Nuvens Brancas |
||
|
Uma nuvem branca é um mistério - o vir,o ir, o próprio existir dela.Uma nuvem branca existe sem quaisquer raízes - um fenômeno desenraizado, apoiado no nada, mas assim mesmo existe. E existe em abundância.
O todo da existência é assim - sem quaisquer raízes,sem qualquer causalidade,sem qualquer causa final,ela existe e existe como um mistério.
Uma nuvem flutua para onde quer que o vento a leve. Ela não tem nenhum lugar para onde chegar, nenhum destino para ser cumprido, nenhum fim.
Archives
Visitors:
|
Sexta-feira, Julho 03, 2009
MEUS FILHOS TÊM PASSADO MAIS DO QUE FUTURO Fabrício Carpinejar Jogar futebol dentro de casa é um hábito do meu filho. A bola de pano fica cobrindo seu tênis, reforçando o cadarço. Toda porta se converte em uma goleira. É natural que as esculturas da sala estejam quebradas. A namoradeira na janela foi decapitada. São Francisco de Assis de madeira perdeu seus amigos pássaros. Um pescador viu sua rede e seus peixes levantarem asas. A baiana não segurou o vaso na cabeça. O flautista da Ásia acabou partido em dois. A sala é um aprumo, uma beleza, com móveis feitos sob medida. O que fazer com as peças danificadas? Não coloquei nenhuma escultura fora. Colamos os objetos em longa entrega. Chegamos a pintar de novo, escová-los com verniz, exercendo o papel de cirurgião da infância. Meus dedos estão grudados aos dedos do meu filho de tanto que passeamos pela cola bonder. A textura plastificada não me enerva, é um esmalte transparente da cumplicidade. Coço a mão com impagável orgulho. Como um artesão depois de uma longa trama de cordas. Como um oleiro depois de girar o barro e encontrar as curvas da estrada de Caxias do Sul. Não posso ensinar aos filhos a não errar. O que me cabe é ajudá-los a restaurar, a dar a volta por cima, a cuidar do estrago e procurar a dignidade da emenda. Há uma obsessão dos pais de fazer avançar a qualquer custo. De ir para frente, de pular de série, de alcançar a excelência das notas, de profissionalizar o tempo e ocupar os horários para não tropeçar em bobagens. Educar é mandar, ser educado é aceitar ordens. Tudo é sempre uma única vez, movida a frases sentenciosas “Não irei repetir” ou “Presta atenção”. Quantos meninos e meninas se deprimem por não encontrar uma segunda chance na família? Penso o contrário. Sinto o contrário. Compreendo que a criança não poderá voar se não andar primeiro. Mais do que nunca, precisa saber voltar atrás. Ter passado mais do que futuro. Isso significa suportar a frustração, reagir quando as coisas não acontecem como esperadas. Contar com tristeza suficiente para sair da tristeza e se levantar. Mimar é não permitir que nada se quebre. Amar, de outro modo, é reconstituir os estilhaços. Não penalizar por uma nota ruim com castigo e privação dos prazeres, mas dar a consciência de que o conceito é provisório e que é natural melhorar. Estimular o pequeno com a própria dificuldade. Recompor o que foi estragado, reconstituir um desenho rasgado, remontar os escombros e não se envergonhar pela demora. Deixo as esculturas mancas na sala. Não me importo como as visitas vão reagir ou se passarão a me observar com desconfiança. Os defeitos permanecem expostos. A vida é para ser usada.
Fabrício Carpinejar PERDÃO SENSUAL Matava o tempo antes de pegar a estrada, com um copo de café gemendo em minha boca. No canto da cafeteria, uma moça escrevia no seu computador. Buscava um pensamento fora e se vidrava novamente na tela, obcecada a encontrar a frase melódica antes de mim. Quando ela foi se espreguiçar, eu vi. Vi o luzeiro de sua pele por uma fechadura minúscula. Sua camiseta básica estava rasgada debaixo dos braços. Um pequeno furo. Tolo e miserável corte. Pela pilha de casacos e blusões na cadeira ao lado, ela nem deveria ter notado. O inverno tem a mania de sonegar a penúria do pano. Somos um excesso de andares de golas de manhãzinha e um térreo na hora do almoço. Na rua, as pessoas carregam seus sobretudos como engradados de cervejas. Ela não me viu. Mas eu insisti em olhar. Queria que ela se espreguiçasse de novo. Quem sabe era o primeiro rasgo de seu dia. Um rasgo involuntário. Sem campainha, sem som de tecido, sem aquele anzol zunindo na água para avisar os peixes da captura. Quase me levantei para avisá-la; eu me contive. Ao confirmar o sinal com os dedos, ela deixaria de usar a camisa. Ou guardaria em uma cesta de vime até encontrar uma folga para costurar. Não queria que fizesse isso. Não agora. Ela poderia sentir vergonha da mínima gastura na blusa. Gastura da vida. Talvez fizesse um comício, um protesto, iria correr ao banheiro. Pediria desculpa a todos, a si, aceitaria que é um desleixo imperdoável. Um descuido fatal de sua beleza. Mas eu fiquei apaixonado pelo bocejo do fio. Tomado de uma compaixão sensual. Excitado com a ternura. Não há nada mais excitante do que a ternura. A ternura incontrolável do primeiro amor. Do último amor. Beijar os olhos e morder levemente os cílios. Puxar os fios dos olhos. Era uma fresta de sua nudez. Uma mulher se produz tanto para sair de casa que aquilo significava um descanso, um domingo repentino, que a tornava ainda mais bonita. Mais humana, mais falível, mais acessível. Transportada acidentalmente para seu quarto. Aquele corte desatento criava intimidade. Retribuía infâncias. Sua roupa sorria desajeitada para mim. Gerava confiança de cotovelos e rostos próximos. Tinha vontade de confessar todos os meus pecados e espantar os insetos da insônia e me curar das noites mal dormidas. Um rasgo na camisa feminina é o botão que falta ao homem. Ela nos perdoava da aparência.
Michael Jackson Das milhões de imagens de tua carreira multimídia pós-moderna, Michael Jackson, acho que vamos ficar gostando e lembrando mais das primeiras, aquelas que mostram o saltitante e dançante menino de cinco anos, olhos e sorriso brilhantes de pequeno, puro e genial Mozart dos palcos. Depois vieram os meganúmeros dos megashows e sucessos e o tempo te transformou rápido demais num inteligente, marqueteiro e astuto adulto. Ou, ao menos, tentou te transformar. No início da apoteótica e inevitável carreira solo tu deves ter achado deslumbrante aquela fama e aquela grana toda. Aos vinte e poucos já eras universal como Elvis, Jesus, os Beatles e Pelé e de repente já pensavas em dançar o moonwalk lá na lua mesmo, para que todos os seres, de todos os universos, apreciassem tua arte e tua luz. Os mundos te amavam. E eles eram correspondidos. Nesse mundinho e nesse tempinho onde quase tudo que é sólido ou não se desmancha no ar e tem vida curta de palito de fósforo, tua arte, tua fama e teu sucesso declinaram mais ligeiro do que todos pensávamos. Os escândalos, as lendas, os processos, os enigmas e os mistérios começaram a tomar conta dos teus dias e noites. Foste atrás do tempo perdido na Terra do Nunca e deves ter morrido pensando em algum trenó perdido no baú da memória da infância, feito o protagonista do Cidadão Kane, o maior filme de todos os tempos. Tua vida e tua obra também são um dos maiores filmes de todos os tempos. Mas antes de partir aprendeste, como todos nós, que a arte é longa e a vida é curta, que o importante é a poesia e não o poeta e que, ao fim e ao cabo, só a arte e o amor são os reais salvadores de vidas. Nos últimos anos ficaste, assim como John Lennon, curtindo as grandezas do lar e o crescimento dos filhos, que são as verdadeiras e domésticas celebridades. Por algum ou muito tempo os humanos vão escarafunchar tuas caixas, teus armários, segredos e caminhos, vão passar horas na internet para saber mentiras e verdades sobre ti e tua vida e vão ficar pensando se eras mesmo o Rei do Pop ou não. Os fãs vão comprar teus objetos em leilões e frequentar a Neverland, que deve tornar-se um novo templo de romaria amorosa. Essas caras e bocas, esse tititi e essa curiosidade são o que menos importa e tu agora, mais do que nunca, sabes disso. No julgamento do tempo e das pessoas do bem, que são os mais importantes, tua voz, tua música, tua dança, teu brilho e tuas criações e revoluções é que vão passar com nota dez e encantar nossas festas das sextas ou os momentos tristes dos finais de domingo. O resto é menos, menor. Agora, finalmente, entraste noutra dimensão e deves estar dançando na lua, emprestando um pouco do teu fulgor para as estrelas. Uma ótima sexta-feira e um excelente fm de semana. Quarta-feira, Julho 01, 2009
01 de julho de 2009 N° 16017 - MARTHA MEDEIROS Viagem pra lugar nenhum Fui assistir a Jean Charles, com o excelente Selton Mello no papel daquele rapaz brasileiro que foi estupidamente assassinado num vagão de metrô, quatro anos atrás, confundido com um terrorista. O filme é quase um documentário, sem artifícios técnicos: uma narrativa comum, descolorida, acinzentada como a Londres dos imigrantes. A primeira vez em que lá estive, em 1986, me hospedei na casa de uma inglesa que tinha quatro filhos e muitas dívidas, por isso amontoava a garotada num mesmo quarto para poder alugar o outro para estrangeiros e ganhar algum trocado extra. A casa ficava num bairro bom, mas a vida dessa inglesa não era um passeio. Lembro que comprava comida com data de validade vencida porque era mais barato. Já eu só pensava em conhecer a tal cidade que inspirou a frase: quem enjoou de Londres enjoou de viver. Fiquei 18 dias e não enjoei nem um segundo. Voltei outras três vezes, me hospedando não mais em quartos de casa de família, e sim em pequenos hotéis. Enfim, uma turista clássica curtindo os parques, os museus, os pubs, as feiras, os monumentos, os teatros, as livrarias, as ruas. Há quem dispense fazer turismo e só cogite viajar para o Exterior se for para se instalar e vivenciar de fato o dia a dia da cidade. Uau. Eu adoraria estudar em Londres, escrever em Londres, viver um tempo lá como vivo aqui, mas não é tão simples. Geralmente, ou se faz turismo com os dias contados (o que já é um luxo), ou se vai para lavar prato, fazer faxina, pegar no pesado. Jean Charles de Menezes morava numa cidadezinha no interior de Minas e foi para a Inglaterra ganhar a vida como eletricista. Passou a viver lá com mais três primos, todos tentando faturar em moeda forte. Eu saí do cinema pensando em como essa ilusão custa caro. A gente deveria ter condições de viver dignamente como eletricista ou garçom ou camareira no país em que nasceu mesmo. É barra ter que se deslocar pra tão longe, sem direito a nenhum prazer. Há um momento em que a atriz Vanessa Giácomo, interpretando a prima Vivian, que deixou o namorado no Brasil para trabalhar em Londres como garçonete numa espelunca, diz a Jean Charles algo como: “Maldita hora que eu vim pra cá ralar nessa porcaria de cidade”. Diz isso à beira do Tâmisa, em frente ao deslumbrante prédio do Parlamento, que para ela não tem nenhum significado – ela está na Europa apenas pelo dinheiro, longe do seu amor, do seu idioma e sem nenhuma chance de crescimento interior. Numa situação como essa, é perfeitamente compreensível que Londres se transforme numa porcaria, por mais que doa associar essa palavra à terra de Shakespeare. Jean Charles se divertia como? Não era frequentando o Ronnie Scott’s, tradicional clube de jazz londrino, e sim vendo Sidney Magal ao vivo num teatro de quinta, cercado de outros brasileiros, muitos deles ilegais no país, saudosos da pátria, do feijão, da goiabada e da Sandra Rosa Madalena, sem a possibilidade de absorver a cultura local, de sofisticar o gosto, de viver uma experiência nova. O objetivo é apenas economizar e voltar pra casa assim que der, como fazem milhares de trabalhadores rurais que se transferem para centros urbanos. É o êxodo atrás de emprego e futuro. Não bastasse a dureza que é viver desse modo, seja em Londres, São Paulo ou em qualquer lugar, levar uns tiros na cabeça às dez da manhã dentro de um transporte coletivo, sem chance de defesa, entra pra categoria das histórias inacreditáveis. No filme, Vivian, a prima que chegou pela primeira vez a Londres odiando tudo aquilo, volta à capital inglesa mais capitalizada e mais madura. E faz o quê? Coloca uma mochila nas costas e, sozinha, vai conhecer melhor a Europa e a si mesma. Realiza, enfim, uma viagem de verdade, e honra a vida que Jean Charles só teve em sonhos. Uma ótima quarta-feira. Um excelente mês de julho e um grande segundo semestre de 2009 com muitas realizações, especialmente para você. Terça-feira, Junho 30, 2009
ELIANE CANTANHÊDE Febre alta BRASÍLIA - O salário de um motorista do Senado que dá expediente como mordomo em ilustres casas particulares é de R$ 12 mil, enquanto um médico pediatra ganha o inicial de R$ 3.600 mensais por semana de 20 horas na rede pública do DF e em torno de R$ 4.200 entre consultas particulares e cobertas por convênios. Mas não é essa comparação que irrita os pediatras, até porque o sistema de saúde do Senado, o SIS, é o único convênio que paga R$ 100 pela consulta. É mais que o dobro do pago pelos planos de saúde -R$ 24 a R$ 47. Muito pouco para uma responsabilidade bem maior do que cuidar do carro, da copa e da cozinha de Suas Excelências e para cobrir aluguel, secretária, telefone, água, luz e transporte. Os pediatras do DF fazem protesto amanhã contra os planos de saúde que pode se multiplicar pelo país. Vão atender normalmente na rede pública, mas se recusar a receber guias de convênios na privada. A ideia é cobrar R$ 90 e sugerir que os pais reclamem reembolso. Quem tem filhos sabe como o pediatra é amigo, confidente, professor, consultor. É para quem você liga três vezes de dia e mais uma de madrugada quando a criança tem 40C de febre ou não para de chorar. Não raro, uma consulta paga se desdobra em várias grátis, a título de "retorno". Todas longas. Apesar de ser uma área tão nobre, os médicos começam a reagir à pediatria. Só 23 das 47 vagas de residência nessa área no DF foram preenchidas neste ano. Os hospitais particulares começam a ter problema para manter a escala de pediatras e o pronto-socorro na especialidade. Em Belo Horizonte, consta que 90% dos 50 já não têm. Em São Paulo, metade dos 178 também não. Em Brasília, dois grandes hospitais acabam de anunciar o fim da emergência pediátrica. Socorro! Que tal gastar menos com motoristas de senadores e mais dinheiro público e dos planos de saúde com os pediatras das crianças do Brasil? elianec@uol.com.br
CLÓVIS ROSSI Madoff e a inveja BASILEIA - A condenação do megavigarista Bernard Madoff a 150 anos de prisão é o tipo de acontecimento que dá uma baita inveja do funcionamento do sistema legal norte-americano. Madoff é claramente o "branco de olhos azuis" que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva culpou pela crise. Com uma agravante: ele deu um golpe, ao passo que os outros "brancos-de-olhos-azuis" se mexeram nos estritos limites da legalidade de um capitalismo desregulado e, por isso mesmo, selvagem. Madoff não é nem pobre nem negro -e, não obstante, vai para a cadeia perpétua. Perpétua porque -e aqui há outro elemento a invejar- a legislação norte-americana determina que liberdade condicional só mesmo após cumprir 80% da pena. Significa que Madoff só ficará livre se sobreviver 120 anos. Terceiro elemento para inveja: até aqui, as autoridades recuperaram US$ 1,2 bilhão do total de US$ 13,2 bilhões de seus golpes. No Brasil, desnecessário lembrar, nunca ninguém recupera nada de golpes dados contra o erário -e Madoff fez os seus trambiques contra particulares, não contra os cofres da nação. Note bem, caro leitor, que eu não tenho na boca o gosto de sangue. Nem acho que criminosos dessa estirpe devam ser necessariamente condenados à prisão. Prisão é para quem representa risco de vida para os demais. Pode-se alegar que, com seus golpes, Madoff pôs em risco a vida de quem a ele confiou seu dinheiro. OK, mas a punição mais adequada é obrigá-lo a devolver tudo o que roubou. Enquanto não o faz, aí, sim, que fique na cadeia. Note também, leitor, a rapidez com que o caso se resolveu. No Brasil, qualquer rolo envolvendo gente de olhos azuis e colarinho branco leva séculos para ir a julgamento -quando vai. E nenhum Madoff tapuia jamais foi preso. crossi@uol.com.br
ESPERANÇAS Apesar de todos os obstáculos que encontro pela minha vida, apesar dos contratempos que me deparo, apesar das portas fechadas que vejo, apesar das dificuldades que enfrento, ainda assim, tenho a esperança. A esperança vive em mim amanhece comigo, percorre o dia todo e quando anoitece ela está ainda mais fortalecida. Quando meus pensamentos estão confusos e minhas idéias não são decifráveis, não desisto! Lembro-me da esperança que me move... Quando meu caminho está tortuoso, e minhas chances são diminuídas, lembro- me da esperança que devo ter sempre... Esperança, é a certeza de que algo de bom vai acontecer, é a confiança que tudo vai dar certo. Todos devemos ter essa esperança, para que não nos sintamos caídos, para que nosso dia seja menos tumultuado, e para que nosso coração esteja menos pesado. Desejo a você, que também tenha sempre a esperança, que ela permaneça sempre em seus pensamentos. Desejo que você nunca desista, porque enquanto houver a esperança, nenhum sonho está perdido! Vilma Galvão Só que fico pensando quando dizes sempre: Não quero te dar esperanças.- Como foi sua folga hoje?
30 de junho de 2009 N° 16016 - LIBERATO VIEIRA DA CUNHA Reunião de família O bom das festas de família são as pequenas inconfidências que surgem, antes acobertadas por séculos de cúmplices silêncios. São a alegria do reencontro, após um mês, um ano, uma eternidade de distanciamento. São o sentimento de que todos pertencem a um condomínio de lembranças compartilhadas. São os mínimos segredos, antes mais ou menos ocultos, e de súbito divididos em sua inteira verdade. São a sensação de que todos pertencem a um mesmo acervo de experiências que precisa ser reaprendido. São a terna consciência de que, apesar da diáspora, nunca realmente nos apartamos. São a redescoberta de recordações compartidas e desde muito caladas. São a doce atmosfera de união na diversidade, pois há tanto separados somos no fundo iguais. São as vivências repartidas de acontecimentos que entendíamos independentes. São as alegrias esquecidas e que, sem aviso, voltam a tocar nossos corações. São os netos que nascem, os filhos que se tornam adultos e a tia que tem 85 anos e a alma de uma menina. São os sorrisos e as palavras dessa tia, que tornam presente o passado mais-que-perfeito. São os simples olhares em que há todo um entendimento. São a noção mágica de pertencer a um clã, a uma comunidade de afetos. São as vozes e os risos que dão existência aos seres e às coisas. São a reinvenção de muitas vidas, até ali dispersas, até ali reencontradas. São a nua síntese de uma comunhão de caminhadas paralelas. Assim são as festas de família: a reconstrução do que o tempo nunca poderá destruir. Segunda-feira, Junho 29, 2009
MOACYR SCLIAR Zona de sombra Ao menor choro do bebê, ela pulava da cama como que impulsionada por uma mola, mas a ele, mal dava atenção Pesquisadores mostraram como as mães desenvolvem um ouvido tão aguçado para o choro de seus bebês, pela redução da atividade nas áreas cerebrais não direcionadas especificamente para o choro dos filhos. "Imagine um refletor iluminando um cantor no palco. Se outras luzes estiverem acesas, o artista não aparece tanto. Mas se todo o resto estiver escuro, o refletor destacará o artista muito bem", explicou Robert Liu, da Emory University. Folha Ciência, 15.jun.09 QUANDO a mulher teve o primeiro filho, ele deveria, naturalmente, sentir-se feliz e orgulhoso. Isso não aconteceu, por uma razão da qual não falou a ninguém: suspeitava que o filho fosse de outro. Não tinha nenhuma prova de que a esposa o traísse; ao contrário, ela parecia fiel e dedicada. Mas nove meses antes ele passara algumas semanas fora, a serviço da empresa. Pouco depois de sua volta ela anunciou-lhe a gravidez. Ele tentou mostrar entusiasmo, e, em parte, conseguiu: ela não notou sua mágoa. Que, contudo, foi crescendo à medida que o tempo passava. Ele passou a vigiá-la e notou algo que o desagradou profundamente; ao menor chorinho do bebê, ela pulava da cama como que impulsionada por uma mola e ia atender a criança. Mas a ele, ao marido, mal dava atenção. Até fez um teste: uma noite começou a gemer, primeiro baixinho, depois mais alto, como se estivesse passando mal. Inútil: a esposa, profundamente adormecida, nem sequer se mexeu. Mas quando, já de madrugada, o bebê começou a chorar ela pôs-se de pé num salto. Resolveu comentar o assunto com um amigo, médico pediatra. E o fez afetando despreocupação. O amigo riu: "É assim mesmo, meu caro. Coisas da natureza". E explicou que, de acordo com as mais recentes teorias científicas, o choro do bebê conseguia, de forma absolutamente soberana, ativar o cérebro da mãe, que aparecia iluminado nos exames especializados. "Ou seja: o bebê acende o cérebro da mãe. E deixa todo o resto, inclusive você, na zona de sombra." Nenhuma expressão poderia definir melhor o que ocorrera: ele agora vivia na zona de sombra. Ele e os seus espectros, ele e seus fantasmas. Ah, mas a isso não se resignaria. De forma alguma. Como Goethe no leito de morte, bradaria: "Mais luz!" E lutaria por essa luz com os meios que estivessem a seu alcance. Mas... quais eram esses meios? Como poderia ele, da mesma maneira que o bebê, iluminar o cérebro da mulher que, apesar de tudo, ele amava? A resposta logo lhe ocorreu: o choro. O choro seria o abre-te Sésamo que lhe permitiria sair da escura caverna em que se encontrava. Ele tinha de chorar como o bebê, e começou a treinar para isso. Gravou o choro da criança e passou horas a ouvi-lo. Depois de ensaiar durante semanas, achou que estava pronto para o grande teste: no meio da noite acordaria a mulher com o simulado chorinho. Ela descobriria então que ele também existia; os dois se abraçariam e fariam amor. O nenê que berrasse à vontade. O teste decisivo seria realizado na noite de seu aniversário. Mas, ao jantar, enquanto brindavam à data, ela disse que tinha um presente para ele: estava grávida de novo. Desta vez ele não tem qualquer dúvida a respeito da paternidade da criança. E está muito feliz em viver numa zona de sombra. Onde às vezes até esboça o chorinho que tão cuidadosamente ensaiou. MOACYR SCLIAR escreve, às segundas-feiras, um texto de ficção baseado em notícias publicadas na Folha
29 de junho de 2009 N° 16015 - KLEDIR RAMIL Datas – da série “Consertando o mundo” Por sugestão de uma leitora, resolvi analisar nosso calendário de festas anuais e notei que várias datas estão em posição errada. A começar pelo Carnaval, que insiste em acontecer sempre no verão. O Carnaval é uma festa em que as pessoas dançam e pulam debaixo de um calor de rachar. Seria muito mais apropriado se fosse no inverno. A temperatura mais baixa, tipo ar condicionado natural, faria as pessoas se divertirem sem suar tanto, o que deixaria o ar mais respirável. Com menos calor, diminuiria também o consumo de cerveja, tornando a festa mais civilizada, com menos brigas e acidentes de trânsito. E, ao mesmo tempo, resolveria o problema do cheiro de urina nas ruas. A festa de São João deveria ser no outono. Manter uma fogueira acesa no inverno requer muita lenha, o que estimula o desmatamento das florestas, provocando desequilíbrio ecológico e o aquecimento global. Uma atitude politicamente correta seria transferir as festas juninas para a época da Páscoa, quando as árvores já estão secas mesmo e um galho a mais ou a menos não faria muita diferença. A Páscoa teria então que ser deslocada para, sei lá, dezembro. Por sua vez, o Natal iria para o inverno e poderíamos, finalmente, curtir sem culpa os pinheiros com neve e toda aquela decoração glacial. E o cara que se veste de Papai Noel não sofreria tanto com o calor. Existe dia da mulher, da criança, do idoso. Só o homem, coitado, não tem um dia pra chamar de seu. Não adianta vir com a piadinha de que a mulher tem só um dia e todos os outros 364 são do homem. Queremos um dia exclusivo para nós. Vou passar um twitter e convocar uma passeata. E, já que estamos tocando no assunto, precisamos privilegiar o dia dos pais. Abril seria uma boa data. No início de agosto saímos prejudicados, pois o orçamento doméstico chega sem fôlego, depois de passar pelo dia da mães, dia dos namorados e férias de julho. Só recebemos migalhas. Pra você ter uma ideia, ano passado, no dia das mães, dei um iPhone de presente pra minha mulher e no dia dos pais recebi um par de meias. Não é justo. Para encerrar, o Ano Novo poderia ser festejado no dia 17 de dezembro, dia de São Gabirú, data máxima do calendário gregoriano, que marca a vitória triunfal do Sport Club Internacional sobre o Barcelona... Enfim, é só uma sugestão. Uma ótima segunda-feira e uma excelente semana. Domingo, Junho 28, 2009
Honra ao mérito A chance de um marceneiro dar aula num mestrado de arquitetura abre debate sobre méritos e talentos A PARTIR de agora, para você ganhar um título de mestre não será mais necessário entregar aquelas gigantescas dissertações, repletas de citações, rodapés, tudo isso embrulhado na hermética linguagem universitária. Basta um produto: música, pintura, reportagem, software ou artigo. Muitos de seus professores não ostentarão títulos acadêmicos, alguns deles talvez nem mesmo tenham diploma de ensino superior. Mas, necessariamente, precisa demonstrar reconhecida experiência no mercado de trabalho. Essa é a consequência de uma portaria anunciada na semana passada, propondo uma nova avaliação para os mestrados profissionalizantes, destinados a pessoas que não querem dar aula nem fazer pesquisa, mas se aprimorar na sua profissão. A residência médica ou um MBA, por exemplo, já valeriam o mestrado. O ministro Fernando Haddad me diz que, com essas mudanças, será mais fácil colocar nas universidades os talentos do mercado de trabalho, compartilhando sua experiência com os alunos. ""É exatamente o que muitos estudantes esperam de seus cursos, depois que terminam a graduação", explica. A chance de um sofisticado marceneiro, com seu diploma de ensino médio, dar aula num mestrado de arquitetura de uma USP indica que estamos metidos num interessante debate sobre méritos e talentos. O presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, voltou a sinalizar, na semana passada, que, além do jornalismo, mais diplomas poderão deixar de ser obrigatórios -arquitetura, administração, educação, economia, e por aí vai. Se um advogado, devidamente treinado em comunicação, pode trabalhar em jornal, por que um aluno de engenharia não poderia dar aula de física ou matemática numa escola pública? Bastaria que tivesse uma ajuda para saber transmitir seu conhecimento. Para melhorar as escolas públicas, a cidade de Nova York chama os talentos da sociedade e oferece um curso de didática em apoio -são mandados para os piores lugares. Os resultados são bons, claro. Os alunos gostam de professores que adoram fazer coisas, sejam elas quais forem. Esse tipo de questionamento pode parecer estranho agora num país elitista dominado por cartórios e corporações. Mas é apenas consequência da velocidade do conhecimento. Essa velocidade se traduziu na quinta-feira com a morte de Michael Jackson: quem deu primeiro a notícia foi um site de celebridades (TMZ). O debate sobre o mérito profissional e acadêmico aparece das mais diversas formas -e ocorre, em boa parte, porque estamos buscando novas formas de medir eficiência, uma das novidades (embora engatinhando) da administração pública no Brasil. Na semana passada, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou projeto para contratação de professores. Mas, depois de passar no concurso, terão de fazer um curso. Docentes temporários terão de se submeter a provas -assim como os dirigentes regionais de ensino. Só puderam criar bônus de desempenho para professor porque existem indicadores (trágicos, diga-se) sobre os alunos. Centros de saúde e hospitais públicos tocados por entidades filantrópicas apanharam de todos os lados, especialmente dos sindicatos e grupos ligados ao PT. Diante dos resultados positivos, inquestionáveis pelos números, o governo federal, comandado pelo PT, chamou algumas dessas organizações para ajudar na gestão de mais hospitais públicos pelo país. Sabemos que os alunos do ProUni têm desempenho melhor que os alunos regulares; é o que já constamos com os cotistas das universidades. Os números desmontam assim bobagens sobre o risco desses jovens piorarem a vida acadêmica. É o contrário. Estão mudando os critérios para entrada no vestibular porque se considera que o mérito não está em decorar informações, mas desenvolver uma rede de habilidades e competências; premia-se quem aprende a aprender. O mercado premia quem aprende a fazer. Essas mudanças são resultado previsível das sociedades democráticas em que se exige mais transparência, todos têm de dar conta de seus atos e, portanto, são mais avaliados e fiscalizados -e aí vai dos familiares de Sarney, no Senado, aos professores, montados em seus títulos. Não é à toa que, cada vez com mais intensidade, a sociedade olha desconfiada os privilégios das corporações, seja de políticos, seja de professores, seja de jornalistas. A recente greve da USP se desmoralizou porque uma das suas principais causas era a readmissão de um funcionário que teria sido demitido por justa causa em qualquer empresa; daí a novidade de alunos se rebelarem contra a greve. PS- É um movimento mais rápido do que se imagina. É por isso que José Sarney, acostumado a ver há tanto tempo aquelas mamatas do Congresso, não poderia imaginar que uma bomba explodiria em seu colo -a tal ponto que, na semana passada, cresceu a pressão por sua renúncia. Não é o Senado que piorou, mas a fiscalização que melhorou. gdimen@uol.com.br
ROBERT MCCRUM Ao mestre, com carinho TRINTA E OITO ANOS MAIS JOVEM QUE T.S. ELIOT E HOJE COM 82 ANOS, A VIÚVA DO POETA, VALERIE, PREPARA A EDIÇÃO DE BILHETES E RECORTES DO CASAL, EM QUE REVELA A VIDA SÓBRIA E APAIXONADA QUE LEVAVAM Casamento feliz "Um fotógrafo do "Daily Express" nos flagrou no saguão nesta noite, e um homem do "Daily Mail" nos perseguiu até Roquebrune! Lua de mel maravilhosa, exceto por TSE ter contraído uma gripe e rachado um dente." Após a morte de Eliot, ela disse à BBC: "Ele obviamente precisava de um casamento feliz. Não morreria enquanto não o tivesse. Havia dentro dele um garotinho que nunca se libertara." Apesar dos 38 anos de diferença entre eles, o segundo casamento de Eliot lhe trouxe a realização plena. Rosemary Goad diz: "Ele foi completamente rejuvenescido por Valerie". Tendo feito parte do quadro de profissionais da Faber muito tempo depois da morte de Eliot, recordo-me de seu editor americano, Robert Giroux, me contando sobre a primeira visita feita pelos Eliot a Nova York, recém-casados. No dia depois de chegar à cidade com sua jovem mulher, o escritor famoso telefonou para seu editor para fazer apenas um pedido: o hotel era ótimo, mas eles queriam uma cama de casal. Todos concordam que Eliot encontrou enorme prazer em sua vida conjugal com Valerie, tendo escrito em um poema posterior ("A Dedication to My Wife", Uma Dedicatória a Minha Mulher) sobre "amantes cujos corpos cheiram um ao outro". Nos cadernos de recortes, o casal reuniu uma série de suvenires ternos e mundanos, exemplares de papel de parede de quartos, bilhetes rabiscados em programas de teatro, recortes de jornais cuidadosamente datados e cardápios anotados de jantares requintados ("Valerie pediu crepe suzette"). Teatro e dança Em festas literárias, os convidados observaram, fascinados, a figura cadavérica do poeta de mãos dadas com sua mulher jovem, loira e de seios fartos. Valerie, por sua parte, estava sempre a postos para afastar atenções indesejadas. Os cadernos de recortes também trazem evidências de que Eliot, além de marido e amante, fez o papel de mentor e figura paterna para Valerie. Eles geralmente ficavam em casa à noite, mas, quando iam ao teatro, ele fazia anotações cuidadosas nos programas. Depois de assistir a "Beyond the Fringe" [Além da Margem], Eliot rabiscou no verso de seu programa: "Quarteto de jovens espantosamente vigoroso: o espetáculo é ágil e bem produzido, um misto de brilhantismo, juvenilidade e mau gosto". Observou especialmente Peter Cook e Alan Bennett, concluindo que "é agradável ver esse tipo de entretenimento sendo tão bem sucedido". Em outro recorte, ele diz ao "Daily Express": "Estou pensando em fazer aulas de dança outra vez, já que não danço há alguns anos". A alegria recém-encontrada na vida de Eliot se manifesta em seus trabalhos posteriores. Na época de seu casamento, ele estava concluindo uma peça nova, "The Elder Statesman" [O Velho Estadista], em que uma figura pública sênior é comparada a um bicho-da-seda que durante anos sobrevive à base de folhas de amoreira muito amargas. Sua filha lhe diz que é hora de desistir dessa dieta e sair para o mundo, como uma borboleta. A tragédia da felicidade recém-encontrada de Eliot foi que sua saúde, que nunca fora boa, estava começando a se enfraquecer. Na Londres fria e poluída do pós-guerra, sofreu gravemente de gripe e bronquite, e seu coração era fraco. Valerie organizou as coisas para que Eliot tirasse férias durante o inverno, para convalescer, nas Bahamas e no Caribe. Os cadernos deles contêm muitas fotos que os mostram relaxando ao sol. Eliot, de colete e boina branca de golfe, pode ter as barras das calças enroladas para cima, mas mesmo assim parece desajeitado e deslocado, como um bancário numa festa. Além de visitas anuais à Jamaica, Valerie levava Eliot para passar períodos com sua mãe idosa em Leeds. Previsivelmente, a sra. Fletcher ficava maravilhada com seu genro e impressionada com sua aparência, que descrevia como "virginal". Em junho de 1964, Eliot fez sua última visita a Leeds, cidade da qual aprendera a gostar. Em outubro daquele ano, mergulhou num coma do qual não se previa que acordasse. Valerie segurou sua mão durante uma vigília que atravessou a noite, e, pela manhã, ele recobrou consciência. Mais tarde, ela contou ao "Observer" que "ele me olhou como quem dissesse "consegui!'", e ela o levou para casa, em Kensington. Quando atravessou a soleira do apartamento, carregado, ele exclamou "viva, viva, viva!", e durante algum tempo recobrou suas forças. Mas vivia à base de oxigênio, e no Natal seu coração começou a fraquejar novamente. Segundo Peter Ackroyd, cujo relato não autorizado da vida de Eliot ["T.S. Eliot", ed. Penguin] é de longe o melhor que está disponível, o poeta saiu de seu coma final para pronunciar o nome de Valerie e então morreu, em 4 de janeiro de 1965. Valerie tinha 38 anos quando ele morreu. Durante anos guardou o apartamento deles em Kensington como santuário à memória de Eliot, sem mudar nada, chegando a guardar os frascos de oxigênio dos seus últimos dias de vida. Extrato do caderno mais da folha de hj - O que o amor não faz na vida de duas pessoas não é..? Sábado, Junho 27, 2009
28 de junho de 2009 N° 16014 - MARTHA MEDEIROS Os ausentes Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. Não precisa virar o mestre-de-cerimônias da noite, ao menos agracie seus semelhantes com dois ou três sorrisos. Não dói EU não assisti ao programa, mas soube da história. O jornalista David Letterman recebeu Joaquim Phoenix para uma entrevista. O ator fez jus à fama de bad boy: não parou de mascar chiclete e só respondia com monossílabos e grunhidos, não facilitando o andamento da conversa. Letterman tentou, tentou, e como não conseguiu arrancar nada do sujeito, encerrou a entrevista com uma tirada ótima: Joaquin, uma pena que você não pôde vir esta noite. Quando uma pessoa se dispõe a dar uma entrevista, tem que entrar no jogo: responder com generosidade ao que foi perguntado e valer-se de uma educação básica, caso tenha. É bom lembrar que a maioria das entrevistas não é feita apenas para dar ibope ao programa, e sim para ajudar na divulgação de algum projeto do convidado. Ambos saem ganhando. Só quem não ganha é a plateia quando o convidado finge que está lá, mas não está. Madonna é até hoje o trauma da carreira de Marilia Gabriela, pelos mesmos motivos. Claro que há quem defenda a atitude de Phoenix com o argumento da “autenticidade”, mas existe uma sutil diferença entre ser autêntico e ser grosso. É muita inocência achar que podemos prescindir de uma certa performance social. Espero não estar ferindo a sensibilidade dos “autênticos”, mas de um teatrinho ninguém escapa, a não ser que queiramos voltar a viver nas cavernas. Não sou de me irritar facilmente, mas acho um desrespeito quando uma pessoa faz questão de demonstrar que não compactua com a ocasião. São os casos daqueles que se emburram em torno de uma mesa de jantar e não fazem a menor questão de serem agradáveis. Pode ser num restaurante ou mesmo na casa de alguém: estão todos confraternizando, menos a “vítima”, que parece ter sido carregada para lá à força. Às vezes, foi mesmo. Sabemos o quanto uma mulher pode ser insistente ao tentar convencer um marido a participar de um aniversário de criança, assim como maridos também usam seu poder de persuasão para arrastar a esposa para um evento burocrático. Não importa a situação: saiu de casa, esforce-se. Não precisa virar o mestre-de-cerimônias da noite, mas ao menos agracie seus semelhantes com dois ou três sorrisos. Não dói. Dentro da igreja, ajoelhe-se. No estádio de futebol, grite pelo seu time. Numa festa, comemore. Durante um beijo, apaixone-se. De frente para o mar, dispa-se. Reencontrou um amigo, escute-o. Ou faça de outro jeito, se preferir: dentro da igreja, escute-O. Durante um beijo, dispa-se. No estádio de futebol, apaixone-se. De frente para o mar, ajoelhe-se. Numa festa, grite pelo seu time. Reencontrou um amigo, comemore. Esteja! Se não quiser participar, tudo bem, então fique na sua: na sua casa, no seu canto, na sua respeitável solidão. Melhor uma ausência honesta do que uma presença desaforada. Um ótimo domingo minha amiga, este que é o último de junho de 2009. Sexta-feira, Junho 26, 2009
A morte mais lenta da história do showbizz Jackson pagou alto preço pelo dom do fogo criativo JOÃO MARCELLO BÔSCOLI - ESPECIAL PARA A FOLHA O artista é um ser com aptidões contraditórias. Por um lado, é um "homem comum" com apetites, desejos, frustrações, contas para pagar. Por outro, é um homem em um sentido maior: um "homem-coletivo". Aquele que capta e dá forma ao inconsciente da raça humana e o devolve sob a forma de uma obra de arte. E a realização dessa tarefa mobiliza uma grande quantidade de energia. É como se fossem dotados de um certo capital de energia ao nascer, e o lado que precisa realizar essa tarefa sobre-humana tentasse tomá-la integralmente para si. Nada pode impedir a execução de sua missão -muito menos o lado humano. Este é visto quase como um erro, uma limitação do artista. Talvez, por isso, os artistas permaneçam infantis e vaidosos depois de adultos, desenvolvendo uma série de más características e idiossincrasias no campo pessoal, para evitar que o "homem comum" desperdice energia e tempo, atrapalhando sua jornada. De certa forma, ele se torna sua obra. "Fausto" define Goethe, "Billie Jean" define MJ -e não o contrário. O artista permite que a obra se manifeste através de si -e não o contrário. Como regra, a vida do artista é altamente insatisfatória -para não dizer trágica-, afinal, duas forças opostas duelam o tempo todo dentro dele, tentando tomar o poder. Há de se pagar um alto preço pelo dom do fogo criativo. A dualidade dos sexos é fundamental para a concepção de um novo ser, assim como a razão e a loucura são necessárias para a criação artística. Pode ser ou parecer uma limitação o tal lado humano, mas ao costurar sua fantasia em seu próprio corpo, Michael Jackson abriu mão de sua dualidade, da energia gerada entre os extremos e, consequentemente, de sua fonte criativa. Foi a morte mais lenta da história do show-business. Baseado em um texto de Carl Jung - JOÃO MARCELLO BÔSCOLI é produtor-executivo do selo Trama
Suor anônimo na garoa De vez em quando até a Gisele Bündchen, o Lula, o massagista da Juliana Paes e os fotógrafos da Playboy devem reclamar do emprego que têm. Até o comprador de filmes da Globo que viaja para os Estados Unidos ou o diretor cultural da Fundação Cultural Banco do Brasil são capazes de se lamentar pelo cansaço do trabalho. Nesse Brasil de impunidade, má distribuição de renda e mordomias federais, estaduais e municipais, fico pensando nos dois operários que não estavam se queixando da vida e do trabalho. Era segunda-feira, sete e vinte da matina, uns dez graus de frio sulino, garoa caindo direto nos pescoços dos dois homens que, literalmente, quebravam rochas enormes, com talhadeiras, marretas e martelos. Trabalho duro, início de obra, água, barro, alicerce. Proteção? Nada de macacões ou capas. Um dos peões estava sem luvas. Apenas capacetes cobriam os cabelos suados deles, que, ao menos naquele momento trabalhoso, não falavam em melhores salários, greves ou condições de trabalho adequadas. As poucas palavras que trocavam eram sobre futebol, mulheres, política, temperatura, mestre de obra e a dureza dos blocos de basalto que cortavam em cubos, que depois empilhavam no fundo do canteiro da construção do edifício. Edifício fino, no qual certamente não entrarão depois que os apartamentos dos doutores estiverem prontos. Os dois operários trabalhavam anônimos, afanosamente, sem precisar de câmeras de tevê, olhos do dono da obra ou de algum poema do Vinícius de Moraes ou do Chico Buarque. Muito menos estavam necessitando de algum filme patrocinado pela Petrobrás para cumprir suas tarefas ou do apoio de algum fiscal do Ministério do Trabalho. Os tapumes do empreendimento e as janelas vazias dos prédios dos lados garantiam aos dois trabalhadores sem plateia, vaidade, elogios ou palmas. Aqueles dois pedreiros não levariam quarenta minutos para cimentar um túmulo, feito o coveiro de Tancredo Neves, naquela transmissão inesquecível e arrastada da tevê. E nada de crônica do Luis Fernando Verissimo, Zuenir Ventura ou Carlos Heitor Cony para eles. O máximo que os dois trabalhadores conseguiram em matéria de mídia foi um texto de um modesto cronista municipal, meio metido a cronista estadual, vá lá, que, na hora, inspirado pelos trabalhadores de construção, pensou que a missão de construir com palavras pode registrar e resgatar um momento de boa e digna "pequena história" popular brasileira. Um momento que dá esperança de futuro decente e limpo, mesmo diante de tudo o que está sempre acontecendo aí no Senado, Câmara e outros locais sinistros da vida. Jaime Cimenti Ótima sexta-feira - Excelente fim de semana Quinta-feira, Junho 25, 2009
I N G R A T ID Ã O Sabe, sempre Que minhas lágrimas Rolam pelo meu rosto, Fundamentalmente teem você Como a razão principal. Muita tristeza. Melancolia profunda, Dolorida, Pela ausência forçada, Pela indiferença marcada, Pela amargura de noites, E mais noites mal dormidas. Que sempre me levam A uma angústia profunda, Por estar liberando, O mais puro sentimento De amor que crê ainda, Mesmo combalido, Permanece vivo e brilhante, No meu coração. Você, talvez não mereça, Mas certamente, Não mais me entristeço, Eu apenas amadureço, Em meu gesto carinhoso, Com muita ternura, Pode ser que enobreço, Sem permitir nem tolerar, Que em meu peito, Se instale ou venha sentir, Qualquer rancor, Pessoal pelas circunstâncias, Que possa trazer, Mais mágoa, mais dor. Serei forte espero, Lutarei o suficiente, Para abortar de meu ser, Toda esta ingratidão, Que um dia imaginei, Pudesse ser um grande amor Mas que nem a amizade restou.
CARLOS HEITOR CONY O máximo das máximas RIO DE JANEIRO - Fumar faz bem à saúde. Um país não se faz com homens e livros. Deixe para amanhã o que pode fazer hoje. A pressa é amiga da perfeição. Ultrapasse outro veículo quando a faixa for contínua, sobretudo se estiver bêbado. É possível completar a chamada. Só o amor não constrói para a eternidade, o ódio sim. No momento posso atendê-lo; por favor, não ligue mais tarde nem nunca. Quem dá a Deus não empresta aos pobres, empresta a si mesmo. O todo é menor do que a parte. Peru de fora deve se manifestar. A soma do quadrado dos catetos não é igual ao quadrado da hipotenusa (É preciso saber previamente o que seja uma hipotenusa. Mas é bom saber quem foi Pitágoras, lateral-esquerdo de um time de São José das Três Ilhas). Sua alma não é sua palma nem sua calma. Quem te viu continua te vendo. Cavalo na chuva não é para se molhar, mas para se refrescar. O apressado não come cru, come mais e melhor do que os outros. Por fora, bela viola; por dentro, nada mesmo. Dize-me com quem andas e te direi o que queres deles. A hora não é de consenso, a hora é boa pra virar pangaio (até hoje não sei o que é o "pangaio" daquela marchinha gravada pelo Bando da Lua nos anos 30). Quem vê cara vê cabeça, tronco e membros. Dura lex sed lex, meu cachorro chama-se Rex. Água dura e pedra mole tanto dá que tudo fura. Os cães passam e as donas deles também. Mais valem dois pássaros na mão do que um voando. O corcunda não sabe como se deita. Vão-se os dedos e ficam os anéis. Pra baixo todo mundo ajuda. Pão pão, queijo queijo, goiabada goiabada. Depois da bonança, sai de baixo que vem a tempestade. E atenção, senhores passageiros, favor fumar nos lavatórios. E não esqueça: voltando à consulta, queira trazer a receita.
25 de junho de 2009 N° 16011 - ARTIGOS - por Mara Y Debus O melhor presente: ler com os filhos “Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora, mas, sim, morar, como morei no Robinson (Crusoé).” O comentário é de Monteiro Lobato em carta escrita a um amigo. E, de fato, ele criou um lugar especial chamado Sítio do Picapau Amarelo, onde encontramos uma boneca de pano travessa e tagarela chamada Emília, um sabugo erudito que é visconde, uma bruxa que é cuca, uma menina amável, um menino destemido e uma avó sabichona contadora de histórias com vocabulário acessível ao universo infantil. Nesse lugar mágico, atemporal, muitas crianças já “moraram” e muitas outras irão “morar” um dia! Lembrar Monteiro Lobato é oportuno no momento em que Zero Hora lança no seu caderno Meu Filho a série “Frannie aprende uma lição”, criada pela Associação Mundial de Jornais. Visando aproximar pais e filhos e incentivar a leitura, a série trará capítulos semanais acompanhados de um guia de atividades didáticas – entre elas atividades que utilizam o jornal como objeto de pesquisa e que por si só estimulam o hábito da leitura – e outras que proporcionam a discussão sobre valores. Todas as crianças ficam encantadas ao ouvir uma boa história! Seja contada pelos pais ou pela professora (que deve gostar de ler, já que quem não gosta de ler dificilmente ensina alguém a gostar de ler). E bons livros, boa literatura, devem estar ao alcance das mãos, não apenas em estantes ou em uma grande e bela biblioteca. O ato da leitura é por si só um grande estímulo à criatividade, imaginação, inteligência e a capacidade verbal e de concentração. Assim, os livros devem estar presentes no dia a dia das crianças, do mesmo modo que os brinquedos e os jogos, pois permitem um mergulho no universo de aventuras, histórias e riquíssimas informações. A leitura é, sem dúvida, uma grande janela para a formação em todos os sentidos. O ambiente de familiaridade que se desenvolve nas crianças quando compartilham histórias com adultos que se preocupam com elas é o melhor presente que os pais e as pessoas envolvidas em seu processo educativo podem oferecer, já que os questionamentos e as trocas proporcionados por esses cúmplices momentos permitem a descoberta dos prazeres da leitura. O momento da leitura em voz alta conduz as crianças a um mundo à parte, delicioso, gostoso e excelente e se constitui em uma aventura compartilhada do saber, conhecer e descobrir. A escritora Ana Maria Machado destaca que “(...) ninguém resiste à tentação de saber o que se esconde dentro de algo fechado – seja a sabedoria do bem e do mal no fruto proibido, seja na caixa de Pandora, seja no quarto do Barba Azul. Mas, para isso, é preciso saber que existe algo lá dentro. Se ninguém jamais comenta sobre as maravilhas encerradas, a possível abertura deixa de ser uma porta ou uma tampa e o possível tesouro fica sendo apenas um bloco compacto ou uma barreira intransponível”. Cabe aos educadores e pais o convite às nossas crianças para abrir a primeira página e entrar nesse mundo fantástico repleto de encantamentos! E você minha amiga, deverá fazer isso muito bem - Uma ótima quinta-feira para nós todos. Quarta-feira, Junho 24, 2009
MARCELO COELHO Um brinquedo diabólico Sinto saudade de bonecos mais primitivos; minhas chaves não funcionam VOCÊ SABE o que é um Bakugan? Não é fácil de explicar. Eu próprio tenho dúvidas a respeito. Antes de tudo, é preciso já ter visto um DinoRock, ou retornar às origens e evocar na mente a imagem de um Kinder Ovo. O Kinder Ovo é atualmente objeto corriqueiro em padarias e supermercados. Trata-se de um pequeno e fino ovo de Páscoa bicolor, dentro do qual se esconde uma cápsula de plástico, difícil de desatarraxar. Na cápsula se esconde um minúsculo brinquedo-surpresa, acompanhado de um manual de instruções liliputiano, que os pais terão de seguir na hora de montar as pecinhas encarregadas de fazer a alegria fugacíssima de uma criança de cinco anos. A coisa evoluiu para o DinoRock, brinquedo que acompanha as edições da revista "Recreio", voltada para crianças dessa idade. É uma espécie de sólido e duro objeto de plástico em forma de pedregulho, meio rugoso, que varia de cor conforme a edição. Cabe aos pais descobrir as ranhuras certas naquele seixo colorido. Usando-se com atenção as unhas, aquele objeto fechado em si mesmo se abre. De seu ventre nascem um pescoço, uma cabeça, um rabo de dinossauro, formando o bicho pré-histórico por inteiro. O "bakugan" é a mesma coisa, só que menor e mais complicado. Vem na forma de uma bolinha de pinguepongue, e não dá trabalho na hora de abrir. Basta arremessá-la no chão, ou em cima de alguma das cartas imantadas de um baralho especial. Pronto! A bolinha se transforma em outra coisa, não sei se robô, guerreiro ou dinossauro. Para os pais, o problema será reconduzir o brinquedo à sua forma original de bolinha. Às vezes é fácil. Bakugans elaborados, entretanto, exigem uma sequência precisa de movimentos e a coordenação impecável dos dez dedos do pai ou da mãe. Uma cabecinha de dinossauro retrátil deve ser pressionada na direção do pescoço do bicho, enquanto suas asas têm de ser recolhidas no tempo certo. Eis então que os dois hemisférios do brinquedo não se encaixam! Tente de novo. Sinto saudade de trenzinhos e bonecos mais primitivos. Hoje em dia, por razões de segurança, o compartimento das pilhas nos brinquedos tornou-se indevassável. O pai ou responsável deve possuir um jogo completo de chavinhas de parafuso de alta precisão, se quiser trocar uma simples pilha do brinquedo. Que pilha, aliás? Existem inúmeros tipos no mercado. Não é preciso dizer que minhas chavinhas de parafuso não funcionam. São chinesas, como tudo. Recomendaram-me as alemãs. Cada Bakugan está custando cerca de R$ 70. As crianças não sabem direito o que fazer com eles. Supostamente, existe um jogo, com regras e cartões, a ser jogado com aquelas bolinhas. Mas elas querem o brinquedo mesmo sem saber como utilizá-lo. Não as culpo: eu mesmo, na infância, colecionei bolinhas de gude pelo simples prazer de tê-las e de vê-las, sem nunca aprender as variações infinitas que há na atividade de disputá-las num chão de terra com os amigos que não tive. Os Bakugans são desejados porque existe na TV um desenho animado japonês. No desenho, as bolinhas são armas poderosas para enfrentar os inimigos de sempre. Logo em seguida, somos bombardeados pela publicidade, que promete poderes inauditos à criança que comprar o brinquedo. É diabólico. Mas é simbólico também. Será que as duas palavras têm raiz comum? Imagino que o símbolo unifique aquilo que o diabo divide. Nesse sentido, o brinquedo é diabólico quando inferniza a vida dos pais. Mas é também simbólico quando representa, ao mesmo tempo, os desejos de uma criança e de um adulto. Daquela minúscula bolinha, pula um guerreiro poderoso. Natural que qualquer menino pequeno goste disso. Aos pais, cabe o inglório esforço de voltar atrás, e reduzir o monstro, o dinossauro, o guerreiro, à condição de bolinha. Dá trabalho, e é contraditório. Temos de estimular, como se diz, o "desenvolvimento" e a "auto-estima" da criança. Temos igualmente de reprimi-la, alertando sobre o que ela pode e o que ela não pode. A televisão projeta sucessos impossíveis na cabeça do menino. Os pais se encarregam de reduzi-lo à condição de criança. O brinquedo é o meio termo, dispendioso e simbólico, entre uma coisa e outra. Natural que a criança logo se desinteresse dele; e que os pais odeiem o objeto que foram forçados a comprar. coelhofsp@uol.com.br
24 de junho de 2009 N° 16010 - MARTHA MEDEIROS Nós, os trogloditas Semana passada recebi uma enxurrada de informações enaltecendo o vegetarianismo e condenando a prática de se matar animais para comer. Eu, que deliro diante de uma picanha mal passada, já estava me achando a mulher de Neanderthal quando, em meu socorro, sem que eu houvesse solicitado, me chegou por e-mail um capítulo do livro Incríveis Casos Verdadeiros, do gastroenterologista carioca Geraldo Siffert Junior, em que ele redime a carne vermelha, inclusive contando casos engraçados, como o do dia em que, por volta das 17h, percebeu que ainda não havia almoçado e resolveu entrar numa churrascaria que estava praticamente vazia, a não ser por um sujeito solitário que estava ali num canto atracado numa costela. Qual a surpresa do médico ao reconhecer que era seu melhor amigo, notório vegetariano da cidade, que ficou lívido: “Me sinto como se você tivesse me surpreendido com uma amante. Isso é hora de você aparecer? Churrascarias, nesse horário, são alcovas!”. Revistas especializadas já absolveram a carne vermelha, salientando seus valores nutritivos, como a proteína e o ferro, além de confirmar que as menos gordurosas são fundamentais para a musculatura de pessoas idosas, mas nada disso melhora a imagem dos carnívoros: dizem que o pobre do boi não merece pagar o pato. Nem mesmo o pato merece pagar o pato. Quem come bicho morto é a escória. E o que dizer de Obama, que matou uma mosca não para comê-la, mas para fazer gracinha diante das câmeras? Adorei a desenvoltura do presidente norte-americano. Obama se concentrou, mirou e pum: abateu-a de um golpe só. Pois o que era para ser apenas uma atitude descontraída, acabou atiçando os brios do pessoal do Peta, que defende os direitos dos animais. A organização não se conformou com a execução ao vivo: “Apoiamos a compaixão mesmo por animais pequenos, estranhos e desagradáveis”, declarou o porta-voz Bruce Friedrich, que por certo também luta pela preservação dos ácaros. E não parou por aí: “Esmagar uma mosca na TV mostra que Obama não é perfeito”. Pois é, Bruce, Obama não é perfeito, e ainda por cima é chegado num bife. Perfeitos são os que patrulham as pessoas que matam moscas e que se alimentam de carne. Nem todo mundo é evoluído, Bruce. Nem todos têm seu grau de consciência ecológica e ambiental. Ainda há muita imperfeição no mundo. Diria até, Bruce, que há imperfeições mais nocivas à sociedade do que as que você combate. Dá para acreditar que há seres humanos que, além de comer carne e matar moscas, são capazes de jogar bombas em passeatas gays, de empregar parentes que são pagos com dinheiro público, de esfaquear maridos e de espancar meninas até provocar traumatismo craniano? Pois é, Bruce: tem gente que mata gente. Ou gente e mosca dá no mesmo? Sempre respeitei os vegetarianos e respeito quem preserva a vida dos animais. Mas enquanto não for crime comer carne e matar insetos, que os Bruces deixem de ser radicais e também tolerem as escolhas que, nós, os trogloditas, ainda temos o direto de fazer – pelo visto, não por muito tempo. Well, primeiro aniversário, depois o dia de folga. Agora já pode começar a semana não é mesmo. Uma ótima quarta-feira para nós todos. |
|