim de O Eterno Marido, de Dostoievski, livro escrito em 1869, quando, por incrível que pareça, eu ainda não era nascida. E você, está seguro de que seus estimados são realmente quem dizem ser? O Facebook é uma ferramenta dinâmica, agregadora, mobilizadora e tornou o e-mail obsoleto. Pena que possua algumas contraindicações, como, por exemplo, fazer com que não sejamos mais donos nem da nossa memória. No último encontro com as amigas, fomos às gargalhadas por causa de uma discussão a respeito de uma moça chamada (vou trocar o nome dela para manter sua privacidade, espero que ela não me processe por isso) Zezé Velasques. Segundo minhas amigas que estão no Face, Zezé diz ter sido minha querida amiga do colégio. Eu nunca fui colega de nenhuma Zezé Velasques, esse nome nunca constou da minha agenda de telefones, nunca colei uma prova dessa menina, tenho certeza de que nunca disse nem oi para qualquer Zezé Velasques, mas há quem diga que estou delirando, que claro que fui colega dela no Anchieta, onde, segundo também dizem, estudei a vida toda, mesmo que no meu histórico escolar conste que dos 6 aos 17 anos eu tenha sido aluna do Bom Conselho. Em quem acreditar? Não olhe pra mim, há muito que deixei de apitar na minha própria história. Aqui, de fora do mundo, meu beijo pra Zezé e pra todos que ainda conseguem lembrar dos amigos sem a ajuda de aparelhos.
Sociedades poligâmicas são mais violentas, diz pesquisa Segundo pesquisadores, a adoção da monogamia diminui competição entre solteiros e reduz as taxas de estupros, sequestros e homicídios Cena de 'Big Love', extinta minissérie da HBO sobre um clã polígamo. Para cientistas canadenses, esse tipo de relação acirra tensões e gera violência (Reprodução/Nova Temporada)
Como seria o mundo se a poligamia fosse a regra? Segundo um estudo feito por pesquisadores da Universidade da Columbia Britânica, no Canadá, o mundo seria mais violento, com altas taxas de estupros e homicídios. A pesquisa, que acaba de ser publicada na revista Philosophical Transactions of the Royal Society, afirma que a monogamia se tornou a regra em quase todas as culturas do planeta justamente por evitar problemas que se tornariam crônicos em um sistema em que as pessoas têm mais de um cônjuge. POLIGAMIA É a união reprodutiva entre mais de dois indivíduos de uma mesma espécie. Entre os humanos, já foi a regra. O Velho Testamento faz várias referências ao assunto. O personagem Jacó, por exemplo, teve duas esposas e 12 filhos, que teriam dado origem às doze tribos de Israel. Ainda é praticada no Oriente Médio e em partes da África e da Ásia, além dos Estados Unidos, onde seitas fundamentalistas, não reconhecidas pela organização principal da religião mórmon, a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, permitem o casamento poligâmico. Regulamentada pelo Alcorão, é relativamente comum no mundo islâmico, apesar de estar perdendo adesão. O profeta Maomé chegou a ter 16 esposas, mas hoje o permitido são, no máximo, quatro. Foi proibida no Nepal em 1963, na Índia, parcialmente, em 1955, na China em 1953 e, no Japão, em 1880. Nunca foi permitida no Brasil. A maioria das civilizações já permitiu alguma forma de poligamia em determinado momento de sua história. Invariavelmente, a prática beneficiava (e ainda beneficia, onde ela é vigente) os sujeitos mais poderosos, que podem sustentar mais esposas. Esses fatos intrigaram os pesquisadores, que acabaram concluindo que o bem estar social motivou a institucionalização da relação monogâmica. "Nosso objetivo foi entender a razão de o casamento monogâmico ter se tornado a regra na maioria das nações desenvolvidas nos últimos séculos, já que historicamente a maioria das culturas praticou a poligamia", afirmou Joseph Henrich, professor de antropologia cultural. A razão, descobriu o estudo, é a estabilidade social que a monogamia traz, um contraponto às altas taxas de crimes como estupros, sequestros, roubos e homicídios das sociedades poligâmicas. Para os pesquisadores, grupos de homens solteiros são os responsáveis por crimes desse tipo. "A escassez de mulheres disponíveis aumenta a competição entre os solteiros", afirma Henrich. Como o número de homens e mulheres é parecido, mesmo com uma pequena maioria de mulheres, se alguns homens casam com várias mulheres, outros ficam sem nenhuma. O maior ganho evolutivo da monogamia, conforme a pesquisa, é garantir uma distribuição igualitária de casamentos. Com a diminuição no foco da competição, as famílias podem gastar mais tempo fazendo planos, produzindo riqueza e investindo na educação dos filhos. Além disso, a menor competição aproxima a idade média de maridos e esposas, o que faz com que a mulher ganhe poder de decisão no casamento. Quinta-feira, Janeiro 26, 2012
Contardo Calligaris Embaixo do edredom do "BBB" Indiciar Daniel é como a polícia prender um ator que teria realizado os crimes previstos no roteiro Na madrugada entre sábado e domingo retrasados, o "brother" Daniel Echaniz, 31, e a "sister" Monique Amin, 23, deitaram-se numa cama do "Big Brother Brasil 12". Ao que parece, ambos estavam para lá de Bagdá. Graças a câmaras hipersensíveis, os assinantes do "BBB" 24 horas entreviram assim uma movimentação sugestiva debaixo do edredom de oncinha que cobria Daniel e Monique. Alguns se indignaram porque, aparentemente, Daniel se agitava, enquanto Monique ficava parada. Mais tarde, Monique disse se lembrar de beijos e amassos, e só: se Daniel tivesse feito mais, ele seria "mau-caráter", pois ela tinha desmaiado. Daniel afirmou que não houve relação sexual. Mesmo assim, ele foi expulso do "BBB" por "comportamento inadequado" e encara agora, "no mundo real", uma acusação de estupro (caso seja provado que ele transou com Monique enquanto ela estava inconsciente). Quando eu era criança, durante um verão na Espanha, eu insistia para assistir a todas as touradas. Não é que eu fosse um "aficionado" da cruel e requintada arte de tourear; eu só queria ver sangue na arena, esperava que, ao menos uma vez, o touro enfiasse seu corno na pança do toureador. Depois de um mês vendo cavalos de picador sendo feridos, tive "sorte": vi um toureador esventrado por um majestoso Miúra, da Andaluzia. O espectador do "BBB" não é diferente de mim naquelas férias espanholas, e a Globo, no caso, aposta em sua curiosidade um pouco mórbida: a possibilidade que haja comportamentos inadequados é a razão para alguém ficar acordado de madrugada, assistindo ao "BBB" 24 horas. Tanto faz, você dirá: que os espectadores queiram comportamentos inadequados ou se indignem por causa deles, de qualquer forma, Daniel teria ido longe demais -transar com uma mulher inconsciente é crime. Concordo. Mesmo assim, quando li que a polícia tinha indiciado Daniel, achei bizarro, como se as forças da ordem se metessem num palco de teatro ou num set de cinema, para prender um ator que teria realizado o crime previsto no roteiro. Espere aí, alguém objetará, o "BBB" não é uma ficção! Esse, de fato, é o argumento de venda de todos os reality shows. No entanto, segundo, por exemplo, Scott Stone (roteirista de "The Mole", "The Man Show" etc.), os reality shows, antes de serem escrotos, são, sobretudo, escritos. Obviamente, eles não seguem um roteiro acabado, com cenas e diálogos detalhados, mas se alimentam numa sinopse escrita de situações, conflitos e alianças desejáveis entre personagens. Daniel e Monique podem não ser atores, e o episódio do edredom pode não ser dramaturgia. Mesmo assim, as ações entre "brothers" e "sisters" do BBB não são propriamente "realidade". No mínimo, os reality shows são parentes da "commedia dell'arte": improvisações a partir de um "canovaccio" (roteiro rudimentar), com personagens escolhidos porque eles correspondem às máscaras estereotipadas das quais o "canovaccio" precisa. De muitas dessas máscaras, aliás, espera-se que produzam comportamentos inadequados. Então, se Daniel for acusado e processado, o "BBB" deveria ser acusado e processado com ele, por instigar o crime, ou seja, por ter, de uma certa forma, "roteirizado" o suposto estupro de Monique. Em suma, a "realidade" produzida pelos "reality shows" é duvidosa, e considerar crime o "comportamento inadequado" de Daniel não é muito diferente de a polícia invadir o set de "Dormindo com o Inimigo" para salvar Julia Roberts e prender Patrick Bergin, o marido espancador. Mas talvez eu esteja me preocupando por nada; talvez, nessa confusão entre realidade e ficção, a chegada de polícia e procuradoria ao "BBB" seja apenas mais um artifício dramático, para convencer o público de que o show é mesmo "de verdade". Bom, nesta semana, além de Daniel e Monique, tivemos a grávida de quadrigêmeos factícia e a Luiza que está no Canadá. Não sei se Daniel e Monique se darão mal ou bem. Luiza ganhou vários contratos comerciais "reais". Resta que a mulher dos quadrigêmeos pode ser acusada de falsidade ideológica. Será que é justo? Ela inventou uma história, que se tornou pauta e nos entreteve. Ganhou um dinheiro com isso? E por que não? Afinal, foi menos do que ganha um ficcionista médio. Seja como for, Zé Simão é sortudo: sem querer desmerecer seu talento, é óbvio que o mundo (ou é só o Brasil?) faz de tudo para facilitar seu trabalho. ccalligari@uol.com.br
26 de janeiro de 2012 | N° 16959 ARTIGOS - Joselma Noal* O polêmico canto do galo Uma notícia sobre o canto de um galo em Capão Novo me levou a dividir com os leitores uma reflexão sobre a falta de paciência e tolerância, que a maioria das pessoas tem, com o barulho alheio. Pois é, o canto de um galo pela madrugada e pela manhã perturba um número elevado de moradores e veranistas, no entanto uma minoria apoia. Aliás, tem até gente querendo adotar o tal galo! A polêmica tá tão grande pra aquelas bandas do Litoral, que o caso está sob responsabilidade da vice-prefeita, que tenta administrar de modo diplomático a situação. E o dono do galo? Este gosta do seu animal de estimação, revela tristemente que o ano passado sacrificou o pai do galo (deste que agora canta) e não quer repetir o mesmo gesto. A coisa tá tão maluca, que parece que o galo vai parar em um hotel. A questão é a forma como as pessoas reagem diante do canto do galo. Alguns estão indignados, perturbados, estressados, já outros adoram ouvir o canto do galo, relembram a infância no campo ou sonham com uma vida tranquila, longe da metrópole, algo que talvez nunca tenham vivido em um instante sequer na vida. Quantas vezes também nós fazemos barulhos indesejáveis para os nossos vizinhos, ouvindo música, assistindo a um filme, em uma reunião de amigos, em uma festa? Falta respeito com o próximo por parte do dono do galo, mas faltam também paciência e tolerância por parte dos vizinhos. Atualmente, convivo com o som do teclado do morador da casa aos fundos da minha, confesso que no início achei bacana, após alguns dias tolerável, agora irritante, mas não direi nada a meu vizinho, porque ele também convive com os barulhos advindos de minha residência e tampouco deve apreciá-los. O cidadão de férias em Capão Novo, por que não aproveita para se divertir, em lugar de reclamar e fazer queixa formal do canto do galo? Tem gente com vocação pra queixoso e não adianta, podia estar no Caribe, em Paris ou em Nova York, que encontraria algum motivo pra justificar sua infelicidade e falta de sorte. Talvez não fosse nada parecido a um canto de um galo, mas uma bagagem perdida, um restaurante com uma carta de vinhos insatisfatória, um guia pouco gentil, um atraso nos voos, enfim algum pretexto para julgar-se infeliz. Veranistas de Capão Novo, por favor: é imprescindível ser tolerante para ter férias agradáveis. E guarde o segredo para uma vida na metrópole menos estressante! *ESCRITORA, PROFESSORA DE LÍNGUA ESPANHOLA DA FURG Quarta-feira, Janeiro 25, 2012
Elio Gaspari Pinheirinho, a estratégia da tensão O conflito podia ter sido evitado, pois em 4 áreas (sem PSTU) houve negociação e todo mundo ganhou Num conflito sempre há alguém que joga com a carta da tensão. Ele ganha quando ocorrem choques, prisões, feridos e incêndios. Na operação militar que desalojou 1.600 famílias da área ocupada do Pinheirinho, em São José dos Campos, ganhou quem jogou na tensão. Conseguiram mobilizar 1,8 mil PMs, numa operação que resultou em dois dias de choques, no desabrigo de 2.000 pessoas, dez veículos destruídos, quatro propriedades incendiadas e 34 presos. A gleba foi invadida em 2004 e está avaliada R$ 180 milhões. É o caso de se perguntar o que poderia ter sido feito ao longo de sete anos para evitar que o maior beneficiado pelo espetáculo fosse a massa falida de uma empresa do financista Naji Nahas, que deve R$ 17 milhões à prefeitura. Intitulando-se líder dos moradores, está no elenco Valdir Martins, o "Marron", candidato a deputado estadual pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado, o PSTU, residente em Vila Interlagos e diretor do Sindicato dos Metalúrgicos local, como representante dos trabalhadores de uma empresa que não existe mais. Pelo lado do poder público, o elenco inclui o governador Geraldo Alckmin em cujo primeiro governo ocorreu a invasão e o prefeito Eduardo Cury, que está no cargo desde 2005. Ambos são do PSDB. Em 2008, o advogado André Albuquerque, fundador da empresa paranaense Terra Nova, especializada em regularização fundiária, foi convidado para estudar o caso do Pinheirinho. Ele resolveu 18 litígios, legalizando lotes de 10 mil famílias, das quais 2.000 já têm escritura. Sua metodologia é simples. A Terra Nova negocia um valor aceitável com o proprietário da gleba e os moradores, vai ao juiz que está com processo de reintegração da posse e homologa o acordo. Retirado o obstáculo que impede obras de infraestrutura na área, a empresa apresenta um projeto de urbanização à prefeitura. O proprietário recebe seu dinheiro num prazo que vai de cinco a dez anos, e os moradores pagam prestações mensais que, na média, custam R$ 200. No Pinheirinho, o lote poderia valer entre R$ 3.000 e R$ 6.000, com prestações de R$ 60 a R$ 100 por dez anos. Jamais um dono de lote perdeu a casa por falta de pagamento. "Marron" ouviu a proposta e informou que seu movimento não aceita negociar indenização, muito menos pagamento. O outro caminho seria o da desapropriação, pelo Ministério das Cidades, mera promessa da Viúva federal. Nada feito. Uma reunião posterior foi boicotada pelos representantes dos moradores. Há poucas semanas, diante da ameaça de uso da força policial, apareceu uma milícia de fancaria, com escudos de latão e perneiras de PVC. Deu no que deu. Deu no que deu porque os organizadores do PSTU, o governo de São Paulo e a Prefeitura de São José aceitaram a estratégia da tensão. O governo da doutora Dilma achou que o caso podia esperar e, depois do conflito, fantasiou-se de São Jorge para matar o dragão que já havia devorado a princesa. Desde 2008, enquanto o caldeirão do Pinheirinho ficava em fogo brando, a Terra Nova de André Albuquerque resolveu quatro litígios fundiários urbanos. Três em São Paulo (Casa Branca, Jardim Conquista e 1º de Maio) e um no Paraná (Vila Nova, em Matinhos). Segundo ele, mais de 1.500 famílias foram beneficiadas, sem polícia.
25 de janeiro de 2012 | N° 16958 MARTHA MEDEIROS Britadeiras O filme Precisamos Falar sobre Kevin não concorrerá ao Oscar, tampouco a excelente atriz Tilda Swinton, mas uma cena já entrou para a categoria das inesquecíveis – ao menos para mim. Antes, informações: o filme é a adaptação do livro homônimo de Lionel Shriver. Quem o leu não esquece o soco no estômago. É sobre um garoto perverso que termina por promover uma chacina na escola. A história é narrada pela mãe, que conta sobre o susto que levou com o nascimento daquele bebê que ela não identificava como uma bênção dos céus, sobre sua enorme dificuldade em contornar conflitos e sua descoberta de que formar uma família feliz não é tão simples como dizem. É a desconstrução do mito da competência materna. Orientações bem-intencionadas podem não adiantar, nosso amor pode não ser bem transmitido, nossas atitudes podem não servir de exemplo. Existe algo tão influente quanto tudo isso: nossa dor interna. Ela contamina, ela comunica, ela desgraçadamente dá o tom das relações. O livro, tanto quanto o filme, é violento pela brutalidade dos sentimentos que ficam trancafiados. A cena que me pareceu a mais simbólica e angustiante do filme mostra essa mãe com o filho ainda bebê – uma criança que não parava de chorar um minuto sequer. Não é incomum pais entrarem num surto de estresse com choro de crianças. Recentemente, um americano jogou o filho de uma lancha por ele não parar de chorar, assim como outros adultos já levaram suas crianças a óbito por total descontrole emocional. No filme, a mãe não chega a esse radicalismo, ainda que esteja sempre a um segundo de explodir. Então. Ela passeia por uma rua movimentada da cidade com o bebê no carrinho. Ele chora. Vem chorando há dias. A mãe não dorme, não vive, apenas escuta o choro ininterrupto daquele bebê. Até que ela passa por trabalhadores que estão fazendo reparos em bueiros no meio da rua. Trabalho pesado, barulhento, infernal. Ela sai da calçada com o carrinho e chega bem perto do trabalhador que está perfurando o asfalto com uma britadeira. Bem perto mesmo. Estaciona o carrinho ao lado da britadeira que faz um barulho torturante. Close em seu rosto: por um instante, ela tem o conforto de trocar o choro do filho por outro ruído que, aos seus ouvidos, soa como um solo de flauta. O breve enquadramento daquela mulher com o carrinho no meio da rua e o homem trabalhando com a britadeira a seu lado é um mix de desespero e poesia como raramente vi no cinema. Quantas pessoas não desejariam quebrar uma perna se isso desviasse a atenção de uma dor de amor insuportável? Não é que a mãe de Kevin não aguentasse mais o barulho do choro: ela não aguentava mais o barulho da sua culpa por ser incapaz de cumprir o papel de mãe amorosa e abnegada daquele pequeno demônio de fraldas. O som da britadeira, ao menos, não tinha nada a ver com ela. Terça-feira, Janeiro 24, 2012
24 de janeiro de 2012 | N° 16957 LIBERATO VIEIRA DA CUNHA O mestre dos mestres Que dizer de um homem que foi contista, novelista, romancista, cronista, dramaturgo, jornalista, poeta, crítico e ensaísta, algumas vezes com genialidade, mas sempre com talento? Estou falando do maior escritor da literatura brasileira, Joaquim Maria Machado de Assis. Filho de operários, ele próprio epilético, mulato e gago, criou-se no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro. Coroinha da igreja da Lampadosa, vendedor de doces, sem nenhum acesso a cursos regulares, aprendeu francês com o forneiro de uma confeiteira francesa. Autodidata, aos 16 anos publica sua primeira poesia, prelúdio de uma obra portentosa, que o levaria, na vida civil, à diretoria-geral de um dos ministérios da nação, e na literária a presidente da Academia Brasileira de Letras. Muito mais do que isso, paralelamente, construiria uma carreira literária de que alguns pontos altos foram Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Só esses dois livros lhe garantiriam lugar de relevo em qualquer antologia universal do romance. Contam-me agora que o terceiro volume de sua correspondência pessoal acaba de ser publicado. É um marco para as letras nacionais. Vemos ali a intimidade de Machado de Assis dialogando com seus amigos, dentre os quais Joaquim Nabuco, seu grande admirador, Mário de Alencar, que poderia ser seu filho, ou Salvador de Mendonça. Nessas páginas, escritas sem nenhuma pretensão literária, espelham-se o perfil e a alma do mestre dos mestres. O criador de Capitu, esse mistério de olhos de ressaca, não é conhecido lá fora, onde fica a civilização. Pouco a pouco vão surgindo no entanto traduções e interpretações, nos Estados Unidos e na Europa, que o colocam entre os grandes da literatura do Novo Mundo. Pior para o Velho Mundo, onde Machado poderia ombrear-se com um Stendhal. Algum dia chegará sua vez de ser reconhecido e aclamado. Até lá, contentemo-nos ao menos com a mensagem íntima de suas cartas. Segunda-feira, Janeiro 23, 2012
Antonio Gil O ano zero da tecnologia brasileira O país pode aumentar as suas exportações de tecnologia da informação, oferecendo sistemas para gerir produção agrícola e eleições, por exemplo O ano de 2011 foi marcado por grandes avanços no setor de tecnologia da informação (TI). Em uma economia com crescimento moderado, as projeções de crescimento para a área de TI foram de 13%, atingindo receitas de US$ 96 bilhões. É o Brasil se tornando mais competitivo, pois TI está na base da sociedade, trazendo ganhos de produtividade para todos os setores. Dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostram que as empresas que investem em TI são 13,24% mais produtivas. A grande vitória do setor em 2011 foi a desoneração da folha de pagamentos. A medida, contemplada no Plano Brasil Maior, atende a uma das principais reivindicações do setor, intensivo em mão de obra. Com a mudança da contribuição previdenciária de 20% sobre a folha de pagamentos para 2,5% do faturamento, o incentivo para as empresas de TI e TIC (tecnologias de informação e comunicação) será de R$ 1 bilhão apenas em 2012. Nos três anos de vigência da desoneração, a previsão é de R$ 3 bilhões. Não é um custo pequeno, mas será compensado. Como a informalidade da mão de obra é um grande problema do setor, a tendência agora é de que ela diminua rápido. Com mais formalidade e maiores receitas de imposto de renda, a conta do Tesouro Nacional no item TI tenderá ao equilíbrio, ou até mesmo registrará ganhos. Quase 80% dos trabalhadores informais serão serão contratados pela CLT, produzindo um ambiente mais ético para os negócios, além de menos conflituoso na Justiça do Trabalho. As formas de contratação praticadas hoje no setor inviabilizam o crescimento das empresas brasileiras, pois criam passivos trabalhistas que turvam os balanços e dificultam a abertura de capital. A desoneração será total para as exportações, pois as receitas com as vendas para o exterior serão excluídas da base de cálculo. A tecnologia brasileira terá, assim, condições de conquistar maiores fatias do mercado no exterior. Excelência em TI o Brasil possui, com sistemas sem paralelo no mundo em serviços financeiros, eleições, gestão de produção agrícola, exploração de petróleo, além de diversas aplicações sofisticadas de TI. Nossas exportações, que ainda engatinham, têm potencial para evoluir dos atuais US$ 2,6 bilhões para US$ 20 bilhões em dez anos. TI poderá, ainda, ser um dos grandes motores da geração de empregos em 2012. Estudos da Brasscom revelam que os saldos entre as contratações e demissões de TI devem crescer 31% em 2012 nos seus oito mercados principais. Em 2012, os desafios do setor de TI e do governo serão implantar bons programas de qualificação da mão de obra, acelerar os programas de infraestrutura e investir em inovação. A demanda por banda larga deve aumentar até 35 vezes até 2019. Mas o maior de todos os desafios é transformar a tecnologia em um componente central para a produtividade da economia nacional. A representatividade de TI no PIB de países desenvolvidos é de cerca de 6%. No Brasil, ficamos em cerca de 4%. Mas temos excelência técnica para chegar lá. Com os incentivos obtidos, 2012 será o ano zero da nova caminhada da TI brasileira. ANTONIO GIL, 73, é presidente da Associação Brasileira das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação (Brasscom)
23 de janeiro de 2012 | N° 16956 ARTIGOS - Cláudio Brito* Técnicos e políticos A chegada de Marco Antonio Raupp ao ministério de Dilma Rousseff abriu o debate sobre o perfil da nova equipe de trabalho que resultará de uma pretensa reforma. Afinal, em razão das trocas anteriores, provocadas por motivos marcados por suspeitas quanto ao comportamento de alguns colaboradores, a reforma vem acontecendo há meses. Os ajustes finais viriam agora, no embalo das saídas dos que concorrerão às eleições municipais. Houve casos de substituição de um ministro por um servidor de carreira, outras mudanças sinalizaram reposições provisórias e agora, sim, na abertura do segundo ano de seu governo, Dilma partiria para estruturar sua verdadeira equipe, distanciando-se da herança deixada por Lula, seu primeiro eleitor. Mercadante, um professor, sai da Ciência e Tecnologia, onde tateia, passando a um terreno que lhe é menos acidentado, o da Educação. Dá espaço ao gaúcho Raupp, cuja atuação política desconheço, mas sei que é o “pai da matéria” nos arraiais dos cientistas. Algum sinal? Alguma tendência? Necessário dizer que, dias antes da troca, Dilma e Lula conversaram por mais de quatro horas. Prestação de contas, conversa entre criador e criatura ou mera coincidência? Irrelevante o que possa significar o currículo deste ou daquele novo ministro. Sempre será um pedaço do reino político qualquer ministério ou secretaria. Raupp pode ser um técnico, mas não será por ausência total de instintos políticos que Dilma o incluirá em seu time. Vale para qualquer ministro. Raupp estará cercado de políticos. Outros, ao revés, serão puramente políticos e vão cercar-se de especialistas nas áreas em que deverão trabalhar. Não é isso o que mais importa. A reforma que deveríamos cogitar é outra, estrutural. Nem se cometa o exagero de 40 ministérios, como temos agora, nem sejam nove ou 10, como na Era Collor. No meio, está a virtude, sabe-se disso há séculos. Vinte ministérios? Quem sabe? Fala-se agora em criação de um ministério das pequenas e médias empresas. Não cabe abrigar a demanda em ministério já existente? O da indústria e comércio é insuficiente? Precisamos de políticas públicas específicas, voltadas à formação de uma classe média fortalecida pelo empreendedorismo? Há ministério para o desenvolvimento. Escolha-se onde abrigar pequenos e médios empresários, mas não se precisa cogitar de outro ministério. O exemplo serve para todas as áreas onde se pensa em ampliar e inchar as estruturas, quando o recomendável é o oposto. Privilegiar o concurso público, reduzir os cargos em comissão, diminuir o número de órgãos superpostos e focar na modernidade do Estado, que não precisa ser mínimo, mas não pode ser máximo. O Estado deve ser o suficiente para entregar à população a contrapartida adequada aos impostos que todos pagamos. Eficiência, transparência e comedimento. Bons parâmetros para uma reforma bem mais importante que a simples troca de ministros. Precisamos é trocar de modelo de Estado. *Jornalista Domingo, Janeiro 22, 2012
Carlos Heitor Cony Futebol e cerveja RIO DE JANEIRO - O pessoal da Fifa continua insistindo em detalhes a respeito da próxima Copa do Mundo a ser realizada no Brasil. Não compreendo como, após a decisão final da própria Fifa, quase um ano atrás, certos problemas pontuais não tenham sido esclarecidos por ambas as partes. Evidente que a instituição máxima do futebol não devia contrariar a legislação existente em cada país. Seria um dado importante para a definitiva escolha do próximo evento esportivo em escala mundial. Digamos que um país islâmico ou teocrático proíba não apenas a cerveja mas também o fumo ou faça qualquer outro tipo de restrição. Caberia à Fifa levar esse ponto em consideração, negociando ou se submetendo à soberania do país. Como torcedor anônimo, tendo assistido à final de duas Copas (a de 1950, no Brasil, e a de 1998, na França), acredito que a negociação entre as partes deveria levar em conta o caráter festivo do evento, que no fundo, como na Olimpíada, são momentos de congraçamento universal. Na Copa de 1950, cheguei ao estádio às 9 horas, o jogo estava marcado para as 15 horas. A bebida era livre, muitos torcedores já chegaram calibrados. Apesar do gol de Ghiggia que até hoje nos faz sofrer, não houve incidentes de monta, embora 200 mil pessoas estivessem reunidas durante tanto tempo. Bem, todos torciam para um lado só. Na França, fiquei na bancada da imprensa e tinha acesso fácil aos bares do Saint-Denis. Também não me lembro de nenhum tumulto. Afinal, cerveja, Carnaval e futebol são ingredientes naturais das grandes festas populares, desde os tempos das saturnais e bacanais. Embora o futebol ainda não existisse, havia torneios até que bem mais violentos. Sem ferir a soberania nacional, acho que o Brasil deveria ceder nesse ponto.
Ferreira Gullar Dura Lex A conclusão a que se chega é que, na visão dos donos do país, as leis só valem para o cidadão comum O ministro Paulo Bernardo, das Comunicações, teve sua carteira de habilitação suspensa, tantas foram as infrações que cometera ao volante, e agora faz um curso de reciclagem para reaver a carteira e voltar a dirigir. Ele apareceu na televisão e admitiu que havia sido multado muitas vezes por estar permanentemente falando ao celular enquanto dirigia. E, no final da entrevista, admitiu que todo cidadão deve agir dentro da lei. Muito simpático, mas não me convenceu, porque logo me perguntei: e esse cara, que é ministro das Comunicações e já foi ministro do Planejamento, além de ser marido da ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República, não sabia que é obrigação de todo cidadão obedecer às normas sociais? Durante todo o tempo dirigia falando ao celular, pondo em risco a vida das pessoas, e não se dava conta de que infringia a lei? Não dá para acreditar. O que está evidente neste episódio é que o ministro sabia muito bem que infringia a lei e o fazia porque se supunha acima dela, uma vez que, no Brasil, lei só vale para o cidadão comum, não para os ministros de Estado. Se me detenho nesse episódio é que ele me parece instrutivo. Neste país, onde quase nenhum político é punido -ministro, então, nem se fala- nos deparamos com o ministro das Comunicações sendo obrigado a mostrar que agora conhece as leis do trânsito para só assim reaver a carteira de habilitação. É comovedor. Pode ser que um marciano, ao vê-lo na televisão admitindo humildemente que mereceu ser punido, volte para seu planeta convencido de que o Brasil é o país da Justiça, onde a lei vale para todos, seja um porteiro de edifício ou uma alta figura do governo. Nós, porém, que não somos marcianos, não embarcamos nessa. Quando a punição é ter que fazer um cursinho do Detran, o ministro se submete e até, com isso, garante ser eleito no próximo pleito, se for o caso. Quero ver é quando se trata de responder pelo desvio de verbas públicas, que pode levar o bacana à cadeia ou à perda de mandato. Aí, não; nesses casos, a lei não vale. Pode até ser aberto um processo -se a imprensa puser à mostra o "malfeito"- mas ficará nisso. Veja o processo do mensalão, que já vai para sete anos sem julgamento, e corre-se o risco de que as penas relativas a ele prescrevam. Se o cara é parlamentar, tem o direito de renunciar ao mandato para não ser cassado e, assim, poder candidatar-se de novo e voltar como representante do povo. É assim ou não é? Alguém pode levar a sério o Congresso de um país que permite coisas como essas? Provado que o parlamentar usou do mandato para obter vantagens ilícitas, atentar contra a ética, em vez de ter seu mandato cassado e ser considerado indigno de representar o povo, pode ele escapar à punição renunciando ao mandato. E assim estará habilitado a candidatar-se de novo e voltar ao Congresso. Não dá para acreditar. O Congresso Nacional criou uma norma que favorece a impunidade de quem atenta contra os valores do próprio Congresso. A conclusão a que se chega, inevitavelmente, é de que, na visão dos donos do país, as leis só valem para o cidadão comum, já que ministro, deputado, senador, governador, prefeito... esses estão acima da lei, fora de seu alcance. É como se tivéssemos voltado a época remota das primeiras monarquias. Se é verdade que nenhum deles exibe uma coroa na cabeça, nem por isso deixam de constituir uma casta que se apossou da máquina do Estado e faz dela o uso que lhe convém. Nosso país foi apropriado por uma casta, que o governa em seu próprio benefício. O diabo é que, diferentemente da época monárquica, agora existem jornais e televisão, que, inconvenientes como são, vivem fuçando aqui e ali, até descobrirem o "malfeito" e transformá-lo em notícia. Aí, então, alguma coisa terá que ser feita em respeito à moral e aos bons costumes, mesmo que só para fazer de conta. Como é do interesse geral do poder que não se torne hábito condenar ministros ou parlamentares, sempre haverá um jeito de conciliar as coisas: abafar o escândalo e não punir o culpado. Mas, se o delito praticado foi falar ao celular enquanto dirigia, aí não tem perdão, "dura lex sed lex". Sábado, Janeiro 21, 2012
22 de janeiro de 2012 | N° 16955 MARTHA MEDEIROS Não canse quem te quer bem Uns mais, outros menos, todos passam dos limites na arte de encher os tubos
Foi durante o programa Saia Justa que a atriz Camila Morgado, discutindo sobre a chatice dos outros (e a nossa própria), lançou a frase: Não canse quem te quer bem. Diz ela que ouviu isso em algum lugar, mas enquanto não consegue lembrar a fonte, dou a ela a posse provisória desse achado. Não canse quem te quer bem. Ah, se conseguíssemos manter sob controle nosso ímpeto de apoquentar. Mas não. Uns mais, outros menos, todos passam do limite na arte de encher os tubos. Ou contando uma história que não acaba nunca, ou pior: contando uma história que não acaba nunca cujos protagonistas ninguém ouviu falar. Deveria ser crime inafiançável ficar contando longos causos sobre gente que não conhecemos e por quem não temos o menor interesse. Se for história de doença, então, cadeira elétrica. Não canse quem te quer bem. Evite repetir sempre a mesma queixa. Desabafar com amigos, ok. Pedir conselho, ok também, é uma demonstração de carinho e confiança. Agora, ficar anos alugando os ouvidos alheios com as mesmas reclamações, dá licença. Troque o disco. Seus amigos gostam tanto de você, merecem saber que você é capaz de diversificar suas lamúrias. Não canse quem te quer bem. Garçons foram treinados para te querer bem. Então não peça para trocar todos os ingredientes do risoto que você solicitou – escolha uma pizza e fim. Seu namorado te quer muito bem. Não o obrigue a esperar pelos 20 vestidos que você vai experimentar antes de sair – pense antes no que vai usar. E discutir a relação, só uma vez por ano, se não houver outra saída. Sua namorada também te quer muito bem. Não a amole pedindo para ela posar para 297 fotos no fim de semana em Gramado. Todo mundo já sabe como é Gramado. Tirem duas, como lembrança, e aproveitem o resto do tempo. Não canse quem te quer bem. Não peça dinheiro emprestado pra quem vai ficar constrangido em negar. Não exija uma dedicatória especial só porque você é parente do autor do livro. E não exagere ao mostrar fotografias. Se o local que você visitou é realmente incrível, mostre três, quatro no máximo. Na verdade, fotografia a gente só mostra pra mãe e para aqueles que também aparecem na foto. Não canse quem te quer bem. Não faça seus filhos demonstrarem dotes artísticos (cantar, dançar, tocar violão) na frente das visitas. Por amor a eles e pelas visitas. Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto. Você não implica com quem te esnoba, apenas com quem possui laços fraternos. Se um amigo é barrigudo, será sobre a barriga dele que faremos piada. Se temos uma amiga que sempre chega atrasada, o atraso dela será brindado com sarcasmo. Se nosso filho é cabeludo, “quando é que tu vai cortar esse cabelo, guri?” será a pergunta que faremos de segunda a domingo. Implicar é uma maneira de confirmar a intimidade. Mas os íntimos poderiam se elogiar, pra variar. Não canse quem te quer bem. Se não consegue resistir a dar uma chateada, seja mala com pessoas que não te conhecem. Só esses poderão se afastar, cortar o assunto, te dar um chega pra lá. Quem te quer bem vai te ouvir até o fim e ainda vai fazer de conta que está se divertindo. Coitado. Prive-o desse infortúnio. Ele não tem culpa de gostar de você.
Carol Nogueira - Daniel, participante do BBB12 - Daniel, participante do BBB12 (Divulgação/TV Globo/Frederico Rozário) Mãe do modelo Daniel acusa a Globo de racismo Para Maria Aparecida Echaniz, todo BBB tem movimento sob o edredon e nunca ninguém foi expulso. Agente do modelo coloca a culpa em Monique: "Ela estava dando mole para ele e agora não quer admitir que fez sexo na casa" A expulsão do modelo Daniel Echaniz do Big Brother Brasil 12, sob a suspeita de ter abusado de Monique, sua colega de confinamento, após uma bebedeira na primeira festa, começa a ganhar contornos de batalha judicial. Embora a direção da TV Globo tenha tomado o cuidado de evitar a palavra “estupro” – justificou a expulsão por comportamento inadequado às regras do programa -, a mãe do modelo, Maria Aparecida Echaniz, considerou injusta a exclusão e atribuiu o desfecho do caso a racismo. “Movimentação debaixo de edredom sempre aconteceu, em todos os BBBs. Por que só ele foi expulso desta vez?”, questionou Maria Aparecida. “Ele é negro, então começa a formar o quebra-cabeça, não tem muito o que explicar: isso é discriminação. Se ele foi expulso pelo que aconteceu debaixo do edredom, então os dois deveriam ter sido excluídos, porque ele não fez nada sozinho.” Maria Aparecida diz que ainda não conversou com o filho e que ninguém da Rede Globo ou da direção do BBB a procurou para dar explicações. “Talvez não queiram me abalar, não sabem como vou receber a notícia, mas o fato é que já estou informada, pela TV e pela imprensa, que começou a me ligar”, afirmou. Embora ainda não tenha tomado decisões sobre o que fazer, ela não descarta uma ação na Justiça. “Não vou tomar nenhuma decisão agora, vou esperar a cabeça acalmar, descansar, porque não durmo desde ontem”, explicou. “Depois é preciso pensar no que fazer, porque nada nesse mundo é de graça.” Maria Aparecida diz ter certeza de que o filho não estuprou Monique. “Ele é alegre, nunca deu trabalho na vida, sempre foi estudioso e verdadeiro, nunca falou de ninguém pelas costas”, afirma. “Não é por ser meu filho, não, mas ele é uma pessoa muito correta.” Daniel Echaniz, após a eliminação, foi encaminhado para um hotel, onde está à disposição do delegado que investiga a suspeita de estupro. A mãe diz que ele também prestaria depoimento, mas não sabe dizer se já foi ouvido. Maria Aparecida diz estar assustada com a proporção que o caso tomou. "Eu e meus outros filhos estamos mal, não tenho nem dormido direito”, afirmou. “Imagino que a mãe da Monique esteja passando pela mesma coisa, ninguém gosta de ter um filho exposto dessa forma.” “Deu mole” – Quem também saiu em defesa de Daniel na tarde desta terça foi seu agente, Sérgio Mattos. Dono da agência 40 Graus e conhecido como um dos maiores caça-talentos do Rio, ele não acredita em estupro e diz que Daniel "é do bem". "Ele sempre foi um ótimo profissional, fez bons trabalhos com o Mario Testino, fotografou com Isabeli Fontana, Raica... Todo mundo elogia ele, nunca teve nenhum problema de comportamento”, explica. “Ele estava bem na carreira internacional, morava em Milão, mas voltou ao Brasil para morar em São Paulo e estudar teatro." Para explicar as cenas sob o edredom, Mattos colocou a culpa em Monique. “A menina estava dando mole para ele”, afirmou. “O problema é que ela não tem coragem de assumir que fez sexo dentro da casa.” Mattos já havia sido execrado no Twitter, ainda no domingo, por lançar opiniões semelhantes para defender seu cliente em um tuíte em que perguntava: “Monique geme dormindo?". Hoje, ele tentou justificar o tuíte. “Escrevi o que vi no vídeo: ela mexe o braço e geme”, afirmou.
21 de janeiro de 2012 | N° 16954 ANTONIO AUGUSTO FAGUNDES Contos Tradicionais - 1ª Parte O homem e a mulher vem contando para os filhos e netos, desde os tempo imemoriais, contos bonitos, com fadas e princesas, príncipes e heróis. Contos às vezes com aspectos tenebrosos, mas sempre com um final feliz. As crianças que ouvem esses contos, e que muitas vezes adormecem antes do fim, crescem, tornando-se pais e mães, avôs e avós e quando acontece cuidarem de um filho ou de um neto com sono rebelde, lembram-se dos contos que seus maiores contaram. E fecha-se a cadeia, com o conto passando de geração a geração e espalhando-se de país em país. Quando o poeta francês Charles Perrault (1628 –1703) lançou a sua coletânea de contos tradicionais, a Europa Central vinha repetindo essas histórias geração após geração. Perrault, ambicioso literato, não era brilhante, nem inteligente. Teve o ouro nas mãos e não o valorizou. Só não lhe escorregou pelo meio dos dedos porque teve o bom senso de publicar o conjunto de contos que recolheu, embora vergonhosamente assinasse o livrinho com o nome de seu filho de 11 anos. O sucesso dos contos foi imediato, mas dos versos de Perrault, que ele tanto valorizava, nunca mais se ouviu falar. Seu nome é conhecido unicamente pelos contos. Aparecem na coleção de Perrault contos como Chapeuzinho Vermelho, Pequeno Polegar, Bela Adormecida, Barba Azul (todos integrantes, com variantes próprias, do folclore gaúcho) e outrao, que não se integraram no nosso folclore, por uma razão ou por outra. Alguns dos contos de Perrault tiveram variantes em coleções anteriores, quase desconhecidas, mas é fora de dúvida que foi o trabalho do medíocre poeta francês e excelente folclorista “avant la lettre” que lançou tais contos à celebridade. Sim. Não são contos de Charles Perrault, mas contos tradicionais, conhecidos em toda a Europa Central, recolhidos das avozinhas rurais e que, quando muito, receberam do coletor um tratamento “literário”, expungidos os modismos e deformações regionais ricas da rica língua francesa no século 17. Perrault preservou assim um acervo espiritual que era do povo e devolveu-o ao povo, seu legitimo dono. Ao seu povo, primeiramente. Logo, ao povo da Europa Central e depois ao mundo, acabando por chegar alguns desses contos quase intactos aos galpões gaúchos do Rio Grande do Sul. Impressiona sobremaneira como o arcabouço desses contos se mantém integro e resiste ao tempo, à geografia e aos diferentes idiomas. Sexta-feira, Janeiro 20, 2012
Ponto M: como usar os mamilos para sentir prazer Especialista fala sobre carícias que dão muito mais prazer às mulheres na cama Reportagem: Marta Sandoval - Edição: MdeMulher - Conteúdo do site NOVA - Mulher sexy na cama Foto: Getty Images
Durante a transa, estimular os mamilos excita bem mais a mulher Os mamilos saltam aos olhos e ao tato. Mesmo assim, acabam negligenciados pelos amantes mais afoitos. Mas, quando tratados com carinho, são capazes de levá-la ao delírio. A seguir, saiba os segredos que abrem as portas do nirvana. Conexão com o clitóris Antes de você transformar seu homem num perito em ponto M, é bom lembrar que, além do mamilo, a aréola também precisa ser estimulada. Ambas as áreas são dotadas de terminações nervosas supersensíveis, que fazem os bicos enrijecerem. Agora, uma revelação surpreendente: existe uma conexão direta entre os nervos dos mamilos e o clitóris. Isso explica por que o jeito certo de manipular os seios também faz vibrar os países baixos. Animada? Vamos ao que mais interessa. Faça a mão de seu amado escalar seus picos gêmeos e experimente diferentes tipos de toque. Algumas mulheres ficam mais excitadas com carícias suaves e outras preferem ser beliscadas, mas quase todas se rendem a uma ponta de dedo rodeando e apertando os bicos ou a uma unha roçando-os bem de leve. Você será mais sensível ao tato se as mãos dele estiverem molhadas. Vale lubrificá-las com a saliva. Os mamilos já duplicaram de tamanho? Patti Britton sugere um truque de arrepiar. Induza o gato a segurar, entre o dedo indicador e o médio, cada "botãozinho" e a passar sobre ele um cubinho de gelo. Você vai derreter inteirinha. Jogos de língua Que tal triplicar o prazer com alguma atração oral extra? Peça a seu homem que sugue os mamilos prolongadamente e, depois, passe a ponta da língua ao redor deles feito um pincel. Se você estiver a fim, libere-o para dar mordidinhas suaves e puxar o bico com os dentes ou os lábios. Uma sugestão divertida é mandar o moço lamber a aréola inteira, como se fosse um sorvete ou, melhor, uma tigela de leite. Digamos que você esteja quase chegando lá, mas ainda não atingiu o clímax. Não desanime. Afinal, um pequeno número de mulheres (menos de 1%) é capaz de alcançar o orgasmo apenas com esse tipo de estimulação. O jeito, então, é solicitar a seu amor um ataque duplo. Enquanto ele suga seus seios com a boca, as mãos ficam totalmente livres para enlouquecê-la abaixo da cintura. A multiplicidade de sensações vai fazer a terra tremer. Provocando arrepios Entregar-se a algumas excentricidades fica a seu critério. Saiba, porém, que, para várias mulheres, os pés masculinos são um fetiche. Se você está entre elas, intime seu namorado a esfregar suavemente a planta dos pés contra os mamilos já enrijecidos. Acredite, o contato deles com a pele mais áspera vai deixá-la toda arrepiada. Uma barba de dois dias costuma obter resultados melhores ainda. Num fim de semana, dê um sumiço nas giletes dele... Na hora da transa Nas preliminares, tudo correu às mil maravilhas. Seu namorado se tornou um perito em escalar picos gêmeos... Mas, agora que a performance foi aprovada com louvor, ele só quer ir aos finalmentes o mais rápido possível. Para você, isso pode ser fatal. Durante a transa, continuar a estimular os mamilos excita bem mais a mulher.
José Simão Canadá! A Luíza foi deportada! E um outro no Twitter, de saco cheio dessa história, escreveu: "Luíza, vá à merda!". Rarará! Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E a nova logomarca do governo: "Brasil, um país de todos. Até da Luíza, que voltou do Canadá!" E uma menina gritou no Twitter: "Bora tocar a Luíza de volta pro Canadá!" Eu acho que essa Luíza foi deportada! Rarará! O Canadá ficou com medo! E um outro, de saco cheio dessa história, escreveu: "Luíza, vá à merda!". Rarará! Essa Luíza vai acabar trabalhando em "A Fazenda 5"! E a manchete do "Piauí Herald": "Serra vai para o Canadá!". Rarará! E o site Futirinhas: todo mundo recebe salário, menos o Ronaldinho Gaúcho, que tá no Flamengo! Por isso que flagraram ele com uma mulher na concentração. Salário atrasado, sem grana pro motel, foi na concentração mesmo! E o "BBB"? Big Bagaça Brasil! Já deu tanta polícia nesse "BBB" que a Globo vai lançar o "CSI Projac"! Já tem o "CSI Miami", "CSI Las Vegas" e agora o "CSI Projac"! Criminal Scene Do Not Enter! Rarará! E essa outra buemba: "Duas ratazanas encontradas mortas no Senado". Qual o partido?! Rarará! Se eu der o nome delas, sou processado! Rarará! E a dedetização no Senado? Os chargistas deitaram e rolaram. Charge do Lute com dois ratos conversando: "Poxa, seu irmão foi expulso e você aí nessa alegria toda?". "É que eu sou suplente dele", respondeu o rato, ajeitando a gravata. E a charge do Gazo com os dedetizadores: "Como esse rato veio parar aqui?". "Fui eleito pelo povo!". E a charge do Jorge Braga com o rato gritando pro dedetizador: "Eu sou ficha limpa! Eu sou ficha limpa". Rarará! É mole? É mole, mas sobe! Ou como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver o que acontece! E tão dizendo que o capitão do navio italiano não viu as rochas porque um corintiano roubou o GPS dois anos atrás! Quando hospedou o centenada do Timão. Dois anos sem GPS! E o capitão que abandonou o navio: "Escorreguei e caí no bote". Rarará. Foi abduzido pelo bote! E agora voltamos ao normal. A Luíza desceu no aeroporto de João Pessoa: Castro Pinto! Manchete da semana: "Luíza desce no Castro Pinto". Rarará! Nóis sofre, mas nóis goza! Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! simao@uol.com.br
Jaime cimenti Homens-sanduíche, seres postes-modernos verdadeiros ou falsos e outros lances Uns dizem que por vivermos numa época sem referências mais definidas, valores mais duradouros e falta de fronteiras para quase tudo, seríamos pós-modernos, vivendo em tempos tipo assim meio cambiantes, rápidos e cambalacheiros. O mundo e os habitantes sempre tiveram ordens e desordens, regras e violações, desde o tempo em que os dinossauros eram lagartixas. Nada de muito novo sob a luz do sol, como disse o Rei Salomão, há milênios. Fico pensando nisso enquanto lembro dos antigos homens-sanduíche, que traziam cartazes pendurados nos ombros com anúncios no peito e nas costas. Eles ficavam falando com meio mundo, davam uma mãozinha para os velhinhos e as crianças atravessarem a rua e passavam o dia propagandeando ouro, cursos, serviços, empregos, espetáculos e outras coisas em troca de uns pilas. Camionetes com alto-falantes os substituíram, gritando ofertas. Depois apareceram mil meios sonoros e visuais com ofertas de tudo o que é possível. Hoje andamos por aí com propagandas nas costas, no peito, na cabeça, nas pernas, nos braços e nos pés, de um monte de marcas. Muitas vezes pagamos caro por roupas, por exemplo, ou por automóveis, para depois ainda sair por aí fazendo propaganda grátis do produto ou do fabricante. Meio pós-moderno, né? Ao invés dos trocados que os homens-sanduíche ganhavam, nós pagamos para servir de postes ambulantes ou postes-modernos, com o perdão do trocadilho, mas é que quis apresentar, modestamente, meu neologismo. Ninguém é obrigado a andar por aí divulgando grifes, mas que é meio estranho isso tudo é. Dos pés à cabeça, estamos grifados, obrigando também os outros a partilhar da divulgação. Dizem que os publicitários e marqueteiros estão pensando numa forma de ocuparem as testas das pessoas para vender. Em alguns casos de artistas e atletas isto até já ocorre, mas aí o cara leva lá um patrocínio. Será que daqui a pouco vamos ter anúncios e patrocínios também em funerais e cemitérios? Tudo é possível neste mundo. O dinheiro compra ou pensa que compra até amor verdadeiro, imortalidade, almas em liquidação nas bacias e outras mercadorias menos votadas. Pois é, o negócio é esse mesmo, pagar caro e depois sair por aí mostrando que está podendo. Ou, ao menos, enganando, com certas imitações perfeitas do Oriente e do Ocidente que andam por aí. As falsificações verdadeiras salvam os curtos de grana do mico de não andar devidamente marcado, etiquetado e grifado, feito um fosforescente poste ou outdoor humano. Saudade dos homens-sanduíche. (Jaime Cimenti) Quinta-feira, Janeiro 19, 2012
José Simão "BBB"! Gorducha estupra geladeira! A final vai ser transmitida da DP de Jacarepaguá! O pessoal do Projac vai ter que tomar Prozac! Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! E a banda de rock: "Eu ligo o rádio, e a garganta dá um nó/ Eu vou vomitar no Michel Teló". Rarará! E adorei o novo reforço do Palmeiras: Barcos! Deve ser pra recolher o time que tá afundando! Ou então partiram pro iatismo. Já que futebol não dá mais! E o Barcos é argentino! Agora é que afunda de vez! Rarará! E a piada pronta do ano: "Navio que naufragou na Itália é o mesmo do centenário do Timão". Esse navio tava zicado: a champanhe não estourou, foi usado pelo centenário do Corinthians. E o dono da empresa se chama Pier! E diz que naufragou porque tava sem Timão! E se o Adriano já estivesse no centenário do Timão, o navio já tinha adernado dois anos atrás! Rarará! E esses surrealities, hein? Big Baixaria Brasil! Paredão já era! Quero expulsão! A onda é expulsão! E sabe por que aquela gorducha foi eliminada? Porque estuprou a geladeira! Abusou da geladeira enquanto a geladeira dormia! E as "Mulheres Ricas"? As bizarras foram pra Buenos Aires. Buenos Aires? Mulheres ricas, produção pobre. Rarará. E uma das bisonhas falou: "O tango é a cara da Argentina". Não, errado, o tango é a cara de Botsuana! Rarará! E a filha do bicheiro, que se chama Shana? Soltaram a Shana! O bicho tá com a Shana solta. Vou jogar no bicho! Qual o número da perereca? E essa aqui: "Crocodilo que assustava até dinossauros morava em SP há 80 milhões de anos". Era o Maluf! Rarará. Era o Maluf porque era em São Paulo. Se fosse no Maranhão, seria o Sarney! E diz que a final do "BBB" vai ser transmitida direto da DP de Jacarepaguá! Esse pessoal do Projac vai ter que tomar Prozac! Rarará! É mole? É mole, mas sobe! E um amigo esteve nas Americanas do shopping Tamboré e olha como eles dividem a seção de DVDs: "Clássicos, épico, Hitler e Trapalhões". Ah, acho que hoje eu vou pegar um Hitler. Aí você liga pra tua mulher: "Amor, você quer assistir a que hoje? Um Hitler ou Os Trapalhões?". Rarará. E São Bernardo do Campo amanhece submersa. Como é o nome do prefeito? Luiz Marinho. Rarará. Nóis sofre, mas nóis goza. Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno! Pra ver a Luiza, que está no Canadá! simao@uol.com.br
19 de janeiro de 2012 | N° 16952 ARTIGOS - Carlos Alberto Barcellos* Brothers O show não pode parar. Mário de Andrade, autor da obra e leitura obrigatória chamada Macunaíma, tinha razão. O Brasil é uma grande Macunaí- ma. Um país de marombados, desdentados, de viagens para a Disney e a cultura do crack pedindo passagem. Que país é esse? O tal Big Brother reflete esse cenário de embrutecimento da alma humana. Qual a matéria jornalística que está bombando? A história da relação sexual de um brother e uma sister passado em horário sem nenhuma censura prévia. Quem pode pagar a TV por assinatura vê aquilo que ninguém vê, sem nenhum trocadilho com quem passa o programa. Sensacionalismo, vulgaridade, mediocridade vendidas ao vivo para nossa intelectualidade. Penso, às vezes, que imaginam que somos um bando de cérebros sem neurônios. Tudo vale e tudo é permitido. Um simples olhar em qualquer programa dos brothers descortina o incentivo e a licenciosidade com que o álcool é tolerado. Essa juventude confinada é, querendo ou não, uma referência para a galera que está de fora da casa. Um preço módico de um telefonema elimina esse ou aquele albergado. Uma soma vultosa construída na sede de nossa vaidade. Simples, eliminamos quem não gostamos ou quem compete conosco. Um apresentador que insiste em nos vender a imagem que eles, os brothers, são nossos heróis. Heróis ? As longas filas nos postos de saúde desvelam essa enganosa verdade, plantada todas as noites em tempos de verão, férias para muitos. Um país de contradições paralisa em torno das 22h. Vivemos tempos da casa mais vigiada do Brasil. Em tempos de cultura descartável, todos os brothers farão parte desse universo, de uma memória a ser deletada no próximo verão. Afinal, o show deve continuar. Para não passar batido, esse cenário também passa nas outras mídias. Pensar dói e incomoda. É mais fácil digerir o que já vem pronto, muitas vezes travestido com uma roupagem nova. Engolimos lixo, muitas vezes, sem nos darmos conta. Continuamos sendo enrolados com as grades de vidro que vemos. Elas nos dão a falsa impressão de liberdade. Somos moralistas para questões políticas e liberais para tudo o que deveria ser central e vital na vida humana. O Big Brother passa uma mensagem perigosa de que tudo é permitido. Vale tudo. Se, por acaso, tudo não passar de um jogo de cena, um teatro grotesco e grosseiro, devemos estar ligados para não cair nessa roubada. Daniel e Monique, os brothers que estão no ar agora, cairão no esquecimento como qualquer lixo cultural. Em tempos futuros, quem sabe discutiremos o show das dez da noite. Doze anos no ar, há lições para serem aprendidas. Essa Macunaíma chamada Brasil está a exigir de todos nós uma capacidade para discernimos o que é vulgar e ético. A verdade é que sempre seremos livres para aceitarmos uma situação imposta. A questão não é apenas trocar de canal, isso seria muito simplismo de nossa parte. Hoje, assistimos ao show do álcool liberado. Amanhã, assistiremos, na casa dos brothers, a quê? Ainda temos tempo para olhar um novo jeito de educar para a sensibilidade. Apresentar o vazio para dizer como deve ser o contraponto deve nos colocar antenados no jogo das entrelinhas. Vamos lá fazer o que será – diria Gonzaguinha. *Professor Bem o autor deste Blogger está de aniversário hoje e chegando a melhor idade. A partir de agora com direitos que para essa idade as pessoas tem: subir num ônibus numa parada e descer na seguinte sem ter que pagar nada. Utilizar a fila para idosos. Os estacionamentos pertinho das portas de entrada, essas coisas...Parabéns pra todos nós que chegamos a essa idade |
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